O Laboratório de Restauração também estava crescendo e ampliando seus procedimentos técnicos. Os anos de 1985 e 1986 foram especialmente importantes, pois trouxeram novos desafios técnicos. Dentro da política vigente de priorizar o tratamento das obras pertencentes ao acervo, no início de 1985 foi estabelecido um Programa para a Restauração de Filmes para o biênio 1985/1986, cuja lista de títulos selecionados foi dividida nos seguintes grupos: “filmes silenciosos brasileiros: 25 títulos; longas sonoros brasileiros: cerca de 100 títulos; cinejornais: cerca de 1.250 rolos a serem manipulados; e curtas diversos”386. O programa, a despeito de sua enorme pretensão, teve dificuldades em ser executado por falta dos recursos necessários e das dificuldades em adquirir filme virgem. Para este último ponto, as relações internacionais da instituição foram determinantes para que o laboratório de restauração mantivesse a continuidade dos trabalhos: primeiro, pela colaboração de Klaue, no contato com a Orwo que mencionamos acima; e depois, pela doação de 60 rolos de filme virgem enviados pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) para a duplicação de quatro comédias americanas que existiam no acervo de nitrato da Cinemateca.
Mesmo com limitações, vários trabalhos foram realizados e, dentro do Programa para a Restauração de Filmes, um dos filmes restaurados mereceu destaque no relatório de atividades pelo minucioso trabalho de recuperação das cores, ou melhor, do tingimento original das cenas: Companhia Fabril de Cubatão (Inpendência Omnia Film, 1922). A cópia original em nitrato deste documentário continha várias cenas em diferentes cores de tingimento, que ambientavam cenas externas e internas de uma fábrica de papel que se instalara na cidade de Cubatão, em São Paulo. O filme mostra Cubatão em plena Mata Atlântica, muitos anos antes da devastação causada pela poluição industrial, e o processo de fabricação do papel que era realizado por homens, mulheres e crianças, em condições de trabalho que são chocantes para os padrões atuais. Para este filme, além do processo de fazer uma duplicação de alta qualidade, o maior desafio do Laboratório de Restauração foi o de resgatar um processo laboratorial que
havia sido utilizado apenas no cinema silencioso (e em desuso há décadas), para reproduzir com a maior fidelidade possível as cores originais.
Ainda na questão do tratamento da cor na imagem, também em 1985 acontece a mostra Glauber por Glauber387, para a qual foram trazidas para a Cinemateca as matrizes e cópias das obras de Glauber Rocha, localizadas, reunidas e depositadas na instituição, pela Embrafilme. Segundo Carlos Roberto de Souza:
Carlos Augusto Calil e Ana Pessoa havia mobilizado a Embrafilme e suas influências para localizar e trazer do exterior toda a obra do cineasta. [... e] obtido recursos para a duplicação e copiagem dos filmes388.
Todo material passou por um extenso trabalho de comparação e análise técnica, no Laboratório de Restauração, a fim de se planejarem os trabalhos de recuperação (quando necessário), duplicação e confecção de novas cópias para exibição. Boa parte dos filmes era em preto-e-branco, e foram processados no laboratório. Porém, para a produção das cópias dos filmes coloridos (o laboratório da Cinemateca só processava filmes preto-e-branco), foi preciso contratar serviços externos. Neste processo, houve uma aproximação da equipe interna com os laboratoristas da Lider Cinelaboratórios, “que permitiu que técnicos da Cinemateca acompanhassem a duplicação dos filmes coloridos”389, e possibilitou que se adquirisse experiência no trato com o processo.
Ainda em 1985, graças ao filme virgem enviado pelo MoMA de Nova York, são contratipados os cinco títulos de comédias americanas390 do período silencioso. A recuperação destes filmes foi um dos primeiros resultados de um trabalho iniciando nos primeiros anos da década de 1980, quando a Cinemateca procurou meios para repatriar os filmes estrangeiros com base em nitrato. Ciente das suas limitações para conservar esses materiais, preparou listas de títulos para serem entregues aos arquivos dos respectivos países de origem a fim de interessá-los pelo recebimento dos filmes. Com isso, pretendia-se reduzir o número de rolos em nitrato e concentrar as energias na conservação do filmes nacionais. Mais de uma centena de rolos foi devolvida para a Alemanha, França, Itália, entre outros países e, em alguns casos, representou o resgate
387 Mostra realizada pela Embrafilme que segundo Carlos Roberto de Souza, foi a “primeira e última
grande retrospectiva organizada pela Embrafilme de dimensões nacionais, que fugiu ao chamado circuito alternativo ou cultural”. Para saber mais sobre o assunto, consultar Carlos Roberto de Souza,
op. cit., 2009, p. 177.
388 Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 177. 389 Idem, ibidem, p. 176.
390 Stage struck/Inclinação pelo palco (de 1917, com Dorothy Gish), Small tow princess/Princesa de
improviso (Edward F. Cline, 1922), A Chorus girl`s romance/Dá-me um beijo, sim? (de 1920, com Vila Dana), Till we meet again/ Até que nos tornemos a ver (Christy Cabane, 1922), além de Calças compridas e Namoriscos da telefonista dos quais não se conhece o título original em inglês.
de obras que se julgavam desaparecidas391. Este foi o caso de dois filmes do início da carreira de Friz Lang, Das Wandernde Bild/Depois da tempestade (1920) e Kampfende Herzen/Corações em luta (1921), certamente o de maior repercussão, nacional e internacional. Os filmes foram recuperado no laboratório da Cinemateca, em 1987, quando se produziram novas matrizes e cópias.
Reiterando, o Laboratório de Restauração estava crescendo e precisava ocupar novos espaços. Como comentamos, grande parte dos filmes que estavam no prédio do Parque do Ibirapuera foi transferida para o Cemucam a fim de permitir a expansão do laboratório. Além disso, como destaca o Relatório de Atividades:
A ausência de condições minimamente adequadas para o processamento de matrizes de arquivo [...] estimularam o Departamento Técnico a realizar algumas reformas nas precárias instalações que a Cinemateca ocupa até o momento no Ibirapuera. O problema da poeira – que provoca pontos intermitentes nos filmes processados – foi resolvido. As goteiras permanecem392.
A reforma vem em momento providencial, pois em 1986 o laboratório vai produzir aproximadamente 200 cópias de filmes brasileiros para a realização de uma retrospectiva no Centre Georges Pompidou, em Paris, França, que acontece entre março e outubro de 1987. Carlos Roberto de Souza ressalta que esta foi “uma excelente oportunidade para demonstrar que os trabalhos de preservação atingem seu objetivo final quando aliados à difusão”393, uma vez que, para esta mostra, batizada Le Cinéma brésilien, foram restauradas ou duplicadas e legendadas “praticamente todas as cópias de filmes em branco e preto dos filmes produzidos até meados da década de 1960”394, no laboratório da Cinemateca Brasileira.
A expansão do Laboratório de Restauração, que incorpora processos laboratoriais cada vez mais especializados, e o prestígio crescente de João Sócrates provavelmente pesaram para que o setor ganhasse sua independência, deixando de ser um braço do Departamento de Preservação e Conservação para se tornar o Departamento Técnico. Essas e outras mudanças do organograma institucional vão estar presentes nas discussões em uma série de assembléias promovidas pelo corpo funcional, agora estabilizado e mais atento às questões do funcionamento geral da Cinemateca.
391 Para saber mais sobre a repatriação dos filmes em base de nitrato, consultar Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 160-166.
392 Relatório de atividades – exercício de 1985. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. Op. cit. 393 Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 167.