O termo “transferência” é mencionado por Freud, pela primeira vez, ao final da história clínica conhecida como “O Caso Dora”20 (1905). Depois o termo retorna em Conferências Introdutórias (1916-1917) e em Análise Terminável e Interminável (1937). Contudo, é em 1912, com A Dinâmica da Transferência, que ele dedica um artigo à transferência no processo psicanalítico e explica seu papel.
Nesse texto memorável, ele diz ser nos primeiros anos de vida, ou seja, quando ainda não há uma escolha consciente, que o sujeito consegue um “método específico próprio” de relação objetal (em quê condições apaixonar-se, como buscar satisfação, etc.). Esse método estabelece o
modo como um sujeito se dirige a outro e ele se repete, afirma Freud, em todas as relações do sujeito, com pequenas modificações. Trata-se de um “clichê estereotípico” (FREUD, 1912a, p.111). Em outras palavras, ele nos conta que o método é inconsciente e que bem cedo o sujeito é
colocado em uma estrutura, que define seus modos de relacionamento. Note-se, de início, que transferência implica o inconsciente, o que abala a ideia de intersubjetividade e de comunicação, conforme presente na esfera da Fonoaudiologia e das ciências humanas em geral.
De acordo com Freud, de todos os impulsos que determinam o curso da vida erótica, somente uma parte atravessou todo o processo de desenvolvimento psíquico e está voltada para a realidade (para a consciência, lida por Lacan como “imaginário”). Parte essencial permanece afastada da realidade - tanto os impulsos inconscientes, quanto a parte consciente podem impedir que o sujeito encontre plena satisfação naquilo de que dispõe na realidade. Esse fundo de
32 insatisfação é o motor da repetição do método a cada novo encontro com uma nova pessoa – envolvendo aí, naturalmente, o encontro com um clínico. Em outras palavras, o médico será incluído na estrutura do paciente. A hipótese freudiana é a de que o investimento libidinal21 está
ligado a um dos clichês estereotípicos inconscientes. Apesar de haver peculiaridades na transferência com um clínico, ela também é estabelecida por moções inconscientes que, segundo Freud, respondem por duas características enigmáticas da transferência: (1) é muito mais intensa em pessoas em análise; e (2) em análise, a transferência consiste na maior resistência ao tratamento. Em relação à primeira hipótese, ele logo a descarta, dizendo que as “características da transferência não devem ser atribuídas à Psicanálise, mas sim à própria neurose” (ibidem, p.113). Quanto à segunda questão, a da resistência, ele afirma que, na situação de tratamento, a parte da libido que se encontra dirigida para a realidade é diminuída e a parte inconsciente, aumentada: a libido entra em processo regressivo e o analista representa força contrária – esse conflito aumenta a força do impulso inconsciente, que impõe resistência ao trabalho de análise. A diminuição da atração pela realidade é outro obstáculo - a análise, conclui Freud, deverá lutar tanto contra resistências inconscientes, quanto conscientes.
Como vimos acima, a transferência é um método e ele entra em operação tão logo algo (da realidade ou do inconsciente) possa ser transferido para a figura do clínico. Essa transferência será motor de associações que logo manifestarão sinais de resistência. Explica Freud:
o paciente está em situação transferencial, ele faz uma associação e esse elemento associativo, que o alivia, também é ameaçador porque faz o analista chegar mais perto do recalcado. Por isso, só se pode explicar o
papel da transferência no tratamento analítico se considerarmos suas relações com as resistências (ibidem, p. 116).
21 Freud, em seus primeiros trabalhos define libido como sendo o impulso vital para a auto-preservação da espécie
humana, e compreende-a como energia sexual no sentido estrito, como o fenômeno do "impulso" do desejo e do prazer. Mais tarde, ele volta a enfatizar que o impulso de auto-preservação tem origem libidinosa, e confronta a libido com o instinto de morte. Em seus escritos posteriores, especialmente em “Além do Princípio do Prazer” (1920), ele usa, em vez da palavra libido, um sinônimo, Eros, que descreve como sendo a energia que impulsiona a vida. Na obra “Em Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921), ele definiu a libido como sendo a "energia de tais instintos, que tem a ver com tudo o que pode ser resumido como o amor." (FREUD, 1921, p.59). Já a imagem que nos dá Lacan da libido é de um orgão-parte do organismo, na medida em que ela vem se inserir em um dos orifícios do corpo, no buraco cuja borda é a zona erógena e ao mesmo tempo como órgão instrumento, enquanto superfície de movimento rotacional que introduz o limite do ser do organismo, fazendo seu recorte.
