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A vida de Ramon Llull, como a de vários personagens da Idade Média, foi marcada por uma ruptura gerada por um fato extraordinário. Para o maiorquino, esse acontecimento, as visões do Cristo crucificado, geraram a conversão ao Cristianismo, com

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características próximas às de dois grandes modelos religiosos da Cristandade: Saulo de Tarso (c.10-67) e Francisco de Assis (c.1181-1226).

O primeiro passou pela experiência da visão, isto é, a luz de Cristo o cegou e, depois de alguns dias, voltou a enxergar o mundo através dos olhos da fé.84 Esse fato fez com que Saulo sofresse uma profunda transformação interior: deixou de ser perseguidor dos cristãos para se tornar um servo de Deus. O apóstolo decidiu seguir a verdadeira luz, Jesus Cristo, caminho que abraçou pelo resto dos seus dias.

Giovanni Battista de Pietro Bernardone, mais conhecido como Francisco de Assis, nasceu na cidade italiana de Assis. Era filho de um abastado comerciante daquela região da Itália. Sua criação levou-o a conhecer a diferença entre a riqueza e a pobreza, a vida cavaleiresca e a vida burguesa. Sua conversão ocorreu em 1206. Quando renunciou ao conforto material e a herança paterna, tornou-se um pedinte.85

A vida de Francisco de Assis, o grande exemplo de santidade do século XIII, também teve muita influência sobre Llull. O maiorquino ouviu um sermão sobre o despojamento de Francisco, que abriu mão da vida luxuosa proporcionada por sua família, para se dedicar ao tratamento dos leprosos e a mendicância, sobrevivendo apenas de doações recebidas da população citadina, fato que deu início ao ideal de pobreza e humildade franciscana.86

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A lista de visões que aparece em Macróbio (c. 340-415) foi modificada por Santo Agostinho (354-430) em seu De genesis ad litteram [Sobre o genesis literal]. A partir da visão de São Paulo no caminho de Damasco, Agostinho estabeleceu uma hierarquia das visões: no nível inferior, a “visão corporal” pela qual nossos olhos podem ver realidades incorporais; no nível médio, a “visão espiritual” ou “imaginativa” que permite ver, como em sonho, as formas sem corpo; enfim, no nível superior, a “visão intelectual”, que dá acesso direto a realidades sem corpo e a conceitos sem imagens. DELUMEAU, Jean. O que

sobrou do paraíso? São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 68-72.

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LE GOFF, Jacques. São Francisco de Assis. Rio de Janeiro: Record, 2001. p.58-69.

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Esse exemplo levou Ramon a abandonar sua vida mundana e se dedicar ao serviço de Cristo. Ramon e Francisco tiveram uma vida semelhante antes da conversão: eram de uma família abastada, tiveram uma formação cavaleiresca e, após a conversão, abandonaram todos seus bens materiais, desprezaram os bens temporais, e passaram a se dedicar a um projeto de reforma social para o bem comum da Cristandade.

Nas sociedades tradicionais – ou pré-industriais – as visões ou os êxtases místicos sempre foram um importante meio de comunicação entre este mundo e o Além.87

Ao longo do século XII houve um forte renascimento da mística medieval. Visões místicas possibilitavam o conhecimento do Paraíso. Dois importantes exemplos visionários desse século são Elisabeth von Schönhau († 1165) e Hildegard von Bingen († 1179).

Elisabeth, em uma das suas visões paradisíacas, viu um edifício glorioso, cercado por três muralhas e com vários habitantes no interior. Além das muralhas, havia uma área cercada por espinhos picantes e ardentes, que muitos tinham que atravessar antes de ter acesso ao edifício. Já Hildegard, em sua Primeira Visão, observou a imagem do Criador, sentado sobre uma brilhante montanha cor de ferro.88

Vários exemplos nas hagiografias medievais demonstram a manifestação de Cristo por visões que modificam de forma definitiva a vida daqueles que passam por elas.89 A mística pela via contemplativa fez parte de todo o projeto missionário luliano. O Livro

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VAUCHEZ, André. A Espiritualidade na Idade Média Ocidental: (séculos VIII a XIII). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. p. 16; VAZ, H. C. de L. Experiência Mística e Filosofia na Tradição Ocidental. São Paulo: Loyola, 2000.

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DELUMEAU, op. cit., p. 85-87, nota 84. Sobre a Visão de Túndalo, a Viagem de São Brandão, ver ZIERER, Adriana. Modelos de Salvação Medieval: São Brandão e Santo Amaro. In: História. Revista do Departamento de História da UFES. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Humanas e Naturais, nº 9, Vitória: EDUFES, 2001. p. 41-51.

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SCHMITT, Jean-Claude. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 15, 38-41, 62-63; DELUMEAU, op. cit., p. 85-87.

da Contemplação em Deus (1273-1274)90 foi sua maior e mais importante obra sobre esse tema.

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No período em que foi escrito, Llull não costumava informar o local da redação e nem datar suas obras. Foi o Pe. Antoni R. Pasqual, no livro Vindiciae Lullianae, que fixou a data em 1273. Mossen Galmés fixa a data da composição em árabe em 1270 e sua versão catalã em 1272. Possui em sua estrutura, como em várias obras lulianas, um forte simbolismo numérico, com destaque para o número três, significando a Trindade divina. Está dividida em trezentos e sessenta e cinco capítulos, um para cada dia do ano, materialmente religados em três volumes, que englobam cinco livros, com quarenta distinções. Cada capítulo tem trinta parágrafos numerados, que estão divididos em dez grupos. A redação em primeira pessoa permite que o autor insira inúmeras passagens com conteúdo autobiográfico, tanto para a exaltação e agradecimento dos bens recebidos de Deus, quanto de penitência e autopunição pelos pecados cometidos na juventude, principalmente a luxúria. BADIA, Lola; SOLER, Albert. Qui és Ramon Llull? Disponível em: <http://quisestlullus.narpan.net/73_cont.html>. Acesso em: 18 Set. 2008.

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