Uma das primeiras entidades a que fui apresentado assim que cheguei em Hamamatsu é a Aliança de Intercâmbio Cultural Brasil Japão.
O foco da Aliança é justamente promover atividades de intercâmbio entre os brasileiros e a sociedade japonesa, apontando então a questão da “falta de integração” entre estes dois grupos e que já vem sendo debatida em estudos sociológicos (KAWAMURA, 2003a; 2003b; SASAKI, 2009). Como Hamamatsu oferece uma infra-estrutura dedicada à recepção de brasileiros, ofertando quase que todos os serviços básicos em português, nota-se até no senso comum por conversas informais sobre a “intransigência” dos brasileiros em justamente não buscar realizar o contato com os japoneses, formando o que parte da academia brasileira e japonesa aponta como “enquistamentos” (KAWAMURA, 2003a; 2003b).
“Brasileiro não se mistura”, diz a informante peruana Alessandra, bartender de um bar para estrangeiros perto do ZaZa City. Segundo ela, os brasileiros de modo geral não se esforçam para aprender o japonês ou até mesmo os costumes locais. Comenta que como os peruanos trabalham na linha juntamente com os brasileiros, a grande maioria se vê obrigada a aprender português para conseguir trabalhar satisfatoriamente, “mas brasileiro não aprende espanhol!”, diz.
Para a informante Telma, tsuyaku54 em vários serviços em Hamamatsu, isso acontece
porque além das facilidades encontradas na cidade, os brasileiros oferecem uma “resistência” muito grande quanto ao aprendizado do idioma, dos costumes e das leis. Esse entrave
justificaria então até a existência de policiais japoneses falantes de português para dar conta dos inúmeros problemas legais envolvendo brasileiros.
Junto à falta de integração, Eduardo aponta o problema da desorganização ou desestruturação familiar como agravante. Já na primeira década do século XXI era possível encontrar vários jovens e crianças brasileiras fora de casa, estando os casos mais extremos pertencentes a gangues ou até mesmo à máfia japonesa. Estes jovens em “situação de vulnerabilidade” deixavam os lares basicamente por uma questão de desorganização familiar e/ou abandono dos pais.
Como me disse Eduardo e informantes das entidades Brasil Fureaikai, Associação Brasileira de Hamamatsu, Igreja Católica e IURD - Hamamatsu, por conta das longas jornadas de trabalho eram vários os casos de pais e filhos que não se viam durante o dia, acentuando-se a gravidade dos casos de marido e mulher que não se viam às vezes por conta de turnos alternados e parentes ausentes. Consenso para os representantes destas entidades, a falta justamente de comensalidade e convívio era o estopim de uma desestruturação familiar iminente. A desestruturação familiar iniciava então uma bola de neve ou efeito em cadeia, levando os jovens fora de casa para o mundo dos crimes e das drogas.
Vale relembrar que vários dos recortes de jornais mostrados por Eduardo em nosso primeiro encontro mostra justamente isso. As suas atividades na cidade visam “retirar” através de rondas noturnas os jovens e crianças brasileiras que perambulam nas ruas na ausência dos pais. Essa perspectiva não só aponta para um problema real e local, como também a expectativa de consonância com um modelo familiar específico que em tese deveria ser praticado pelas famílias de descendentes.
Em uma das minhas visitas à IURD – Hamamatsu o pastor rapidamente quis saber se poderia ajudá-lo na formação e sua própria NPO vinculada à igreja cujo objetivo era “retirar os jovens do mundo das drogas”. Naquela tarde cheguei em um salão totalmente vazio e apagado com o pastor lendo algo bem próximo ao altar. Assim que entoamos conversa ele rapidamente foi aos fundos buscar uma imensa pasta plastificada com vários recortes de notícias e várias versões de um projeto a ser encaminhado para o governo japonês, ansiando pela minha leitura e aprovação.
Fui convidado para conhecer o “Domingo da Família”, atividade que ele disse que seria importante para a minha pesquisa, “que são algumas famílias que se reúnem com o
pastor aos domingos de manhã e discutem seus problemas”. Compareci na data marcada e fiquei surpreendido ao ver que o “Domingo da Família” era na verdade um culto normal, porém, cuja orientação do pastor era voltada aos problemas familiares. Apesar de não adentrar nesta discussão (por razões mesmo factíveis do propósito da minha pesquisa), notei que o discurso todo do pastor se prendia na questão dos casamentos, na importância da união e manutenção da estabilidade familiar.
