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Envelhecimento demográfico é, como até agora rotulamos, esse aumento significativo no número de pessoas com 60 anos ou mais de idade no mundo. Utilizamos a expressão “envelhecimento demográfico” por ser a mais conhecida. Ela se tornou comum no meio científico porque foi, e ainda é, fortemente utilizada pela área da demografia, especialmente a partir da década de 30, quando já não restavam mais dúvidas de que as populações estavam “envelhecendo”.

Contra esse termo não temos nenhum problema. Excetuando-se o fato de que quando nos referimos a ele não tratamos somente de “envelhecimento das populações”, mas da revolução da vida ou da revolução reprodutiva. Na verdade, a expressão “envelhecimento demográfico”, conforme Pérez Díaz (2005), traz dois problemas. O primeiro é o semântico: as populações não envelhecem! Elas não têm idade. Quem envelhece são os indivíduos:

O que denominamos de envelhecimento demográfico é simplesmente um câmbio na estrutura por idade. Se quisermos conhecer suas conseqüências, não é suficiente supor que os atributos e repercussões da velhice individual são também os que vão ter a velhice populacional (PÉREZ DÍAZ, 2004, p. 3).

O segundo problema também está nessa citação de Pérez Díaz (2005). Se importarmos a expressão da demografia e não a qualificarmos, da maneira mais precisa e adequada para as Ciências Sociais, estaremos falando meramente da constatação de que os seres humanos têm cada vez mais ganhado anos de vida. Nesse sentido, a mera constatação nos pouparia o trabalho de analisar as conseqüências, ou seja, a informação por si só já seria suficiente. Concordamos com o autor, contudo acreditamos que esse cenário é ainda mais complicado do que ele propôs. Isso porque os estudos dos demógrafos são marcados pelas péssimas previsões do que seria esse “envelhecimento demográfico” e impõe a essa expressão um sentido muito forte ligado às imagens negativas da possibilidade de viver mais. Como já discutimos antes, essas previsões caminham no sentido de alertar para as catástrofes que os Estados podem sofrer – como quebra do sistema de seguridade social – por conta do aumento do número de idosos. Porque se observarmos esse dado isolado, temos tendência a crer que essas características sociais, culturais e econômicas das sociedades estão congeladas e o progressivo aumento do número de idosos, certamente, tencionaria esse sistema, que não sofre nenhuma alteração. Se as conseqüências do

aumento da sobrevivência não forem analisadas sob a perspectiva dos contextos históricos de cada geração, parecerá sempre que estamos a um passo de uma grande crise mundial.

O que temos aí, então, é uma seara perigosa. A expressão não é neutra. Ao contrário, tem sido freqüentemente relacionada às piores perspectivas sobre o aumento da expectativa de vida. Talvez o maior problema resida aí. Na “contaminação” dessa expressão por um ponto de vista que é cada vez mais forte não só na área da demografia, mas que também se fortalece nas áreas Humanas e Sociais. O rótulo “envelhecimento demográfico” parece perder de vista essa grande conquista da humanidade: sobreviver por mais tempo. O bem que se coletiva é visto para muitos como uma ameaça aos estados o qual se revela como uma grande contradição porque, como já comentamos, a possibilidade de viver até idades mais altas ou mesmo de nunca morrer sempre foi um sonho acalentado pelos seres humanos.

Além disso, a expressão “envelhecimento demográfico”, quando se refere apenas à questão do aumento da sobrevivência, deixa de abordar a questão da queda na taxa de fecundidade. Como se um fato não estivesse ligado ao outro. Para Pérez Díaz (2003a) o fato da mortalidade não ser tão alta, ou seja, não se colocar com uma questão tão determinante e inesperada que leva de uma maneira massiva os representantes das gerações mais jovens, faz com que a reprodução, o momento de se reproduzir e o número de filhos que se terá sejam pensados de uma maneira mais tranqüila, sem a obrigação de “povoar” a Terra.

O autor defende que, no passado, a mortalidade, que sempre foi superior a 200%, reduzia praticamente pela metade as gerações, antes que elas chegassem à sua fase reprodutiva. O argumento de Pérez Díaz (2003a) reside exatamente nessa ineficácia do sistema reprodutivo que, como discutimos antes, para equilibrar o alto número de óbitos exigia uma alta de natalidade15. A grande maioria das pessoas não tinha o privilégio de chegar a uma idade madura. A vida lhe era retirada antes disso:

Portanto, as tradicionais pirâmides jovens caracterizaram toda a história da humanidade, com grande presença infantil e juvenil frente à escassez de adultos maduros e a presença residual de idades avançadas, são somente uma expressão da ineficiência do sistema reprodutivo (Trad. Livre) (PÉREZ DÍAZ, 2004, p. 7).

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Taxa de natalidade se refere ao número de nascidos para cada mil habitantes de uma determinada população num determinado período de tempo.

