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L ANGUAGE AND DISCOURSE

3. CONCEPTS AND PERSPECTIVES

3.1. L ANGUAGE AND DISCOURSE

A linguagem está na natureza do homem, que não a fabricou. (...) Não atingimos nunca o homem separado da linguagem e não o vemos nunca a inventando. Não atingimos jamais o homem reduzido a si mesmo e procurando conceber a existência do outro. É um homem falando que encontramos no mundo, um homem falando com outro homem, e a linguagem ensina a própria

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definição do homem. (BENVENISTE, 2005, p.

285)

Tendo em vista o objetivo de criar um espaço para que o professor pudesse inscrever a sua voz assim como permitir recuperar tantas outras vozes que circulam circunscritas em seu discurso visando a tornar a atividade do professor formador de professores de E/LE objeto de discurso, o pressuposto teórico que sustenta o trabalho compreende que o enunciado está constantemente atravessado por vozes alheias. Tem-se como princípio, portanto, a noção de dialogismo (BAKHTIN, 2003), a qual sintetiza a ideia de que o sentido se tece em conjunto, estabelecendo elos entre as distintas vozes presentes no enunciado, vozes estas que têm seu grau de explicitação variável de uma menor ou maior identificação.

Dessa forma, entende-se que o fenômeno da polifonia, mesmo em textos aparentemente monológicos, é constitutivo. Como afirma Bakhtin (2003, p. 299),

Em qualquer enunciado, quando estudado com mais profundidade em situações concretas de comunicação discursiva, descobrimos toda uma série de palavras do outro semilatentes e latentes, de diferentes graus de alteridade. Por isso o enunciado é representado por ecos como que distantes e mal percebidos das alternâncias dos sujeitos do discurso e pelas tonalidades dialógicas, enfraquecidas ao extremo pelos limites dos enunciados, totalmente permeáveis à expressão do autor. O enunciado se verifica um fenômeno muito complexo e multiplanar se não o examinamos isoladamente e só na relação com o seu autor (o falante), mas como um elo na cadeia da comunicação discursiva e da relação com outros enunciados a ele vinculados.

Segundo a concepção baktiniana de linguagem, nas relações dialógicas entre os diferentes enunciados se dá a construção do sentido pelos distintos sujeitos. Nesse processo, a interpretação do enunciado exige a mobilização de saberes diversos, a construção de hipóteses que possibilitam algo além do

65 preestabelecido, evidenciando que aquilo que se reconstrói não é exatamente o que o falante pretendia dizer. O interlocutor já não é compreendido, assim, como um simples receptor, passando a inscrever-se de maneira ativa na interlocução.

Bakhtin aponta para o fato de que os estudos lingüísticos desenvolvidos no século XIX e estendidos ao século XX reduzem a essência da linguagem “à criação espiritual do indivíduo”, subestimando a função comunicativa da linguagem, sendo considerada apenas pelo ponto de vista do falante, em que este não apresenta uma “relação necessária com outros participantes da comunicação discursiva.” (BAKHTIN, 2003, p. 270, grifos do autor). Assim, ao considerar-se o papel do outro, este assumia apenas um papel de receptor passivo da fala do sujeito45.

O dialogismo desconstrói, por conseguinte, uma visão monológica da linguagem. Bakhtin insiste na crítica a expressões como o “ouvinte” e o “entendedor”, posto que, segundo o autor, ignoram o complexo e ativo processo da comunicação discursiva. Tais termos sugerem que existe um processo ativo de discurso por parte do falante e passivo de recepção e compreensão do discurso pelo ouvinte. De acordo com o autor,

não se pode dizer que esses esquemas sejam falsos e não correspondam a determinados momentos da realidade; contudo, quando passam ao objetivo real da comunicação discursiva eles se transformam em ficção científica. Neste caso, o ouvinte, ao perceber e compreender o significado (lingüístico) do discurso, ocupa simultaneamente em relação a ele uma ativa posição responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente), completa-o, aplica-o, prepara-se para usá-lo, etc.; essa posição responsiva do ouvinte se forma ao

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Bakhtin afirma que a Lingüística do século XIX coloca a função comunicativa da linguagem como algo secundário. Segundo o autor, alguns teóricos, como Humboldt, colocavam em primeiro plano a formação do pensamento, sem uma relação com a comunicação. Outros, como Vossler, priorizavam a função expressiva, que teria como essência a “expressão do mundo individual do falante. A língua é deduzida da necessidade de auto-expressar-se, de objetivar-se”. (BAKHTIN, 2003, p. 270)

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longo de todo o processo de audição e compreensão desde o seu início, às vezes literalmente a partir da primeira palavra do falante. (BAKHTIN, 2003, p. 271)

Assumir a abordagem dialógica da linguagem significa, por conseguinte, rechaçar a idéia de um ouvinte passivo, visto que este não corresponde ao participante “real” da comunicação discursiva. Contesta o papel passivo do destinatário no processo de interação verbal.

