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Personalets forventninger kan skape utagerende atferd

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5.3 Forventninger

5.3.1 Personalets forventninger kan skape utagerende atferd

Nossa intenção neste trabalho foi analisar as proposta de conversão dos infiéis desenvolvidas pelo escritor catalão Ramon Llull principalmente em duas de suas obras versificadas – Desconsolo e O Concílio.

Apesar da superioridade numérica de sua obra em prosa, Ramon teve seu primeiro contato com o mundo das letras por intermédio da poesia. Mesmo abandonando a poesia profana após as visões, ele não deixou de empregar sua técnica. Convertido em trovador de Deus, serviu-se para os seus propósitos dos gêneros, formas métricas e procedimentos estilísticos que foram criados pela primeira escola poética conhecida em língua vulgar, os trovadores occitanos, para a comunicação de pensamentos e sentimentos profanos.

Isso pode ser notado nos versos alexandrinos de origem francesa empregados no

Desconsolo, e na obra O Concílio, inspirada nas sirventès de croada, um gênero político

trovadoresco de temática denunciadora diversa (moral, política, bélica, satírica), escrito em estilo muito vivo e animado, até mesmo agressivo e violento, que era cantado com a melodia de uma canção preexistente, de onde se tirava a forma estrófica e a métrica – como no estribilho, inspirado em uma canção popular para pedir chuva, que Ramon incorpora às últimas estrofes do texto.

Llull utilizou o verso como recurso mnemônico. Como tinha interesse que sua mensagem fosse divulgada, inclusive por jograis – convertidos ao serviço do Cristianismo – chegou a sugerir quais as toadas que deveriam ser usadas ao declamarem seus textos – O Desconsolo deveria ser cantado ao som de Berart. O uso do texto versificado era, também, uma forma de fazer com que suas idéias chegassem até as camadas mais baixas da população, que tinham acesso aos textos divulgados pelos jograis.

Preocupado com a divulgação de seus escritos, escreveu em catalão, para o público laico cristão, e em latim, para os clérigos – ou então mandava traduzir as suas obras para esse idioma –. Tudo para que o Ocidente latino também tivesse conhecimento da base de seu pensamento científico.

Com Ramon, o catalão adquiriu plenamente a categoria de língua literária, apta para expressar todo o tipo de pensamento e sentimento, adequada a todos os âmbitos, capaz de servir para a comunicação dos aspectos mais humildes e cotidianos e para o relato das mais elevadas especulações.

Diante da constatação, no século XIII, da inviabilidade do extermínio da sociedade islâmica, passou-se a buscar sua conversão. Ramon viveu em uma região de diversidade econômica, cultural e religiosa, na qual conviviam cristãos, judeus e muçulmanos. Fruto de seu contexto, não poderia deixar de incluir em seus projetos reformistas a conversão dos muçulmanos.

Os dominicanos já haviam iniciado uma tarefa apologética organizada. Tradicionalmente se recorria aos argumentos da Bíblia e ao Novo Testamento, o que

produzia infindáveis discussões hermenêuticas, já que não se abordava nem a fé nem os costumes dos praticantes das religiões, apenas seus livros.

Ramon Llull se opôs a esse método apologético por considerá-lo falho, já que não tratava dasrazões demonstrativas da fé cristã que os muçulmanos sempre exigiam. O

maiorquino argumentava a partir do senso comum e não de autoridades, que segundo ele poderiam ser interpretadas de diferentes maneiras.

Baseou seus argumentos não em textos, mas em fatos religiosos ou científicos que todos poderiam aceitar – só há um Deus; Ele tem atributos; o mundo se fundamenta em quatro elementos; etc. Usou argumentos aceitáveis às religiões monoteístas, o que tornava o ponto de partida das discussões regras neutras e não dogmas a serem impostos.

Construiu seus argumentos não sobre uma base doutrinal que poderia ser usada por um contra o outro, mas a partir de uma técnica que todos poderiam empregar em iguais condições, a sua Arte. Ramon defendia que o muçulmano, por acreditar na unidade de Deus e nos atributos divinos, deveria se tornar cristão.

