A partir de 1292, teve início uma nova fase na vida de Ramon: ele afastou-se da vida contemplativa e passou para uma vida de ação ligada aos seus projetos missionários. Suas preocupações agora estavam relacionadas com a situação política da Cristandade. Voltou-se então para a pregação e a missão.137
Em Gênova, Llull decidiu se dirigir ao norte da África, disposto a colocar em prática seus projetos missionários e, se necessário, sofrer o martírio.138 Nessa mesma cidade encontrou homens e mulheres leigos dispostos a auxiliar sua expedição espiritual e apostólica.139 O maiorquino não estava ligado a nenhuma ordem religiosa, embora tenha
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Celestino V (1215-1296) era um monge beneditino. Só permaneceu no cargo pontifício durante alguns meses de 1294.
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O Concílio de Vienne foi realizado na Catedral de Vienne na França, entre 1311 e 1312. Foi convocado pelo papa Clemente V para, dentre outras coisas, resolver a questão da supressão da Ordem dos Templários, e a condenação póstuma do papa Bonifácio VIII por ter excomungado Felipe, o Belo, rei da França. VILLOSLADA, III, op. cit. p. 26-61, nota 122.
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RAMON LLULL. Liber de acquisitione Terrae Sanctae. Tradução Waldemiro Altoé. In: Studia
Orientalia Christiana. Collectaea 6 (P. Eugene Kamar, OFM). Edizioni del Centro Francescano di Studi
Orientali Christiani. Cairo, 1961, p. 103-131. Disponível em: <http://www.ricardocosta.com>. Acesso: 20 jun. 2006.
136
VILLOSLADA, II, op. cit., p. 545-547, nota 129.
137
BATLLORI, op. cit., p. 18-19, nota 128.
138
Ibid.
139
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se aproximado dos dominicanos (por sua racionalidade) e dos franciscanos (por seu misticismo).
Esse contraste interior, a indecisão sobre em qual dessas ordens ingressaria, ligado ao temor de morte por um possível martírio, causou-lhe a famosa Crise de Gênova:
E quando chegou a Gênova, prontamente divulgaram que ele desejava passar a Berbéria; e, de fato, o povo tinha confiança que Nosso Senhor Deus faria grandes maravilhas pelas mãos dele, como já tinham ouvido que Nosso Senhor lhe inspirara em certa montanha. E de fato, estando ele neste santo propósito, como aí houvesse já certa passagem pela Berbéria, e o dito reverendo mestre já havia recolhido os seus livros, sobreveio- lhe uma grande tentação, porque O seu entendimento lhe ditava, assim realmente como se ele o visse, que incontinenti que ele estivesse na Berbéria, sem deixá-lo disputar nem predicar, os mouros o apedrejariam, ou ao menos meter-lhe-iam no cárcere perpétuo; de tal coisa teve grande temor o dito reverendo mestre, assim como, lembrou-se do monsenhor São Pedro; e, de fato, o dito reverendo mestre, por este temor não se moveu àquela vez, obrigado por Nosso Senhor, ao qual nesse momento não suportaria.
E como o barco já havia partido, tentação contrária reteve o dito reverendo mestre, considerando que por aquele grande pecado Nosso Senhor o danaria; e não duvidando que houvesse feito escândalo ao povo contra a fé, quase se viu em ponto de desespero, e tinha tanta dor dentro de sua alma, que exalou uma parte para fora e caiu em uma grande doença, na qual esteve por um grande tempo, e ninguém jamais conseguiu descobrir a causa.140
Em conseqüência desse dilema espiritual, a Vida descreve a dúvida existencial de Ramon: em que ordem ele deveria ingressar, a dos dominicanos ou a dos franciscanos? Doente, permaneceu no convento dos dominicanos, onde teve uma visão que lhe disse que só se salvaria se ingressasse nessa ordem.
140
Porém, o maiorquino recordou que seus escritos sempre foram acolhidos pelos franciscanos. Isso gerou uma grande dúvida em sua mente. Decidiu não ingressar em ordem alguma, e divulgar a sua Arte. Optou por seu projeto missionário.141
Superada a crise, decidiu experimentar na prática seu método de conversão e partiu para Túnis (1293). Não era uma terra estranha. Os mercadores da Catalunha, Maiorca, Pisa e Gênova conheciam bem a região. Além disso, mercenários catalães formavam parte da milícia do sultão.
Ao desembarcar, Ramon foi procurar os líderes letrados da religião muçulmana.142 Iniciou o debate com eles dizendo que se converteria ao Islamismo caso provassem que a fé cristã era falsa.143
Os debates promovidos por Ramon chegaram ao conhecimento das autoridades islâmicas que determinaram sua morte. Porém, um dos membros do conselho ponderou sobre as possíveis conseqüências desse ato.144
Não convinha matar Ramon simplesmente porque ele estava defendendo sua crença, conforme nos atesta o texto da Vida.145 Isso possibilitaria que os sarracenos também fossem mortos ao pregarem em território cristão. Então, expulsaram-no de Túnis, de onde retornou para Nápoles.146
141
VEGA, Amador. Ramon Llull y el secreto de la vida. Madrid: Siruela, 2002.p. 43.
142
RAMON LLULL. Darrer Llibre sobre la conquesta de Terra Santa (Liber de fine) (introd. de Jordi Gayà y trad. de Pere Llabrés). (trad. de Ricardo da Costa e Eliane Ventorim) Barcelona: Facultat de Teologia de Catalunya, 2002, p. 81-82. Disponível em: <http://www.ricardocosta.com/.htm>. Acesso: 20 jan. 2005.
143
RAMON LLULL, op. cit., VI, 26, nota 92.
144
Ibid.
145
Ibid., VII, 28.
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Em 1294, nessa mesma cidade, ele leu sua Arte e assistiu a eleição do papa Celestino V (1209-1296). Apresentou-se à nova corte pontifícia e novamente pediu auxílio para a realização dos seus planos de evangelização. Dedicou ao sumo pontífice o tratado denominado Petitio Raymundi pro conversione infidelium ad Coelestinum V papam,147 no qual expôs basicamente três propósitos: a fundação de colégios para o ensino das línguas orientais; a conquista da Terra Santa; a unificação das ordens militares sob o comando de um único mestre.148
Porém, com a abdicação do papa, em dezembro de 1294, viu novamente seus planos fracassarem. Esperava-se que Celestino realizasse uma reforma moral na Igreja.149 Contudo, ao contrário de sua força espiritual, o pontífice não possuía grande capacidade administrativa para lidar com os monarcas da época e com os negócios da corte pontifícia.150