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d) 4º filtro: possibilidade de participação

Para aplicação do último filtro, passamos seis meses visitando com freqüência os quatorzes portais. À medida que íamos conhecendo melhor esses espaços nos deparamos com questões importantes. A primeira delas era que o universo de pesquisa ainda estava demasiado grande. Os portais são, na verdade, “portas” de acesso a uma variedade desconcertante de informações e serviços. Eles se desdobram em páginas e páginas e não têm fim. Num portal, não entramos em um beco sem saída, não há extremidades, sempre

há saídas, ainda que elas sejam uma porta para outro portal ou site. Num portal se tem a porta de entrada, mas não existe uma de saída.

Em vista disso, era necessário aplicarmos outro filtro para diminuirmos o universo, sem perder de vista que essa seria uma oportunidade de o tornamos ainda mais representativo. O número de portais que tínhamos até então tornava a pesquisa pouco exeqüível e comprometia a análise. Essa última peneira necessitava ser eficiente o bastante para escolhermos os casos mais ricos.

Logo, nossas visitas aos quatorze portais nos deram a condição de criar esse último filtro. Nem todos esses espaços funcionavam na prática como prometiam na teoria. Ao testar os serviços dos portais, ou ao tentar abrir as páginas que eles ofereciam, nos deparamos com muitos espaços inválidos, serviços inoperantes e informações desatualizadas.

Isso, sem dúvida, inviabiliza ou dificulta a criação de uma comunidade virtual. Os valores da Internet são baseados na rapidez, efemeridade, novidade e outros. Um portal que não oferece esses serviços não é capaz de “fidelizar” um público a ponto de criar entre eles interesses comuns e um sentido de pertencimento (PALACIO RAMOS, 2007; PORTELA, 2001). Assim colocado, não nos parecia muito apropriado trabalhar com portais nos quais as oportunidades do exercício do protagonismo idoso estavam bastante limitadas, porque os serviços que eles ofereciam não criavam condições para os internautas, de fato, participarem e interagirem e, assim, construírem uma teia de relações.

Como evidência, o portal brasileiro “DeIdade” está sem atualização desde o ano 2005 e seus serviços de interatividade, que podiam aumentar as chances de participação dos receptores, estavam todos desativados. Outro caso interessante foi o do “Portal

Mayores”. Esse ambiente é voltado para um público muito amplo e com a continuidade das

nossas visitas percebemos que, em geral, os serviços disponíveis não privilegiam o público idoso e, na verdade, buscam formar um grande banco de dados sobre a terceira idade. Neste sentido, também não favorece a participação dos receptores, já que seu objetivo é menos a formação de uma comunidade e mais a facilitação de documentos e pesquisas sobre geriatria e gerontologia. Um caso extremo é o do portal “Portal de mayores de la

comunidad de Madrid”, o qual, com freqüência, passa dias e dias fora do “ar”. Ou, mais

precisamente, ao tentarmos abrir esse portal é muito comum nos deparamos com uma página de erro, como se esse portal já não existisse mais. Ainda que, depois de uma

algumas semanas, ele volte a entrar em funcionamento. Um portal assim, sem dúvida, dificulta e muito a possibilidade de ter um grupo de pessoas que o acesse com freqüência e participe socialmente dentro dele.

O fim do período de aplicação desse filtro restringiu o nosso universo a dois portais: “Júbilo”, da Espanha, e “Portal da terceira idade”, do Brasil.

Essas etapas de aplicação dos filtros não foram estanques. Como é óbvio, para efeito de tornar mais compreensíveis as decisões tomadas para elaboração dessa pesquisa, apresentamos separadamente cada uma delas. Contudo, muitas vezes as descobertas foram simultâneas e as ações se sobrepunham.

