Segundo Fiani (2006), a teoria dos jogos ajuda a entender teoricamente o mecanismo de decisão que acontece entre agentes que interagem entre si. Esse entendimento ocorre a
partir da compreensão lógica do processo em que estão mergulhados e que, quando tais situações envolvem agentes racionais que se comportam estrategicamente, elas podem ser analisadas formalmente como um jogo. Assim o autor se expressa:
“A teoria dos jogos procura entender como os jogadores (sejam eles indivíduos, empresas, organizações, países etc.) tomam suas decisões em situações de interação estratégica. Em outras palavras, a teoria dos jogos visa a explicar como esses jogadores fazem suas escolhas em situações de interação estratégica.” (FIANI, 2006, p.23)
Para ele, uma preferência é racional quando apresenta as seguintes propriedades: (1) a relação de preferência sobre um determinado conjunto de escolhas possíveis é completa - os agentes são capazes de definir suas preferências em relação a um conjunto de escolhas possíveis, ou seja, que, entre duas escolhas possíveis, os agentes são sempre capazes de definir se a primeira é pelo menos tão boa quanto uma segunda, se a segunda é ao menos tão boa quanto a primeira ou se são indiferentes; e (2) a relação de preferência sobre um determinado conjunto de escolhas possíveis é transitiva - há consistência nas escolhas dos agentes, ou seja, se considerar que a opção x é pelo menos tão boa quanto a opção y e que a opção y é pelo menos tão boa quanto a opção z, então a opção x é pelo menos tão boa quanto a opção z.
A primeira propriedade – completa - permite afirmar que o agente ou jogador não ficará paralisado diante de um conjunto de escolhas possíveis, já que será sempre capaz de definir se uma determinada preferência é pelo menos tão boa quanto uma segunda, se essa segunda é pelo menos tão boa quanto a primeira ou se são indiferentes. A segunda – transitiva – impede que o jogador esteja sujeito a um comportamento irracional. Essas duas propriedades ordenam as preferências de um jogador em relação a determinados resultados e o caracterizam como racional.
A Teoria da Escolha Racional tem por pressuposto que os agentes, possuindo as informações adequadas, sempre optarão por escolhas que maximizem o alcance de seus objetivos.
Note-se que a racionalidade nada tem a ver com os fins em si mesmos e sim com os meios utilizados para se alcançar tais fins. Dois jogadores podem ter objetivos completamente distintos a serem alcançados, inclusive aéticos, e ambos serem igualmente racionais, sendo
bastante que procedam de forma a atender às propriedades acima descritas. A teoria dos jogos não se predispõe a promover julgamentos morais acerca dos objetivos dos jogadores. Apenas procura entender como eles tomam suas decisões em situação de interação estratégica, isto é, quando suas ações influenciam as ações de outros jogadores e essas ações dos outros jogadores influenciam também suas ações.
Fiani (2006, p.32), citando Ken Binmore, estabelece algumas condições necessárias para que os agentes ajam racionalmente, ainda que não suficientes já que, mesmo quando o jogador pretende ser racional, o cálculo racional pode falhar: “(1) O jogo (isto é, a representação do processo de interação estratégica) é relativamente simples; (2) Os jogadores jogaram o jogo muitas vezes antes, e assim tiveram a possibilidade de aprender por meio de tentativa e erro; e (3) Os incentivos, ou payoffs20, para jogar bem (isto é, racionalmente) são adequados”.
Comparando as condições apontadas por Ken Binmore, para que os agentes ajam racionalmente, com o jogo político que se desenvolve no Congresso Nacional para aprovação da agenda de interesse do Executivo, vemos que esse jogo é, a princípio, relativamente simples – envolvendo, por um lado, o próprio Poder Executivo Federal e, por outro, a coalizão de apoio ao Governo que, possuindo maioria qualificada, teria a capacidade de aprovar qualquer medida dentro do Congresso Nacional – e repetitivo, permitindo que os jogadores aprendam com sua repetição, por meio de tentativa e erro. Por outro lado, como já visto quando tratamos o presidencialismo de coalizão brasileiro, o principal objetivo dos parlamentares é maximizar suas possibilidades de reeleição, já que é por meio de seu mandato que seria possível tentar atingir outros objetivos políticos, possuindo, o Poder Executivo, diversos mecanismos para reforçar tal possibilidade de reeleição do Parlamentar, atendendo à condição da existência adequada de payoffs para que se jogue racionalmente, estando assim presentes as condições para o desenvolvimento do jogo.
