A primeira e mais básica proposição de Skinner que pode ter relação direta com sua concepção de homem, segundo Micheletto e Sério (1993), é o conceito de operante:
Skinner caracteriza o comportamento que compõe a relação operante como aquele que produz consequências e, exatamente por isso, tais consequências não poderão nunca ser “incidentais” (1935). A importância desta caracterização está no termo produzir; ele indica que o comportamento é indispensável porque ele é que produz aquilo que passará a fazer parte de seus determinantes. Dito de outra maneira, a consequência depende do comportamento e o determina (1993, p.13).
Fica explícito que o operante produz mudanças no mundo e, desta forma, o homem modifica o mundo, constrói boa parte do mundo à sua volta, sendo um agente de mudanças e sofrendo a ação das mesmas, como argumenta Carmo (1996). Tal posicionamento distancia a concepção de homem na proposta de Skinner da idéia de ser passivo, visto que este produz o mundo e é produzido pela ação do mundo sobre ele.
O conceito de comportamento operante conduz a uma compreensão da trajetória educacional e profissional como um conjunto de comportamentos emitidos pelo membro da clientela do ensino técnico no qual cada comportamento mudou tal membro, mas também alterou seu ambiente.
Também fica evidente a idéia de homem como relação. Nem homem, nem ambiente é absoluto ou tem autonomia. Não há uma natureza estática. A própria relação não é estática ou supõe uma causalidade mecânica, sendo produzidos um homem e uma natureza diferentes a cada relação, o que significa dizer que, a cada relação, o homem muda em sua totalidade (Micheletto e Sério, 1993). Sendo assim, o membro da clientela do ensino técnico é diferente a cada momento de sua trajetória, e não só no que diz respeito a um aspecto de sua vida, mas como um todo.
As autoras também consideram a determinação compatível com a individualidade no Behaviorismo Radical, já que o fato de estes organismos estarem expostos a leis gerais não indica que estes organismos venham a ser iguais, dadas as “múltiplas possibilidades de construção de pessoa e self, em função das especificidades das contingências vividas” (1993, p. 16).
Concluindo a explanação sobre a estreita relação entre o conceito de operante e a concepção de homem no behaviorismo radical, as autoras argumentam que o modelo causal de seleção por consequências incute ao conceito de operante uma concepção de homem que é sujeito porque é originador. Em tal modelo, há três níveis de determinação do comportamento e um supre falhas do outro, contexto no qual a relação operante é imprescindível para a explicação do comportamento, mas não a esgota.
Outro aspecto a ser considerado para a compreensão da visão de homem e de sociedade na proposta de Skinner é sua visão sobre eventos relacionados à subjetividade do indivíduo. Em contraposição a outras abordagens que não acham possível um acordo público acerca da validade dos eventos privados, o behaviorismo radical não nega a possibilidade de auto-observação, mas coloca uma questão sobre o que nosso corpo realmente pode observar (Skinner, 1974/2003).
Quanto à sua natureza, Skinner adota uma postura monista, atribuindo natureza física tanto aos eventos públicos quanto aos privados, diferentemente da postura dualista que atribui caráter não-físico aos eventos privados. O autor ainda aceita a introspecção como instrumento metodológico (Moroz et al., 2005).
Skinner se refere a um “mundo dentro da pele” ao abordar eventos privados. Dele faz parte tudo que é relacionado ao funcionamento corpóreo, sendo considerado pelo autor como um mundo de eventos comportamentais que abrange estimulações e comportamentos (Moroz et al., 2005).
Os autores destacam dois aspectos relacionados aos eventos privados: que os estímulos aos quais se referem não são somente aqueles ligados aos órgãos dos sentidos e que tanto comportamentos verbais quanto não verbais podem ocorrer de forma encoberta.
A diferença entre comportamentos públicos e privados, para Skinner, não está na natureza, mas na acessibilidade, ponderando que apenas o próprio indivíduo pode ter acesso a tal evento, o que não significa que ele não será necessariamente acessado ou acessado confiavelmente (Moroz et al., 2005).
No caso das trajetórias educacionais e profissionais dos egressos do ensino técnico e de seus projetos de vida profissional, as trajetórias são compostas por comportamentos públicos, que podem ser observados por outros indivíduos, enquanto os projetos são predominantemente constituídos de comportamentos encobertos.
O questionamento a respeito do grau em que o indivíduo tem acesso aos eventos privados, segundo as autoras, decorre do pressuposto de que o mundo privado do indivíduo é um produto social. Este é um aspecto relevante da concepção de homem e de sociedade no behaviorismo radical, pois significa que é a comunidade que ensina o indivíduo a responder às estimulações internas e os comportamentos encobertos e isso só acontece porque tais comportamentos
individuais são importantes para a comunidade e, consequentemente, importantes para o indivíduo. Assim, o autoconhecimento é de origem social.
