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Em artigo recente, Suzana Fonseca61 procura “esclarecer as especificidades da

configuração de uma clínica de linguagem com afásicos e discutir limites e possibilidades dessa mesma clínica quando ela envolve o diagnóstico e o tratamento de pacientes com demências” (FONSECA, 2010, a sair). Note-se que estes objetivos são eminentemente clínicos - daí seu principal interesse nesta tese.

60 O título deste item repete o da tese de doutorado de Suzana Fonseca, defendida em 2002, no Programa de Estudos

Pós-Graduados em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem (LAELEPG em LAEL/PUC-SP). Meu objetivo foi prestar uma homenagem a autora, que participou (e participa) de forma importante de minha formação como clínica de linguagem com afásicos.

61 Fonseca tem destaque no campo da afasiologia não-médica. Ela desenvolveu questões teóricas e metodológicas e

formulou respostas e propostas clínicas relevantes, cuja originalidade é incontestável. Afetada que foi pelo encontro com afásicos desde os estágios obrigatórios do curso de Fonoaudiologia, ela parte para o mestrado : Afasia - a fala

em sofrimento, (FONSECA, 1995) e, depois, para o doutorado : O afásico na Clínica de Linguagem. (FONSECA, 2002). Nos dois casos, a autora contesta o discurso organicista sobre a afasia (Broca, Wernicke, Goldstein, Freud e Luria), a quem adere, em grande parte, a Fonoaudiologia, anulando a especificidade da afasia como questão teórico- clínica. Na contramão das propostas tradicionais, Fonseca propôs que a relação entre cérebro e linguagem fosse entendida como uma “relação de implicação” mais complexa do que a assumida no discurso da causalidade direta. Leis de referência interna da linguagem são invocadas como instrumento teórico-analítico de falas sintomáticas (com De Lemos e Lier-DeVitto). Articular língua-fala-sujeito permitiu refletir sobre a maneira singular que a língua movimenta a fala dos pacientes afásicos e a sobre relação deles com a fala (fala própria e fala dos outros). Daí, parte ela, para questões clínicas, que serão apresentadas nesta parte da tese.

84 A autora inicia o texto lembrando que, segundo sua formulação (FONSECA, 2002, 2009), a afasia implica uma condição sintomática tripla (não dupla, como postula a Medicina):

há um “cérebro ferido” (LURIA, 1947), uma “fala em sofrimento” (FONSECA, 1995), mas há, também e principalmente, um “drama subjetivo”, que é instaurado pelo efeito que a fala afásica produz no próprio afásico (FONSECA, 2002). Colocar o problema nesses termos, é indicar que a etiologia não esgota a questão - nem sobre a linguagem,

nem sobre o sujeito ( FONSECA, 2011).

A lesão marca o corpo-falante que, por efeito dela, fica, de uma hora para outra, no centro de um “drama subjetivo” - entre uma condição muito estranha e, ao mesmo tempo familiar, diz Fonseca. De fato, esclarece a autora: o afásico é falante, mas não o mesmo de antes. Ela traz para falar dessa condição tão enigmática o escritor português, Antônio Cardoso Pires (que ficou afásico por algum tempo), em De Profundis. Valsa Lenta:

“espantoso como bruscamente o meu eu se transformou ali noutro

alguém, noutro personagem menos imediato e menos concreto [...] eu tinha-me transferido para um sujeito na terceira pessoa [...] Ele, o Outro.

O outro de mim” (PIRES, 1997, pp. 25-26).

Não é mesmo nada fácil apreender essa confusão de posições expressa nas expressões “eu como outro” e “outro como eu” que o conduz ao limite de uma “impotência verbal”. Tocamos, aqui, a própria definição de sintoma como perda da ilusão de ser fonte do dizer e da ilusão de semelhante. Afasia, de fato, diz Fonseca: “coloca o sujeito em sofrimento”, põe em relevo o duplo efeito da afasia: (1) destituição subjetiva – perda de vez e voz na linguagem – e, (2) perturbação no laço social. A título de ilustração, o registro de um fragmento de diálogo numa entrevista realizada uma senhora de 65 anos, vítima de um AVE:

85 T1: E quando ligaram pra casa da senhora,

quem que atendeu?

