O desejo da imortalidade ou da possibilidade de viver muito mais anos sempre permeou o imaginário dos seres humanos. No Antigo Testamento, por exemplo, Deus promete a Abrão e a seu povo, que decidem seguir os passos do Senhor, uma dádiva importante: “Já não morrerá aí nenhum menino, nem ancião que não haja completado seus dias; será ainda jovem o que morrer aos cem anos: não atingir cem anos será uma maldição” (ISAÍAS, 65). A promessa é o prolongamento da vida, a maldição é morrer antes dos 100 anos. De fato, essa oferta era um presente porque essa expectativa de vida11 tão alta não foi um bem coletivo e, até os dias de hoje, sem dúvida, continua não sendo, ainda que estejamos muito mais próximos desse número do que nossos antecedentes.
Atualmente viver até 100 anos já não nos parece algo tão surpreendente. Mesmo que nossas esperanças médias de vida ainda não cheguem a esse número, elas se aproximam sobremaneira. Aliás, um dos grupos etários que mais cresce no mundo é exatamente o
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Expectativa de vida, ou esperança de vida, é o número médio de anos que cada indivíduo, de uma determinada população, pode viver desde a sua data de nascimento.
grupo dos centenários. De acordo com as projeções do IBGE, o mundo, em 1999, contava com aproximadamente 145 mil centenários. A expectativa é de que esse número aumente quinze vezes até o ano de 2050, o que representará mais de 2,2 milhões de pessoas no mundo com mais de 100 anos de idade.
Estima-se que no mundo haja aproximadamente 6,5 bilhões de pessoas. Desse total, cerca de 10% tem 60 anos ou mais de idade. Isso implica dizer que contamos com aproximadamente 600 milhões de pessoas idosas no planeta. Quadro que certamente se revela como uma grande novidade para a humanidade e que tende a continuar se transformando. Esse fenômeno faz com que as pirâmides etárias dos países sofram profundas modificações, equilibrando o número de jovens e idosos, ou seja, base e topo.
Ao que parece, as previsões bíblicas, no tocante ao prolongamento da vida, estão acontecendo agora. O sonho da imortalidade nunca esteve tão presente e aparentemente tão ao alcance dos homens. As tecnologias da área da saúde, o aumento da expectativa da vida, a posição da medicina em relação a tentar controlar a morte traz aos simples mortais o gosto de sentir um pouco da imortalidade. “O sonho de imortalidade nunca foi tão vivido e revivido pela medicina e acariciado pela sociedade, como no momento presente, projetando-se como a grande utopia do século XXI” (OLIVEIRA e MINAYO, 2001, p. 140). O que antes poderia ser uma dádiva de Deus a um povo eleito se transforma agora num bem coletivo e o que temos, em quase todo o mundo, é uma democratização da sobrevivência até idades mais altas.
Para apresentarmos as evidências desse fenômeno, começaremos por expor o que seria o dado mais óbvio quando pensamos em envelhecimento demográfico, ou seja, os números que concernem às expectativas médias de vida:
Tabela 1–Expectativa de vida ao nascer, Brasil, 2007
País Expectativa de vida (anos)
Angola 37,92
África do Sul 42,37
Afeganistão 44,21
República Democrática do Congo 53,98
Rússia 65,94 Egito 71,85 Brasil 72,51 Uruguai 76,14 Argentina 76,52 Estados Unidos 78,14 Reino Unido 78,85 Alemanha 79,10 Espanha 79,92 França 80,87 Canadá 81,16 Japão 82,07
Fonte: elaboração própria. Dados: Cia World Factbook
Na tabela acima, temos as expectativas de vida de alguns países do mundo que elegemos para tentar dar uma idéia geral do que seriam, nos dias de hoje, as expectativas mais baixas e as mais altas do planeta. É certo, e necessário esclarecer, que em grande parte dos países africanos a esperança média de vida segue muito mais baixa do que a dos países europeus, asiáticos e latinos, por exemplo. Os números africanos nos remetem a uma expectativa, que os países de outros continentes, como o europeu, tinham no século XIX ou em momentos de guerra, nos quais as taxas de mortalidade12infantil e adulta eram altíssimas. A discrepância quando comparamos os países africanos ao Japão, por exemplo, é muito grande, já que este fulgura como o primeiro país no ranking mundial com a maior esperança de vida.
O mais importante de perceber é que essas expectativas médias de vida estão sofrendo um câmbio muito forte – indicando que aumentou e aumenta substancialmente a média de vida dos indivíduos – a qual para os países desenvolvidos começou aproximadamente no século XIX e, para os países em desenvolvimento, como os latinos, por exemplo, começou a partir da segunda metade do século XX. Nas tabelas a seguir poderemos comparar como essa expectativa de vida veio aumentando, tanto para os países desenvolvidos quanto para os em desenvolvimento, nas últimas décadas:
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A taxa de mortalidade, ou coeficiente de mortalidade, é, geralmente, obtida calculando o número de óbitos para cada mil pessoas em uma determinada população e em um determinado período de tempo.
Tabela 2 – Expectativa de vida ao nascimento, alguns países ou regiões menos desenvolvidas, 1960/5, 1980/5 e 2000/5 (em anos)
Países 1960/5 1980/5 2000/5 (projeção)
Média dos países menos desenvolvidos 45.6 56.6 63.2 Ásia do Sul 45.1 53.6 61.8 América Latina 56.5 64.1 69.4 África 41.6 49.7 57.6 África do Norte 46.5 55.9 65.1
Fonte: HOOVER e SIEGEL (1982, 1986) apud KALACHE el al, 1987.
