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Um dos desdobramentos da combinação de código e substância, virtualmente sancionada e institucionalizada pelo governo imperial japonês desde o século VI é o surgimento das Teorias de Japonicidade no começo do século XX ou nihonjinron tanto na literatura e meio acadêmico (BEFU, 1993; LINGER, 2001; 2003; SASAKI, 2009).

De maneira breve o nihonjinron pode ser entendido como a maneira de pensar o Japão e o povo japonês enquanto povo coeso, cujos valores embutidos são conhecidos no senso comum como a “exclusividade, homogeneidade, conformidade, dependência, mútua, orientação grupal e harmonia, em contraposição aos valores ocidentais” (SASAKI, 2009, p.111), visão não apenas do Ocidente sobre o oriente (SAID, 1990) como dos próprios japoneses sobre si mesmos.

Sasaki (2009) percebe como a formação da identidade nacional japonesa pelo nihonjinron se fundamentou principalmente pela constituição de uma perspectiva que 1) retirava qualquer traço de igualdade com o Ocidente e os países asiáticos vizinhos, como também 2) elaborava um discurso que prega a harmonia e unidade versus a valorização da individualidade e subsequentemente a diversidade, variações étnicas e até mesmo as intensas transformações históricas sofridas no país.

Como desdobramento, muito se discutiu na academia e na intelectualidade japonesa acerca do nihon-rashisa, as particularidades e essências do japonês e do nihon-teki, o estilo japonês. De acordo com a autora, tais discussões tinham pontos em comum:

“[1] A tendência de argumentar que a sociedade japonesa é mais singular que outras sociedades. Há uma insistência na tendência pronunciada de negar pontos em que a experiência japonesa apresenta interseção com as experiências compartilhadas por outras pessoas e sociedades e celebra apenas as feições da cultura japonesa que parecem ser únicas. [2] Todos os japoneses compartilham esses atributos, sem considerar as variáveis de classe, gênero, ocupação e outras estratificações, isto é, assumem que não há variação ou graus diferentes entre os japoneses. [3] A orientação grupal existe apenas marginalmente em outras sociedades, particularmente no Ocidente. Por sua vez, essa característica grupal é apresentada como sendo unicamente japonesa e que configura um padrão cultural dominante que sempre molda o comportamento japonês. [4] Os japoneses também parecem ter um valor diferente sobre as relações verticais タテ社会 [tate shakai] (NAKANE 1993 [1967]), se subordinando à demanda de um conjunto estruturado de relações hierárquicas. [5] A idéia de anistoricidade – como se os traços japoneses não dependessem de circunstâncias históricas, ou então, atemporais. [6] Finalmente, a preferência social por ‘consenso’ é ressaltada. Enquanto os mecanismos através dos quais diferentes interesses se agregam são raramente discutidos, sempre é afirmado que os indivíduos sacrificam seus próprios interesses para preservar a harmonia dentro do grupo ao qual eles estão filiados. Talvez assumam que os japoneses são socializados para compartilhar esses valores similares e que se pode dizer que o ‘consenso’ existe a priori.” (SASAKI, 2009, p.112)

Sendo o nihonjinron um ingrediente para pensar na identidade nacional japonesa42, a

própria intelectualidade nipônica pensou por um longo tempo na superioridade do povo japonês por conta de sua homogeneidade e ancestralidade divina, observada no Período Meiji até antes da Segunda Guerra com as políticas imperiais japonesas (BEFU, 1993) que unia,

42 É evidente que o nihonjinron e a fabricação da identidade nacional japonesa passaram por inúmeros revezes,

adquirindo variados tons com o passar dos anos, porém sempre marcando a insistência da idéia de homonegeneidade cultural do Japão e do povo japonês. Como nota Sasaki (2009), a história japonesa em torno de sua identidade ou da construção de um discurso nacional que sofreu mudanças ao longo do tempo, que em certos momentos vincula o Japão ao Ocidente versus pan-asianismo e que, em outros momentos, exclui o Japão do mundo Ocidental (SASAKI, 2009). A questão é percebida pela academia não-japonesa, observável nos vários estudos orientalistas (SAID, 1990) que estão em discussão até os dias de hoje.

como pudemos ver anteriormente, as idéias de nação, herança biológica e ancestralidade para a formação do japonês (LINGER, 2001) ou do “súdito japonês” (SASAKI, 2009).

Esta percepção de que os japoneses pensariam o mundo através de uma “mentalidade” restrita unicamente aos japoneses (SILVA, 2008) seria parte do discurso de nihonjinron e teria, portanto, raízes talvez na própria concepção do que o governo imperial japonês tinha da formação do Estado japonês. Para Sasaki (2009), foi com o término da Segunda Guerra que o nihonjinron se estabeleceu mediante a tensão entre identidade/território:

“Em relação às mudanças nas teorias da nação japonesa desde o período Meiji até o Japão pós-guerra, OGUMA (1998) argumenta convincentemente que o período pré- guerra foi dominado por uma crença de que o Japão era um Estado multiétnico e que foi apenas depois do final da guerra que o mito da etnicidade homogênea da sociedade japonesa se enraizou. Isso foi num tempo quando um número de não- japoneses morava dentro das fronteiras nipônicas e de repente o Japão foi despojado de seu império junto com a sua diversidade étnica, ao ser derrotado na Segunda Guerra Mundial em 1945.” (SASAKI, 2009, p.113)

Como reflexo do nihonjinron e de como alguns ecos ainda são sentidos até mesmo no

Brasil, uma edição da “Revista Made In Japan”, publicação brasileira da “comunidade nikkei”, tem como reportagem de capa a matéria polêmica, excepcionalmente bilíngüe, “A Origem do Japão – Novas descobertas derrubam a teoria de que o povo japonês é homogêneo e revelam

que ele descende de várias etnias asiáticas”43, realizada por uma jornalista não-descendente e

com uma entrevista com um sociólogo japonês, justamente para desmitificar as origens divinas do povo japonês, homogêneo e diferente das demais nações, colocando-as por fim num extenso quadro histórico:

“Num sentido mais amplo, os determinantes culturais como os valores religiosos, a língua, os padrões sociais e organização econômica, mais do que marcas psicológicas e genéticas, têm sido utilizados para dar significado à existência de uma identidade japonesa homogênea e imutável. Nessa literatura, os japoneses contemporâneos são transformados por um passado idealizado, sendo a heterogeneidade ignorada e a memória histórica apagada (WEINER 1997a:xiii).

Nesse sentido, LIE (1996:8) aponta que essa singularidade nipônica sempre celebra o status quo, apresentando precedentes históricos para mudanças defendidos pelos grupos conservadores no Japão e que funcionam como uma ideologia para encorajar o nacionalismo cultural ou chauvinista.” (SASAKI, 2009, p.114)

Como diz Sasaki (2009), na década de 80 o nihonjinron passou por um revival com o sucesso da economia japonesa daquele período, época em que, com a chegada de inúmeros imigrantes de várias nacionalidades, colocou a sociedade japonesa em cheque quanto aos ideais de homonegeneidade cultural e multiculturalismo.

O interessante sobre a matéria da “Revista Made In Japan” é que ela indiretamente sugere a presença destes ecos do nihonjinron dentro da própria “comunidade nikkei” no Brasil, trazido pelos primeiros imigrantes japoneses e repassado aos seus descendentes na educação informal e no próprio contato com a “sociedade receptora” brasileira.