33 Note-se que transferência e resistência caminham lado a lado – conflito essencial que, nem de perto, é considerado pelos adeptos da intersubjetividade. Freud faz da transferência meio para a manifestação da resistência – a relação afetuosa que se estabelece entre paciente e analista, observa Freud, é propícia a isso. Na relação clínica, há transferência de sentimentos afetuosos22,
mas também de sentimentos hostis que, quando apontados, são desvinculados da figura do clínico. Isso não acontece com sentimentos afetuosos – eles são necessários porque garantem a continuação do tratamento. Vê-se aí colocada a importância do manejo da transferência (negativa e positiva).
A transferência negativa é, de acordo com Freud, muito comum nas instituições. Se não é reconhecida e apontada, o tratamento corre perigo: o paciente deixa a instituição na mesma condição em que chegou (senão em condição ainda pior)23. A transferência negativa pode vir, em
alguns casos, articulada à afetuosa – ela é, nessas situações, ambivalente, em apontamento de Bleuler (1911) – uma condição neurótica que coloca a transferência a serviço da resistência24. Quando o paciente experimenta forte resistência, afirma Freud, acaba por infringir a regra
fundamental da Psicanálise: “dizer, sem críticas, tudo o que lhe vier à cabeça”; ele esquece o motivo que o fez procurar o tratamento e não se deixa afetar pelo analista.
Falar em transferência e resistência é falar do inconsciente. Assim, se o analista se aproxima de impulsos inconscientes (recalcados, não recordados), a resistência se aprofunda. Tendo em vista a atemporalidade do inconsciente, esses impulsos insistem - o paciente vê as manifestações desses impulsos como realidade: “ele não tem noção de que o que ele vive com o analista é reedição de um já vivido”. O manejo dessa situação, que ocorre em virtude da transferência, envolve “ajustar os impulsos emocionais do paciente à história de sua vida e submetê-los à consideração intelectual” (FREUD, 1912a, p. 119). Enfim, do manejo da
transferência depende a sustentação do tratamento.
22 Para Freud, a transferência positiva envolve sentimentos amorosos, mais admissíveis à consciência do que os
eróticos. A isso ele acrescenta que, teoricamente, toda relação está vinculada, em sua origem, à sexualidade: “originalmente, conhecemos apenas objetos sexuais” (FREUD, 1912a, p.116).
23 Essa observação é de grande importância nesta tese. O paciente que motivou esta discussão foi atendido numa
instituição.
24 Na paranoia, só há transferência negativa (sem ambivalência). Não há, nesse caso, possibilidade de influência ou
34 Em “Recomendações aos médicos que exercem a Psicanálise” (FREUD, 1912b), texto em que Freud apresenta o método (regra fundamental e manejo da técnica) que, como ele cita, “alcançou com sua experiência, ao longo dos anos”25-, a esperança, confessa, era de que jovens
médicos pudessem considerar essas técnicas quando exercessem a Psicanálise. No elenco das recomendações, há aquela que introduz a problemática do amor de transferência e da necessidade de evitar envolvimento amoroso do psicanalista com pacientes. O analista, diz Freud, “deve, então, ter uma frieza” (ibidem, p. 129) para poder escutar o paciente e identificar o material inconsciente. Na mesma direção, deve recuar frente a um movimento e estabelecer intimidade ou atitude de confidência com seu paciente, “como se intimidade fosse para ser retribuída” (ibidem, p. 131 ).
Nenhum tipo de envolvimento é recomendado porque o analista perde posição ao se afastar de princípios psicanalíticos e se aproximar de um tratamento por sugestão. Pode acontecer, se o analista sucumbir a tentações, de o analisante achar “a análise do médico mais interessante que a sua própria” (ibidem, p.131) - uma nítida inversão de papéis. Um tratamento apoiado na sugestão pode até fazer o paciente revelar rapidamente acontecimentos conscientes, mas não “abrir” o inconsciente. A experiência mostra, segundo Freud, que ele se torna mais resistente – e a transferência e seu manejo se tornam tarefas difíceis. Em benefício da análise, qualquer manifestação de intimidade é desaconselhada.
Nesse ponto, Freud enuncia a posição do psicanalista no tratamento: “ele deve ser como um espelho para o paciente (...) mostrar-lhe apenas o que lhe é mostrado” (ibidem, p.131). O analista também não é um professor, alguém que estabelece metas de acordo com seu planejamento. Em Psicanálise, é preciso guiar-se pelas capacidades e desejos do paciente: “nenhuma atividade mental soluciona os enigmas da neurose. Isso só acontece quando se obedece à regra fundamental da psicanálise” (FREUD, 1912 a, 118): deixar falar o paciente. O lado do analista é o da escuta. Essa é a dissimetria fundante do método analítico que o afasta, portanto, de comunicação (conhecimento mútuo) de relação pedagógica ou de relação íntima (amorosa ou não) entre sujeitos. Na Psicanálise, “a real dificuldade (...) é aquela que reside no manejo da transferência” (FREUD, 1914, p. 169).