Para evitarmos o uso da expressão “envelhecimento demográfico” ou “envelhecimento populacional”, Pérez Díaz (2003a) nos propõe a utilização de outros termos que qualificariam melhor esse fenômeno. Esses termos, que significam a mesma coisa, são os que já viemos utilizando nesta tese de doutorado, como: maturidade das massas, revolução da vida, revolução reprodutiva, transição demográfica e outros. Tais expressões são as que acreditamos qualificar melhor esse fenômeno, enquanto o “envelhecimento demográfico”, talvez por sua vinculação à demografia, traga somente a força dos números, o aspecto quantitativo do fenômeno e, sobretudo, negativo. Pérez Díaz (2005) utiliza na sua obra todas essas expressões, mas opta por fortalecer o que chama de “maturidade das massas”:

A democratização da sobrevivência até idades mais altas já é um fator de êxito reprodutivo em si mesmo (as populações se fazem muito maiores, ainda que a fecundidade diminua, porque seus “inquilinos” passam muito mais tempo nelas), mas tal êxito se retroalimenta: distribui melhor o trabalho de ter filhos, antes limitado à reduzida parte sobrevivente de cada geração. Isto, por sua vez, permite descendências menos abundantes, as quais se pode dedicar mais cuidado e recursos, o qual redunda em uma maior sobrevivência. Um círculo, em suma, que conduz à exitosa dinâmica populacional atual e, claro, a uma pirâmide populacional completamente nova (Trad. livre) (PÉREZ DÍAZ, 2004, p. 8).

A maturidade das massas é o direito de envelhecer, de se tornar maduro. É, afinal, a eficácia do sistema reprodutivo. Maduro no sentido de poder realizar os planos que se fez para a vida, como: crescer, casar, reproduzir, construir uma carreira, envelhecer. São planos que exigem, sobretudo, tempo, mais precisamente, tempo de vida. É a oportunidade de ter tempo para viver todas as etapas do ciclo reprodutivo. Ou seja, de não morrer antes de completar o ciclo vital que apresentamos no tópico anterior. O que Pérez Díaz (2003a) defende é que isso se trata de uma democratização da vida, a qual jamais nenhuma geração humana desfrutou antes. O autor afirma que, certamente, havia pessoas no passado que envelheciam e completavam seu ciclo vital, mas que nenhuma geração até hoje pôde contar com isso com a segurança com que contamos agora16. Ainda que as pessoas leigas, na área da demografia, não conheçam ou não confiem nas estimativas sobre a esperança de vida, elas, sem dúvida, acreditam que contam com mais tempo de vida e, portanto, tempo para

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Certamente, isso não quer dizer que não morrem ou não morrerão pessoas antes de se tornarem idosas. O fato é que, de modo geral, todos sabemos que temos mais chances de completar o ciclo vital pela evidência nas melhoras das condições de vida.

desenvolver seus projetos. Isso porque elas avaliam a sua expectativa de vida pela sobrevivência das pessoas que as rodeiam (PÉREZ DÍAZ, 2003a). A revolução da vida já começou e nós somos os protagonistas dessa transição demográfica que coletiviza o direito de viver.

Em suma, o envelhecimento demográfico, visto desde a ótica da revolução reprodutiva, não é mais que o resultado de uma maneira melhor de manter as populações humanas, muito mais eficiente no rendimento obtido de cada nova pessoa trazida ao mundo (Trad. livre) (PÉREZ DÍAZ, 2004, p. 11).

O “envelhecimento demográfico” é uma conquista social. Trata-se da democratização da vida até a fase adulta. Contudo, caímos no problema que já dissemos, o antigo e conhecido dilema: uma conquista que se torna coletiva pode passar a ser vista como um grande problema social.

Nesse sentido, o “envelhecimento demográfico” ou, mais especificamente, o maior número de idosos no mundo, passou a ser visto de maneira ambígua. Isso é facilmente percebido, por exemplo, na Academia. Há autores, como Pérez Díaz (2003a), que relembram que o aumento do número de pessoas com 60 anos ou mais de idade é uma das maiores conquistas da humanidade. Contudo, há, também, inúmeros autores, como já colocamos antes, que encaram os idosos como peso social, ou seja, indivíduos não-(re) produtivos, que oneram o Estado.

Essa ambigüidade não está somente no discurso acadêmico-científico. Está também em outras esferas da sociedade, como, por exemplo, nos meios de comunicação de massa. Por isso, acreditamos que o mais eficiente, ainda que pareça um preciosismo, é mudarmos os termos ou qualificarmos mais precisamente o que seria esse “envelhecimento demográfico”. Isso não se trata de uma novidade no que concerne ao nosso tema. Outros verbetes, como “velho” e “velhice” se tornaram palavras praticamente proibidas. Excluídas sem piedade do discurso científico, acadêmico, midiático e social pelo peso que traziam, pelas imagens que se agregaram a essa palavras. Acreditamos que o mesmo se passe com a expressão “envelhecimento demográfico”.

Nesse trabalho, não excluiremos os termos “envelhecimento demográfico”, “velho”, “velhice”. Mas, certamente, não estaremos falando do significado que lhes foram conferidos no passado. Por isso, o esforço em tentar qualificar melhor essas expressões

para que elas não reproduzam velhos estereótipos. Assim colocado, temos a tendência a utilizar os novos termos que traduzem com mais clareza essa revolução da vida, ou seja, a maturidade das massas.

Para essa discussão sobre os rótulos que daremos ao nosso fenômeno, esperávamos apresentar o ponto de vista de outros autores. Contudo, foi somente na obra de Pérez Díaz que encontramos esse debate e o trouxemos para essa pesquisa porque cremos que, para qualificar um fenômeno, o movimento de afirmação e negação é importante. No nosso caso, fundamentais, porque já existe uma corrente que é forte e mais numerosa que tem debatido o tema a partir de um exclusivo ponto de vista: o dos problemas. E, portanto, a negação se torna vital para a caracterização do que defendemos como revolução da vida. Sem dúvida, há outros autores que trabalham a maturidade das massas de um ponto de vista mais complexo, menos centrado nos problemas, contudo eles não enfrentam a criação de novos conceitos, como faz Pérez Díaz.