• No results found

Synthesis of the discussions with potential experts

3 Building a pilot website for the Arctic Nature Index

3.5 Synthesis of the discussions with potential experts

As considerações que traçamos acerca das ambivalências projetuais entre Le Corbusier e L. Costa nos introduzem ao primeiro de nossos projetos referenciais. De fato, ambos são personagens que se situam em primeiro plano nos bastidores do projeto para o edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde Pública (MESP), no Rio de Janeiro (1936-1945)

– o Palácio Gustavo Capanema. Le Corbusier foi consultor do projeto do MESP,

tendo sido convidado por L. Costa na expectativa de trazer ao contexto brasileiro os

princípios da arquitetura moderna.

Le Corbusier e a vanguarda modernista europeia estavam engajados desde os anos 1920 na articulação de um novo paradigma de projeto para a cidade do século 20. O Ministério é tomado também por solução exemplar antecipatória do centro de negócios da cidade ideal propugnada pela Carta de Atenas do Ciam de 1933, a cidade das torres e barras em pilotis sobre um grande parque, onde a cor local seria assegurada pela utilização da vegetação nativa, como as palmeiras-imperiais que tanto haviam impressionado Le Corbusier ou as espécies exóticas que encantavam Burle Marx. (COMAS, 2010, p.89-90)

O modernismo corbusiano, até então, não havia sido aplicado a um edifício desta escala. A equipe do projeto final foi dirigida por L. Costa e contava com Carlos Leão, O. Niemeyer, A. E. Reidy e E. Vasconcellos. O projeto de paisagismo coube a B. Marx (ver fig.16; 17; 18).

No Palácio Gustavo Capanema, temos a principal referência brasileira para o espaço de transição sob pilotis. A importância do MESP está na investigação das raízes modernas de nossa arquitetura; de suas diretrizes corbusianas e da repercussão do projeto sobre a arquitetura que lhe sucedeu. No Brasil, o advento do modernismo marca uma ruptura com padrões tradicionais de espaços intermediários e, ao mesmo tempo, sua ressignificação.

A fase mais intensa de industrialização e urbanização no Brasil ocorre de 1940 a 1960 e marca a difusão da arquitetura moderna – que se inicia com o projeto do edifício-sede do MESP e chega a sua realização mais expressiva no projeto de Lucio Costa para Brasília, com seu modelo de superquadras. Em ambos os exemplos, chegamos a modelos de quadra aberta, em que os espaços de transição – sob pilotis ou assumindo a forma de praças – estão associados a um continuum espacial e integrados ao entorno urbano.

A adaptação do partido moderno ao clima tropical constituiu um desafio a ser superado pela equipe de projeto. Neste sentido, a condução de L. Costa foi fundamental, tendo em vista seu conhecimento das tradições construtivas regionais e das soluções adaptadas climaticamente. Esta necessidade de conforto foi traduzida numa arquitetura em que os pilotis do térreo oferecem uma sombra generosa para o espaço público, enquanto a solução de brise-soleil, adotada na face norte, ameniza o calor no interior do bloco vertical.

Figura 16 – Plantas baixas: pavimento térreo, 1a sobreloja e cobertura. Térreo livre, com

duas praças cobertas.

Terraço-jardim sobre o bloco

horizontal. Fonte das

imagens: WISNIK, 2001. Legenda:

A. R. Araújo Porto Alegre B. R. da Imprensa C. R. Pedro Lessa D. Av. Graça Aranha 1. saguão principal 2. acesso privativo 3. portaria 4. praça coberta 5. recepção 6. elevadores de funcionários 7. serviços

 

Figura 17 – Plantas baixas: 2a sobreloja e pavimento tipo. Fonte das imagens: WISNIK, 2001. Legenda: 8. exposições 9. auditório 10. posto médico 11. reserva técnica 12. hall público 13. area de trabalho 14. hall de funcionários 15. copa

 

Figura 18 – Corte. No bloco horizontal, sentido longitudinal; no bloco vertical, sentido transversal. Fonte da imagem: WISNIK, 2001.