Llull esperava que seu novo método – a sua Arte – o ajudasse a alcançar sua ousada proposta: a existência de apenas uma lei religiosa. Para isso, partiu do pressuposto de que todos, inclusive infiéis, se regiam pela razão que Deus dá a todos os homens. Por isso a necessidade de uma fundamentação plausível à razão, já que, para o maiorquino, as elites letradas dos muçulmanos só acreditavam em Maomé porque ninguém ainda havia lhes dado provas de que sua fé era errada e que o Cristianismo latino era o detentor da verdade. Caso isso fosse feito, eles se converteriam e o restante da população os seguiria.

No século XIII havia a constatação do fracasso da idéia primogênita de Cruzada, cujos objetivos eram a ocupação do território e o extermínio da população infiel. Não era mais viável aplicar a solução dos francos – proposta feita pela ordem de Cluny e posta em prática na 1ª Cruzada em 1096, que consistia em retirar dos muçulmanos os seus territórios e, se possível, suas vidas.

O jovem Ramon Llull viu a adulteração desse conceito – de uma Cruzada pensada contra o infiel, tornou-se uma Cruzada contra os hereges e, finalmente, uma Cruzada a serviço do rei da França. Além disso, Ramon acompanhou a liquidação do último reduto cristão na Terra Santa, São João de Acre.

Com essas influências, a Cruzada para Ramon não assumiu o sentido que tinha para os seus contemporâneos. Ele não concordava com o aniquilamento do infiel. A Cruzada era apenas mais uma forma para conseguir seu propósito missionário. Estava a serviço da predicação. Não via como contradição propor a conversão do infiel através da predicação ou da Cruzada. Fazer as pessoas estimarem e conhecerem Deus era a meta de toda a empresa luliana.

Há somente um ideário nas propostas de Ramon Llull a respeito da cruzada na Terra Santa: a conversão de todos os infiéis através da compreensão racional da maior verdade contida na fé cristã. Essa missão se encontra unida à ideía de cruzada preparatória e propiciatória. As duas coisas, missão e cruzada, são só uma, apesar de terem valores distintos para Llull.

Em Llull, a Cruzada não era um fim em si mesmo e nem o aspecto central das suas proposições, mas uma necessidade dos seus projetos de conversão. A empresa militar estava sempre subordinada aos objetivos espirituais e fazia parte da estratégia de Ramon

para conseguir seu propósito de unificação da humanidade sob a fé cristã. O uso da força era para obrigar os muçulmanos a ouvirem as predicações, já que sem isso eles não iriam assistir os missionários.

Na última década do século XIII, Ramon estava cada vez mais desiludido ao constatar que seus projetos não funcionavam como havia pensado nem dentro da Cristandade nem na hora de aplicá-los ao Islamismo e passou a insistir mais na necessidade da Cruzada.

Ramon tinha interesse pela persuasão em todos os níveis: intelectual e social. Isso explica a multiplicidade de formas que empregou – novelas, tratados, poemas. Modificou sua voz de acordo com o público e circunstâncias de sua fala. Não mudou apenas o estilo, mas suas posições políticas.

Oscilou entre pacifismo e belicosidade, em alguns momentos pensando no ambiente ou temperamento de uma corte real ou papal. A tolerância ou intolerância demonstrada, por exemplo, contra os judeus, era medida em grande parte pelo público ao qual dirigia suas obras – para uma Maiorca marcada pelo pluralismo, redigiu o Livro do gentio e dos três

sábios, mais conciliatório, para o ambiente parisiense, escreveu Félix, o Livro das Maravilhas, com um tom mais anti-semita.

Ser filósofo ou teólogo era uma coisa puramente acessória aos seus propósitos. Não lhe interessava formar uma doutrina ou propor um sistema filosófico novo. O que desejava era criar uma Arte de encontrar a verdade que fosse completamente prática e servisse de base para a conversão dos infiéis e a salvação do mundo.

Aprendeu árabe por defender um apostolado mais amplo, dedicado, principalmente, à refutação da doutrina islâmica, que considerava incompatível com os dogmas católicos.

Nunca pensou em se restringir à Maiorca, ainda mais porque seu porto lhe dava fácil acesso ao continente africano e ao Oriente.

Defendia, ainda, que fé e razão não eram contraditórias e estavam a serviço da mesma causa. Porém, no debate com o infiel a razão teria o papel mais relevante, já que este não desejava trocar uma crença por outra, mas, partindo da crença, desejava entender.

