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Começamos esse tópico partindo da mesma questão que nos colocamos no início do capítulo: velhos no país de jovens? Sim! Mais uma vez precisamos afirmar. Os dados anteriormente citados sobre o envelhecimento populacional brasileiro revelam que estamos num processo que tende a igualar base e ápice da pirâmide populacional, ou seja, de equilibrar o número de idosos com o de crianças e adolescentes.

Todavia, ainda que estejamos nesse processo de envelhecimento, o Brasil é marcado por um forte discurso de valorização da juventude, da beleza, do não sentir-se velho ou não “tornar-se” velho (ou seja, não assumir comportamentos que possam “revelar” os traços do envelhecimento). Diante desse quadro nos perguntamos: como é construída socialmente a terceira idade brasileira? Quais são os valores e as práticas que norteiam a experiência desse grupo etário diante de tantas pressões?

A imagem do Brasil como um país que tem na juventude de sua população o bem mais precioso para o seu desenvolvimento é tão difundida, que todo discurso sobre a velhice, para ter legitimidade social,

deve começar apresentando projeções demográficas sobre o crescimento acelerado da população de 65 anos ou mais (...) (DEBERT, 2003, p. 135).

Como Debert (2003) coloca no início do seu artigo “O velho na propaganda”21 é ainda muito delicado analisar esse discurso sobre os idosos – especialmente do ponto de vista social –, porque apesar do visível processo acelerado de envelhecimento, o que notamos é uma preocupação exacerbada com a perfeição do corpo – fruto da supracitada valorização da juventude –, o qual retira o foco da reflexão e da luta pelos direitos dos idosos e por qualidade de vida na terceira idade e o coloca sobre a capacidade de cada um manter-se jovem e saudável. Na verdade, a contínua atenção na questão da eterna juventude inibe um debate mais sério e aprofundado sobre o envelhecimento e suas conseqüências sociais, físicas e psíquicas porque se centra nas formas de manter-se jovem e, portanto, valoriza a juventude em detrimento da velhice.

Cremes, sabonetes, remédios, cirurgias, alimentos meticulosamente fabricados pela indústria anti-idade são cuidadosa e amplamente divulgados nos meios de comunicação, o que provavelmente ocasiona um medo de viver o próprio envelhecimento e uma angústia por ser jovem por toda vida. Na corrida contra o envelhecimento, salva-se o consumidor das novidades de saúde e beleza e o que opta por um “estilo jovem” de vida.

Somos apontados como o país, em todo o mundo, no qual as mulheres são as mais preocupadas com a sua aparência (LEIBING, 2005). De acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, 100 mil cirurgias plásticas foram realizadas em 1994 e, no ano 2000, esse número foi de mais de 360 mil cirurgias. Seguramente, um aumento excepcional. A medicina estética tem crescido sobremaneira no Brasil, o que pode ser um forte indicador para que intervenções cirúrgicas de caráter estético se tornem “naturais” e cada vez mais corriqueiras.

Como evidência, podemos citar casos como o da cantora e atriz Carla Perez22 e da Miss Brasil 2001, Juliana Borges23, que foram amplamente debatidos nos meios de

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DEBERT, Guita G. O Velho na Propaganda. Cadernos Pagu (UNICAMP), CAMPINAS, v. 21, n. 1, p. 133-156, 2003.

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De acordo com o jornal Folha de São Paulo, Carla Perez, ao longo de três anos, passou por uma bateria de intervenções cirúrgicas: “A transformação: em 1997, a loira de 1m70 de altura tinha 58 kg, 86 cm de busto, 66 cm de cintura de cintura, 102 cm de quadris e 70 cm de coxas. Hoje, Carla Perez engordou dois quilos (ganhou massa muscular), está com 90 cm de busto (quatro a mais), 102 cm de quadris e 58 cm de coxas (a maior redução).

Para chegar a estes números, não pense que ela malhou muito. Foi graças às mãos do cirurgião plástico Marcus Vinícius dos Santos, que realizou durante um período de três anos, uma série de tratamentos e cirurgias: redução de gordura, definição muscular, tratamento contra celulite, limpeza de pele, plástica de

comunicação de massa. Esses casos foram sintomáticos dessa angústia pelo corpo jovem e perfeito. Ambas levantaram o debate sobre a artificialidade, a não-autenticidade corporal e a intervenção tecnológica no corpo das pessoas ao se submeterem, cada uma, a quase 20 cirurgias plásticas.

Certamente, essa busca pelo corpo perfeito é efeito da medicalização e do culto à eterna juventude e, em parte, sua popularização no grupo dos idosos é, provavelmente, um dos efeitos do surgimento dessa nova categoria social, a terceira idade, no Brasil. De acordo com médica Annette Leibing (2005), que escreveu o artigo The Old Lady from

Ipanema: changing notions of old age in Brazil24, nossas garotas de Ipanema, agora ficaram velhas e integram uma nova categoria, que não é mais “velhice” e sim a terceira idade.