Como a comunidade não tem acesso aos eventos privados do indivíduo, ela ensina o relato destes por inferência, apoiada em eventos públicos. Por isso, a questão de Skinner a respeito da confiabilidade deste relato, distanciando-se do racionalismo de Descartes que tem na razão o instrumento mais confiável de conhecimento.
O autoconhecimento, como conhecimento dos eventos que determinam o próprio comportamento, permite que o indivíduo manipule variáveis ambientais, das quais este é função, para controlá-lo, ou seja, permite o autocontrole. O autocontrole se dá por manipulação direta de sentimentos e estados mentais pelo próprio indivíduo e não é garantido pelo autoconhecimento (Moroz et al., 2005).
O autoconhecimento e a possibilidade de manipulação dos eventos que controlam o próprio comportamento é o que permite projetar a vida profissional, pois estão envolvidos nos comportamentos que constituem um repertório especial que permite a preparação para o futuro.
Na concepção de educação de B. F. Skinner, os comportamentos de autocontrole, tomada de decisão e solução de problemas compõem este repertório especial que permite a emissão de respostas certas por parte dos alunos sob contingências novas e sem o auxílio dos membros da agência educacional (Nico, 2001). A autora preocupa-se em salientar que a autonomia propiciada por tal repertório não significa uma independência completa em relação ao ambiente, ou seja, o indivíduo não chega às respostas adequadas a despeito da interação com o mundo, não havendo um repertório comportamental livre de determinações ambientais. Mas estes comportamentos podem tornar o sujeito mais independente na medida em que ele próprio, e não outra pessoa, arranja as condições necessárias para a emissão de outra resposta sua.
O comportamento de autocontrole, conforme apresentado por Nico (2001), compreende a emissão de uma resposta controladora de manipular variáveis ambientais das quais outra resposta, ou resposta controlada, é função. Assim, a resposta controladora provê estímulos que aumentam ou diminuem a probabilidade da resposta controlada. A mudança da probabilidade da resposta controlada é o que reforça ou mantém a resposta controladora.
Quanto ao motivo pelo qual alguém se autocontrola, Nico (2001) afirma que sempre há um conflito entre consequências relacionada ao comportamento de autocontrole. Assim, há uma resposta com maior probabilidade de acontecer por produzir reforçadores positivos imediatos, mas que pode produzir aversivos atrasados. Portanto, o autocontrole ocorre pela necessidade de aumentar a probabilidade de uma resposta menos provável por meio de uma manipulação de variáveis.
No autocontrole, o indivíduo conhece as respostas possíveis e as consequências que devem ser produzidas por cada uma delas antecipadamente (Nico, 2001).
No caso do projeto profissional, o comportamento de autocontrole torna-se necessário na medida em que muitos comportamentos competem com os comportamentos necessários para o desenvolvimento profissional e atingir os objetivos profissionais elaborados. Por exemplo, o ir ao bar com os amigos pode conflitar com frequentar a aula, ou gastar dinheiro com uma viagem pode concorrer com pagar a mensalidade do curso.
Já no comportamento de tomada de decisão, o indivíduo é capaz de identificar as respostas e as consequências antes da manipulação das variáveis para mudar a probabilidade de um comportamento específico, mas, em certos momentos, não sabe quais são as consequências envolvidas caso o comportamento for um ou outro (Nico, 2001). Nestas condições, o indivíduo manipula variáveis para aumentar a probabilidade de “escolher” um curso de ação. A capacidade de tomar uma decisão consiste em produzir conhecimento adicional sobre as
consequências para que uma ação se torne mais provável que a outra. A autora alerta que “tomar uma decisão” não se refere ao ato de decidir, mas ao conjunto de respostas de manipular variáveis para produzir fontes complementares de estimulação e, assim, aumentar a probabilidade de emitir a resposta de decidir. A manutenção do comportamento de tomar uma decisão é atribuída pela autora à remoção do conflito envolvido na indecisão enquanto estimulação aversiva ou à produção de consequências reforçadoras.
O comportamento de tomada de decisão está bastante presente no repertório de projetar a vida profissional. Ele pode ocorrer quando alguém está indeciso em relação à escolha de um curso, de uma instituição de ensino ou de uma ocupação. Por exemplo, se uma pessoa deseja fazer um curso técnico em Eletrônica, mas não sabe em qual escola, ela pode conversar com ex-alunos de cada escola a fim de produzir conhecimento adicional sobre as consequências das respostas possíveis: estudar em uma escola ou estudar em outra escola.