P2: Ah ... da, da, da. Ah ... da dá (aponta para a porta).

T3: O seu Carlos? E ele veio contá pra senhora? O que a senhora achou?

P4: Da, da::i::a:: T5: Gostou?

P6: Ah ... da, da, da (pausa) T7: Não tá lembrando?

P8: (escreve) “5 meses” T9: Cinco meses?

P10: Ah ... da, dada:: (meneio afirmativo com a cabeça). Ah ... da da.

T11: Cinco meses esperando?

P12: Ah ... da a da. Da:, da, da:: (chora, fazendo meneio afirmativo com a cabeça) Face a estes pacientes fica o clínico de linguagem. É usual e mesmo assumido como incontornável que a condição de fala do afásico impede sua comunicação com o terapeuta. Desse modo, geralmente, o afásico vem com acompanhante para a sessão clínica e é seu acompanhante que informa e responde ao clínico que, uma vez informado, estabelece procedimentos (exercícios de repetição, e outros), como vemos na clínica feita por Schuell e Anna Basso, por exemplo.

Schuell preocupou-se com a classificação das afasias porque elas ignoravam os sintomas ou, então, indicavam alguns que não ocorriam na fala de pacientes. Ela se propôs a “elaborar uma classificação mais adequada, o que não foi possível dado que os testes elaborados por ela também apresentaram problemas”, como assinala Landi (2000, p.6). Para Schuell, os resultados de seus testes eram instáveis/inconclusivos e que os sintomas variavam num curto período de tempo - ainda que os pacientes estivessem neurologicamente estáveis. Frente a tal constatação, Schuell elaborou um teste que, segundo pretendeu, deveria produzir uma classificação mais confiável. Para essa autora, sem “o estabelecimento de um perfil” que permitisse estabelecer um diagnóstico mais objetivo, não seria possível realizar um planejamento terapêutico confiável. Em Schuell, menção ao “diálogo” acontecerá na instância da terapia em que há interação face-a-face, mesmo que ela seja governada pela técnica de “bombardeio auditivo” para amenizar a dificuldade de

86 “retenção verbal”. A meta dessa terapia é expandir vocabulário (o que supõe, como conseqüência, a ampliação da habilidade dialógica ou, melhor, da interação social).

Anna Basso, diferentemente de Schuell, declara que a direção do tratamento das afasias deve ser, primariamente, a de re-instaurar a habilidade comunicativa e, para tanto, o terapeuta deve partir (das) ou apoiar-se nas capacidades residuais do paciente. De todo modo, essas capacidades devem ser “objetivamente” detectadas: o programa reeducativo não deve ser baseado em uma “conversa”. Pensando assim, testes são aplicados porque, como mencionado, eles é que “darão respostas mais objetivas” (1997, p.21-22). Com a preocupação voltada para a “objetividade”, ela sugere que seja realizada uma “extensa avaliação” do paciente para que se venha a

“selecionar a terapêutica” mais apropriada, ou melhor, os exercícios de compreensão, de

expressão oral, de leitura e escrita e os articulatórios: os seus “exercícios de linguagem” - todos eles visando à eliminação das respostas “mal adaptadas” dos afásicos. Interessa, para esta tese, sublinhar o modo como eles deveriam ser conduzidos, segundo Anna Basso: “os exercícios

devem ser conduzidos na vivacidade da troca verbal entre terapeuta e paciente” (ibidem: 39), ou “no

diálogo”.