25 Como se sabe, Freud começou com o método da hipnose, mas não eram todos os pacientes que se submetiam a
35 Vejamos: quando um/a paciente se apaixona pelo analista, a situação é complicada e remete a uma face importante da técnica. Há dois desfechos possíveis, de acordo com Freud: (a) há uma união entre paciente e médico; ou (b) o tratamento é abandonado. No segundo caso, é provável, diz o autor, que o/a paciente procure outro analista por quem se enamorará (em razão de sua neurose) e, outra vez, abandonará o tratamento26. O analista deve, portanto, manter
“frieza” por admitir que “o enamoramento da paciente é induzido pela situação analítica e não
pela pessoa do médico” (FREUD, 1915, p.178) (ênfase minha). O enamoramento de pacientes na
transferência é, porém, correlativo à perda de compreensão (e interesse) pelo tratamento - o analista deve ter claro que enamoramento é expressão de resistência. Qual seria, então, o manejo deste “amor de transferência”? É exigência da técnica analítica, indica Freud, que o médico “negue a satisfação exigida pela paciente enamorada”, embora mantendo sua necessidade e o anseio do/a paciente uma vez que esse amor é o motor que impulsiona o trabalho e a efetuação de mudanças. Então, conclui Freud, o analista não deve se afastar do amor transferencial, mas não deve retribuí-lo27. É impossível combinar o relacionamento amoroso com o tratamento analítico. Esse amor dirigido ao analista é genuíno, esclarece Freud, mas repetição de um clichê infantil. Não há novidade: a resistência “o encontra pronto”. O amor transferencial, ensina o psicanalista, mostra com maior nitidez sua dependência a um padrão infantil - é menos adaptável ou capaz de modificação. Em resumo, o amor de transferência “é provocado pela situação analítica, intensificado pela resistência e menos sensato porque não considera a realidade” (obedece ao princípio do prazer):
Quando o tratamento analítico é instituído, o amor é evocado. Assim, para
o analista, esse amor não é mais do que consequência inevitável
da situação analítica e, por isso, não deve tirar qualquer vantagem pessoal disso. (ibidem, p186).
O analista não deve retribuir esse amor por motivos técnicos e éticos, sublinha Freud.
26Interromper o tratamento envolve o fato de que o/a paciente mantém sua neurose e todos os problemas que dela
decorrem – o amor continua existindo (oculto e não analisado).
27 Retribuir constituiria uma derrota para o tratamento: o/a “paciente obteria êxito em atuar, ou seja, em repetir o
36 Em “O Caso Dora” (1905), ele admite ter fracassado por não ter se dado conta de um problema transferencial. Trata-se de um caso de histeria de uma jovem muito apegada ao pai, um homem doente. Devido a uma tuberculose, a família se mudou para uma cidade pequena no sul da Áustria, cujo clima era propício ao tratamento. Ali, ficaram por dez anos. Os primeiros sintomas neuróticos de Dora apareceram aos oito anos (uma dispneia crônica diagnosticada como distúrbio puramente nervoso). Depois disso, outros sintomas surgiram: enxaqueca, tosse nervosa, perda completa da voz, entre outros. O gatilho para a procura do tratamento foi um episódio em que Dora “perdeu a consciência”.
De acordo com o pai de Dora, quando a família se mudou, uma amizade íntima com um casal (K.) foi iniciada. A Sra. K cuidou do pai de Dora durante sua longa doença e o Sr. K era muito amável com a moça (dava presentes e passeava com ela). Dora conta que, em um desses passeios, Sr. K lhe fez uma proposta amorosa (acontecimento que foi negado por ele: ela devia ter “imaginado” a cena que descreveu). Depois disso, Dora pediu que seu pai rompesse ligações com a família K sob o argumento de que “sentia-se imensamente grato” pelos cuidados que haviam sido dispensados a ele. Seu pai, no entanto, não acreditava que o Sr. K pudesse tê-la assediado.
Durante o breve atendimento de Dora, dois sonhos foram relatados. O primeiro era recorrente e o segundo “preencheu uma lacuna da memória” e permitiu tocar a raiz de um de seus sintomas, diz Freud. Entretanto, a análise foi interrompida por “um erro”: o não reconhecimento de uma questão transferencial, que era crucial à continuidade do tratamento. Trata-se do seguinte sonho:
“Uma casa estava em chamas. Papai estava ao lado da minha cama e me acordou. Vesti-me rapidamente. Mamãe ainda queria salvar sua caixa de jóias, mas papai disse: `Não quero que eu e meus dois filhos nos queimemos por causa da sua caixa de jóias.’ Descemos a escada às pressas e, logo que me vi do lado de fora, acordei.”