Conforme Leibing (2005), que analisou mais de 30 anos de anos de jornais e revistas impressas brasileiras para observar qual o discurso da imprensa sobre os idosos, a década de 80 marca um momento importante no Brasil:

Isto pode ser descrito como um período de formação de categoria da “terceira idade”; depois as imagens evocadas refletem menos a maneira como as pessoas idosas continuam se sentindo jovens, e mais os esforços que elas fazem para não ficar velhas de vez (Trad. Livre) (LEIBING, p. 7, 2004).

Para Leibing (2005), como apresentamos anteriormente, os valores associados à terceira idade, desde a década de 80, já não promovem imagens de tristeza, abandono, doença, depressão, como era antes. Segundo a autora, isso poderia estar ligado a uma outra categoria: a “quarta idade”, que seria como os idosos eram vistos no passado. O conceito

nariz e prótese de silicone nos seios” (Folha On line, disponível em:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/carla_perez_corpo.html. Acessado em: 12 de novembro de 2006).

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A modelo Juliana Borges, a época com 22 anos de idade, já tinha se submetido a 19 cirurgias plásticas. “Com 1m80 e 58 quilos, aumentou o busto para chegar aos 90 centímetros, harmonizados com a mesma medida nos quadris. Lipoaspirações na barriga e nas costas afinaram a cintura para os atuais 60 centímetros. Aos cabelos acrescentou-se um aplique que os fez crescer 10 centímetros. Foram repintados de castanho: a cor original sumira sob camadas de outras tinturas. À noite, usa lentes de contato que realçam o verde dos olhos. “Sou perfeccionista”, afirma.

A naturalidade com que a Miss Brasil 2001 enfrentou o bisturi tem origem em sua profissão. Modelo desde os 15 anos, convive com homens e mulheres que esculpem o corpo de acordo com as exigências das passarelas” (Revista Época, edição nº. 151, 2001).

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LEIBING, A. “The Old Lady from Ipanema: Changing Notions of Old Age in Brazil”. In: Journal of

de terceira idade também trouxe ao Brasil valores ligados à saúde, à atividade, à longevidade saudável e à manutenção da capacidade profissional.

A pesquisadora brasileira Guita Debert é, sem dúvida, uma das que mais contribuiu para a pesquisa nacional sobre as representações da terceira idade. Para a autora, o Brasil está caminhando no sentido de uma “reprivatização do envelhecimento”: “(...) que implica a sua transformação num problema dos indivíduos que foram incapazes de se envolver em atividades motivadoras, deixando de adotar formas de consumo e estilos de vida capazes de evitar a velhice e seus problemas” (DEBERT, 2003, p. 137).

Diante do espelho, a terceira idade se vê num processo de reprivatização do envelhecimento, no qual o indivíduo é culpabilizado por ficar velho. Problemas de saúde, debilidades físicas, problemas emocionais são colocados como negligência do indivíduo consigo mesmo e não como uma situação que pode ser social ou mesmo Estatal (DEBERT, 2003).

O que podemos constatar é que o discurso sobre a terceira idade brasileira é construído com base nessa valorização da juventude. A jovialidade, a beleza, o sentir-se jovem é a medida na qual se constrói o discurso sobre o envelhecimento. Especialistas, jornalistas, publicitários, representantes do Governo se esforçam para criar a imagem de uma terceira idade ativa e apresentar os ganhos do envelhecimento e evitar as imagens de tristeza, solidão e de perdas de capacidades. “Essa representação tem impacto especial num país em que o culto à beleza, à juventude e à sensualidade tem sido uma das marcas mais destacadas de sua cultura” (DEBERT, 2003, p. 152).

Na verdade, podemos afirmar que existe um “discurso” brasileiro sobre a velhice. No entanto, esse discurso está cindido em duas partes: a primeira seria aquela que traz o que viemos chamando das imagens da velhice. Ou seja, diminuição da capacidade de trabalho, incapacidade de reproduzir-se, perda da força física, pauperização, abandono etc. Esse discurso funda a Gerontologia (DEBERT, 2004) e se coloca como uma maneira muito eficiente de legitimar a luta pelos direitos desse grupo etário. Sem dúvida, essa é uma das imagens que um “país de jovens” pode ter de seus velhos: desempoderados e vitimizados.

O outro lado desse discurso é o que emerge do debate sobre a formação da categoria terceira idade. São as imagens da contínua atividade, do consumo, da beleza, do prazer de viver esse momento da vida. Esse discurso é cada vez mais assumido pelos meios de comunicação brasileiros e, por essa e outras razões, é mais forte e tão difundido quanto o

anterior. Nele a imagem do velho já não se opõe à imagem do jovem. Juventude é, na verdade, um estilo de vida, “estado de espírito”, um padrão de consumo almejado por todas as faixas etárias (DEBERT, 2004). Sem dúvida, essa também é outra maneira de reagir à cultura jovem. É outra imagem que o “país dos jovens” pode promover: a juventude como um estilo de vida. Para Debert (2004), esse discurso tende a se fortalecer, se tornar mais forte que o anterior, e colocar no âmbito do privado as conseqüências do envelhecimento. Ou mais precisamente privatizar esse momento da vida.