Fato é que alguém “fala pelo afásico”. Frente a tal cenário hegemônico, Fonseca propõe, ancorada na teorização da Clínica de Linguagem, ações clínicas bastante singulares, que têm como ponto fundamental “a sustentação do compromisso de dar voz e vez ao falante afásico, recolhendo como fala sua fala em sofrimento” (FONSECA, 2002, p.250). Para que esse fundamento (dar voz e vez ao afásico) se cumpra frente à heterogeneidade das manifestações afásicas (e a singularidade de cada paciente), a escuta mantém-se interrogante – ela garante a posição de saber sobre aquele paciente e sua fala.

Acompanhemos, então, a autora, quem nos diz que na instância diagnóstica, convoca-se o próprio afásico (e não informantes) – entrevistas, diz ela, não são anamneses (coletas de informações sobre a doença). O afásico vem com o que tem e o clínico recebe aquilo com o que

terá que se confrontar no tratamento (FONSECA, 2002, 2005, 2006, 2009; FONSECA &

VORCARO, 2006) :

no espaço clínico, ele [o afásico] pode ter a chance de apresentar, com seu corpo e sua palavra, a sua “queixa”, para que seu sofrimento possa se

87 transformar num “apelo singular” de mudança – um apelo dirigido àquele fonoaudiólogo. Resumidamente, o clínico não pode se esquivar, no atendimento do afásico, da “opacidade enigmática” da fala, que suspende o ideal de comunicação (FONSECA, 2010 – a sair).

A escuta clínica requerida deve suportar (1) o mal-estar de um sujeito na linguagem e (2) a singularidade de uma fala dessemelhante, distante da língua constituída. As entrevistas têm, portanto, dupla função: transferencial e diagnóstica. Importa assinalar: Fonseca menciona a transferência na clínica como base do tratamento – lembrando com Catrini (2005) que “a transferência [...] não é uma relação social ordinária” (CATRINI, 2005, p. 88) e completa :

A clínica envolve um “a mais” - um sofrimento que é efeito do sintoma - e que demanda um “a mais” do outro. Eu diria, com Freud, a clínica demanda um “a mais de amor” que corresponde, no caso da afasia, à abertura do clínico para uma diferença na fala que o destitui da posição de saber (FONSECA, 2010 – a sair) (ênfase minha)

Chamo a atenção, neste ponto, para os ingredientes invocados na transferência: uma escuta interrogante (sustentação da posição de suposto-saber) e, agora, “um a mais de amor” - a clínica demanda, então, “amor” nas duas direções, embora caiba ao clínico manter-se na dissimetria que lhe é conferida pela transferência: na posição de suposto saber para que o tratamento caminhe.

No que tange ao “avaliar” a linguagem, duas interpretações estão envolvidas: a

interpretação “em cena” e a interpretação “depois da cena” (LIER-DeVITTO & ARANTES,

1998) – ponto desenvolvido em diferentes trabalhos do Grupo de Pesquisa. Na avaliação da fala sintomática pode ser requerida (nos primórdios da formação, ela é essencial para a constituição da escuta, como vimos). Em causa está igualmente o efeito de falas no afásico. Fonseca propõe que se tenha três questões no horizonte :

88 (2) qual a relação que ela pode ter com a fala do terapeuta?;

(3) qual o efeito que ela produz na escuta do próprio paciente?

Importante é assinalar que, nas afasias (mas não só nelas), o corpo fala – vem como suplência da fala decaída, prejudicada. O corpo dramatiza o insucesso da fala e participa fortemente do diálogo através de gestos bruscos e fortes, choros, expressões facias, por exemplo (MARCOLINO, 2004; CATRINI, 2011). A entonação também se destaca e ganha relevo, e a escrita pode ser chamada a participar.