2ª subetapa – etnografia da rede

Depois que selecionamos os portais a ser analisados, o próximo passo foi compreender melhor a realidade de cada um deles. Assim colocado, passamos a organizar nossas visitas de modo estratégico. Ou seja, de outubro de 2008 a março de 2009, passamos a visitar praticamente diariamente (em diversas vezes chegávamos a entrar várias vezes ao dia) essas comunidades virtuais utilizando como estratégia metodológica a observação participante e entrevistas individuais. Como se tratou de um estudo etnográfico, que também se embasou nas estratégias metodológicas da teoria Ator-rede, nosso desafio foi descrever, compreender a dinâmica dessas comunidades e, certamente, o exercício do protagonismo idoso, para tanto percorremos os seguintes caminhos:

a) aproximação – esse foi o momento de reconhecer o grupo. Passamos a freqüentar os portais e perceber as dinâmicas de cada um, as rotinas deles, enfim, o cotidiano. Tentamos responder a algumas perguntas, como: quantas vezes eram atualizados por semana? Quais eram os principais serviços? Como os usuários participavam das atividades propostas? Como o portal criava mecanismos de manter a rede de interações entre os usuários e entre eles e os produtores? Essa foi uma etapa de exploração, enfim, de tomar conhecimento dos grupos e de cada ambiente.

b) seguindo os passos – passamos aqui a registrar com mais detalhes as atividades das nossas comunidades virtuais. Começamos então a observação sistemática de usuários e produtores, reconhecendo o papel de cada um, a interação entre eles e as maneiras como os usuários participavam nessas comunidades. Também nos propomos nesse momento a tentar compreender como essas redes sociotécnicas eram construídas.

c) participando – esse foi o momento de se revelar. De fazer perguntas diretas, de testar os produtos e serviços, afinal, de colher dados com os usuários e os produtores. Neste sentido, contamos com os instrumentos de interação do próprio portal para fazer esses questionamentos. Produtores e usuários foram abordados por correio eletrônico ou pelas listas de discussão. As informações que não estavam disponíveis no portal, que não se revelaram nas nossas observações e que, ainda assim, julgávamos fundamentais para proceder à análise, as conseguimos utilizando os próprios recursos disponibilizados por estes ambientes. Nesse momento também lançamos mão de outra estratégia: a criação de um blog, chamado “Blog de Campo”. Nesse espaço colocamos as informações gerais sobre a pesquisa, como objeto, objetivo e instituição de vinculação, e abrimos espaço para os atores se manifestarem (essa estratégia está detalhada na quarta parte desta tese).

3ª subetapa – variáveis e indicadores

O mapeamento e a análise propriamente dita dos portais foram feitos por meio da aplicação de alguns indicadores. Como discutimos antes, nos colocamos o desafio de fazer um estudo etnográfico dessas comunidades. Não obstante, elegemos um aspecto prioritário para observamos nesses espaços: o exercício do protagonismo idoso. Portanto, é claro que, apesar de termos visto diversas facetas da realidade destes ambientes virtuais, centramos o nosso foco de observação na participação das pessoas idosas.

O processo etnográfico não tem receita. Não existem manuais práticos para o investigador. Tampouco sobre a teoria Ator-rede. Contudo, ao olharmos o nosso campo tínhamos uma pergunta em mente: como se processa o protagonismo idoso nessa rede?

Logo, para responder a essa pergunta, organizamos o nosso método de observação a partir de variáveis e indicadores.

Como evidência, as variáveis e seus respectivos indicadores, que discutiremos a seguir, refletem a preocupação em mapear os níveis de participação dos idosos nas comunidades virtuais selecionadas. O suporte teórico foi fundamental para a construção dos indicadores de análise. Tanto os que concernem à questão do envelhecimento demográfico, quanto os voltados para as tecnologias, como a teoria Ator-rede.

Seguindo os passos de Latour (2005), nos propomos a acompanhar as pistas dos atores, fossem eles humanos ou não-humanos, dessas redes sociotécnicas, e a ouvir o que eles nos diziam. Foi por meio da ANT, por exemplo, que examinamos o papel e o impacto dos atores (humanos e não-humanos) da rede. A realidade social não é estanque e é complicado observá-la como se os atores ocupassem posições fixas e simétricas. A metáfora da rede é um contraponto a essa visão e reconhece que a ordem social é circular. Por meio da ANT observamos com mais clareza o lugar de fala de cada ator e a dinâmica das relações que se travavam dentro das redes analisadas.

Portanto, com base nas perspectivas teóricas e metodológicas que elegemos para fundamentar essa tese de doutorado, consideramos as variáveis sobre os seguintes indicadores para auxiliar na análise e mapeamento dos portais da Internet sobre idosos e para idosos:

Fonte: elaboração própria.