O enunciado, de acordo com a perspectiva bakhtiniana, não é visto como apresentando um sentido estável, predeterminado pelo locutor. O enunciado possui um valor pragmático visto que se estabelece uma relação de alternância entre os sujeitos do discurso e, nessa relação e na historia em que ela se situa, os sentidos são construídos.

Todo enunciado concreto é um elo na cadeia da comunicação discursiva de um determinado campo. Os próprios limites do enunciado são determinados pela alternância dos sujeitos do discurso. Os enunciados não são indiferentes entre si nem se bastam cada um a si mesmos; uns conhecem os outros e se refletem mutuamente uns nos outros. Esses reflexos mútuos lhes determinam o caráter. Cada enunciado é pleno de ecos e ressonâncias de outros enunciados com os quais está ligado pela identidade da esfera de comunicação discursiva. [...] Por isso, cada enunciado é pleno de variadas atitudes responsivas a outros enunciados de dada esfera da comunicação discursiva. (BAKHTIN, 2003, p. 296-297)

No conjunto de sua obra, Bakhtin determina o paradigma sobre o caráter dialógico da linguagem, reconhecendo o fato de que se tem no enunciado uma constante resposta aos enunciados do outro e aos seus próprios enunciados. O sujeito, para expressar-se, considera a reação de seu destinatário ao que se lhe está sendo dito e isso influencia sua fala. Assim, reconhece-se que “a língua passa a integrar a vida através de enunciados concretos (que a

67 realizam); é igualmente através de enunciados concretos que a vida entra na língua” (BAKHTIN, 2003, p. 265).

Destaca-se o pensamento bakhtiniano de que o discurso só existe de fato na forma de “enunciações concretas de determinados falantes, sujeitos do discurso. O discurso sempre está fundido como enunciado pertencente a um determinado sujeito do discurso, e fora dessa forma não pode existir.” (BAKHTIN, 2003, p. 274). A teoria do enunciado concreto, portanto, tem fundamental relevância para a compreensão da linguagem que se adota nesta tese porque permite a compreensão de que há diferentes vozes dialogando nas falas dos PFP-E/LE e dos PEB-E/LE participantes da investigação, vozes estas que podem ser identificadas como sendo dos próprios professores envolvidos, mas também das diferentes IES, da sociedade em geral, do próprio governo.

Sobre a alternância dos sujeitos do discurso, a primeira peculiaridade do enunciado, Bakhtin afirma que todo e qualquer enunciado tem um princípio e um fim absolutos. Antes do início de qualquer enunciado, estão os enunciados de outros e, após seu término, da mesma forma, estão os enunciados responsivos de outros. Conforme palavras de Bakhtin (2003, p. 275), há pelo menos uma “compreensão ativamente responsiva silenciosa do outro ou, por último, uma ação responsiva baseada nessa compreensão.” Dessa forma, o locutor termina seu enunciado e passa a palavra ao seu destinatário ou dá lugar a essa atitude responsiva.

De acordo com o autor, essa alternância dos sujeitos do discurso assume formas variadas e pode ser observada de forma mais evidente no diálogo real, uma vez que se alternam as enunciações dos locutores, denominadas por Bakhtin como réplicas. O autor destaca o fato de que toda e

68 qualquer réplica possui uma conclusibilidade específica “ao exprimir certa posição do falante que suscita resposta, em relação à qual se pode assumir uma posição responsiva” (BAKHTIN, 2003, p. 275).

