Os episódios que culminaram na expulsão do CIMI do Paquiçamba evidenciam às diferentes percepções das agências de contato e dos próprios Juruna em torno do “ser indígena” e como os atores sociais sejam índios ou não-índios lançam mão das diferentes representações para legitimarem seus objetivos e interesses. Oliveira (1976) afirma que a identidade constrativa parece se constituir na essência da identidade étnica, isto implica segundo o autor na afirmação de nós diante dos outros. Ainda segundo este autor quando uma pessoa ou um grupo se afirma como tais, o fazem como meio de diferenciação em relação a alguma pessoa ou grupo com que se defrontam. É uma identidade que surge por oposição. Ela não se afirma isoladamente.
Assim, o contexto desta afirmação do ser Juruna corresponde a um cenário em que o grupo esta travando um embate silencioso com a ELETRONORTE. Como já foi dito a empresa visa à implantação da UHE Belo Monte na área da Volta Grande do Xingu, o que poderá implicar na perda dos seus territórios tradicionais. Este não compreendido apenas como um montante de terras, mas como o lugar que nasceram e cresceram. E, que apesar de estarem sempre em trânsito para outros lugares é para o Paquiçamba que sempre retornam recomeçando suas vidas. É com base neste direito que travam uma luta com a empresa pela posse do rio, impedindo assim, que a mesma demarque o Xingu. Aliás, o processo de reconstrução de identidade entre os Juruna não tem somente como símbolo a cultura. A água também é utilizada como um forte elemento. Isto se observará mais claramente no próximo capítulo entre os Juruna citadinos em que conseguiram através dos mitos e das histórias articular à identidade Juruna a água como um dos elementos principais de seu movimento.
No plano ideológico a ELETRONORTE considera a aldeia Juruna como inventada, ou seja, um claro questionamento da identidade indígena dos Juruna. No relatório do Ministério Público foi justamente a “aldeia inventada” que embargou os estudos da empresa, o que demonstra que a TI dos Juruna é real. Deste modo este é um discurso que a empresa elabora para fazer valer seus interesses. Este discurso é também compartilhado com alguns seguimentos da sociedade local/regional, especialmente os patrões do acari que se referem ao Juruna como índios que “não são mais índios”.
A própria FUNAI de Altamira reforça este tipo de pensamento. Durante as idas da pesquisadora a sede da FUNAI, um dos técnicos tentou alertar o administrador que a mesma
estaria ali para inventar mais índios para a agência Este é um questionamento estranho uma vez que os Juruna de Paquiçamba vivem numa TI que é demarcada pela FUNAI desde 1991. Assim, de acordo com Arruda (1999, p. 72):
cada uma das agências participantes do campo social é guiada por uma ótica especifica, ainda que não explicita, de uma humanidade idealizada, ou seja, uma ou outra termina por negar a identidade étnica destes índios, uma vez em que ambos se negam em enxergar o que realmente esses índios são.
Sob esta ótica também se inclui um forte aliado dos índios de Altamira, a Prelazia do Xingu, que através do discurso da inculturação entendida por Suess (1985, p. 58) como uma “[...] tentativa do missionário entrar na cultura indígena, e assumir esta cultura como chão, onde a semente do verbo já brota [...]”, ou seja, de respeitar a sua particularidade. Entretanto a ação do CIMI em Paquiçamba foi ao contrário estrangulando a historicidade dos Juruna. A própria política do CIMI em Paquiçamba entrou em choque com a realidade atual do grupo.
De outro lado, os Juruna participam deste jogo de identidades na medida em que se apropriam destes discursos. Deste modo se ser índio é falar a língua materna, viver reunidos, usar a pintura corporal eles forjam esses elementos participando ativamente do embate político. Entretanto, isto não se configura num simples forjar. O contato impõe lhes uma necessidade que implica num certo esforço mental que exige que eles se voltem para os limites de suas memórias; corporal de passarem a ter que se comportar de determinado modo; político de terem que dominar um discurso ora pautado na cultura ora no meio ambiente e tudo isso faz com que eles se agarrem naquilo que lhes restou ou nos resíduos de uma cultura estilhaçada. E é a partir do que eles têm que vão recriando e si auto-recriando ou como eles mesmo definem “renovando suas raízes”.