Ele recapitulou aos fiéis que um dos principais “problemas” dos brasileiros no Japão é que eram facilmente seduzidos pela “nova vida” e “novas oportunidades”, muitas vezes “deixando os lares” e assim abandonando cônjuges e filhos, efeito imediato da migração. Seria importante que os brasileiros se mantivessem unidos, “pois a família é a única estrutura ou eixo capaz de segurar as dificuldades de se viver no Japão”, ainda mais em tempos de crise econômica. Ele reforçou ainda no papel da mulher de ser paciente com o marido, de evitar a traição e saber respeitar as decisões do chefe da casa, enquanto ao esposo cabia ter paciência com a mulher e ser um bom provedor.
Após aquele culto fui apresentado ao pastor em questão e ele logo reforçou que a questão recai sobre os jovens. Para concluir seu raciocínio, me apresentou a um jovem que tinha acabado de sair “dos crimes e das drogas” ao entrar na igreja. O jovem, todo aprumado com uma camisa social, gravata e cabelo perfeitamente alinhado com gel fixador, me contou que na época da crise ambos os pais retornaram ao Brasil e que, dadas as dificuldades no Japão, decidiu cometer pequenos furtos e finalmente caiu ao “mundo das drogas”.
Notava-se nas falas dos pastores e do jovem a questão da “falta de coesão familiar” enquanto “problema”, deficiência esta causada não só pela vida no Japão, como também pela distensão dos membros familiares em dois países. Aqui a orientação e expectativa sobre a família desejada não recai unicamente ao modelo de “família japonesa”, mas sim aos liames da cristandade que também não são seguidos pelos brasileiros no Japão.
O “problema” da “desestruturação familiar” é abordado legalmente pela Associação Brasileira de Hamamatsu - ABRAH, NPO dedicada a oferecer consultoria sobre todas as pendências e problemas jurídicos envolvendo as famílias de brasileiros na cidade. Com a agenda sempre lotada, me encontrei com o fundador na vizinha Iwata, entre um atendimento e outro que prestava aos brasileiros em um agência bancária japonesa da cidade.
Me disse o seu fundador que a taxa de divórcios entre os brasileiros era algo notável, apesar de não poder precisar nenhuma estatística a respeito. Já o suporte às questões financeiras e trabalhistas é prestado pela NPO Brasil Fureai Kai, possuindo representantes japoneses em seu conselho deliberativo.
Segundo informantes da ABRAH, Brasil Fureai Kai e Aliança, muitos brasileiros partem para o Japão já com famílias artificiais, ocorrendo ou o divórcio assim que chegam ou então a barganha do uso do Koseki como forma de garantir a estadia do cônjuge quando não- descendente. Nestes casos, aparentemente às vezes tão mais condenáveis quanto o dos jovens nas ruas (pela impressão que obtinha em entrevistas informais), a família artificial muitas vezes consiste na presença do conjugue/namorado com o outro conjugue mais o(s) filho(s) do casal.
Como me disseram informantes, o que “falta” aos brasileiros é a “vontade ou capacidade de pensar de maneira melhor os seus projetos de vida no Japão”. Dizem que muitos brasileiros no Japão acabam não pensando no projeto familiar de maneira consistente, gerando a grande taxa de divórcios que existe na cidade. Enquanto tudo se mostra enquanto “impensado” nas famílias brasileiras, falta, segundo estas pessoas, discutir o que é família, discutir a questão da educação dos filhos, o projeto de vida de se continuar ou deixar o Japão. A família passa a ser um “problema” fundamental e que suplanta a própria questão da integração: antes de integrar, os brasileiros precisam pensar no futuro de suas famílias no arquipélago.
Percebemos aqui que existe uma série de expectativas das NPOs quanto aos brasileiros no Japão que deixam de atender vários modelos “ideais” de sua convivência no Japão, cujos desdobramentos sobre os “problemas” vindouros são inúmeros e já debatidos pela literatura (KAWAMURA, 2003a; 2003b; NAKAGAWA, 2010). Tais expectativas acabam excluindo ou não considerando as dinâmicas e lógicas locais dos brasileiros na cidade. A educação formal e informal dos filhos tão valorizada na “comunidade nikkei” no Brasil (CARDOSO, 1959; 1995) que mescla de maneira complexa a família e escola é algo que não é percebido na mesma intensidade entre os brasileiros no Japão, transformando-se em um “problema social” bastante particular da migração.