Se por um lado o discípulo de Zen conta com um norte, um ideal, que é por exemplo o Satori ou chegar ao estado de Buda, por outro lado, no caso da Psicanálise não existe – ou pelo menos não deveria existir – um ideal almejado, e o que se sabe sobre o que se torna no final de uma análise parece muitas vezes um enigma, uma vez que culmina exatamente na expressão de um resto que fica de fora, o objeto a.
Desta feita, esta passagem não pode ser toda simbolizada, já que “o fim da análise é, a saber, a inigualdade do sujeito a toda subjetivação possível de sua realidade sexual e a exigência de que, para que esta verdade apareça, o psicanalista, já seja a representação do que mascara, obtura, tampona essa verdade, e que se chama o objeto a.” (LACAN, 1967- 1968/[inédito], p. 135).
O dispositivo do passe inventado por Lacan exclui a possibilidade de que outro que não faça parte deste processo o possa desqualificar, ou mesmo o validar. Será que Lacan entendia, tal qual os mestres Zen, que somente aquele que passa pela experiência é que pode legitimá-la?
A psicanalista Collete Soler, a respeito do dispositivo do passe, vai dizer que o passe tem um papel crucial para o sujeito que está no fim de sua análise, sendo um dispositivo que destaca a divisão do sujeito e sua impossibilidade de se traduzir como inteiro, como Um. O passe seria um dispositivo seguro onde “o passante vem testemunhar uma mudança” (SOLER, 1995, p.17).
Dentro da condução da análise existe a dimensão do objeto a. O fim da análise, o passe, deve levar em conta a dimensão do a, uma vez que este surge a partir do processo de separação do sujeito secundário ao processo da alienação ao grande Outro, e resulta em uma perda do sujeito e do Outro. E esta é uma perda de sentido ou de ser. O conceito de objeto a pode ilustrar claramente como o sujeito se serve do simbólico, mas sempre apontando a falta, o furo, o vazio. A dimensão do objeto a leva em conta o resto, o que restou do processo de alienação e separação do sujeito, e sendo assim,
O final da análise consiste na queda do sujeito suposto saber, e sua redução ao advento desse objeto “a”, como causa da divisão do sujeito, que vem ao seu lugar. Aquele que, fantasmaticamente, joga a partida com o psicanalisando como sujeito suposto saber, a saber, o analista, é aquele (o analista) que vem, ao término da análise, a não ser mais que este resto. Esse resto da coisa sabida que se chama o objeto “a” (...). (LACAN, 1967-1968 /[inédito], pp. 89-90).
Ou seja, o ato analítico enquanto tal leva em conta a dimensão do objeto, não apenas em seu momento final, mas a condução do processo é enviesada por este resto. Neste aspecto temos o ato analítico com toda a sua especificidade, a de levar em conta o objeto a, uma vez que este (o objeto a) é impossível de ser eliminado, posto que já é em si o resto da operação de inserção do sujeito na linguagem.
Uma ação, seja de palavra ou de gesto, que leve em conta o que fica de fora em sua conclusão é uma ação50 que tem o tom de ato, e que instaura em si mesma a possibilidade de
enfrentar o sujeito em sua divisão, e de não concluir sem levar em conta o não-senso.
50 O que não necessariamente significa ação motora, ou motricidade. Lacan marca a diferença entre ato e
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesta dissertação, resumidamente, efetuamos o seguinte percurso: iniciamos com um diálogo com o oriente via Lacan e Lévi-Strauss. Este, em sua temática, amparou nossa articulação teórica entre a Psicanálise de Lacan e o Zen Budismo, uma vez que nestes diálogos com o oriente apresentamos o interesse de Lacan principalmente sobre o Taoísmo, dentre outros aspectos como a língua e a arte oriental. Também via Lévi-Strauss apresentamos algumas facetas da cultura nipônica, elementos que influenciaram diretamente o desenvolvimento do Zen Budismo. Desta forma, mesmo que não estivéssemos inicialmente falando sobre o Zen nestes diálogos, já estávamos adentrando este tema indiretamente. Tratamos em seguida do posicionamento da Psicanálise lacaniana em relação à noção de sentido, posicionamento este de subversão do sentido. Da mesma maneira, no capítulo sobre o Zen, abordamos o seu método em que é enfatizado o não-sentido. E assim articulamos, no último capítulo desta dissertação, o método da Psicanálise e o método do Zen, privilegiando o conceito de ato nestas correlações, e desta forma estabelecemos elos de similaridade e de disjunção entre ambos partindo principalmente de menções de Lacan ao Zen.
