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Para construir o sentido que pretende atribuir a sua crítica, Oswaldino Marques faz uso de uma metáfora conceitual para instaurar um ponto de referência na construção da imagem de Cora Coralina. Tal metáfora é um modelo mental que conduz a percepção do crítico para captar essencialmente o que para ele caracteriza a autora. De acordo com Johnson-Laird (1983), os modelos mentais são estruturas específicas de conhecimento. Ou seja, são conteúdos da memória relacionados às experiências pessoais, mas também, conforme lembraHalbwachs (2006), são conhecimentos de grupo, uma vez que o indivíduo que lembra é sempre um indivíduo inserido e habitado por grupos de referência. Assim, na representação de Oswaldino, a referência ao conhecimento se traduz pela imagem de “professor” ou “mestre”. Ao fazer uso desse modelo mental, o crítico cria uma ponte entre os conhecimentos sociais dos leitores do jornal, os seus próprios e os atributos que deseja destacar na autora, algo que os identifique com ela. Dessa forma, a metáfora conceitual/modelo mental não apenas representa a autora de uma maneira específica, mas instaura uma forma de perceber Cora Coralina e junto a isso um comportamento diante da autora goiana. Uma vez instaurada

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essa percepção, Oswaldino Marques passa a caracterizá-la por uma série de termos e expressões avaliativas axiológicas e afetivas, que denotam o grau de adesão do crítico a essa representação:

A expressão “cultivadamente rude” é uma avaliação metafórica utilizada para representar os aspectos culturais e naturais que permeiam o trabalho da autora e, por extensão, a caracterizam, devido a sua linguagem simples e os temas por ela abordados. O efeito dessa representação encontrou eco na prórpria autora - conforme citado anteriormente na Seção 6.4.1 - e reproduzida, posteriormente, por Carlos Drummond de Andrade.

A linguagem que Cora Coralina utiliza é o ponto em que costumam se concentrar avaliações negativas (BRITTO, 2006). Na crítica, Oswaldino Marques não apenas defende como também enaltece a linguagem utilizada pela autora, em detrimento dos experimentalismos da modernidade:

Nestes tempos de experimentalismo, de vanguardas à outrance, é bom logo advertir que enveredaria por descaminhos quem saísse à cata, nas páginas coralinas, de malabarismos invencioneiros e pelotiquices outras.

Nesse fragmento, é possível perceber o contexto social que guia os conhecimentos do crítico em relação às novas formas de manifestação literária da época. As designações “malabarismos invencioneiros” e “pelotiquices outras” retomam “experimentalismo” e “vanguardas à outrance”, e podem referir-se à poesia concreta, iniciada no Brasil a partir de 1950 e à poesia/processo, desenvolvida a partir do concretismo, em 1967. Tal designação revela o contexto cognitivo do crítico em relação a tais movimentos literários.

Ainda em relação à linguagem, o crítico escreve:

Conquanto livres os seus ritmos, quase dissolutos os seus números, a valência do léxico presente a Poemas pende mais para a densidade arcaizante, a sedimentação primitiva do idioma. O sabor, assim prevalecente, é nitidamente castiço, terso, de boa cepa vernácula. É sábio, todavia, o matizamento logrado mediante o uso de considerável cópia de regionalismos, que, sobre responderem por esplêndidos efeitos sonoros, estilísticos, robustecem a confiança do leitor na consumada ciência ambiental, ecológica, de quem, como a poetisa, maneja com absoluta perícia o instrumental denotativo da região.

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O uso do “mais” como operador argumentativo orienta para a conclusão de que os poemas privilegiam a linguagem simples, cotidiana, que representa o meio social ao qual a autora está inserida. Em relação ao léxico, o crítico o qualifica como “densidade arcaizante” e “sedimentação primitiva”, validando positivamente a presença de arcaísmos na linguagem. Assim, Oswaldino Marques representa a linguagem da autora como um vinho de longa safra a ser degustado, uma vez que “O sabor, assim prevalecente, é nitidamente castiço, terso, de boa cepa vernácula”.

Quanto à presença de características regionalistas na obra, essas também são avaliadas positivamente pelo crítico por meio de verbos, substantivos e adjetivos axiológicos: “matizamento logrado”, “explêndidos efeitos sonoros, estilísticos”, “robustecem a confiança do leitor (...)”, “É extraordinária a maneira como absorve, assimila (...)”.

No fragmento a seguir, Oswaldino Marques atribui o valor poético da obra de Cora Coralina por meio de um jogo linguístico argumentativo:

Beiradeando mais o lado da realidade do que o da linguagem, ela ensaia preferentemente a polpa das suas vivências, ou melhor dito, os dados da sua circunstância concreta. Se não inova, repoetiza – e com que convincentes poderes! – dilatados espaços brasileiros, sem deixar, por isso, de restabelecer o tráfego com a universalidade do humano.

O autor se posiciona favorável à qualidade literária de Cora Coralina, e faz com que o leitor também o faça. O condicional “se... então”, por sua vez, aponta para apenas duas conclusões possíveis, impostas pelo crítico: se a linguagem da obra não inova (os dilatados espaços brasileiros em tráfego com a universalidade humana), então ela repoetiza. A repoetização, por sua vez, não ocorre de maneira trivial, mas com “poderes convincentes”, mais uma avaliação axiológica do crítico.

A adesão à representação da autora como professora, ou melhor, sua aparente crença nessa representação aponta para certo fetichismo5 do crítico: por meio da PIT (projeção/identificação/transferência), Oswaldino Marques projeta em Cora Coralina determinadas características que pertencem a ele, tais como “postura pedagógica”, “livre” e

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“turbulento”6. Ao mesmo tempo, se identifica com as questões existenciais abordadas pela

autora na obra. Dessa forma, existe a manifestação de um complexo mágico na representação de Cora Coralina por Oswaldino Marques. A maneira de estabelecer relação entre o real e o imaginário do crítico é substancializada de modo que os atributos criados discursivamente ultrapassam a dimensão da representação e se aloja no mundo concreto como realidade experienciada, reproduzindo o tecido mítico da autorrepresentação da autora.