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Potential indicators for the Arctic Nature Index

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3.3 Potential indicators for the Arctic Nature Index

Sentimo-nos arrastados por um tempo prospectivo. E a melhor maneira de se adaptar a este tempo prospectivo é antecipar, prever o estado futuro. Esboça-se então o projecto, que se torna para todos uma necessidade, quer dizer, malgrado as suas ambiguidades, um modo de adaptação privilegiado. (BOUTINET, 1996, p.22)

2.1 | A modernidade ambivalente | É procedente efetuarmos uma investigação acerca da consistência de um projeto de caráter ambivalente, em que aparentes antagonismos devem ser conjugados. O projeto, basicamente, é uma conduta antecipatória que se dedica a prospecção de um futuro desejável, no qual o conhecimento obtido a partir das experiências passadas é o fator que garante a aplicabilidade daquilo que é previsto.

(…) Devemos sublinhar a ambivalência de que é portador qualquer projecto. Este último define previamente uma classe de objectos muito actual: aquela dos objectos em devir que a modernidade cultiva. Neste sentido, o projecto pode definir-se como conceito dotado de propriedades lógicas a explicitar nas suas ligações com a acção a conduzir. Mas, ao mesmo tempo, o projecto aparece-nos como figura, reenviando para um paradigma simbolizando uma realidade que parece preexistir e escapar-nos: aquela de uma capacidade para criar, de uma mudança a operar. O projecto seria, então, a transformação individual e coletiva de um desejo primitivo de apropriação. (Ibid, p.23)

J.-P. Boutinet (1996) situa a emergência do projeto, em suas feições modernas67, no pensamento de J.-G. Fichte (1762-1814). Este filósofo está alinhado à filosofia de Kant, na afirmação da “superioridade da função prática da razão sobre a função teórica” (1996, p.39), e, por sua vez, irá aprofundar em seus estudos uma crítica da razão prática. Na sua obra, Grundlage, Fichte irá propor uma dialética para a unificação de três princípios:

      

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Segundo Boutinet (1996), “Fichte ao reinterpretar o pensamento de Kant, constitui um elo essencial na tradição filosófica proveniente das Luzes”, ou seja, dá seguimento, em determinado aspecto, às ideias iluministas de razão, progresso e aperfeiçoamento da humanidade.

Precedendo a formação deste panorama, o Quattrocento assinala a contribuição da arquitetura nas origens do conceito de projeto. "Evocar o projecto arquitectural é tomar como referência uma actividade profissional que, desde a muito tempo, utiliza já, de um ponto de vista operatório, o projecto, para conceber no espaço um edifício a realizar" (1996, p.33). O projeto de arquitetura como o conhecemos hoje, remonta à tradição que se estabelece no Renascimento italiano. "Dissociando o projeto da sua execução, Brunelleschi, ao mesmo tempo em que organiza uma divisão técnica e social do trabalho, especifica o projecto como o primeiro acto característico de toda a criação arquitectural, acto visando, através do jogo das perspectivas, assegurar uma representação geométrica do espaço a edificar" (ibid, p.34). Brunelleschi cria a perspectiva artificialis, que se propunha a uma representação gráfica do espaço, geometricamente precisa e mensurável, em oposição a perspectiva naturalis: "a descoberta da perspectiva encoraja o recurso sistemático ao desenho antecipador da obra a realizar e, logo, ao projecto" (ibid, p.35).

Sob outro aspecto, o racionalismo de Alberti retoma a tradição da arquitetura clássica, regida por ordens cujos sistemas de proporções traduzem uma harmonia matemática. Nesta busca da razão e da harmonia, que devem se refletir no projeto de arquitetura, Alberti transcende a ideia do edifício isolado: "pretende desenvolver uma arquitectura civil, propondo um plano de conjunto para a construção de uma cidade inteira" (Ibid, p.36) – ou seja, esta harmonia e esta razão deveriam se expandir para além do edifício, incluindo seu entorno imediato e alcançando todo o espaço urbano. "Alberti tenta especialmente conciliar o exercício da vontade e o da razão: a vontade fornece o poder motor que permite ao homem realizar o que deseja realizar; a razão permite-lhe conhecer exactamente o que deseja obter, tal como aquilo que deve evitar" (ibid, p.35).