De acordo com Debert (2004) trata-se, na verdade, de uma reprivatização porque, antes do século XX, a velhice era um problema da família e/ou do indivíduo que dependia de uma previdência individual ou se resolveria por uma intervenção divina. Depois, já no século XX, ainda conforme a autora, a velhice se transformou numa questão social, sendo o Estado e a família os responsáveis por melhorar seus aparatos para acolher melhor as pessoas com 60 anos ou mais de idade. A partir daí houve uma especialização da área, com a criação de um saber específico – a Gerontologia – e a instituição de uma nova categoria cultural/social: os idosos. Porém, para a autora, esse processo de socialização da velhice é, na verdade, atropelado/transformado pelo processo de reprivatização, ou seja, os indivíduos voltam a ser responsáveis por evitar e retardar os problemas ocasionados pelo envelhecimento. “Neste sentido, a velhice poderia novamente desaparecer do leque de preocupações sociais” (DEBERT, 2003, p. 154).

Mídia, gerontólogos, Estado e outras instituições se empenham na construção e no reforço dessa reprivatização do envelhecimento, que acaba sendo naturalizado. A mídia oferece representações, segundo Debert (1997) e Leibing (2005), de uma terceira idade ativa, criativa, que, efetivamente, evita tornar-se “velha” e os gerontólogos são, por seu turno, pressionados a dar receitas na mídia de como manter-se e sentir-se eternamente jovem:

O contraste entre as representações distintas do envelhecimento e o interesse social pelas tecnologias de rejuvenescimento leva os gerontólogos a negarem seu próprio objeto de estudo e intervenção. De participantes ativos na transformação do idoso em um ator político, vêem-se transformados, especialmente pela mídia, em divulgadores de uma parafernália de receitas a indicar como os que não querem ser velhos devem agir (DEBERT, 1997, p. 15).

Como exemplo dessa afirmação, pode-se citar o caso de uma série de reportagens feita pelo telejornal Hoje – da Rede Globo de Televisão –, exibidas entre os dias 24 e 29 de

setembro, do ano de 2007. A série chamada de “Muitos anos de vida” foi constituída por cinco reportagens em homenagem ao dia Internacional do Idoso. Cada dia era exibida uma reportagem diferente sobre questões relativas aos idosos ou ao envelhecimento. O mais interessante é que, apesar da variedade de enfoques das reportagens – mercado de trabalho, consumo, saúde, beleza –, havia um fio condutor na elaboração desse material que enfatizava a capacidade de manter-se ativo, produtivo, bem e saudável. As imagens nas reportagens eram de idosos trabalhando, fazendo caminhada na praia, fazendo compras no supermercado, ou seja, todas ligadas a atividades, ao cuidado consigo mesmo, à independência, ao consumo e à realização pessoal. Numa das reportagens dessa série, exibida no dia 26 de setembro de 2007, o geriatra entrevistado Renato Maia dá a seguinte explicação para o fato de mulheres viverem mais do que homens:

A mulher, por ter mais contato com seu próprio corpo, sente que deve cuidar melhor dele. E os homens acabam descuidando de si mesmos e ao longo da vida desenvolvem um comportamento muito mais descuidado em relação à prevenção, à busca de assistência médica (JORNAL HOJE, 2007).

O geriatra afirma que viver mais e até idades mais avançadas é uma questão de postura individual. Essa colocação do especialista, sem dúvida, explicita melhor o que Debert (1997, 2003 e 2004) vem chamando de reprivatização do envelhecimento.

Os idosos, nessa perspectiva, emergem como um forte público consumidor, que necessita dos produtos, dicas, alimentos que os mantenham ativos e joviais. A cultura do consumidor combina disciplina e hedonismo na perspectiva de sempre manter-se “bem” e “belo”:

Os indivíduos não são apenas monitorados para exercer uma vigilância constante do corpo, mas são responsabilizados pela sua própria saúde, através da idéia de doenças auto-inflingidas, resultantes de abusos corporais como a bebida, o fumo, a falta de exercícios (DEBERT, 1997, p.4).

A autora chama atenção para o “hedonismo calculado”, no qual as pessoas são encorajadas a vigiar sua saúde e manter boa aparência. Rugas e flacidez são sinônimos de negligência, de abandono de si mesmo (DEBERT, 1997).

Leiging (2005) também defende que a mídia brasileira trata o envelhecimento como uma doença resultada do descuido consigo mesmo. Ela argumenta que no Brasil se

mascara o envelhecimento por meio de medicamentos e cirurgias plásticas. Conforme a autora, o peso que a terceira idade brasileira carrega é a obrigação de ser feliz.

A conspiração do silêncio, denunciada por Beauvoir (1970), se revela agora de maneira muito mais cruel. A nova categoria que emerge, a terceira idade, tem a seu favor a construção e a divulgação das questões relativas ao envelhecimento. Contudo, o risco dessas imagens de atividade, de felicidade, de consumerismo é que o silêncio se abata sobre as questões relativas às ações socais e estatais para a garantia do envelhecimento saudável. Para Debert (2004) corre-se o risco de negar a própria velhice e as conseqüências do envelhecimento, colocando os problemas que idosos possam vir a ter como pontuais e pessoais.