4.2 Moderne disiplin
4.3.4 Disponering av rom
Para Llull, o diálogo era um duelo intelectual onde eram esgrimidas as razões
necessárias a favor da fé cristã contra as razões alegadas pelos defensores da fé
muçulmana, judaica ou de qualquer outra confissão. Ele estava convencido do triunfo final porque acreditava ser possuidor da verdade. Com seu método apologético – sua
Arte – Ramon pretendia se tornar o campeão de uma nova cavalaria, posta a serviço da
fé católica.232
231
COLOMER I POUS. El pensament als països catalans durant l’edat mitjana e el renaixement. Barcelona: Abadia de Montserrat, 1997. p. 145.
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As disputas entre representantes das diferentes religiões influenciaram na construção da
Arte luliana. A partir de suas observações, Ramon definiu os seguintes parâmetros para
a sua argumentação:
1) Iniciar a disputa com uma base admitida por todos os interlocutores; 2) Distinguir explicitamente os dogmas diferenciais e o detalhe da polêmica; 233 3) Não discutir alguns textos sagrados, mas as crenças das pessoas;
4) Centrar a reflexão sobre Deus como o criador; 5) O método de respeito para conseguir ser escutado;234
Missionários conhecedores da língua e do credo de seu destinatário se colocariam em posição de diálogo, disputando com base em argumentos racionais. Iniciariam seu trabalho utilizando os argumentos concordantes entre os credos como, por exemplo, as dignidades divinas, pressuposto apriorístico de toda a realidade. Tais missionários seriam formados em escolas baseadas no modelo de Miramar.
Após o missionário e seus ouvintes concordarem com a igualdade da base de seus credos, passar-se-ia à demonstração dos pontos discordantes e comprovação dos erros aos quais o infiel estaria submisso. A conclusão seria a demonstração dos males que lhe adviriam, e, assim, a posterior conversão voluntária e sincera.
O diálogo não era somente o intercâmbio de posições e a definição de semelhanças e diferenças, mas também um enfrentamento epistemológico através do qual se poderia
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Esses dogmas diferenciais são os aspectos que diferenciavam o Cristianismo das outras religiões, principalmente a Santíssima Trindade e a Encarnação.
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alcançar e ir além de uma disputa de autoridades, visto que para Ramon, as disputas baseadas em citações de texto não conduziam a nada.235
Contrariando o que faziam os escolásticos, Llull tentará transmitir a sua mensagem aos muçulmanos mais instruídos, que conheciam a epistemologia. Pensava que poderia convencê-los com o uso da razão, pois Ramon não considerava a fé islâmica verdadeira, e que, ao convertê-los, a população seguiria seu exemplo:
– Dom eremita, os sarracenos estão em tal estamento que aqueles que são sábios, por força do argumento, não crêem em Maomé, antes desprezam
o Corão, porque ele não viveu honestamente. Assim, eles viriam à conversão rapidamente se estivessem com eles em grande disputa, e lhes mostrassem a fé por força do argumento, e aqueles, convertidos, converteriam as gentes.
Não precisa muito tempo para aprender sua linguagem, nem é preciso blasfemar Maomé imediatamente [...].236
Ramon considerava as táticas dominicanas fracassadas, principalmente por dois motivos. Para ele, basear os argumentos em autoridades só gerava disputas intermináveis sobre a interpretação desses textos. Além disso, Llull acreditava que não bastava refutar os argumentos dos adversários sem oferece em contrapartida outros argumentos logicamente aceitáveis, capazes de persuadi-los da verdade da fé cristã. A divisa apologética de Llull era non dimittere credere pro credere, sed pro intelligere – não admitir o crer pelo crer, mas pelo entender.237
235
ROQUE, op. cit. p. 19.
236
– N’ermità els sarraïns son en tal estament,/que cells qui són savis, per força d’argument/no creen en Mafumet; ans tenen a nient/l’Alcorà per ço car no visc honestament./Per què aquells venrien tost a convertiment,/si hom ab ells estava en gran disputament,/e la fe los mostrava per força d’argument,/e aquells convertits, convertrien la gent./E en pendre llur llenguatge hom no està llongament,/ne no cal que hom blastom Mafumet mantinent. RAMON LLULL. op. cit., estrofe XXVIII, nota 5. COSTA;LEMOS. op. cit., nota 4.
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O maiorquino foi ao encontro das exigências dos interlocutores judeus e muçulmanos, ampliando o campo da controvérsia apologética desde o terreno das preambula fidei (verdades religiosas naturais que se supõe à fé cristã) até o terreno das afirmações doutrinais concretas da fé cristã, sem excluir o que os crentes consideravam mistérios (Trindade e Encarnação).238
Llull não exigia do interlocutor não cristão nada além do uso da razão. Sua apologética era oposta à utilizada pelos dominicanos. Para Ramon, não se tratava de refutar os erros do interlocutor infiel ou responder negativamente suas objeções sobre a suposta irracionalidade da Trindade e da Encarnação, mas ajudá-lo a entender o que, em sua fé, o cristão acreditava.
A apologética luliana é um produto da direção tomada pela polêmica apologética e uma corrente franciscana. São Francisco concebeu a idéia de acabar com as Cruzadas e ainda assim realizar seu objetivo: substituir a conquista pela conversão. Entretanto, ele repudiava o peso da filosofia e da erudição, reservando-se somente à verdade do Evangelho, segundo ele acessível a todos, doutos ou leigos.239
Llull concordou com santo no propósito, mas discordou em relação aos meios. Os exemplos das controvérsias realizadas na Catalunha aliados à sua convivência com Ramon de Peñafort fizeram com que Ramon não abdicasse do uso da filosofia, já utilizado nas disputas. Ele não usou a arma da filosofia profissional ou escolástica como
238
COLOMER, Eusebi. ?La actitud compleja y ambivalente de Ramon Llull ante el judaísmo y el islamismo?. In: DOMÍNGUEZ REBOIRAS, Fernando y DE SALAS, Jaime (edits.). Actas del
pensamiento luliano. Actas del simposio sobre Ramon Llull en Trujillo, 17-20 de septiembre 1994.
Tübingen: Max Niemeyer Verlag, 1996. p. 78.
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faziam os dominicanos, mas transformou a filosofia num instrumento popular a serviço da fé católica.240
Partindo do pressuposto de que o diálogo encerra certa medida de aceitação, acreditamos que Ramon não propôs um diálogo inter-religioso, mas uma forma diferenciada de disputa, baseada em suas razões necessárias e fundamentada em sua
Arte. Diante da inexistência da tolerância religiosa no período medieval, Llull apenas
defendeu um novo caminho para alcançar o seu grande sonho:
No Concílio estareis tão grandes e tão belamente ordenados, que Deus será muito honrado e muitos homens serão salvos, e todo o mundo
em sua longitude, amplitude e profundidade será abarcado.241
O ideal de propagar a Palavra por todos os lugares pode ser encontrado na Bíblia. Antes de Sua ascensão, Jesus teria dito aos apóstolos: “Mas recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda Judéia e a Samaria, e até os confins da terra”.242
O apóstolo Ramon, também tinha esse desejo.
240 Ibid. 241 L. 8-14. Grifos nossos. 242
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