- o Eu é e interioriza em si o Não-Eu;

- o Não-eu existe, que se opõe ao eu;

- o Eu e o Não-Eu limitam-se reciprocamente:

através do conhecimento que testemunha, o Eu põe-se a si próprio como limitado pelo Não-Eu,

através da acção que ele conduz, o Eu posiciona o Não-Eu como limitado pelo Eu. (Ibid, p.40)

Da discussão destes princípios, destacamos a formulação de Fichte acerca do sentido da existência do Eu: “ligado à sua temporalidade e à sua forma absoluta, a intencionalidade” (Ibid, p. 41)68. Este Eu possui a consciência de seus limites, de si próprio e também dos objetos em torno de si. “Este Eu que se sabe finito, constantemente limitado pelo Não-Eu, não é uma totalidade complete e absoluta, mas um esforço infinito para se realizer a si próprio; e é este esforço que Fichte assimila frequentemente ao projecto” (Ibid, p. 41).

No plano individual, a razão teórica trabalha sobre um objeto (Não-Eu) interiorizado. Através do esforço (streben) do Eu, o projeto pode ser concebido, pode tomar forma, apoiando-se na operação (sehnen) para ser exteriorizado, em que temos delineado o tempo operatório do projeto. O projeto de Fichte é essencialmente progressista – “filosofia do esforço está associada a uma filosofia da liberdade, o objetivo final do homem sendo a realização de uma comunidade de seres livres” (Ibid, p.42).

      

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Neste aspecto, Boutinet afirma que o pensamento do filósofo se aproxima da fenomenologia de Husserl, Heidegger e Sartre. As formulações de Fichte sobre a oposição Eu-Não-Eu também irão reverberar na psicologia contemporânea “na expressão ‘interacção indivíduo-meio’, postulado de base de toda a psicologia actual” (Ibid, p.43).

Contudo, conforme destaca Boutinet, Fichte representa apenas uma das vertentes de uma modernidade ambivalente. Na outra vertente está J.-J. Rousseau (1712-1778), um contestador com importantes contribuições para o pensamento crítico e para o projeto de caráter social e político. Na formulação do contrato social, Rousseau preocupa-se em “corrigir os defeitos do progresso e da civilização” (ibid, p.44), ao verificar no progresso uma fonte de corrupção. Em linhas gerais, o primeiro é relacionado ao tempo progressivo, que idealiza o futuro, enquanto o segundo ao tempo regressivo, da nostalgia de um passado ideal.

A oposição entre os nossos dois filósofos parece prefigurar duas atitudes antagonistas, mas complementares face à modernidade científica e tecnológica: uma atitude de admiração e uma atitude de recusa, estas duas atitudes procurando constantemente controlar-se uma à outra. A nossa modernidade não parece poder fazer a separação entre Fichte e Rousseau. Nós poderíamos mesmo dizer que se nutre deles: duplamente contestadora e certificadora em permanência, a modernidade pretende desestabilizar a ordem estabelecida, em nome de um progresso invocado; mas quer também, da mesma forma, contestar a ordem actual, em nome de um passado julgado mais habitável. Tudo se passa como se o projecto tivesse necessidade de um antiprojecto que o contesta e, logo, o controlo para impedir qualquer fuga para a frente. (Ibid, p.47)

Analisamos que o projeto, ao se referenciar pelos tempos futuro ou passado, ajusta seu tempo operacional a partir de uma rede de intencionalidades, que pode ser compreendida com base na síntese de transição – Uebergangssynthesis – husserliana (ver 1.1). Trata-se

de um esforço intelectual que se aplica ora na prospecção do porvir, ora na retrospecção do passado, colhendo impressões e anotando elementos que podem ser apropriados pelos procedimentos operatórios.

2.2 | Profecia e Memória | Segundo uma aproximação contemporânea, C. Rowe e F. Koetter (2006) vão destacar reações divergentes à cidade moderna, que irão se configurar em interpretações projetuais que se reportam a tempos distintos. Aquilo que os autores analisam diz respeito às possibilidades da representação projetual, que poderão ser propostas em inferência a um ou outro tempo; uma oscilação entre a representação de um admirável mundo novo ou de um admirável mundo velho, nos quais se alternam a antecipação ou a recordação de um tempo. O projeto pode chegar a extremos de ficção, simulação ou caricatura, ao representar intencionalidades que se distanciam do presente comum (ver fig.14). Na visão dos autores, as cidades, como redes de intencionalidades, adquirem aspectos distintos a depender das interpolações que caracterizam cada rede específica. As interpolações situam inferências a tempos deslocados da matriz linear de uma rede, remetendo alternadamente ao passado ou futuro, e consolidando na rede uma característica particular no que se refere à sua textura. O projeto de arquitetura fornece um suporte à representação de um tempo outro, uma possibilidade para a coexistência e simultaneidade de tempos, no registro de intencionalidades de uma rede (Rowe & Koetter, 2006).