3.2 | Espaços de transição à sombra |

La luz (…) constituye nada más que una franja muy pequeña de la radiación electromagnética, la principal de las energías presentes en nuestro entorno. El factor que la diferencia es su propiedad de ser perceptible por nuestro sentido visual. Sin embargo, podemos preguntar: y la sombra, ¿cómo se la puede definir? Reconocemos que ella existe, puesto que la vemos, logramos disfrutar de sus beneficios y podemos incluso estudiar los fenómenos físicos asociados a su existencia. No obstante, enigmáticamente, no se la puede clasificar ni como energía, ni como materia. (MARAGNO, 2010, p.32)

Sombra e clima | Y. Bruand (2010) afirma que o clima tropical é o fator de maiores repercussões na arquitetura brasileira. “O país situa-se quase que inteiramente entre o Equador e o Trópico de Capricórnio, estando sua parte meridional bastante próxima deste, apresentando assim temperaturas bastante elevadas durante o verão” (2010, p.12). Considerando que a arquitetura deve responder às necessidades de conforto de seus usuários, desde os tempos da colônia se desenvolve, no Brasil, um projeto que busca dotar os edifícios de espaços sombreados, de modo a combater o excesso de luminosidade e o calor intenso. Neste aspecto, apontamos a sombra como um fator que particulariza os espaços de transição na arquitetura brasileira, diferenciando estes espaços de seus correspondentes realizados em território estrangeiro81.

      

81

Ressaltamos a sombra como uma característica notável dos projetos referenciais que escolhemos para discutir nesta dissertação. Por outro lado, é importante pontuar que esta é uma característica regional, fruto de uma adaptação necessária ao meio. Da mesma forma, devemos ter em perspectiva que, nas latitudes de clima temperado ou frio, o sombreamento não será necessariamente prioritário (ou mesmo deva ser evitado). Esta colocação é relevante para a leitura dos autores estrangeiros aos quais nos reportamos ao longo desta dissertação, devendo-se levar em consideração as diferenças climáticas ao se interpretar os textos citados.

Nos trópicos, durante o verão, as paredes que enfrentam o E e o O recebem mais energia solar do que as voltadas para o N e o S, enquanto estas duas recebem carga solar similar (…) Logo, a forma do edifício deve ser tal que as paredes prioritariamente voltadas para E e O possuam áreas menores que as fachadas N e S. (CORBELLA & YANNAS, 2010, p.43)82

Em uma arquitetura projetada para o clima tropical, os espaços de transição podem ser previstos como elementos de conforto passivo, em que é dispensado o recurso da climatização que demanda gasto energético. Neste aspecto, cabe assinalar que o contexto de nossa construção civil ainda se vincula à prática de importar soluções, gerando toda sorte de arquiteturas pouco adaptadas ao clima e onerosas em relação ao próprio gasto energético. Os motivos dessa idiossincrasia não nos cabe aprofundar neste texto. Os caminhos projetuais para a produção de edifícios adaptados ao clima têm sido aprofundados nos estudos das arquiteturas sustentáveis ou bioclimáticas. Esta arquitetura adaptada deve solucionar o conforto térmico do usuário, utilizando o mínimo de recursos materiais e energéticos. A ênfase do projeto está no conforto ambiental, na construção de edifícios livres da dependência exclusiva de sistemas artificiais de refrigeração ambiente. Isto envolve o controle solar; a implantação do edifício em acordo com as trajetórias do sol; a correta orientação das fachadas. Os materiais devem ser avaliados de acordo tanto com sua condutibilidade quanto com sua inércia térmica, tendo o projeto a preocupação com a manutenção de temperaturas internamente estáveis, pouco suscetíveis em relação aos picos de temperatura no exterior. É desejável que os espaços sejam providos de boas

      

82

iluminação e ventilação naturais. A permeabilidade ao meio externo é fator de particular atenção em projeto (CORBELLA & YANNAS, 2010).

A partir desta perspectiva, o espaço bem orientado, sombreado e aberto à ventilação natural, constitui ainda uma solução das mais eficientes. As sombras mais profundas, das fissuras e dobras do objeto arquitetônico, tendem a ser mais frias, refrescantes. Isto pode parecer evidente, entretanto se a materialidade que envolve a sombra transmitir calor em excesso, esta mesma sombra será a de uma estufa, amplificando a sensação de abafamento ambiente. Desta forma, se o projeto resolve a questão relativa à inercia térmica dos materiais envolventes, se observa que as sombras podem apresentar temperatura variável, conforme sua densidade, sendo mais quentes quando rarefeitas, próxima aos limites de sua linha de projeção. Assim, o conforto térmico à sombra não depende apenas da contraposição de um anteparo corretamente posicionado, mas também da profundidade dos ambientes projetados e do desempenho térmico dos materiais envolventes. Nos trópicos, a sombra é fator primordial de conforto e abrigo – necessidades básicas –, e a varanda serve como principal elemento tradutor de uma arquitetura adaptada ao seu meio.

