A caça para os grupos indígenas não consiste apenas na aquisição de mais uma fonte de alimento, subjacente a isso o grupo expressa valores e modos de lidarem com a natureza. Desta maneira Assis (1993) ao estudar os grupos indígenas do Oiapoque demonstra as explicações mágicas que estes índios atribuíam a períodos de escassez e fartura e assim obtinham controle de seus recursos naturais. Descola (1988), por sua vez, ao estudar a caça entre os índios Achuar chama atenção para a importância dos cachorros no âmbito das relações de troca entre os homens e as mulheres do grupo. Para Giannini (1994), a floresta é o espaço da caça prestigiada, sendo vista com o lugar compartilhado por animais e grupos inimigos. Enfim, a caça revela não somente a percepção do espaço, mas os conhecimentos acumulados pelo grupo, bem como a relação que estabelecem entre si.
O contato interétnico engendrou e engendra grandes mudanças na relação dos índios com o meio ambiente. De modo que, no caso dos Juruna de Paquiçamba, durante muito tempo se dedicaram a caça predatória, pois era um modo de sobreviverem. Isto somado a aberturas de estradas em torno da TI e com o aumento populacional vem gerando escassez de determinadas espécies, outras já não são mais encontradas no interior da TI como a anta (Tapirus terrestris) animal muito apreciado pelos Juruna devido à abundância de carne. Deste modo, a dieta
alimentar encontra-se seriamente comprometida e cada vez mais adquirem alimentos nos supermercados de Altamira e da Ilha da Fazenda.
A caça é uma atividade eminentemente masculina e geralmente é praticada no inverno, época em que os homens permanecem na aldeia. Como se observou, a época do verão corresponde ao período em que os homens se deslocam da aldeia para se dedicarem à pesca do acari. Para caçar, os Juruna utilizam a espingarda e o cachorro; na maioria das vezes saem para caçar em grupo dado haver um único cachorro bom de caça na aldeia, cujo dono é o auxiliar de enfermagem do posto de saúde, o Sr. Moacir. Há uma grande variedade de animais comestíveis pelos Juruna conforme se pode notar, por exemplo, no Quadro 9 a seguir, mas as caças preferidas são o porção (Tayassu pecari), a paca (Cuniculus sp), veado (Cervidae) e a anta. Em relação ao porcão de agosto a dezembro corresponde à época da reprodução. A caça vai de janeiro a maio coincidindo com o tempo da coleta da castanha. A caça do veado restringe-se aos arredores da aldeia evitando-se assim o centro da mata. Em relação à caça da paca ela é feita à noite quando o caçador fica à espera.
Ser um bom caçador implica na detenção de um certo conhecimento da floresta e dos hábitos dos animais, como suas pegadas, os caminhos por onde sempre passam e as frutas que costumam comer. Por exemplo, a paca é um animal que se refugia nos arredores das árvores da sapucaia. Quando chega a época da sapucaia inicia-se o período da caça desta espécie de roedor muito apreciada pelos Juruna. Em relação ao tatu seguem o rastro na mata encontrando assim a sua toca.O Juruna que é considerado um bom caçador não retorna para casa sem caça ao contrário dos “pés de óleo”, denominação dada aos maus caçadores, que quando saempara caçar todos, na aldeia, já sabem que este dia será nulo. Entretanto, “os pé de óleo” vem sendo muito comum dado a escassez dos animais.
A principal área de caça na TI fica localizada próximo ao Furo Seco, localidade de moradia do grupo familiar de Fortunato Juruna. Recentemente, mudou-se para junto de Fortunato, um de seus filhos, que vem impedindo que os Juruna da “aldeia” continuem caçando neste trecho. Uma das alegações de Edivaldo é que a caça está fraca e que o pessoal da “aldeia” só quer saber de caçar lá e não em outros lugares.
QUADRO 9: EXEMPLOS DAS ESPÉCIES DA FAUNA TERRESTRE
ANIMAIS COMESTÍVEIS NÃO COMESTÍVEIS
Jabuti (Geochelone sp) Tracajá
Jacu (Penélope sp)
Mutum: Pinimba e Fava (Crax sp) Macaco guariba Anta Porcão Tatu 15k (Dasypodidae) Paca Cutia (Dasyprocta sp) Juruti (Leptotila sp) Arara (Ara chloroptera) Veado: Fuboca e mateiro
Tamanduá (Myemecophaga tridactyla) Porco espinho (Pecari sp)
Quati Macaco Sapo (Bufo) Urubu (Cathartidae) Gavião Coruja (Strigiformes)
Fonte: Pesquisa de campo, junho, 2004.
Os moradores da “aldeia” alegam que sempre caçaram no Furo Seco e que Fortunato nunca criou confusão. Em uma das caçadas houve conflito entre os moradores da “aldeia” e o Edivaldo que exigiu que eles se retirassem do local. Marcos que estava no grupo interveio dizendo que há mais de 35 anos ele mora no Paquiçamba e sempre ali caçou e continuaria caçando porque a terra é indígena e se é indígena é de todo mundo, e que ele falaria para o Manuel e para o Marino o que estava acontecendo. De acordo com a versão de Marcos isto só irritou mais o Edivaldo que retrucou: “Aqui o Manuel não manda nada, nem ele e nem o Marino”.
Neste desacordo Marcos, achou melhor não discutir para evitar um problema maior e ao retornar para a “aldeia”, somente com um veado já que o outro animal fugiu, prometeu que avisaria ao Benigno chefe da FUNAI em Altamira sobre o ocorrido. Depois do acontecido ainda retornaram para caçar nesta localidade, mas estavam preocupados, pois não queriam se encontrar com o Edivaldo. Este conflito em torno dos recursos da TI não envolve somente a atividade de caça, mas também a de coleta da castanha e não está somente articulado com a questão do comprometimento da sustentabilidade, mas envolve também uma dimensão política de conflitos
que remontam a época da demarcação da terra como indígena, ou seja, quando não eram índios tutelados pela FUNAI. O fato de passarem a ser índios tutelados gerou mudanças na organização política do grupo e, agora, com a criação da “aldeia” e a entrada de novos atores lidando com os Juruna, há novos desdobramentos.