Tabela 3–Expectativa de vida ao nascimento, alguns países ou regiões desenvolvidas, 1960/5, 1980/5 e 2000/5 (em anos)
Países 1960/5 1980/5 2000/5 (projeção)
Média dos países desenvolvidos 69.8 73.0 75.9 Japão 68.9 76.6 77.7 Austrália e Nova Zelândia 70.9 74.2 76.5 América do Norte 70.1 74.1 76.5 Europa Ocidental 70.8 74.1 76.4 Europa Oriental 68.8 71.7 75.2
Fonte: HOOVER e SIEGEL (1982, 1986) apud KALACHE et al, 1987.
Nas tabelas 2 e 3 podemos constatar que o aumento da expectativa de vida é uma tendência mundial ainda que haja, como colocamos antes, diferenças muito grandes entre os países, como o Japão e alguns países africanos. Entretanto, mesmo esses últimos tiveram um ganho perceptível na esperança média de vida. Por exemplo, no continente africano, na década de 60, a média da esperança de vida era de 41,6 anos. Já no princípio dos anos 2000, ou seja, quarenta anos depois, esse número subiu para quase 58 anos de idade, o que implica dizer um ganho médio de mais de 15 anos de vida, num período de tempo que, do ponto de vista histórico, é muito curto.
O aumento da expectativa de vida é geralmente acompanhado em todo o mundo pela queda na taxa de fecundidade13 e também pela diminuição da taxa de mortalidade. Assim colocado, defendemos que as pirâmides etárias mudam sua forma e tendem a se assemelhar a um cilindro, já que temos um aumento significativo no número de idosos e, em contrapartida, uma diminuição do número de nascidos. Nos gráficos a seguir podemos
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A taxa de fecundidade é uma estimativa do número médio de filhos (nascidos vivos) por mulher em idade fecunda (15 a 49 anos). Essa estimativa é uma porcentagem obtida por meio da fórmula matemática: taxa de fecundidade=[(15 – 49)]/p x 100. Nessa fórmula a expressão (15-49) corresponde ao número de mulheres em idade fecunda, ou seja, de 15 a 49 anos de idade, e “p” significa a população total, auferida nesse tempo determinado.
visualizar como esses movimentos de aumento da expectativa de vida e de queda da fertilidade modificam a estrutura demográfica dos países:
Gráfico 1 –Evolução da população menor de 15 anos e de 60 anos ou mais de idades, países em desenvolvimento (%), 1940-2050
Fonte: FERNANDES, C. J., 2000.
Como podemos perceber no Gráfico 1, os países menos desenvolvidos, como os africanos e latinos, estão sofrendo uma mudança demográfica muito importante. O número de jovens cai sensivelmente – ou seja, há uma diminuição do número de nascidos –, enquanto a linha que marca o número de idosos cresce sobremaneira. Nesse gráfico, podemos ver que a estimativa para o ano 2050 é que as linhas que representam o número de crianças e adolescentes e de pessoas idosas quase se toquem, o que prova que, mantido o ritmo atual, tende a ocorrer um equilíbrio no número de representantes desses dois grupos etários, mesmo nos países menos desenvolvidos.
Já para os países chamados desenvolvidos a estimativa para o ano 2050 se revela muito mais intensa. As linhas que marcam o número de jovens e o número de idosos se cruzam antes dessa data e se distanciam, evidenciando que, nesses lugares, o número de idosos será maior que o número de pessoas entre zero e 15 anos de idade, se for mantido o ritmo atual:
Gráfico 2 –Evolução da população menor de 15 anos e de 60 anos ou mais de idades, países desenvolvidos (%), 1940-2050
Fonte: FERNANDES, C. J., 2000.
O gráfico sobre os câmbios demográficos nos países desenvolvidos nos deixa claro o quanto as pirâmides demográficas se diferenciam da dos países em desenvolvimento. Isso porque essas nações vivem o processo de envelhecimento demográfico a muito mais tempo do que os países latinos e africanos, por exemplo, como dissemos antes. A perspectiva para o ano de 2050 é que, em média, os países desenvolvidos tenham quase 33% de sua população com 65 anos ou mais de idade.
Apesar de estar claro que as taxas de fecundidade têm caído paulatinamente ao longo do último século, o volume total das populações, por sua vez, tem aumentado progressivamente. Esse fato se deve a outro fator que torna possível o aumento da expectativa de vida ou o envelhecimento demográfico: a diminuição das taxas de mortalidade. No Gráfico3 está demonstrado o quanto as populações têm aumentado e o quanto continuaram aumentando:
Gráfico 3–Volume da população mundial, 1700-2025 (em milhões de pessoas)
Fonte: Informes e projeções do FNUAP apud PÉREZ DÍAZ, 2003a, p. 37.
Pelo gráfico acima, podemos deduzir que as populações continuam aumentando porque as taxas de mortalidade vêm caindo sobremaneira. Ou seja, as taxas de fecundidade estão cada vez menores, contudo passamos cada vez mais tempo vivos.
Apresentamos esses números ainda correndo o risco de sermos repetitivos, para fundamentar um pouco e dar um contorno mais preciso para esse fenômeno mundial que está ocorrendo. O envelhecimento das populações não é pontual nem passageiro. Há previsões de que, nos próximos 15 anos, haja cerca de 1,2 bilhões de idosos no mundo, o que equivalerá a, aproximadamente, 15% da população mundial. Portanto, por seu impacto tanto qualitativo quanto quantitativo, esse fenômeno merece investigação. O aumento do número de indivíduos idosos impacta muito além dos desenhos das pirâmides etárias. Como foi argumentado, é, sobretudo, uma democratização da vida. Uma revolução da vida e uma revolução na forma de organizar e encarar a própria vida e a reprodução, que não deixa nenhuma fração de nós inatingida (PÉREZ DÍAZ, 2004).