Figura 14 - Cidade colagem, de Paul Citroen:

Metropolis, Großstadt, 1923. Fonte:

Prentenkabinet Universiteit, Leyde. Disponível

em: http://archives-dada.tumblr.com/tagged/paul- citroen

Rowe e Koetter irão se referenciar pelos estudos de F. Yates, em The Art of Memory (1966), que menciona as “catedrais góticas como artifícios mnemônicos69 […] esses edifícios destinavam-se a sistematizar pensamentos, ajudando a lembrá-los, e, na medida em que operavam como auxiliares de aula de escolástica” (2006, p.297), em outros termos, operavam como um teatro da memória. Desta definição, os autores aludem a toda uma categoria de edifícios cujo projeto busca a fixação do tempo, a ancoragem em um passado referencial. Ao contrário, o edifício pode assumir a condição de teatro da profecia, um projeto que – profético – antecipa uma promessa de futuro. O argumento busca a conciliação destas tendências divergentes no contexto da cidade, propondo a coexistência entre estas vertentes numa collage city. “De fato, se não há esperança sem a profecia, sem memória não pode haver comunicação” (Ibid, 297). A condição verificada é de complementaridade entre o conservador e o radical, sendo o projeto intermediário aquele que optar pelo equilíbrio ou superposição das tendências. “A cidade ideal, agora passível de ser postulada, deve comportar-se a um só tempo como teatro da profecia e teatro da memoria” (Ibid, p.298).

      

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2.3 | In-between | Outro arquiteto contemporâneo que buscou uma equação para as ambivalências projetuais foi A. Van Eyck, por meio de sua conceituação do in-between. Longe de pretender eliminar as tendências polares, seu projeto considerava uma possibilidade de coexistência equilibrada e articulada entre as partes.

Van Eyck’s thinking fundamentally proceeded in terms of reconciling opposites. Throughout his career, he applied himself to the exploration and the relationships between polarities, such as past and present, classic and modern, archaic and avant-garde, constancy and change, simplicity and complexity, the organic and the geometric. (…) He saw that maintaining the dialectics of these opposing factions was a necessary condition for the development of a genuinely contemporary architecture. (STRAUVEN, 2007,

p.1-2)70

O projeto de Van Eyck buscava “dar o mesmo valor a figura e fundo e [a] diminuir os contrastes entre ambientes internos e externos” (BARONE, 2002, p.114). Ele utiliza o conceito de fenômenos gêmeos para pautar a prática em projeto a partir da análise de “pares de opostos qualitativos do espaço, como alto/baixo, claro/escuro, dentro/fora, aberto/fechado” (Ibid, p.113). Seus projetos propunham ampliar as possibilidades espaciais de cada binômio, a partir de exercícios compositivos que trabalhavam a variação e a

      

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Tradução livre: “O pensamento de Van Eyck fundamentalmente procedeu em termos de reconciliação de opostos. Ao longo de sua carreira, ele se dedicou à exploração e às relações entre polaridades, como passado e presente, moderno e clássico, arcaico e avant-garde, constância e mudança, simplicidade e complexidade, o orgânico e o geométrico. (...) Ele viu que a manutenção da dialética dessas facções opostas era uma condição necessária para o desenvolvimento de uma arquitetura genuinamente contemporânea.”

alternância entre espaços, escalas e ritmos, não deixando de cuidar da comunicação entre ambientes (ver fig.15). Sob outro enfoque, tratava de propor um “adensamento do espaço de comunicação entre dois lugares com características distintas” (BOTELHO, 2010, p.17).

Aldo Van Eyck refere-se a um princípio de simultaneidade espacial que que seria perceptível desde um domínio do intermédio – the in-between realm. Em Complexidade e contradição em arquitetura, R. Venturi comenta trecho71 de A. Van Eick, chamando atenção para a ênfase que é dada ao aspecto da definição e identificação precisas dos espaços in-between. Estes espaços são referidos como lugares, o que subentende possuírem valores condizentes com um locus próprio. O arquiteto exagera (em nosso entendimento) sua repulsa à ideia de continuidade espacial, visando promover um destaque ainda maior dos conceitos de intermediação e articulação entre lugares; e, ainda, sugestionar que as polaridades, traduzidas por fenômenos gêmeos, devem ser equilibradas e não eliminadas por completo (VENTURI, 2004).