Considerando, então, apenas os dois jogadores e a possibilidade de coordenação dos interesses desses jogadores envolvidos no processo – aprovação da agenda e maximização das
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Pode-se definir incentivos ou payoffs como a retribuição, monetária ou não, que o jogador recebe por ter agido de uma determinada forma. O processo de escolha racional tem como objetivo maximizar tais incentivos.
possibilidade de reeleição -, restaria explicada a dominância do Executivo sobre o Congresso e o sucesso das iniciativas em matérias de seu interesse. Mas, então, como explicar os constantes fracassos de projetos que visem promover amplas reformas no Sistema Tributário brasileiro? Por que o jogo simplesmente trava? Estariam os jogadores tomando decisões que lhes levam a escolhas subótimas?
Evidentemente, os payoffs do jogo que se desenvolve na arena principal, tendo como interessados o Poder Executivo e sua coalizão de apoio, sofrem influência de outros payoffs de jogos que ocorrem em arenas secundárias e só é possível entender as decisões dos jogadores se conseguirmos enxergar em sua totalidade essas outras arenas. É o que Tsebelis (1998) classifica como jogos ocultos, ao afirmar:
“se, com informação adequada, a escolha de um ator parecer subótima, é porque a perspectiva do observador está incompleta. O observador centra a sua atenção em apenas um jogo, mas o ator está envolvido em toda uma rede de jogos – o que chamo de jogos ocultos. O que parece subótimo a partir da perspectiva de um único jogo é na verdade ótimo quando é considerada toda a rede de jogos”. (TSEBELIS, 1998, p.22) Em resumo, segundo a teoria da escolha racional e dos jogos ocultos, jogadores que se encontrem em determinada situação de interação estratégica, que estejam de posse de informações adequadas e que busquem os mesmos objetivos, fariam as mesmas escolhas e elas seriam ótimas. Se, aos olhos do observador, uma determinada escolha lhe parecer subótima, é porque este observador não está conseguindo capturar a plenitude dos jogos que estão ocorrendo em outras arenas paralelas.
Pelo raciocínio expresso, a apresentação de um determinado projeto que seja de interesse do Poder Executivo e simpático ao Congressista pode gerar uma reação negativa de tal ordem entre os apoiadores desse Parlamentar que o leve a entender que patrocinar sua aprovação poderá vir a prejudicá-lo em suas aspirações de reeleição, decidindo pela sua rejeição. O que de fato ocorreu foi que, na percepção do jogador Congressista, os resultados positivos que poderiam ser obtidos pelos incentivos disponibilizados pelo Poder Executivo para aprovação da matéria, na arena principal, não eram suficientes para cobrir os resultados negativos que tal aprovação causaria junto sua base de apoio – arena paralela –, levando-o a optar pela sua rejeição formal ou pelo seu abandono, conforme a situação permitir e lhe for conveniente.
Por outro lado, a importância dos jogos que ocorrem em cada uma das diversas arenas paralelas ocultas é proporcional à capacidade de mobilização e ao peso político dos jogadores que delas participam. Quanto maior o seu peso, maior sua possibilidade de intervenção no processo e maior o payoff em jogo. O mesmo ocorre com a capacidade de mobilização. Pode acontecer que um determinado jogador tenha baixo peso político, mas alta capacidade de mobilização e consiga arregimentar um contingente considerável de aliados às suas idéias. Pode-se concluir então que as diversas arenas têm diferentes capacidades de influência política, indicando que os jogos que nelas se desenvolvem não têm pesos iguais, introduzindo uma dificuldade adicional para a avaliação do Parlamentar, de forma racional, sobre a escolha a ser tomada.