A partir do exposto nesta dissertação, verifica-se então que a Psicanálise subverte a lógica do sujeito cartesiano, e para formular o estatuto de sujeito não se equivale ao sujeito do “Cogito” de Descartes. Da mesma maneira, o Zen não se interessa pelo sujeito apenas pela via da consciência ou do pensamento, amparando-se em métodos que derrogam o sujeito do lugar da certeza da razão e do Eu penso. Em ambas as situações (Psicanálise e Zen), trata-se de uma desvalia do sujeito enquanto alocado no Eu, no Ego, no pensar ou no sentido.
A Psicanálise de Lacan, como vimos, também se interessa pela dimensão do vazio tal qual o Taoísmo e o Zen. A construção da teoria lacaniana possui conceitos de difícil localização simbólica, como o “objeto a” e o “Real”. Se de certa forma tais conceitos só se formalizam posteriormente no ensino de Lacan – principalmente após seu seminário X, A Angústia (1962-1963/2005) –, existe em seu ensino uma função significante que abarca o vazio mesmo antes de tais formalizações conceituais. Existe desde seu início, um interesse da Psicanálise sobre aquilo que fracassa no sentido. É desta forma, portanto, que entendemos sua citação do Zen na abertura de seus seminários (já citado anteriormente), em seu seminário de número 1, onde Lacan inicia o seu ensino fazendo alusão ao Zen:
O mestre interrompe o silêncio com qualquer coisa, um sarcasmo, um pontapé. É assim que procede, na procura do sentido, um mestre budista, segundo a técnica Zen. Cabe aos alunos, eles mesmos, procurar a resposta às suas próprias questões. O mestre não ensina ex-cathedra uma ciência já pronta, dá a resposta quando os alunos estão a ponto de encontrá-la. Essa forma de ensino é uma recusa de todo sistema. Descobre um pensamento em movimento – serve entretanto ao sistema, porque apresenta necessariamente uma face dogmática. O pensamento de Freud é o mais perpetuamente aberto à revisão. É um erro reduzi-lo a palavras gastas. Nele cada noção possui vida própria. É o que se chama precisamente a dialética. (LACAN, 1953-1954/1983, p. 9).
E após essa sua abertura, Lacan discorre sobre os Escritos técnicos de Freud, como ele denomina alguns textos da obra freudiana, afirmando que toda sua obra não pode ser pensada dissociada da técnica. “Em certo sentido Freud nunca cessou de falar da técnica. Só preciso evocar perante vocês os Studien uber Hysterie, que não passam de uma longa exposição da descoberta da técnica analítica” (LACAN, 1953-1954/1983, p. 17).
O fato de se servir do sentido e do eu, sem contudo se restringir ao sentido e ao eu, mas abarcando o não-eu e o não-sentido, explicitam que a filosofia oriental, especificamente o Zen, se serve do vazio e do não-dualismo, opondo-se à visão dualista de “ou um ou outro”. E isto serve à Psicanálise enquanto inspiração metodológica, uma vez que a Psicanálise utiliza a fala sem se restringir ao sentido e aborda o sujeito sem o resumir ao Eu penso.
A proposta aqui foi a de colocar ao lado deste não-dualismo Zen, o conceito de Ato para a Psicanálise, enquanto se servindo de instâncias opostas do ser de modo a não se excluírem, como o “Cogito” o fazia. Existe uma similitude entre o método Zen amparado no não-dualismo e no vazio e o método da Psicanálise em sua transmissão. Porém existe também uma diferença importante se pensarmos principalmente em seu desfecho final, na dimensão do ato de conclusão destas experiências.
Vimos que dois principais métodos utilizados pelos mestres Zen são: o Koan e o Mondo. Ambos visam ao enigma e assim como a Psicanálise, também rompem com a lógica formal e dão espaço ao não-sentido. Estes dois métodos utilizados pelos mestres Zen constavam de tiradas enigmáticas (o koan) e questionamentos conduzidos pelo mestre (o mondo), a fim de impulsionar o Satori, a iluminação do discípulo, e também conferir seu atual estado de compreensão (esclarecimento para o Zen).
