A partir dos anos 1990 o governo Federal iniciou várias medidas referentes à saúde indígena. Assim em 1991 a coordenação das ações de responsabilidade da FUNAI foi transferida para a FUNASA. Sob a responsabilidade da FUNASA a política nacional de saúde se estruturou em 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas – DSEI, visando o atendimento de toda a população indígena brasileira. A cidade de Altamira possui uma dessas unidades.
A atuação do DSEI foi evidenciada como um dos elementos que contribuiu para essa nova reordenação espacial dos Juruna. Uma vez que é aos arredores do posto de saúde que as famílias se aglutinaram. Anteriormente viviam dispersos cada um vivendo a sua vida no interior da TI. O mesmo acontecia com os seus parentes que viviam desaldeados na Ilha da Fazenda e as proximidades. A exigência para o estabelecimento da unidade de saúde seria que os Juruna passassem a viver como os outros índios, ou seja, juntos, mais uma vez entra aqui a representação acerca da identidade indígena e como isso orienta a ação política do DSEI em relação aos Juruna que se vêem obrigados a se adequarem a um modo de vida que já era incompatível com sua realidade atual.
Sobre esta mudança, a Profª Nila que trabalhava na TI, assim se posicionou:
[...] nunca houve assistência da FUNAI, Caetano teve aqui quando houve a demarcação e está voltando agora. Eles não são reconhecidos como índios, somente como ribeirinhos. [...] é por causa do distrito, aldeado tem mais vantagens. Aqui tinha só o seu Manuel e a D. Maria e viviam cada um na sua (Nila, 15-02-2001, depoimento).
Neste sentido, constatou-se que a política de saúde do DSEI somado a construção da escola pelo CIMI, fez com que as famílias Juruna, que estavam vivendo espalhadas pelo beiradão, migrassem para dentro da TI, ou seja, um conjunto de elementos. Apesar de a professora Nila ser missionária do CIMI e existir na área conflitos entre as instituições em torno da “posse” dos índios, é importante destacar que esta evidência foi também constatada na TI Potkrô, onde o DSEI teve um importante papel na formação daquela aldeia. O índio Juruna Yuricar, que vive na aldeia Potkô, casado com uma índia Kaiapó, informou o seguinte:
A terra indígena Paquiçamba sempre foi uma reserva, foi demarcada, eu acompanhei a demarcação, ela nunca foi uma aldeia como essa aqui, lá sempre morou onde é a aldeia agora, o meu tio, meu pai, mas em cima outros moradores, tinha outros moradores em baixo, mais em baixo o meu tio e mais em baixo ainda o meu primo que foi assassinado. Agora não, depois do DSEI o pessoal acha melhor que tem que reunir (Y. Juruna, 34 anos, 12-02-2001, depoimento).
Ou seja, por meio da ação de uma agência da sociedade nacional, um novo ator referente às questões indígenas, que não levou em consideração a especificidade dos Juruna, que para terem acesso à saúde tiveram que se adaptar a um novo modo de organização social.
E nesta nova organização social, o DSEI também exerce suas influências na TI por meio da atuação direta do posto de saúde. A ação do DSEI de somente atender os índios aldeados não causou mudanças somente nas aldeias. Patrício (2000) demonstra o movimento político dos Xipaya e Curuaia, índios desaldeados residentes em Altamira na luta para serem incorporados no âmbito desta política e como se observará a seguir no próximo capítulo o movimento dos Juruna citadinos caminha na mesma direção.
O posto de saúde conta com três trabalhadores de saúde. Além do auxiliar de enfermagem, que é um não-índio, conta com dois trabalhadores índios. Um desempenha a função da Agente Indígena de Saúde – AIS e o outro é Agente Indígena de Saneamento – AISAN. Ambos pertencentes a grupos rivais dentro da aldeia. A escolha do AISAN como pertencente de um grupo rival, de acordo com o auxiliar, foi para tentar apaziguar os conflitos entre as famílias, uma vez que, a AIS, é da família dos Felix Juruna. Entretanto, isto só fez torná-los latente. Uma das obrigações do AISAN é cuidar do fornecimento de água, assim os Jacinto obtiveram controle de um importante recurso, já que os Felix controlam a luz da ELETRONORTE.
5.3.1 A água x a luz: os conflitos internos
A energia da ELETRONORTE tem se configurado como um ponto de discórdia na aldeia, uma vez que ela é um recurso que não beneficia todas as famílias residentes na T.I. Com o fornecimento de energia domiciliar os Juruna passaram a adquirir mais intensamente os produtos industrializados, dentre eles a televisão. Seis famílias possuem televisão na aldeia com antena parabólica, entre aparelhos de som e liquidificadores. Isto gerou distintas diferenciações sociais entre eles, como: os moradores do centro e os da periferia ou os que possuem televisão em casa e
os que não tem. A energia não é fornecida 24 horas devido os técnicos da ELETRONORTE terem os alertados do tempo de vida das placas solares. Aconselhando-os a não sobrecarregarem as placas economizando assim a energia. O grupo quem controla esse recurso, ou seja, Os Felix Juruna ligam a energia todos os dias às 5h da tarde até pela manha às 8h, ou seja, a energia só é fornecida a noite. Aos finais de semana ela fica ligada o dia inteiro.
Esta dinâmica nem sempre é obedecida. Ao entrevistar uma índia na aldeia que não tem acesso a este recurso, ela assim comentou: “A Santa (mulher de Marino F. Juruna) era o maior problema aqui, até com nós mulher, ela ligava a energia quando ela quisesse. Quando era os outros não tava nem ai. Só viam o lado deles” (N. 25 anos, depoimento).
No caso a índia esta se referindo que são abertas exceções para o ligamento da luz, mas que isto ocorria de acordo com os interesses dos Felix. Durante a permanência da pesquisadora na TI houve uma tensão entre uma das famílias do grupo dos Jacinto Juruna com os Felix em torno destas questão. O índio Gilliard que é o AISAN na “aldeia” mandou a filha de Manuel, Arlete que é quem fica responsável durante a ausência das lideranças pela energia, de ligar fora do horário que é estabelecido, porque a sua família queria assistir televisão. Ela atendeu, mas ele antes de falar com ela já havia feito ameaças, caso houvesse recusas. E isto gerou muitas “conversas” na “aldeia”.
Em relação ao recurso água ela é tratada também como propriedade pelo AISAN. Ele liga o fornecimento quando melhor lhe convém. Durante duas semanas a “aldeia” ficou sem água. Não se ouviu nenhuma reclamação sobre isto por parte das famílias. Até mesmo porque os Juruna preferem lavar roupa, louças e tomar banho no rio. É nos portos que as mulheres se reúnem e enquanto lavam roupas e cuidam do preparo dos alimentos aproveitando também para colocarem os assuntos em dia. De modo que para saber de alguma novidade era só se deslocar ao porto, local, onde as mulheres discutem publicamente os assuntos da aldeia.
De acordo com Arruda (1999) as sociedades indígenas por mais homogêneas que sejam culturalmente, apresentam significativas divisões internas derivadas das posições diferenciais dos grupos que as formam e do jogo político interno por prestigio, influência e posições de poder. Os espaços demarcados pelo grupo muitas vezes são ignorados pelas agências de contato que enxergam nos como um grupo desprovido de uma dinâmica interna.