      

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“A arquitetura deve ser concebida como uma configuração de lugares intermediários claramente definidos. Isso não implica uma transição contínua ou adiamento sine die no que diz respeito a lugar e ocasião. Pelo contrário, subentende um afastamento do conceito contemporâneo (vamos chamá-lo de moléstia) de continuidade espacial e de apagar toda e qualquer articulação entre espaços, isto é, entre exterior e interior, entre um espaço e outro (entre uma realidade e outra). Em vez disso, a transição deve ser articulada por meio de lugares intermediários definidos que induzem a percepção simultânea do que é significativo de um lado e do outro. Nesse sentido, um espaço intermediário fornece o terreno comum onde as polaridades conflitantes podem tornar-se de novo fenômenos gêmeos” (van EICK, 1962 apud VENTURI, 2004). Transcrição da citação integral feita por Venturi, em

Complexidade e Contradição em Arquitetura (1966), sendo a fonte Aldo van Eick: in Architectural Design 12, vol. XXXII, dezembro de 1962; p.560.

 

Figura 15 - Amsterdam Orphanage (imagem editada). Foram inseridos gradientes e transparências sobre a planta, de modo a destacar os espaços In-between. Imagem

original disponível em:

http://www.archdaily.com/151566/ad-classics- amsterdam-orphanage-aldo-van-eyck/13-180/

Relying on Martin Buber’s philosophy of dialogue, Van Eyck conceived of the ‘in-between’ as a place where different things can meet and unite, or more specifically, as ‘the common ground where conflicting polarities can again become twin phenomena’. The twin phenomenon, an original concept of Van Eyck’s, stems from the insight that real polarities (such as subject and object, inner and outer reality, small and large, open and closed, part and whole) are not conflicting, mutually exclusive entities but distinctive components, two complementary halves of one and the same entity, while conversely a true entity is always twofold. Their in- between should not be considered a makeshift or a negligible margin but something as important as the reconciled opposites themselves. Being the moment where contrary tendencies come into balance, it constitutes a space filled with ambivalence, and thus space that corresponds to the ambivalent nature of man. The in-between is ‘space in the image of man’, a place that, like man, ‘breathes in and out’. (STRAUVEN,

2007, p.15-16). 72

Sob determinado aspecto, as composições espaciais de Van Eyck se beneficiaram do contato, na Holanda, com a produção do De Stijl (ver cap.1). Neste sentido, suas pesquisas

      

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Tradução livre: "Baseando-se na filosofia do diálogo de Martin Buber, Van Eyck concebeu o "in-

between", como um lugar onde coisas diferentes podem se encontrar e unir, ou mais específicamente,

como ‘o terreno comum onde as polaridades conflitantes podem tornar-se novamente fenômenos gêmeos’. O fenômeno gêmeo, um conceito original de Van Eyck, decorre da percepção de que as polaridades reais (como o sujeito e o objeto, a realidade interna e externa, o pequeno e o grande, o aberto e o fechado, parte e todo) não são conflitantes, entidades mutuamente exclusivas, mas componentes distintas, duas metades complementares de uma mesma entidade, enquanto inversamente uma entidade verdadeira é sempre dupla. Seu in-between não deve ser considerado um artifício ou uma margem insignificante, mas algo tão importante quanto os próprios opostos reconciliados. Sendo o momento em que tendências contrárias entram em equilíbrio, constitui um espaço preenchido com ambivalência e, assim, o espaço que corresponde à natureza ambivalente do homem. O in-between é 'espaço na imagem do homem’, um lugar que, como o homem, ‘respira dentro e fora’.

formais tomam uma direção prospectiva, um sentido progressista em que o projeto procura descortinar campos inexplorados a partir da ideia básica da decomposição dos volumes. Paralelamente, cabe destacar que sua concepção projetual partia de uma abordagem transdisciplinar, incluindo entre seus suportes as artes plásticas e os estudos antropológicos73.

É importante também ressaltar o contexto de cisão em que se dá a emergência do pensamento de Van Eick. O arquiteto é, reconhecidamente, um dos membros-chave do Team 10, grupo que se aproxima em função dos debates promovidos pelos CIAM, e se organiza em torno da crítica à doutrina funcionalista74.