No dia seguinte deste relato, Dora recorda que todas as vezes, depois de acordar, sentia cheiro de fumaça, e isso remetia ao fogo. No entanto, além disso, também indicava que o sonho se relacionava de alguma maneira com Freud, seu analista, porque, por vezes, quando a paciente
37 afirmava que nada havia por trás disto ou daquilo, ele costumava responder: “onde há fumaça há fogo.” E ela acrescentou que o Sr. K. e seu pai eram fumantes apaixonados, como o próprio Freud, inclusive. Ela também acreditava lembrar com certeza que o cheiro de fumaça não havia aparecido pela primeira vez apenas na ocasião do último reaparecimento do sonho, mas também nas três vezes em que ele ocorreu em L.
Freud considerou que o fato de que a sensação da fumaça só havia surgido como um acréscimo ao sonho, deveria ter tido que superar um esforço especial do recalcamento. Provavelmente, pontuou Freud, se relacionava com o pensamento mais obscuramente representado e mais bem recalcado no sonho, ou seja, a tentação de se mostrar disposta a ceder ao homem. Sendo assim, conclui, dificilmente poderia significar outra coisa senão a ânsia de um beijo, que, trocado com um fumante, necessariamente cheiraria a fumo. Os pensamentos ligados à tentação, portanto, pareciam ter remontado à cena anterior e revivido a lembrança do beijo ocorrido no lago, contra cuja atração sedutora, Dora se protegera, a seu tempo, por meio do asco. Por fim, considerando os indícios de uma transferência, posto que Freud também era fumante, ele chegou à conclusão de que um dia, durante uma sessão, provavelmente lhe ocorrera que ela desejaria ser beijada por ele. Esse teria sido o pretexto que a levou a repetir o sonho de advertência e a formar a intenção de interromper o tratamento.
Freud assumiu não ter conseguido fazer manejo adequado da transferência – não conseguiu “dominar a tempo a transferência”. Sempre lhe pareceu que Dora o substituía por seu
pai (fazia comparações entre ambos). Mas, em uma determinada sessão, ela transferiu uma
situação vivida com o Sr. K para a figura do analista (Freud): “abandono de sua casa”, insinuando “abandonar o tratamento”. Freud afirma não ter podido escutar essa advertência a
tempo. Assim, diz, ela se vingou dele como queria vingar-se do Sr. K. Ao invés de reproduzir
suas lembranças, ela atuou. Ela não poderia ter se vingado de maneira mais eficaz, acrescenta Freud, do que demonstrando a incapacidade dele como analista.
No posfácio acrescentado ao relato, Freud afirma que Dora abandonou o tratamento por “fatores inerentes ao caso”, ou melhor, a transferências de formações de pensamentos e fantasias inconscientes, “com a particularidade de substituir a pessoa anterior pela do médico” (FREUD, 1905, p.74): transferências envolvem, então, um endereçamento deslocado porque há mais que dois numa relação que, por isso, não pode ser vista como “intersubjetiva”. Ele acrescenta:
38 “Algumas transferências têm conteúdo idêntico ao modelo anterior, diferenciando-se dele apenas pela substituição da pessoa anterior pela do médico. Outras, revisam o conteúdo, subliminando o indesejável” (ibidem, p. 74).
A dificuldade implicada na transferência, pontua Freud reside no fato de que o analista trabalha a partir de indícios ínfimos. É a transferência que produz barreiras para o tratamento mas, através dela, o paciente pode vir a ter contato com o que foi construído em análise.
Freud ensina, portanto, que transferência é um método inconsciente de estabelecer relação objetal. Ela corresponde ao modo singular de o sujeito se dirigir a outro. Trata-se de um “clichê estereotípico”, definido muito cedo na vida e que, como método, retorna a cada novo estabelecimento de relação. Transferência não é acontecimento exclusivamente analítico, mas tem na clínica função especial e decisiva. Freud fala em “amor de transferência” como meio de resistência, - o que torna seu manejo condição à sustentação do tratamento. Central no conceito freudiano de transferência é a ideia de repetição – o sujeito transfere situações vividas para a figura do analista e, portanto, como disse, na Psicanálise, há ao menos três implicados na transferência. Lacan incidirá sobre o conceito freudiano de transferência, sem retirar dele o essencial: é um método.