Se interpretarmos o funcionamento destes métodos – o Koan e o Mondo – de acordo com a psicanálise lacaniana, podemos dizer que operam de forma a instaurar uma separação, uma escansão entre o significante e o significado. No caso, tratam-se de um afrontamento via linguagem do discípulo pelo mestre, instauram a possibilidade de modificação subjetiva diante de um processo de decifração enigmática, algo muito semelhante ao método
psicanalítico, que visa a utilização da linguagem não circunscrita ao simbólico e ao sentido. Segundo Lacan (1967-1968/[inédito], p.93), o ato diz algo, tem uma ponta significante, “sua eficiência de ato nada tem a ver com a eficácia de um fazer” (p. 80), mas não se instaura enquanto motricidade (p. 6). O ato segundo Lacan se “inscreve em um efeito de linguagem”, mas que isso não é o suficiente para o especificar. Lacan ao enquadrar o ato vai dizer que:
O efeito de linguagem em questão se dá em dois estágios. Ele supõe a própria Psicanálise, precisamente ela como efeito de linguagem. Em outros termos, ele só é definido pela realização da própria psicanálise. Mostramos que é necessário aqui redobrar a divisão, ou seja, que a psicanálise não poderia se instaurar sem um ato, sem o ato daquele que autoriza sua possibilidade, sem o ato do psicanalista, e que no interior desse ato da psicanálise inscreve-se a tarefa psicanalisante. (...). (LACAN, 1967-1968/[inédito], p. 145).
Se o ato se ampara na dimensão ética da análise é justamente por estar sustentando esta experiência de divisão do sujeito e de seu resto, o objeto a. O ato analítico enquanto suportando a transmissão da Psicanálise, se instaura enquanto método ainda que categorizá-lo seja uma tarefa impossível – impossível, se formos contar com diretrizes de uma ação motora, de um fazer ou a descrição de um saber antecedente a experiência ocorrida a partir do avivamento do inconsciente em cada análise.
No Zen evidentemente não se trata da divisão do sujeito ou da sustentação de sua dimensão ética na técnica como apontando para esta divisão. Mas, tal como na Psicanálise, a transmissão da experiência Zen não se ampara pela via do sentido, como vimos, daí que é possível articular dimensões de atos de sustentação nesta dimensão de transmissão Zen à quebra de coordenadas estabelecida pelo analista em seu fazer, em seu ato de transmissão.
Ao falarmos de ato de conclusão, chega-se então novamente a uma dimensão importante de disjunção entre o ato no Zen e o ato analítico, ou seja, aqui enquadrar-se-á a especificidade do ato analítico como momento de passagem, como instaurando um fim na experiência em discrepância ao ato como suportando a experiência. Também enquadramos a disjunção em relação ao ato de fim no Zen, o Satori, e o ato analítico, uma vez que mesmo após o passe (ato de finalização do processo analítico) o sujeito permanece barrado, dividido, não sendo restituído do objeto pequeno a, e nem sendo tomado como parte de um todo ou de um grande Outro não barrado (A). O Zen, por sua vez, preconiza o ato de fim ou de conclusão como a ausência total de falta para o praticante, que se torna unificado, indiferenciado a todos os fenômenos e a si próprio, chegando a um estado de não-discriminação, não-dualismo, se
tornando não dividido em relação ao todo, e a si mesmo, sendo destituído da dimensão desejante (YOSHINORI, 2007, p. 265).
Desta forma, estabelecemos elos de similaridade e disjunção acerca do método da Psicanálise e o método Zen. A partir do conceito de Ato enfatizamos as homologias e distanciamentos do ato de transmissão e a especificidade do ato de conclusão em ambos.
Se para o Zen, como dito anteriormente, visa-se que em sua conclusão de processo, ou Satori, o discípulo chegue a um estado de indiferenciação, de totalidade, de iluminação e total ausência de falta ou desejo; para a Psicanálise, o ato final de sua conclusão, o passe, não restitui o sujeito de seu dejeto, pequeno a, nem retira a barra do sujeito perante sua falta, e assim este momento de conclusão tem como especificidade ser o que qualifica o analisante a ocupar o lugar de analista. Esta é sua diferença principal de ato em relação a qualquer outra dimensão de ato puro e simples (GUIMARÃES, 2007, p.13), ou do que tratamos aqui do ato enquanto transmissão.
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