Finalmente, o comportamento de solucionar problemas consiste na identificação da resposta que produzirá reforço. Neste caso, o indivíduo se encontra diante de uma situação-problema, não dispondo de resposta que produza reforço, apesar desta resposta fazer parte de seu repertório. Assim, o indivíduo sabe qual reforço precisa produzir, mas não identifica a resposta necessária para isso.
Diante destas circunstâncias, o indivíduo pode manipular variáveis abertas e encobertas que alterem a situação-problema para aumentar a probabilidade da ocorrência da resposta solução. Os comportamentos de manipular variáveis que possibilitam que o problema seja resolvido são chamados precorrentes ou preliminares (Nico, 2001).
No projeto de vida profissional, o indivíduo está diante de uma situação-problema quando tem um objetivo estabelecido, mas não sabe que respostas emitir para alcançá-lo. Neste caso, é necessário identificar os recursos disponíveis para alcançar as metas, ou seja, os comportamentos que já existem no repertório e que
podem levar ao desenvolvimento necessário para chegar ao objetivo. O projeto de vida profissional, no decorrer da trajetória do indivíduo, deve ser composto por um encadeamento de comportamentos precorrentes que permitem que os comportamentos necessários para o desempenho da profissão escolhida possam ser emitidos.
O autoconhecimento e o autocontrole também afetam a visão de homem e de sociedade no behaviorismo radical no sentido em que estes comportamentos não seriam inerentes ao ser humano, mas um produto social e, portanto, especificidades do ser humano (Moroz et al., 2005). Além disso, para Micheletto e Sério (1993), o autoconhecimento permite as possibilidades máximas de ação do homem: o autocontrole e o planejamento da cultura.
Ainda, o status explicativo dos eventos privados para Skinner difere de posições mentalistas que atribuem a estes um papel inerente de status causal em relação aos comportamentos públicos. Para o autor, tanto eventos públicos quanto privados devem ser explicados, apesar de admitir que os últimos possam participar como variáveis intervenientes no comportamento público, mas apenas circunstancialmente por sua origem pública que pode ser retraçada (Moroz et al., 2005).
Outra posição mentalista rejeitada por Skinner é a existência de uma mente não- física. Porém, o estudo da privacidade é aceito e problematizado por ele, como demonstrado pelas autoras.
Assim, tanto eventos públicos quanto privados devem ser analisados nas trajetórias educacionais e ocupacionais e dos projetos de vida profissional da clientela do ensino técnico, visto a identidade de sua natureza. Porém, as diferenças em sua origem e acesso devem ser respeitadas, principalmente no que diz respeito à sua coleta e uso como informação. Estudadas sob a ótica da Análise do Comportamento, tais trajetórias devem ter no autoconhecimento e no autocontrole daqueles que a percorrem importantes elementos, pois estes
permitem que o indivíduo reconheça os determinantes de seu comportamento e escolha as condições controladoras de seu comportamento por meio de suas decisões.
Retomando a questão da noção de liberdade, já abordada em Micheletto e Sério (1993) em relação à determinação do comportamento no conceito de operante, Sério e Andery (1997) trataram tal tema mais profundamente com o intuito de discutir a concepção de homem no Behaviorismo Radical. Neste caso, são úteis as duas contraposições de Skinner à proposta mentalista, visto que o autor também se opõe a estas visões aplicadas ao conceito de liberdade que o tratam como um estado interno que explica a conduta e que não é explicado. Outro conceito de liberdade combatido pelo autor é o de que esta seria a ausência de determinação.
Sério e Andery (1997) descrevem a luta do ser humano pela liberdade no decorrer de sua existência. Esta se dá pela busca do homem por libertar-se de condições aversivas do ambiente físico e, num sentido ainda mais importante, de condições aversivas produzidas por outras pessoas. No segundo caso, Skinner menciona a importância e os problemas da literatura da liberdade.
A literatura da liberdade, segundo Sério e Andery (1997), foi efetiva em promover uma oposição das pessoas ao controle aversivo. Porém, a análise do comportamento revela que esta literatura enfatizou estados de espírito e não ações promovidas por ela e que não deu importância para contingências de reforçamento positivo que geram problemas.
As autoras julgam que a luta pela liberdade poderia comprometer uma análise científica do homem porque as teorias científicas desenvolvidas a partir desta poderiam refletir a concepção de homem das teorias da liberdade, assumindo os determinantes da ação humana como algo distante da própria ação e levando as determinações para dentro do indivíduo e porque tais teorias opõem a liberdade a todo tipo de controle.