Son las sombras que nos alivian del calor intenso en sitios y periodos cálidos, revelan el espectro de la propia luz,disminuyen el deslumbramiento que la luz puede producir y, además, propician la percepción de profundidad en los edificios. Igualmente, mientras el sol es imprescindible en las latitudes más frías, traduciéndose en fuente de vida, en los climas tropicales es la sombra la que establece condiciones de bienestar. (MARAGNO, 2010, p.32)

MESP [transição à sombra] |

A obra (…) desde o momento em que atrai um olhar, invoca, de modo irresistível, a consciência crítica: esta a acompanha como a sombra segue cada um de nossos passos. (PICON, 1969, p.13)

Na arquitetura do Palácio Gustavo Capanema, a sombra é elemento presente, confere profundidade plástica ao conjunto e sua projeção percorre a quadra aberta. Em outro plano, temos também um projeto que permanece todo o tempo à sombra, silencioso. Este projeto é imanente ao edifício, tem a força da ponderação e equilíbrio, baseado na valorização dos conhecimentos acumulados no percurso do tempo, mesmo em pleno momento de disrupção da arquitetura moderna (ver fig.19).

A partir deste olhar, se podemos atribuir a Le Corbusier o risco original que definiu o partido do ministério, e a Niemeyer seus traços definitivos (NIEMEYER, 2000 e BRUAND, 2010), foi a condução de Costa que levou a uma síntese entre a arquitetura moderna e as tradições locais e conferiu ao edifício seu caráter particular. O projeto em protagonismo, primeiro é aquele do racionalismo corbusiano, depois, o da plástica elegante de Niemeyer. Em segundo plano, porém, ao longo deste processo de gestação do projeto, esteve sempre Costa a conduzir, refletir e aproximar futuro e passado na arquitetura presente. Retomando a leitura do terceiro sentido de R. Barthes (ver capítulo 1), no MESP, se o partido corbusiano parece incorporar um sentido óbvio de leitura, por outro lado, temos na contribuição de Costa, o encontro com o sentido obtuso da obra, uma subversão sutil do moderno, não uma oposiçao de fato – um modo inaudito de interpretação e implementação: "atitude diante da modernidade, sempre demarcada por um olhar retrospectivo sobre nosso passado colonial" (TELLES, 2010, p.173). Consciência crítica.

O projeto do MESP tem uma importante contribuição para os estudos do controle da radiação solar, no caso, sobre uma extensa superfície plana, configurada nos quatorze andares do bloco vertical. Há que citar o emprego do brise-soleil corbusiano cuja concepção original era a de um conjunto ortogonal fixo de lâminas de concreto, tendo sido adaptado na fachada norte do MESP com um sistema de lâminas horizontais móveis.

O brise-soleil (...) um recurso para manter a noção de exterioridade sem prejuízo da proteção contra o sol. Como uma solução integrada ao projeto, constrói-se à escal do edifício e se identifica por isso sua estrutura, A relação que estabelece entre interior e exterior se equivale formalmente na medida em que a escala do desenho produz um efeito gráfico na fachada que se movimenta continuamente para dentro ou para fora, destruindo a percepção de uma superfície estável em favor de um plano ativo (TELLES, 2010, p.185)

Em contrapartida, nos pilotis do MESP, poderíamos reencontrar a sombra da varanda brasileira, reminiscência de uma cultura colonial? Em sua concepção original, os pilotis deveriam fazer os percursos fluirem na quadra aberta, configurando um continuum espacial integrado à cidade. O urbanismo modernista conduzia ao extremo da facilitação dos fluxos e da otimização das funções. Sob os pilotis, portanto, a ação é a de transpor o espaço, atravessá-lo, em movimento contínuo. Neste ponto, a modernidade se regionaliza, a celeridade de seu movimento é questionada: no clima tropical do Rio de Janeiro, o espaço à sombra representa um intervalo, um desacelerar do tempo, um momento de recomposição. A sombra não é apenas contraste e movimento, mas também alívio e reconforto. Eventualmente, sob estes imponentes pilotis, o caminhante moderno deixa-se ficar no conforto da sombra, suspendendo temporariamente o fluxo contínuo que lhe era sugerido.

