2. CSE RESEARCH AND SCOPE
2.4. T OWARDS A SCOPE FOR THIS THESIS
Acreditamos que antes de falarmos sobre nossas considerações finais a respeito de nosso trabalho, devamos esclarecer ao professor de FLE que o bom ambiente de trabalho, ou seja, a sala de aula, na qual estão inseridos, ele e o aluno, é de suma importância para o desenvolvimento de atividades ligadas à compreensão de imagens. Sua preocupação deve ser a de se colocar como um mediador do processo de aprendizagem, dosando de modo bem equilibrado sua autoridade. Conforme esclarecido no capítulo “A Utilização Pedagógica da Imagem”, o processo interpretativo de uma imagem se faz por meio da oralidade, do discurso, já que a imagem não possui um código próprio que nos permita falar dela mesma usando sua linguagem. Não há uma metalinguagem para se falar da imagem. Assim sendo, o papel do professor deve ser o de instituir procedimentos e situações nas quais essa verbalização e análise possam ser colocadas em andamento.
Mas a verbalização de uma imagem, por si só, interfere na interpretação e compreensão da mesma. As expectativas geradas em sala de aula quando um professor pede a um aluno para descrever uma imagem, vão influenciar tanto a formulação das questões sobre a imagem quanto sua interpretação. O aluno pode simplificar sua resposta, generalizando-a, evitando uma interpretação mais personalizada no intuito de não ser criticado. A censura é um fator crucial para calar o aluno. Ele falará mais daquilo que viu do que daquilo que sentiu, silenciando assim, a emoção sentida. Pelos motivos acima citados entendemos que cabe ao professor criar um ambiente em sala de aula propício à expressão verbal, evitando expor o aluno a situações constrangedoras que prejudicarão potencialmente sua conduta no momento de se expressar.
Gostaríamos que, ao final desse trabalho, os professores que tivessem a oportunidade de lê-lo, pudessem refletir melhor sobre o uso que fazem das imagens nos manuais didáticos de línguas estrangeiras. Digo línguas estrangeiras por acreditar
que essa análise é válida, também, para o ensino de outros idiomas. Penso, entretanto, que alguns pontos devem ser bem frisados.
Em primeiro lugar, existe a necessidade premente de se pensar a imagem não somente como um instrumento de aprendizagem de uma língua estrangeira, mas enquanto imagem em si mesma. Ao servir à metodologia ela não pode perder sua força de imagem. Para que cumpra um bom papel didático, para que exerça sua função metodológica, para que seja coerente com ela mesma, ela não pode ser subutilizada ou artificializada, perdendo assim sua força de imagem.
Ou seja, é difícil encontrar uma imagem nos manuais que será analisada pelo que ela representa, pelo que ela evoca no leitor, pelo que ela tem de extraordinário, de diferente ou de semelhante. Nas duas unidades que estudamos nos diferentes livros, o número de imagens autênticas, que provocam o questionamento do aluno, é insignificante. Por outro lado, o número de imagens fabricadas para os livros didáticos, sejam elas fotografias ou desenhos manipulados, é expressivo. E, como já explicamos e voltamos a remarcar, os documentos preparados para o manual didático afastam a riqueza da imagem que se encontra em sua polissemia. Eles minimizam a cena, tiram do enquadre qualquer significado plástico que possa vir a despertar mensagens icônicas indesejáveis, já que cada imagem se relaciona a um conteúdo da lição que deve ser explorado, e para o qual o aluno é guiado a interpretar.
Em segundo lugar, queremos destacar que com bom senso e um olhar mais crítico sobre o manual que utilizaremos (por pelo menos um ano), como professores, poderemos fazer escolhas mais pertinentes com o que entendemos ser um ensino eficiente e eficaz de FLE. Por exemplo, se olharmos de forma desatenta as histórias “feitas em quadrinhos” do manual didático “Amis et Compagnie”, pensaremos tratar-se realmente de uma HQ que interessará ao aluno, com uma narrativa compreensível, que terá uma sequência na unidade seguinte, conforme dito no livro;
mas isso não acontece, e o que se vê são as mesmas fórmulas utilizadas em outras metodologias, com a diferença de apresentar um novo projeto gráfico.