Em outros campos da comunicação discursiva, como nos da comunicação cultural, nos quais inclui a produção científica – caso em que se situa este estudo –, de forma semelhante se delimita a alternância dos sujeitos do discurso. Segundo Bakhtin, o enunciado é um “elo na cadeia da comunicação discursiva”, pois está vinculada a outros enunciados, inclusive obras de produção científica: “com aquelas às quais ela responde, e com aquelas que lhe respondem; ao mesmo tempo, à semelhança da réplica do diálogo, ela está separada daquelas pelos limites absolutos da alternância dos sujeitos do discurso.” (BAKHTIN, 2003, p. 279).

A conclusibilidade é apontada como a segunda peculiaridade do enunciado e está intimamente relacionada à primeira. É o que permite a alternância dos sujeitos do discurso. Uma vez que o locutor já “esgotou” o que queria dizer ou escrever em determinado momento, ele cede ao outro a possibilidade de resposta.

Bakhtin afirma que a conclusibilidade, que ele também denomina como a “inteireza acabada do enunciado”, é regida por três fatores intimamente relacionados: “1) exauribilidade do objeto e do sentido; 2) projeto de discurso ou vontade de discurso do falante; 3) formas típicas composicionais e de gênero do acabamento.” (BAKHTIN, 2003, p. 281).

O primeiro desses fatores refere-se ao que o locutor define como o objetivo do enunciado. Ao se tornar tema do enunciado, o objeto, que é inexaurível, adquire certa conclusibilidade uma vez que está determinado por

69 condições específicas e por determinados objetivos estabelecidos pelo locutor. Esse fator conduz, inevitavelmente, ao que Bakhtin chama de projeto de discurso ou vontade de discurso do falante.

O segundo fator da conclusibilidade, a intenção discursiva do discurso, determina o todo do enunciado, suas fronteiras e seu volume. Segundo ele, o destinatário imagina o que o locutor quer dizer, e a partir dessa ideia verbalizada é que se pode medir a conclusibilidade do enunciado. Isto é o que permite ao locutor a escolha do objeto, os seus limites e sua exauribilidade. Da mesma forma, define também a escolha de determinado gênero do discurso em que se irá construir o enunciado (BAKHTIN, 2003).

Ao terceiro fator Bakhtin dedica uma especial importância, as formas estáveis de gênero do enunciado: “falamos apenas através de determinados gêneros do discurso, isto é, todos os nossos enunciados possuem formas relativamente estáveis e típicas de construção do todo”. (BAKHTIN, 2003, p. 282, grifos do autor). O gênero escolhido pelo locutor é determinado por diversos elementos, a saber: o campo da comunicação discursiva, as considerações temáticas, a situação comunicativa e os participantes envolvidos. A intenção discursiva, portanto, manifesta-se na opção por determinado gênero discursivo.

Neste estudo, como recurso para a criação de falas sobre o trabalho do PFP-E/LE, utilizam-se os gêneros entrevista e fórum de discussão. A observação dessas características é fundamental, portanto, para que se observe o movimento discursivo, as prováveis reformulações de falas por parte do locutor a partir do que enunciam os demais sujeitos dos discurso.

70 Por último, a terceira peculiaridade do enunciado é sua relação com seu locutor e com outros participantes da comunicação discursiva. Nas palavras do autor, “todo enunciado é um elo na cadeia da comunicação discursiva. É a posição ativa do falante nesse ou naquele campo do objeto e do sentido.” (BAKHTIN, 2003, p. 289). Ao mesmo tempo em que marca essa posição do locutor, o enunciado está endereçado a alguém, o que determina, também, sua construção composicional e seu estilo. Esse direcionamento a alguém é um traço constitutivo do enunciado.

Ao falar, sempre levo em conta o fundo aperceptível da percepção do meu discurso pelo destinatário: até que ponto ele está a par da situação, dispõe de conhecimentos especiais de um dado campo cultural da comunicação; levo em conta as suas concepções e convicções, os seus preconceitos (do meu ponto de vista), as suas simpatias e antipatias – tudo isso irá determinar a ativa compreensão responsiva do meu enunciado por ele. (BAKHTIN, 2003, p. 302)

Além das peculiaridades constitutivas do enunciado que foram apresentadas, Bakhtin menciona dois momentos do enunciado que têm relevância para a compreensão da teoria do enunciado concreto. De acordo com ele, o primeiro momento determina suas peculiaridades estilístico- composicionais. Assim, a seleção dos meios lingüísticos e dos gêneros de discurso é definida pela intenção discursiva do locutor, centrada no objeto e no sentido. O segundo, responsável por determinar a composição e o estilo, é o elemento expressivo do enunciado, em outras palavras, “a relação subjetiva emocionalmente valorativa do falante com o conteúdo do objeto e do sentido do seu enunciado.” Considera-se, portanto, que “um enunciado absolutamente neutro é impossível” (BAKHTIN, 2003, p. 289).