A terapêutica é dialógica, sem dúvida, e tem como diretriz “não calar o paciente” (FONSECA, 2012, p.249). Diálogo é movimento que não comporta previsibilidade - não pode saber o que o outro vai dizer, até que ele o diga. A Clínica de Linguagem não deveria se esquivar do “imprevisível que marca o encontro do paciente com o terapeuta e de ambos com o sintoma” (FONSECA, 2002, p.250). Entende-se porque, sendo dialógica, uma interpretação62:

não se realiza à revelia do dizer do paciente mas [...] incide sobre essa trama significante. Se a discussão dos casos pôde mostrar que não há regra ou norma para interpretar, há que se respeitar, contudo, uma condição essencial para que a interpretação não produza um efeito

disruptivo, que ela não retire o paciente da condição de falante quando ele procura sustentá-la (FONSECA, 2002, p. 249) (ênfase minha).

Se toda instância diagnóstica se apóia no “dar vez e voz” ao paciente, na terapêutica, afirma Fonseca : esse fundamento deve ganhar extensão. Acontece, porém, que a interpretação do clínico de liguagem procura fazer suplência aos descaminhos da fala e, nisso, ela se distingue fundamentalmente do que ocorre na clínica psicanalítica, como vimos. Ali a verdade está do lado do paciente – na fala, assim como o saber. Ele deve, portanto “associar livremente”. Falas sintomáticas (como a de muitos afásicos) não caminham ou se desventuram em direação ao abismo. O clínico, então, faz suplência – oferece contenção e contorno a elas – num ato de “amor

62 Remeto o leitor ao doutorado de Cláudia Pollonio (2011), que aprofunda a discussão sobre “interpretação” na

clínica de linguagem – texto que não pode ser explorado nesta tese porque o trabalho foi defendido pouco antes da finalização deste.

89 a mais”, de tentativa de manutenção do paciente na posição de falante. Fonseca alerta : não há regra ou norma para interpretar, basta respeitar a condição essencial para que ela não produza um efeito disruptivo que “retire o paciente da condição de falante quando ele procura sustentá-la” (FONSECA, 2002) .Talvez se pudesse dizer que asustentação e manejo da transferência dependa disso, dessa suplência interpretativa. Fonseca conclui: fim do tratamento não implica numa cura - afásicos não voltam à sua condição anterior de falante, embora mudanças aconteçam seja na fala, seja na posição de falante.

Psicanálise e Clínica de Linguagem, por terem a linguagem e a fala como centro de suas práticas, enfrentam a problemática da transferência na clínica. Ainda que o manejo seja necessariamente diferente, dada a particularidade dos enfoques teórico-clínicos que as mobilizam, a transferência na clínica joga papel fundamental em ambas. Vimos que o diálogo é essencial na Clínica de Linguagem e ele adquire, ali, perfil particular: define a natureza da interpretação que, mesmo podendo ser qualificada como “significante” (LIER-DeVITTO & ARANTES, 1998; FONSECA, 2002, 2010; POLLONIO, 2011) busca chegar a um sentido e sustentá-lo e, assim dar suporte à posição do sujeito como falante. O diálogo teria esta função: sustentar um falante na sua fala. Na Psicanálise, o diálogo vai para a sombra – não que ele não ocorra, mas uma diferença essencial é impressa pela “regra fundamental”: o lado do analisante é o da fala (da associação livre) e para o analista fica o lado da escuta flutuante. O diálogo é, de certa forma, dissolvido o que dá outro norte para conceitos que, muitas vezes, circulam em campos diferentes63. A regra fundamental, no caso da Clínica de Linguagem, ainda que envolva

o “fazer falar o paciente”, sustenta-se no diálogo, dissimétrico que é, como veio de enlaçamento entre falas e falantes. O formato da instância da Clínica de Linguagem tem como fonte aquele da Psicanálise. Este “parentesco” não configura uma identidade, como procurei indicar (escuta, interpretação e transferência adquirem contornos singulares em um campo e em outro)64 e como

pretendo que a apresentação do atendimento abaixo mostre.

63 Ver sobre o assunto da incorporação de conceitos de outro campo, Lemos, M.T. (2002), Landi (2000). Lier-

DeVitto (2005).

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