      

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Van Eyck estudou a relação entre homem e espaço, elegendo como objeto de estudo a comunidade Dogom, no Mali. Buscava compreender, naquela cultura, que conservava o modo de vida tribal de seus antepassados, o elementar acerca da apropriação dos espaços na convivência em grupo. Seguia o exemplo de Lévi-Strauss, que em seus estudos etnológicos das representações culturais, guardava em perspectiva a distinção entre o estado de natureza e o estado de cultura, ou seja, quanto mais próximas ao estado de natureza as representações observadas, mais elementares são em seus fundamentos (BARONE, 2002).

 

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A doutrina funcionalista foi preponderante no contexto dos CIAM (Congrès Internationaux d'Architecture Moderne); promovida a partir de seu núcleo duro, o grupo ASCORAL, liderado por Le Corbusier (BARONE, 2002). O movimento perde coesão quando o tema do habitat é trazido à pauta no CIAM IX (Aix-en-Provence,1953), encontro que foi marcado pela falta de consenso entre os representantes da velha guarda e a nova geração de arquitetos. O congresso vem a falhar no objetivo de produzir uma Carta do Habitat e expõe a crise do movimento moderno (BARONE, 2002).

Team 10 opposed the reductive rationalism of CIAM in order to evolve a richer and more humane concept of architecture and urbanism. Contrary to the established CIAM doctrine of splitting up the built environment into four separated functions (dwelling, work, recreation and circulation), Team 10 aspired to evolve a reintegrated city, conducive to human communication. For all their differences, the Team 10 members originally shared an aversion to CIAM’s analytical functionalism and a desire to conceive the built environment in terms of human interrelations and associations.

(STRAUVEN, 2007, p.15)75

Estas divergências de posicionamento refletiam uma insatisfação com o resultado das aplicações práticas da doutrina expressa na Carta de Atenas. O Team 10 reagia a um sentido de progresso, que eliminava as relações tradicionais com o espaço da cidade, e preocupava-se na proposição de um urbanismo condizente com as necessidades humanas essenciais, em contraposição a um reducionismo que verificavam no funcionalismo corbusiano (BARONE, 2002). Neste sentido, Van Eick é expressão de um projeto que estabelece uma desaceleração; a volta a um tempo regressivo, em que as bases para redescutir a relação entre homem e espaço serão retrospectadas nos sedimentos de um passado repleto de lições.

      

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Tradução livre: “O Team 10 se opôs ao racionalismo reducionista dos CIAM, a fim de desenvolver um conceito mais rico e mais humano da arquitetura e do urbanismo. Contrariamente à doutrina estabelecida pelos CIAM de dividir o ambiente construído em quatro funções separadas (habitação, trabalho, recreação e circulação), o Team 10 aspirava a evoluir uma cidade reintegrada, propícia à comunicação humana. Sobre todas as suas diferenças, os membros do Team 10 originalmente compartilhavam uma aversão ao funcionalismo analítico do CIAM e um desejo de conceber o ambiente construído em termos de inter-relações e associações humanas.”

2.4 | Modernismo em transição | Profético é um termo que se ajusta bem ao Le Corbusier (2013) panfletário de Vers une architecture. Propunha uma arquitetura que fazia a vez da revolução, operando pela racionalização das técnicas, pela serialização e industrialização dos processos. Uma arquitetura relacionada a um tempo progressivo, buscando prospectar um futuro de transformação da sociedade. Os traçados reguladores que estabelecem uma ordem, a estética arquitetural que se funda na engenharia e almeja ser máquina; rupturas com o tempo pregresso e busca de uma aceleração rumo ao devir. O passado, de toda forma, se manifesta em um aspecto recessivo de sua personalidade. Para Le Corbusier, a arquitetura se faz para o futuro, mas é na Acrópole e nos antigos templos que Le Corbusier estuda os traçados da planta geradora. Sua visão de aparato tecnológico tem princípio no Parthenon. Alimentam o seu projeto a admiração pela modenatura de Fídias e pela paixão de Michelangelo (LE CORBUSIER, 2013).

A arquitetura como criação do espírito volta seus olhos ao tempo regressivo (em que fixa o clássico), mas sua representação na produção corbusiana é absolutamente progressista, um teatro da profecia. Neste sentido, o projeto de Le Corbusier se aproxima ao de Fichte, quando reafirma o predomínio da razão prática sobre a razão teórica. É este caráter progressivo do tempo, justamente, aquele que será legado ao modernismo brasileiro através