Em terceiro lugar, gostaríamos de falar das questões relacionadas à cultura. Conforme o que mostramos ao longo desse trabalho, a metodologia SGAV foi fortemente criticada por apresentar manuais de língua estrangeira que poderiam ser utilizados em qualquer parte do mundo, sem que se soubesse a qual cultura ele se referia.
Com a chegada da abordagem comunicativa, esse cenário foi modificado e começaram a aparecer documentos autênticos, trazendo dados da cultura em questão, ou mesmo fatos do quotidiano, recortes de jornais, cenas de filmes, letras de músicas, poemas, entre outros. Esse procedimento ajudou a resgatar os dados culturais no manual didático, mostrando que língua e cultura não se ensinam de modo separado. A cultura é parte integrante da língua e vice-versa. Contudo, a análise dos exemplos evidencia que aos poucos os livros de FLE parecem querer se distanciar novamente dessa postura. O manual didático “Junior 1”, publicado em 1997, apresenta um número maior de imagens relacionadas à cultura, assim como, de documentos autênticos, se comparado ao livro “Amis et Compagnie 1” publicado em 2008, conforme quadro elucidativo da página 119. Não falamos aqui somente do espaço físico (duas páginas para o primeiro livro e um canto de página para o segundo), mas da abordagem que é feita em relação ao que se apresenta, conforme explicado na parte de “Recapitulação” da análise do material.
Nossa investigação revela que desde o lançamento dos primeiros manuais didáticos comunicativos, na década de 80, pouca coisa mudou no tocante às imagens. Diria mesmo que se compararmos as imagens do manual “Archipel 1”, publicado de 1982 a 1987, com as imagens do livro “Amis et Compagnie 1”,publicado em 2008, perceberemos, claramente, que houve uma retrocesso no que se refere ao uso da imagem. Neste, a presença de material autêntico é ínfima, as atividades a serem trabalhadas com os códigos visuais focam somente as estruturas lingüísticas que são exploradas na unidade, e as imagens da cultura francesa são mostradas sem
que se diga para que elas servem. Percebe-se, dessa forma, ao longo de 20 anos de ensino de FLE um processo de “maquiagem” dos manuais. Muda-se a forma, apresenta-se um novo “design”, utilizam-se muitas imagens coloridas, mas o conteúdo permanece praticamente inalterado.
O nome “Acional” da atual abordagem didática de línguas estrangeiras, exemplifica bem sua intenção, a de levar o aluno a agir, a ser capaz de se comunicar em situações esperadas, a se tornar um utilizador eficaz da língua, apto a se integrar em um outro país. Contudo o que se percebe ao analisar o manual didático Amis et Compagnie é a utilização de imagens situacionais que eram utilizadas na metodologia estrutural-global-audio-visual. Nosso questionamento não é no sentido de discutir o emprego desse tipo de imagem, e sim o modo como elas são exploradas. As atividades relacionadas a elas não privilegiam a troca linguageira com situações reais de comunicação. O mesmo acontece com as imagens comunicativas que são artificiais, manipuladas, apresentando imagens descontextualizadas, a explorar diálogos que não levam à ação, ao cumprimento de tarefas.
Enfim, é nossa intenção, com este trabalho, levar o professor de francês, língua estrangeira, a pensar criticamente sua prática pedagógica enquanto utilizador do manual didático. Pelo fato de ser institucionalizado e passar maior credibilidade a seu usuário, o professor, às vezes, o vê como instrumento inquestionável de transmissão de conhecimentos. Ele não interage de forma crítica com o material apresentado, não sendo capaz de analisar uma nova metodologia para constatar se suas imagens são coerentes com ela, ou se elas estão ali somente para ilustrar, sendo banalizadas e destituídas de toda sua riqueza interpretativa. O uso da imagem por ela mesma torna-se indispensável para compreendê-la de maneira crítica e não como testemunho irrecusável.