71 A opção por determinada construção composicional e estilo está restrita, portanto, a uma decisão do sujeito em seu enunciado concreto. Nesse sentido, as palavras, por não pertencerem a ninguém, “em si mesmas nada valorizam, mas podem abastecer qualquer falante e os juízos de valor mais diversos e diametralmente opostos dos falantes”. (BAKHTIN, 2003, p. 290).

Bakhtin avança na discussão e afirma que o elemento expressivo se dá no plano do enunciado e não no plano das palavras:

Quando escolhemos as palavras, partimos do conjunto projetado do enunciado, e esse conjunto que projetamos e criamos é sempre expressivo e é ele que irradia a sua expressão (ou melhor, a nossa expressão) a cada palavra que escolhemos; por assim dizer, contagia essa palavra com a expressão do conjunto. (...) só o contato do significado lingüístico com a realidade concreta, só o contato da língua com a realidade, o qual se dá no enunciado, gera a centelha da expressão: esta não existe nem no sistema da língua nem na realidade objetiva existente fora de nós. (BAKHTIN, 2003, p. 291-292)

Dessa forma, a escolha das palavras bem como a entonação expressiva, no caso da execução oral, está em consonância com o seu emprego vivo em uma situação concreta de enunciação. Essa seleção, assim, está intimamente relacionada ao gênero do discurso utilizado já que se baseia em outros enunciados e, sobretudo, em enunciados congêneres ao do locutor, ou seja, pela composição, pelo tema, pelo estilo.

Assumir uma abordagem dialógica da linguagem implica reconhecer que toda e qualquer esfera de atividade humana se relaciona com o uso da linguagem em uma situação concreta de comunicação discursiva: “o emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana” (BAKHTIN, 2003, p. 262). Cada uma dessas esferas, segundo a

72 concepção bakhtiniana, elabora, conforme já explicitado nesta seção, “tipos relativamente estáveis de enunciados”, denominados gêneros dos discursos.

O enunciado é, pois, marcado por esses gêneros com seu conteúdo temático, seu estilo da linguagem e sua construção composicional. De acordo com Bakhtin (2003, p. 262), esses três elementos estão “indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação”.

O tema relaciona-se ao sentido completo do enunciado. O estilo, conforme explicitado anteriormente, diz respeito à escolha dos “recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais” e de formas de interlocução que o locutor lança mão na composição do gênero. Segundo Bakhtin (2003, p. 268), a passagem do estilo de um gênero a outro não apenas “modifica o som do estilo nas condições do gênero que não lhe é próprio como destrói ou renova tal gênero”. Por último, a composição, ou construção composicional, refere-se à estruturação do conjunto, ao seu acabamento e à relação do locutor com os demais participantes da comunicação discursiva. O acabamento expressa a posição do locutor no que diz respeito ao objeto do sentido e introduz a possibilidade de se adotar uma compreensão responsiva para com ele.

Os gêneros do discurso são inúmeros e apresentam infinita diversidade uma vez que são inesgotáveis os campos da atividade humana. Sendo assim, o repertório dos gêneros se multiplica à proporção em que se desenvolve e complexifica uma determinada esfera de atuação humana. Para Bakhtin, os gêneros se diferenciam em primários e secundários, estes mais complexos que aqueles.

73 Os primários, mais simples, referem-se aos gêneros – orais ou escritos – da comunicação imediata, espontânea, não formulados antecipadamente, como os diálogos cotidianos. Por sua vez, os gêneros secundários, exemplificados por Bakhtin como mais complexos – romances, dramas, pesquisas científicas entre outros – surgem em situações de um convívio cultural relativamente muito desenvolvido e organizado e exigem uma elaboração mais complexa. Esses incorporam e reelaboram variados gêneros primários formados nas condições de interação verbal imediata. Ao integrarem os secundários, esses gêneros primários assumem um caráter especial, pois se desvinculam da realidade imediata e os enunciados reais alheios.

