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técnico

Conforme já aqui relatado, segundo Skinner (1953/1994), uma parte do universo relacionado a um indivíduo é privada. Porém, o autor não considera que estes eventos tenham propriedades especiais, se distinguindo apenas por sua acessibilidade limitada. A possibilidade de um método para acessar os eventos privados é, desde então, uma questão para Skinner (1953/1994).

De Rose (1997) aborda uma forma de acesso aos eventos privados utilizada amplamente nas ciências humanas e, especialmente, na Psicologia como fonte de dados: o relato verbal. O autor afirma que esta fonte de dados sempre está sujeita a limitações de atenção, memória etc., além de poder sofrer distorções deliberadas por parte do sujeito. Por isso, na Análise do Comportamento, o relato verbal é usado com muita parcimônia, sendo dada preferência à observação direta de comportamentos analisados por manipulação de variáveis experimentais.

Porém, De Rose (1997) indica determinadas situações em que pesquisadores recorrem a relatos verbais, algumas das quais presentes neste estudo, como: a necessidade de acessar comportamentos manifestos que ocorreram no passado, atribuições de causas a comportamentos e comportamentos encobertos como pensamentos.

O mais importante a se considerar nesse caso para De Rose (1997) é que o relato verbal, além de fonte de dados, é uma forma de comportamento. O relato verbal é um comportamento verbal emitido sob controle de um estado de coisas, de um

estímulo discriminativo. A categoria de operante verbal na qual o relato verbal se inclui é o tato23. O tato tem importância particular quando o falante está em contato com um estado de coisas que o ouvinte não conhece.

O pesquisador encontra-se na posição do ouvinte, enquanto o sujeito de pesquisa é o falante. O sujeito tem acesso a um estado de coisas inacessível ao pesquisador e que é de interesse ao último. O relato verbal do sujeito permite que o pesquisador faça inferências sobre o estado de coisas a que ele não tem acesso. A validade das inferências dependerá do grau de controle discriminativo do tato sobre o estado de coisas de interesse do pesquisador, ou seja, a precisão com que o sujeito relata um evento dependerá da sua história de treinos discriminativos (De Rose, 1997).

Quanto às inferências realizadas pelo pesquisador sobre o relato verbal do sujeito de pesquisa, Tunes (1984) questiona se haveria algum operante verbal que não exigisse inferências já que todos eles teriam como condição antecedente um evento privado. Assim, para a autora, a questão recai sobre a confiabilidade das inferências feitas, e não sobre a inacessibilidade do evento.

Concluindo que a precisão dos relatos verbais está mais ligada às condições experimentais do que à natureza deste fenômeno, Tunes (1984) alerta para a

23 Entre todos os operantes verbais, apenas 2 são controlados por antecedentes não-verbais: o tato e o mando. Eles descrevem como o mundo interno entra em contato com o externo.

O tato caracteriza-se por ter como antecedente todo o ambiente físico. Este objeto ou evento do ambiente que controla a resposta do tato pode ser externo ou interno ao indivíduo. Assim, uma mudança no campo sensorial do sujeito controla a resposta do tato. A resposta do tato pode ser vocal ou motora e a consequência é um reforçador generalizado, a aprovação social (Matos, 1991).

Para Skinner, o tato opera em benefício do ouvinte, pois fornece informações a este sobre o mundo ou sobre o próprio falante. Como o estímulo antecedente que controla a resposta do tato pode estar no corpo do falante, este operante verbal é responsável pelo conhecimento de estados internos dos indivíduos pela comunidade verbal (Sério e Andery, 2002).

O mando tem como antecedente uma variável motivacional, ou seja, um evento interno. A resposta pode ser vocal ou motora. Já a consequência é especificada pela resposta, sendo social só no sentido estrito, pois é seguida de mudanças ambientais relacionadas ao estado motivacional (Matos, 1991).

Segundo Ribeiro (2004), o mando opera em benefício do falante que produz o reforçamento específico especificado em sua resposta. Este operante verbal abrange os comportamentos que são mais comumente conhecidos como ordens, pedidos e avisos.

necessidade de o pesquisador ter a preocupação de tornar as condições propícias para a obtenção de relatos verbais mais precisos e completos. Julga a autora que estas condições podem ser propiciadas caso o participante da pesquisa seja colocado em uma situação em que haja um problema a ser resolvido, ou seja, se o pesquisador produzir estímulos discriminativos constituídos por sua inferência do relato do participante. Este procedimento possibilitaria que o participante forneça mais informações que sirvam de base para novas inferências que levem o participante à solução do problema caso estejam corretas. A escolha da História Oral como metodologia permite colocar em prática tal procedimento, o que fortalece sua utilidade para o estudo de trajetórias educacionais e ocupacionais sob a ótica da Análise do Comportamento.

Para que o pesquisador esteja apto a conduzir o participante para a solução do problema, faz-se necessário um bom planejamento da análise e do instrumento de coleta, como salienta Luna (2000). O autor também discute a utilização de relatos verbais como correlatos válidos de um fenômeno e afirma que isto tem íntima relação com o problema e com o referencial teórico da pesquisa.

Para Luna (2000), o que confere legitimidade ao relato verbal como correlato do fenômeno em estudo é o uso das fontes mais diretas possíveis, quando os informantes falam sobre si próprios, e a falta de maneiras alternativas para o estudo do fenômeno. No caso do estudo de trajetórias educacionais e profissionais, ambos os critérios apresentados pelo autor para o uso de relatos verbais são verdadeiros: os próprios egressos devem relatar sua trajetória, visto que detêm tal informação e são a fonte mais direta desta, e não haveria outra forma de acesso a tal informação por meios diretos, já que não seria viável acompanhar toda a sua trajetória, além de muitos comportamentos importantes serem encobertos, como aqueles relacionados a expectativas, valores e influências.

Luna (2000) ainda atenta para a necessidade de um planejamento da análise anteriormente ao desenvolvimento do instrumento de coleta. Isso implica planejar

as categorias de análise para então definir quais serão as categorias de registro que permitem acessar o conhecimento que se pretende analisar. A definição destas categorias para o estudo de trajetórias educacionais e ocupacionais pode ser muito auxiliada pelo sistema comportamental desenvolvido por Luiz (2008) para o ensino da classe de comportamentos “Projetar a Vida Profissional”.

A utilização de relatos verbais como meio de acesso ao fenômeno, como visto, requer cuidados metodológicos e deve ser restringida a pesquisas com características particulares. O problema tratado no presente projeto atende aos critérios relatados para o uso de relatos verbais. Também, a metodologia da História Oral e a organização da classe de comportamentos “Projetar a Vida Profissional” em um sistema comportamental devem contribuir para a coleta e tratamento dos relatos verbais sobre trajetórias educacionais e profissionais e projetos de vida profissional.

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