La varanda ha estado presente prácticamente en todas las épocas y fases de la arquitectura del país. Pero de una respuesta al clima, función primordial que sigue manteniendo, ha ido adquiriendo muchas otras, revistiéndola de un valor y significado especiales, con una permanencia persistente que ha sobrevivido a innúmeras transformaciones culturales, sociales, económicas e incluso de apreciación estética a lo largo de los últimos 400 ó 500 años. La varanda incluso se ha trasladado del contexto predominantemente rural del inicio de la colonización hacia el urbano incipiente a principios del siglo XVIII, y más tarde ha subsistido al proceso de fuerte concentración urbana ocurrido en las mayores ciudades. (MARAGNO, 2010, p.210)

Uma tradição brasileira da sombra [?] |Algumas notas cabem sobre a arquitetura rural dos princípios da colônia83, que gerou espaços de transição característicos de um modo de habitar brasileiro. G. Freire (2013) destaca a importância da casa-grande como nova expressão arquitetônica, diversa das matrizes portuguesas em seus principais aspectos.

      

83

O passado colonial nos reporta às influências da arquitetura portuguesa. Em nosso interesse de pesquisa, cabe mencionar suas influências muçulmanas: o domínio árabe na península ibérica vai de fins do séc. VII até o séc. XIII, na Andaluzia (VELARDE, 1993, p. 90-91). Em Lisboa, no séc. VIII, os árabes constroem as fortificações da alcáçova – o Paço da Alcáçova ocupa, hoje, o interior do recinto do Castelo de São Jorge – , que se mantém no centro do poder político até o séc. XVI, mesmo depois da reconquista cristã (séc. XII). A arquitetura árabe se mostrava capaz de estilizar, “adaptar y

transfigurar los procedimientos de arte y de arquitectura” (ibid. p.90); por outro lado, sua disposição

espacial e o uso dos ambientes nas edificações estava muito relacionado às necessidades de conforto térmico e de privacidade. Em uma sociedade marcadamente patriarcal, a relação entre espaços públicos e privados privilegia estes últimos. Seus espaços de transição característicos são os alpendres, os pátios internos ajardinados, as aleias, os muxarabis – ambientes de privacidade para o convívio familiar, de soluções de conforto passivo e de ver sem ser visto. Este modo de habitar gerou repercussões que alcançaram o Brasil colonial, incidindo nos costumes sociais, que se afirmavam nas relações de gênero e na própria arquitetura civil.

Dentre estes, o “alpendre na frente e dos lados, telhados caídos em um máximo de proteção contra o sol forte e as chuvas tropicais” (2013, p.35). Em princípio, as varandas foram postos de vigilância privilegiados84 sobre o território a colonizar. Com o tempo, mostraram-se como elemento de perfeita adaptação ao clima tropical, além de um lugar de vivência específica: de integração com a natureza, de um amolecer nas redes, de apropriação do entorno. A varanda tornou-se, ainda, um espaço sujeito a códigos distintos de conduta social e segregação.

Para a construção das varandas coloniais,

 

os portugueses procuraram adaptar seu próprio repertório construtivo às necessidades locais, à realidade tropical85. O espaço intermediário sob a sombra já era desfrutado pelos indígenas86 cujas construções expressavam a adaptação e a naturalidade desta solução. Os registros desta arquitetura autóctone mostram uma diversidade de exemplos. Ventilação e sombreamento são a essência da maloca curutus e suas redes são perfeitamente adaptadas à dimensão de sua varanda. Entre os yanomami, as aldeias são geralmente configuradas como uma única casa multifamiliar em

      

84

Localizadas geralmente no piso superior da casa-grande. 85

Segundo L. Saia (1939), as varandas muitas vezes se configuravam como um elemento mestiçado, a exemplo das latadas nordestinas e dos alpendres de capelas rurais (SAIA, 1939), como a do Sítio Santo Antonio, SP, de 1681.

 

86

No Brasil, as culturas indígenas mais notáveis foram registradas em um estágio de desenvolvimento, que seria equivalente ao das sociedades neolíticas pré-historicas cujos traços materiais puderam ser avaliados pela arqueologia.

 

Figura 20 - Detalhe da maloca Balaú (AM). Foto: Carlo Zacquini, 1994. Fonte da imagem: http://pib.socioambiental.org/pt/povo/yanomami /569

forma de cone (eventualmente truncado), designada como yano ou xapono. Nesta sociedade, cada casa coletiva é, propriamente, uma entidade econômica e política autônoma87. Esta arquitetura é notável por definir a aldeia em um único ambiente coletivo, amplo, que é todo ele um espaço intermediário, em contato aberto com a natureza (ver fig.20). O tejupar, cozinha indígena que se localiza externamente como anexo à construção principal, é apontado como precursor das familiares varandas de serviço (MARAGNO, 2010), cozinhas caipiras e latadas nordestinas – espaços de convívio característicos de uma cultura. Até os dias de hoje, as redes se mantêm bem instaladas nas varandas das casas brasileiras. O contato cultural com os índios repercutiu na maneira como vivenciamos os espaços à sombra.