Tal percurso pela questão da liberdade retoma o problema da determinação humana e, para o behaviorismo radical, “o homem vem se construindo ao construir o mundo no qual vive” (Sério e Andery, 1997, p. 20).
O cliente do ensino técnico, deste ponto de vista sobre a liberdade, não seria livre para construir sua trajetória no sentido de não ter seus comportamentos determinados. Mesmo assim, a determinação de seus comportamentos não implica passividade em relação ao mundo, pois indivíduo e ambiente se constroem mutuamente. Principalmente, ao projetar a vida profissional, o indivíduo manipula variáveis com o objetivo de alterar o ambiente e a si mesmo.
Nesta atividade do ser humano sobre o mundo, além da mudança do ambiente imediato, se constrói outro determinante do comportamento: a cultura. Na proposta de Skinner, a forma como o homem deve construir este mundo deve ser guiada pelo que o autor chama de impulso para o futuro, como ressalta Andery (1993). Com isso, a autora pretende dizer que a organização cultural visa:
(...) uma cultura caracterizada por uma maleabilidade que permita a uma sociedade identificar e solucionar seus problemas, ser criativa e produtiva nesta busca de soluções e mesmo ser capaz de antever seu futuro planejando-o com vistas à sua sobrevivência, de acordo com padrões dados (1993, p. 23).
A descrição que a autora faz das características desta cultura marcada pelo impulso para o futuro tem base no esquema conceitual de Skinner. Primeiramente, o pressuposto de um determinismo ambiental que torna fundamental que as práticas culturais, assim como os padrões comportamentais, adaptem-se a um ambiente em constante mudança. Em segundo lugar, está o modelo de seleção por consequências que, no nível cultural, opera de forma que as consequências das práticas culturais tenham valor de sobrevivência para o grupo para que sejam selecionadas.
Skinner afirma tanto a possibilidade quanto a necessidade de se prever a evolução da cultura e nela interferir, visto que a sobrevivência da espécie pode ser
garantida diante do desenvolvimento de uma cultura plena de contingências de reforçamento que coloquem o comportamento sob controle de consequências em longo prazo, além das imediatas (Andery, 1993).
Alguns elementos da cultura são destacados por Andery (1993) como riscos presentes nela hoje como, por exemplo, o uso de controle aversivo e as noções de liberdade e livre arbítrio, a distribuição desigual de reforçamento positivo, a delegação de poder e o reforçamento não contingente. Assim, Skinner descreve em Walden II uma cultura na qual há fortes relações interpessoais que permitem um controle melhor das contingências do que por regras mediadas por instituições sociais. Outras características relevantes desta sociedade são o envolvimento de todos na produção; acesso contínuo, imediato e equitativo a bens e reforçamento contingente; ausência de controle aversivo; sentimento de liberdade dos indivíduos e não desenvolvimento de ideologias e mitos que dificultem o conhecimento; desenvolvimento de tecnologia que liberta os indivíduos; desenvolvimento de um repertório de exploração de possibilidades que torna o grupo maleável a mudanças, suscetível a transformações e hábil no enfrentamento de dificuldades.
Skinner (1977, apud Andery,1993) ressalta alguns princípios que, segundo ele, estão envolvidos no governo de pessoas por pessoas. Seriam eles: substituição de controle aversivo por reforçamento positivo, desvio de reforçadores arbitrários, preferência por comportamentos modelados pelas contingências aos comportamentos de seguir regras, desvio de reforçamento não contingente e explicitação dos controles.
Estes aspectos levam Andery (1993) a discutir os atuais modelos econômicos, indicando problemas em relação à proposta de Skinner em todos eles: liberal, de bem estar social e socialista tradicional. A autora conclui desta análise que os graves problemas sociais da atualidade só podem ser resolvidos com mudanças desde a base da sociedade que envolvam uma nova concepção de mundo materialista com indivíduos ativos e responsáveis, cujas ações gerem
consequências que garantam a sobrevivência do grupo. Dentre estas mudanças, são destacadas a garantia de acesso contingente ao comportamento dos bens materiais socialmente produzidos a todos os membros e a superação de um modelo de controle baseado na punição ou em sua ameaça.
A discussão do nível cultural de determinação pode mostrar como as práticas culturais envolvidas no ensino técnico afetam o comportamento de sua clientela e, consequentemente, as trajetórias educacionais e ocupacionais desta. Também indica como algumas características destas práticas podem favorecer a melhoria das condições de vida dos membros de uma sociedade, características que devem ser consideradas no planejamento das práticas culturais para o ensino técnico.
3. EXPERIÊNCIAS DA CLIENTELA DO ENSINO