Sua estratégia para realizar as discussões consistia em não atacar os erros dos infiéis, mas dizer-lhes que se encontrassem erros em sua fé, cristã, converter-se-ia. Ao invés de colocar o adversário na defensiva, Ramon dava-lhes a ofensiva, proporcionando uma oportunidade para o adversário e tentando reduzir a hostilidade.

Acreditava no bom exemplo do fiel cristão como arma para atingir seus propósitos. Defendia que seguir uma vida virtuosa seria o melhor caminho para alcançar a salvação e que, ao verem o exemplo, os infiéis se converteriam. Além disso, os verdadeiros crentes teriam que estar dispostos a utilizar a arma espiritual suprema: o martírio – maior prova do amor do cristão a Deus.

O auto concebido apóstolo Ramon tinha necessidade de divulgar sua mensagem. Construiu sua imagem com essa finalidade. Era o exemplo do bom cristão, dedicado e, mesmo assim incompreendido. Tudo era válido para que pudesse obter apoio para os seus projetos de fundação de escolas missionárias para o ensino das línguas dos infiéis e para a sua cruzada de predicação.

Ramon não obteve muitos êxitos durante sua vida. Encontrou vários entraves para difundir suas idéias.

Havia a dificuldade dos indivíduos imersos no universo de uma religião para adaptar-se a um universo mental consideravelmente diferente. Além disso, haviam as resistências encontradas por Ramon devido ao seu peculiar método de argumentação e as propostas sobre as quais se baseava. Seu ideal de cruzada era utópico e não interessava à corte papal, já que ele não aceitava a definição ampla que o termo havia adquirido em sua época e insistia para que as expedições fossem utilizadas exclusivamente contra os infiéis a fim de convertê-los.

As dificuldades de comunicação que poderia ter um homem autodidata, chegado de uma ilha do Mediterrâneo, com propósitos intelectuais centrados nos problemas relacionados com o Islã, em um ambiente fechado com problemas e métodos próprios podem ajudar a entender a pouca receptividade que alcançou em Paris.

Além disso, Llull criou seu projeto missionário em Maiorca, onde conheceu, em sua maioria, muçulmanos escravizados ou transplantados por razões políticas e econômicas, portanto, artificialmente reagrupados.

Quando mais tarde transportou seu projeto para sociedades muçulmanas de outras regiões, este deixou de ser eficaz, o que o deixou perplexo e desconcertado, sendo ele incapaz de admitir esse fato, devido ao seu apego ao seu ideal. O outro, o muçulmano construído em seus textos com base em suas observações nesse ambiente restrito não era o mesmo que encontrou em Tunis ou Bugia. Lá eles eram interlocutores vivos e autônomos que ele não poderia manejar como quisesse.

Acrescentem-se ainda, a estranheza que deve ter causado sua Arte, repleta de figuras geométricas, tão diferentes de tudo o que haviam visto até o momento. Além disso, sua

linguagem filosófica, o modus loquendi arabicus, com um vocabulário de derivados – bonificativo, bonificável, bonificar – era totalmente estranho à audiência.

Além disso, a Idade Média dava pouca importância à originalidade. Os maiores círculos de influência não eram permeáveis às idéias inovadoras. A chance de sucesso era maior para aqueles que seguiam as propostas em voga, coisa que o maiorquino não fez.

Acreditamos que não existiu na Idade Média o diálogo inter-religioso. Este seria inviável em um contexto com religiões já constituídas em contentores identitários e apoiadas em estruturas de poder, onde o menor resvalo poderia reativar a violência latente.

Esse mundo teocrático não dava razão às outras crenças. Cada uma se achava detentora da verdade e possuidora da chave para a felicidade eterna. O único contato possível era a controvérsia, na forma de disputas, predicação ou escritos polêmicos.

Llull não era pacifista ou tolerante. Desejou a conversão da humanidade ao Cristianismo. Nunca defendeu a tolerância religiosa. Não se eximiu de propor a coação. Ao defender a existência de uma audiência cativa para que os missionários propagassem o Cristianismo latino, Ramon apenas trocou a privação imposta aos muçulmanos: ao invés de serem privados de suas vidas, seria cerceada sua liberdade até que se convertessem.

A compenetração entre os aspectos políticos e religiosos não permitiria falar da sociedade medieval como laica ou tolerante. Seria anacrônico exigir de um homem do século XIII que tivesse resolvido o problema da tolerância religiosa quando, no século XXI, grande parte do mundo o tem mal resolvido ou ainda por resolver.

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