Na figura acima, apresentamos os indicadores e as variáveis construídos para facilitar o nosso trabalho. É importante ressaltar que esses instrumentos não se colocaram como determinantes. Indicadores e variáveis foram balizadores que permitiram, entre outros quesitos, guiar o olhar para a pergunta da pesquisa e estabelecer comparações, quando fosse apropriado. Contudo, não foram camisas de força. Nem seria coerente se fossem, já que tanto a Etnografia quanto a teoria Ator-rede defendem que a realidade se deixa revelar a partir da experiência do pesquisador com ela. E não se encaixa no molde que o pesquisador ansioso leva consigo para enquadrar os fenômenos sociais. Assim colocado, para auxiliar na análise das nossas comunidades virtuais, elegemos três indicadores e criamos variáveis para cada um deles. A partir de agora, discutiremos e justificaremos os indicadores e as variáveis de cada um deles:

1. A rede da rede AREDE DA REDE Produtores Mantenedores PORTAL TEMÁTICO Acessibilidade Funcionabilidade Encontrabilidade Usabilidade objetiva Serviços interativos Participação dos usuários nos serviços interativos Níveis de participação Rotina de funciona mento PARTICIPAÇÃO Usuários Temáticas principais

O nosso primeiro indicador teve o objetivo de mapear a rede de humanos formada em cada um dos nossos portais. Neste sentido, nossa intenção é basicamente conhecer melhor os atores humanos e saber um pouco mais sobre deles.

Para a teoria Ator-rede (ARENDT, 2008), uma ação fundamental ao se observar uma rede sociotécnica é estabelecer quais são os atores desta. Por conseguinte, para construir as variáveis e organizar nossa análise, apontamos, a princípio, como atores da nossa rede: usuários, produtores, mantenedores dos portais. Assim colocado, considerando que se trata de uma rede sociotécnica, há elementos humanos e não-humanos como atores.

Para averiguar esse indicador, trabalhamos as seguintes variáveis:

a) Produtores

Essa variável questiona sobre quem são os produtores do portal. Ou seja, a equipe de técnicos e especialistas que alimenta e mantém os serviços da nossa comunidade funcionando. São atores que participam dessa comunidade e que lidam, muitas vezes diretamente, com as ferramentas técnicas da Internet para manter o portal funcionando, fazem os reparos necessários, alimentam o conteúdo e, afinal, é para quem os usuários se reportam no caso de necessitarem fazer sugestões, reclamações e todo tipo de ajuda que precisarem para “navegar” nesse ambiente.

b) Mantenedores

Interessou-nos conhecer a instituição ou grupo de instituições que mantinham esse espaço na Internet, por exemplo: se é uma organização de idosos, um órgão do Governo, uma instituição educacional, uma empresa privada ou mesmo um grupo independente. Esse foi o momento de buscar entender qual a rede de interesse que está por trás da construção desse portal. Os mantenedores detêm o controle desses espaços virtuais. São como “gatekeepers” porque determinam a equipe de produtores que estará à frente do desenvolvimento e manutenção de produtos e serviços e, claro, determinam, também, a “linha editorial”, ou seja, as temáticas principais que os portais adotam8. Os mantenedores detêm, inclusive, o poder de retirar o portal da Internet.

c) Usuários

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É importante observar que alguns portais constumam eleger os temas de discussão com o auxílio dos outros atores da comunidade, como os usuários. Isso, certamente, aumenta o nível de participação destes últimos.

Certamente, os portais que elegemos são destinados a idosos, aliás, esse foi um dos filtros de seleção do material analisado. Contudo, com essa variável nos perguntamos se os usuários, ou receptores, são exclusivamente os idosos ou o leque abre-se para filhos e netos, por exemplo. Outra pergunta que colocamos, ainda mais importante que a anterior, é sobre qual o perfil do idoso ao qual se destina esse portal. Por meio das informações reveladas nestes, do conteúdo do material disponível e dos tipos de serviços oferecidos averiguamos, quando foi possível, o perfil sócio-econômico-cultural dos idosos de cada portal. Além disso, nos perguntamos também para que regiões ou cidades do país esse portal está voltado. Uma característica da Internet é que qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo, pode acessar seus conteúdos sem restrição, independente do país no qual eles tenham sido criados. Portanto, um portal brasileiro pode estar destinado a todo o mundo, a todo o país ou a uma região específica.