Deste modo, para os Juruna de Paquiçamba torná-se cada vez mais importantes aprender a “palavra indígena” e a pintura corporal, para mostrar à ELETRONORTE que eles são “índios de verdade”. Uma não-índia explicou: “Tem que pintar, porque de vez em quando o helicóptero aparece aí filmando”, e se referindo ao helicóptero da empresa. Com a saída do CIMI da TI os Juruna de Paquiçamba passaram a contar com a ajuda dos Juruna citadinos no processo de “resgate cultural”. Cândida Juruna, Scheila e Joaquina Juruna, que através do conhecimento que detêm sobre a história, e os mitos dos antepassados, são quem ensinam ocorrendo um intercâmbio entre eles. Uma vez que o “resíduo cultural” dos Juruna que moram na cidade é mais consistente, somado a um contexto diário de embates produzem mais intensamente respostas à situação colocada para os índios da cidade.
Altamira já foi terra de índio, da borracha, dos animais. Agora é terra de todo mundo (ACIAPA, 1999, p. 4).
A presença de índios morando em cidades é algo antigo e complexo. Oliveira (1968), ao investigar a vida dos Terêna em cidades ao sul do estado de Mato Grosso, demonstra o que é ser um Terêna urbanizado e que apesar das dificuldades e dos preconceitos enfrentados por esses índios ocorre uma persistência da aldeia no espaço urbano, ou seja, de acordo com ele ocorre a manutenção dos elos tribais nas condições de vida urbana, em que os Terêna recriam seu modo de vida no espaço citadino. Rita Oliveira (1995), por exemplo, chama a atenção que para além da busca de empregos e uma vida melhor, existe um caráter mágico que a cidade exerce sobre os índios. Para esta autora, o que mais talvez atraia os índios para o ambiente urbano seria o fato de se imaginarem modernos. Patrício (2000) demonstra que os índios Xipaia e Curuaia guardam uma identificação muito intensa com Altamira. Este processo de identificação não é somente informado por um passado, mas pela história recente do grupo. Essa cidade também é Juruna, assim como nordestina e sulista, e embora sejam muitas as histórias que se entrelaçam e divergem entre si, a seguir se privilegiará a indígena.
São múltiplos os aspectos da realidade do grupo Juruna. Em Paquiçamba, por exemplo, foi observada a predominância de indígenas do sexo masculino casados com não-índias, de modo que na aldeia são os homens que detêm o pouco da história e memória do grupo, enquanto que na cidade constatou-se uma situação diferente. Ali, são mulheres Juruna que, mesmo casadas com não-índios, constituem-se como as representantes centrais deste grupo no espaço da cidade. Embora reconheçam o parentesco com os Juruna de Paquiçamba, elas identificam-se com os Juruna da Praia Grande, ou seja, um outro grupo de índios Juruna possivelmente produto das várias dispersões destes ao longo do Xingu. Assim, é por meio das vozes, memórias e poesias dessas mulheres que se falará da vivência e experiência urbana dessas índias e de suas famílias em Altamira.
Neste sentido, este capítulo aborda a experiência urbana desse segmento da população de Altamira e divide-se em quatro partes. A primeira detém-se sobre uma breve caracterização dessa cidade e de sua história que como a de muitas cidades brasileiras teve sua origem nas antigas
povoações indígenas demonstrando como esses índios apropriam-se dessa história para reafirmarem-se e demarcarem um espaço na cidade, uma vez que aí existem não somente índios, mas ex-soldados da borracha de origem nordestina e colonos sulistas que chegaram em diferentes momentos. A segunda, parte abordar-se-á os Juruna citadinos, sua distribuição pela cidade e como eles interagem neste espaço, uma vez que Altamira possui muitas feições e aqui se explorará a indígena, realidade que é muito ocultada pela historiografia oficial. A terceira parte aborda o modo de vida das famílias Juruna no espaço urbano e por último chamar-se-á atenção para o protagonismo das mulheres Juruna no processo de reconstrução da identidade dos índios citadinos, que lançam mão de versos de cordel para cantarem e declamarem a história dos antepassados.