Frans Post (1612-1680) deixou uma série de registros da casa-grande antiga, em que as varandas eram um elemento comum em configurações diversas88. O tipo mais simples, possivelmente o mais remoto, subtraía o espaço de um cômodo do corpo da casa, no centro

      

87

Fonte: http://www.proyanomami.org.br

88

Segundo Maragno (2010): “La tipología de las varandas siguió las variaciones del clima, de los

usos y costumbres resultantes de la actividad principal y del carácter rural o urbano. En la zona rural, las principales diferenciaciones fueron entre las pertenecientes a casa-grandes de ingenios de caña de azúcar de la región nordeste; a viviendas del interior de São Paulo (llamadas moradas paulistas); a haciendas en la zona rural del sudeste, las dos primeras desde el siglo XVI y las últimas principalmente a partir del siglo XVIII. Merecen referencia también las varandas de las capillas rurales” (2010, p.224).

 

Figura 21 - Sítio Santo Antônio, em São Roque, SP, de 1681. Fonte da imagem: http://www.guiasaoroque.com.br/turismo/sant o_antonio.asp

Figura 22 - Fazenda Columbandê, em São Gonçalo, RJ (séc. XVIII). Fonte da imagem: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arq uitextos/07.075/330

do volume, mantendo a cobertura íntegra, uma varanda enclavada (MARAGNO, 2010). Esta operação era corrente tanto no nível térreo quanto no superior, diferenciando-se as funções dos espaços conforme sua localização. É o exemplo do Sítio Santo Antônio, em São Roque, SP, de 1681 (ver fig.21). No séc. XVIII, a varanda colonial amplia sua área sombreada e envolve o corpo da casa ao longo de mais de uma fachada: é o caso da sede da fazenda Columbandê, em São Gonçalo, RJ, citada por O. Niemeyer como a sua preferida (NIEMEYER, 2000), em que o telhado se assenta sobre a linha dos pilares, numa curva suave que contrasta expressivamente com a sombra profunda do ambiente de transição (ver fig.22).

Sob a sombra, ao abrigo do sol, as varandas propiciavam uma atmosfera reconfortante e, preferencialmente, exposta aos ventos. A arte de Debret (1768-1848), Uma tarde de verão, de 1826, faz um registro sugestivo da vivência nestes espaços, nos quais estão presentes o ócio, a música e a preguiça à meia-sombra. Por sua vez, Rugendas (1802-1858) era hábil ao representar a relação entre luz e sombra e soube captar muito bem a meia-luz dos ambientes de socialização. Suas obras mostram as varandas associadas a festas e encontros românticos (ver fig.23), incorporadas fortemente aos costumes sociais. A perfeita adaptação ao clima tornava estes espaços intermediários, mais que tudo, aprazíveis. A sombra e a brisa acalentavam a socialização, enquanto a paisagem se fazia presente – a exemplo da obra Lundu, de 1835. O artista registrou também os ambientes de transição como locais de vivência cotidiana, de trabalho e produção, que utilizavam vantajosamente a sombra e aventilação que as varandas podiam proporcionar – em Moulin à sucre, de 1835,

Figura 23 - Rugendas, Costumes do Rio de

Janeiro, 1835. Paisagem natural, sombras

aprazíveis; o forro em arco mostra um aprimoramento da técnica construtiva.

Fonte da imagem:

documenta o engenho de açúcar, locado num amplo espaço sombreado, que vaza o corpo da construção.

Segundo Reis Filho (2011), nos tempos coloniais, “vilas e cidades apresentavam ruas de aspecto uniforme, com residências construídas sobre o alinhamento das vias públicas e paredes laterais sobre os limites dos terrenos” (2011, p.22); marcada foi a separação entre o público e o privado, com poucos elementos de acomodação ao exterior. Nas áreas urbanas, as varandas situavam-se, geralmente, nos fundos dos sobrados e casas térreas, que ocupavam lotes estreitos, espaços que ofereciam conforto para o convívio familiar e onde se