É determinante, portanto, o destinatário a que se dirige o enunciado para a seleção do gênero:

A quem se destina o enunciado, como o falante (ou o que escreve) percebe e representa para si os seus destinatários, qual é a força e a influência deles no enunciado – disto dependem tanto a composição quanto, particularmente, o estilo do enunciado. Cada gênero do discurso em cada campo da comunicação discursiva tem a sua concepção típica de destinatário que o determina como gênero. (BAKHTIN, 2003, p.301)

O PFP-E/LE, sujeito co-construtor de significado e de sentido nesta pesquisa, ao falar sobre sua atividade de trabalho no fórum de discussão, tem suas palavras atravessadas por outras vozes e se dirige a determinados locutores que são determinantes para que dê forma e significado ao seu pensamento no ato verbal.

No discurso que constrói ao falar sobre seu trabalho, o formador leva em consideração a investigadora – outra participante da situação dialógica criada nesta pesquisa com o intuito de provocar o desenvolvimento do tema em questão –, os demais PFP-E/LE integrantes do Fórum de discussão e todos os

74 outros pontos de vista que se interpenetram em seu mundo ideológico de ser PFP-E/LE.

O sujeito reproduz discursos desde uma posição determinada, inserido em um contexto determinado, sendo influenciado por vozes outras anteriores a seu enunciado e, inclusive, posteriores. Assim, o sujeito faz soar em seu discurso o já-dito em outro lugar, em outro tempo, mobilizando diversos saberes para sua compreensão.

Reconhece-se que

o enunciado não está ligado apenas aos elos precedentes mas também aos subseqüentes da comunicação discursiva. Quando o enunciado é criado por um falante, tais elos ainda não existem. Desde o início, porém, o enunciado se constrói levando em conta as atitudes responsivas, em prol das quais ele, em essência, é criado. O papel dos outros, para quem se constrói o enunciado, é excepcionalmente grande, como já sabemos. Já dissemos que esses outros, para os quais o meu pensamento pela primeira vez se torna um pensamento real (e deste modo também para mim mesmo), não são ouvintes passivos, mas participantes ativos da comunicação discursiva. Desde o início o falante aguarda a resposta deles, espera uma ativa compreensão responsiva. É como se todo o enunciado se construísse ao encontro dessa resposta. (BAKHTIN, 2003, p. 301)

Considerando esse caráter dialógico constitutivo de toda situação de fala, a pesquisa tem por pressuposto que o diálogo não está restrito ao momento de troca entre os interlocutores, ou seja, ao instante específico em que estão em interação face a face. Deste modo, a análise das trocas discursivas empreendidas pelos protagonistas da pesquisa subentende que o sujeito, ao formular seu enunciado, está sempre estabelecendo relações com o que já foi dito por outros, com aquilo que pode estar pensando seu destinatário, até mesmo com o objetivo de refutar ou confirmar o dizer do outro. Esses

75 enunciados seriam, então, advindos de enunciados retrospectivos e, também, prospectivos.

Natureza dialógica da consciência, natureza dialógica da própria vida humana. A única forma adequada de expressão

verbal da autêntica vida do homem é o diálogo inconcluso. A

vida é dialógica por natureza. Viver significa participar do diálogo: interrogar, ouvir, responder, concordar, etc. Nesse diálogo o homem participa inteiro e com toda a vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, todo o corpo, os atos. Aplica-se totalmente na palavra, e essa palavra entra no tecido dialógico da vida humana, no simpósio universal. (BAKHTIN, 2003, p. 348, grifo do autor)

Na enunciação, portanto, há uma íntima relação entre o seu próprio enunciado e o do outro, sendo este – o enunciado do outro – responsável pela forma como o locutor elabora seu enunciado, pois está constantemente fazendo suas escolhas diante das considerações a respeito do sentido que possivelmente estará construindo seu destinatário. Isso determina, muitas vezes, o enunciado.

Muito amiúde a expressão do nosso enunciado é determinada não só – e vez por outra não tanto – pelo conteúdo semântico- objetal desse enunciado, mas também pelos enunciados do outro sobre o mesmo tema, aos quais respondemos, com os quais polemizamos; através deles se determinam também o destaque dado a determinados elementos, as repetições e a escolha de expressões mais duras (ou, ao contrário, mais brandas); determina-se também o tom. (BAKHTIN, 2003, p. 297)

Adota-se, portanto, a teoria do enunciado dialógico porque oferece conceitos e noções teóricas pertinentes aos objetivos previamente traçados.