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À época do verão, período da captura do acari, os homens começam a se arrumar para descerem as cachoeiras do Jericuá, um dos principais pontos de pesca do “zebra”. Geralmente passam cerca de um mês ou mais fora de casa, praticamente mudam-se para o Bom Jardim pescando nas ilhas da Bela Vista, Jericuá e Caju. Essas ilhas acabam se transformando em verdadeiras cidadelas sob a pesca do acari. A movimentação de embarcações no rio é grande. São os compradores de acari que sobem e descem o rio em busca desses peixes, que podem ser encontrados também nos viveiros naturais que ficam nos portos residenciais à espera de um comprador.

Nesta época as mulheres ficam sozinhas na TI com os filhos e são elas quem cuidam do sustento da família. Como os homens dedicam-se exclusivamente, durante o verão, à captura do acari eles não têm tempo de dedicar-se às atividades da roça, o que comprometeria a dieta alimentar do grupo, que também fica desprovido da carne de caça nesta ocasião. Constatou-se que apenas uma família planta mandioca e faz farinha na aldeia. As restantes compram-na em Altamira ou na Ilha da Fazenda. Neste sentido, alimentam-se praticamente da pesca. Os filhos também ajudam pescando ou capturando pequenos pássaros nos arredores da aldeia. Deste modo constatou-se problemas de desnutrição infantil, anemia, Doenças Sexualmente Transmissíveis – DST e artrite.

Na ficha de acompanhamento do auxiliar de enfermagem do mês de abril, por exemplo, foram verificados 20 casos de anemia, sendo oito do sexo masculino e 12 do sexo feminino (entre nove e 31 anos) e três casos de desidratação (entre seis meses e dois anos). Esses problemas de desidratação e desnutrição são apontados pelo profissional de saúde que atua na TI como falta de zelo das mães no cuidado com os filhos. Mas, na realidade, o que se constatou é que isto também está relacionado com o modo de vida dos Juruna.

Além disso, ocorreram quatro casos de problemas de artrite (todos do sexo masculino). Este problema está relacionado com a pesca do acari que exige que os homens passem cerca de seis horas embaixo da água mergulhando à procura dos peixes. Outros problemas decorrentes referem-se as DST e à ingerência de bebidas alcoólica. Como eles mudam-se para as ilhas, ficam livres da vigilância das esposas e deslocando-se para as áreas de garimpo, às vezes, gastam todo o dinheiro nesses locais, vindo endividar-se novamente. Com a diminuição do “zebra”, os homens começam a se deslocar para locais cada vez mais distantes, o que implica em constituição de “novas” famílias. Aliás, este é um fenômeno que está a acontecer em outras regiões do país e mesmo em outras áreas do mundo, como Simonian (2004, i.v.) está a investigar. Tudo isso contribui para a desestruturação familiar, falta de autonomia e dependência cada vez maior da sociedade local/regional.

Com o intenso deslocamento, os homens, ainda não conseguem acompanhar as aulas na escola da aldeia. Muitos deles não sabem ler e nem escrever e apesar de comercializarem bastante com os regionais apresentam dificuldade na leitura de números. Em contrapartida, são as mulheres em idade adulta que estudam e que cada vez mais desempenham um papel fundamental na vida do grupo, não somente no espaço doméstico onde cuidam do sustento da família durante boa parte do ano, mas também no âmbito político.

ruim e povo reclama muito. Mas Zé Pit é muito bom pra nós.Foi ele que agüentou nós aqui quando Tavão, botou fogo na Rubeas e disse que invadia aqui a Governador. Todo mundo tava com medo só pensava em morrer e Zé Pit diz: não nós não vai morrer nós vai brigar [...]. nós é tudo homem nós vai brigar e defender nossa aldeia, nossa terra. [...] Zé Pit tava com nós, brigando com nós. (BARATA, 1993, p. 99).

A história de contato dos Juruna data desde o século XVII na foz do Xingu. Após intensos contatos com a sociedade regional, os Juruna foram classificados por Ribeiro (1957) de contato permanente e nesta lógica estariam diluídos no interior da sociedade cabocla, passando à categoria de civilizados. Os Juruna “viviam sobre si” e sem assistência do governo. Este quadro muda na década de 1980 a partir de conflitos com colonos que foram fixar-se as proximidades da moradia de Fortunato Juruna. Assim, iniciou-se uma “batalha de papéis” entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA e a FUNAI. O primeiro defendendo os direitos dos colonos e negando a identidade Juruna e a FUNAI fazendo-se presente defendendo os direitos dos índios.

Este capítulo discute a presença das agências entre os Juruna chamando atenção para a disputa política que elas travam entre si. De índios que “viviam sobre si” e sem assistência, passaram a categoria de “assistidos” pelas agências. A presença efetiva das agências se deu em 2000. Primeiramente, o CIMI fixou uma “base” na TI desenvolvendo trabalhos na área de educação. Assim, construiu com seus próprios recursos duas salas de aula, casa para as professoras e fornecimento de material escolar. A Secretaria Municipal de Altamira entrou com o pagamento dos salários das professoras. Desta maneira, os Juruna poderiam cursar a 1ª e 4ª série do ensino Fundamental. Paralelamente a isso, o DSEI iniciou a construção do Posto de Saúde com atendimento diário. O posto não somente atende os Juruna, mas também índios de outras etnias que moram as proximidades da TI Paquiçamba tornando-se num local atrativo para esses índios que em situações de urgência terminam buscando socorro lá20.

20 Em algumas ocasiões percebeu-se um certo desconforto dos Juruna em relação às idas dos outros índios para

Paquiçamba em busca de atendimento médico. Muitas vezes chegam em horários impróprios, com muitos parentes, o que deixa os que ali vivem constrangidos.

Deste modo, este capítulo procura dar conta da dinâmica das agências entre os Juruna. O capítulo está dividido em quatro partes. A primeira demonstra como os Juruna passaram à categoria de índios tutelados pela FUNAI e que mudanças isso desencadeou na vida do grupo. A segunda se detém primeiramente nos acontecimentos políticos que tomaram corpo na TI Paquiçamba. Estes envolveram de modo direto e indireto o conjunto das agências de contato que passaram atuar entre os Juruna a partir de maio de 2000, o que terminou por culminar na expulsão do CIMI da TI. É no âmbito desses acontecimentos que ficou evidente as disputas e os conflitos entre as agências de contato em torno dos seus interesses específicos e como isto se reflete na dinâmica interna do grupo, uma vez que os índios também fazem suas articulações e alianças políticas. A terceira parte aborda a ação do DSEI por meio da atuação do Posto de Saúde Indígena entre os Juruna e, a última parte versa sobre as diferentes percepções acerca da identidade indígena.

Desta maneira, o texto inicia historiando a atuação da FUNAI e a partir desta atuação focaliza a entrada dos outros atores sociais. De acordo com Swartz (1968 apud BARATA, 1993 p. 36) “[...] o campo é composto de atores diretamente envolvidos nos processos estudados. E estes atores trazem consigo valores, sentidos, recursos e relacionamentos”. É no caso justamente da “expulsão das professorinhas” do CIMI que essa situação fica evidente. Faulhaber (1998), ao investigar os índios do médio Solimões, chama a atenção para a apropriação que os índios fazem dos discursos das agências. Da Matta (1981) observou que numa mesma fronteira em expansão pode existir agências que estão em franco desacordo entre si, mas para este autor, embora os índios estejam no centro de convergência delas, eles também atuam neste cenário.