Na sociedade, cada grupo se define pelas suas crenças e valores, que tendem a serem múltiplos, uma vez que se constituem a partir de um ponto de vista sobre o mundo. Tais conhecimentos são definidos por van Dijk (2000) como marcos das cognições sociais. São eles que guiam as atitudes sociais e os conhecimentos individuais de cada membro do grupo (SILVEIRA, 1998, 2000). Pelos marcos das cognições sociais é que reconhecemos os grupos. Os marcos fornecem a base do conhecimento referencial, a partir do qual é possível reconhecer, na performance individual, a maneira de pensar e agir do grupo de referência. Essa noção de marco de cognição está relacionada ao nível mais local das cognições sociais, os grupos. A sociedade é formada pelo conjunto de grupos sociais e cada grupo social se compõe pela reunião de indivíduos que tem objetivos, interesses e propósitos comuns, posto que focalizam o mundo do mesmo ponto de vista. Considerando essa noção, é o conjunto dos marcos de cognição social que compõe as cognições sociais. E essas geram e são geradas pelas representações sociais, entendidas como sistemas de referência e interpretação construídos socialmente. Geram, porque as representações sociais constituem guias para a construção de conhecimento, necessários para a comunicação e a ação dos indivíduos em sociedade. São geradas, porque as representações são resultado das atividades cognitiva e simbólica dos conhecimentos sociais.
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Em síntese, as representações sociais regulam a nossa relação com os outros e orientam o nosso comportamento. Por isso, elas intervêm em processos variados como a elaboração, a difusão e a assimilação de conhecimento, a construção de identidades pessoais e sociais, o comportamento intra e intergrupal, as ações de resistência e de mudança social. Enquanto fenômenos cognitivos, as representações sociais são consideradas como o produto duma atividade de apropriação da realidade exterior e, simultaneamente, como processo de elaboração cognitiva e social dessa realidade (JODELET, 1989). São, consequentemente, formas de conhecimento que se manifestam como elementos cognitivos - imagens, conceitos, categorias -, mas que não se reduzem aos componentes cognitivos. Porque, sendo socialmente elaboradas e compartilhadas, contribuem para a construção de uma realidade comum, que possibilita as interações sociais. Por isso entendemos que as representações são, essencialmente, fenômenos ao mesmo tempo sociais e cognitivos, porque são conteúdos cognitivos construídos com base social. Por ser a sociedade composta por diferentes grupos sociais, diferentes são também os marcos de cognição social.
Devido à interação social, os grupos têm de manter alguma forma de organização ao realizar ações conjuntas de interesse comum. Por isso, eles compartilham normas, hábitos, valores e costumes por meio das interações sociais. E, nessas interações, a linguagem adquire importância fundamental. É ela, sobretudo na sua configuração discursiva, que se coloca como principal meio que os indivíduos dispõem para interagir socialmente e pelo qual as normas, hábitos, valores e costumes são inscritos e veiculados. Falaremos mais adequadamente sobre a linguagem e a sua conversão em discurso mais adiante; por hora, é precisos apenas delinear o espaço no qual a linguagem se inscreve como fundamental para as interações sociais.
Assim, quando as pessoas se associam pela interação, assumem papéis sociais, porque não são os sujeitos físicos nem os lugares em que estão inscritos na sociedade que funcionam no discurso, mas “imagens resultantes de projeções através das quais se torna possível passar das situações empíricas para as posições de sujeitos discursivos” (PESAVENTO, 1995, p.16). É nessa posição que, tendo em vista o caráter dinâmico das relações sociais, o sujeito se encontra em constante (re)negociação quanto ao seu papel social, pois, as relações sociais possibilitam que um mesmo indivíduo ocupe diferentes papéis, conforme a situação sociocomunicativa em que se encontre.
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De acordo com as ciências sociais, os papéis sociais definem a estrutura social, que por sua vez é construída pelas relações sociais. São nessas relações que as normas se estabelecem e condicionam o comportamento dos indivíduos junto ao grupo. Por serem resultantes do processo de socialização primário e secundário, podem ser atribuídos (p.ex., os papéis do grupo família) ou conquistados (p.ex., os papéis do grupo profissional). Esses mesmos papéis têm relativo valor e significados atribuídos pela sociedade e fazem parte da constituição das identidades sociais, conforme veremos no Capítulo 4.
1.3.2.1 Da dialética entre individual e social
Cada história individual, portanto, traz seu protagonista inserido como parte de uma ordem social de uma cultura. Podemos dizer que o indivíduo nunca se deixa perceber isoladamente, sem que seja considerado o lugar que ocupa nas interações sociais. Por isso, os conhecimentos individuais em confronto com os sociais são constantemente (re)negociados, de forma que o indivíduo incorpora as crenças e valores do grupo, mas também exerce influência sobre ele, na medida em que compartilha com outros suas experiências pessoais. Os conhecimentos que resultam das experiências pessoais podem se naturalizar e passar a constituir a realidade do grupo de referência, transformando as ideias representadas em prática de conhecimentos interacionais.
Os modelos cognitivos individuais são dinâmicos e se modificam constantemente. E sua constância resulta do marco de cognições sociais, ou seja, os indivíduos representam pontos focalizados comuns ao do grupo social a que pertence, visto que os conhecimentos sociais são persistentes e os individuais, dinâmicos, ao mesmo tempo, modificam os conhecimentos sociais. Nesse sentido, as representações resultam, ideologicamente, de estruturas cognitivas sociais e individuais, no cotidiano de suas formulações. As representações linguísticas são partes de um todo, capaz de produzir situações discursivas de um mesmo texto para diferentes leitores, às vezes, podem se tornar comum e constituir a realidade dos grupos sociais, transformando as ideias representadas em práticas de conhecimentos interacionais.
1.3.2.2 Poder e legitimidade
Para que um conhecimento individual se naturalize, ele passa, necessariamente, pelo processo de legitimação. Como o novo é construído com base nos conhecimentos já adquiridos e compartilhados, essa legitimidade se produz pelo consenso social. O consenso, por sua vez, é
37 resultado da interação. Quando se diz “Chegou-se a um consenso”, o que se está dizendo é que se chegou a uma coordenação de ação como resultado da interação comunicativa (MATURANA, 2001, p.70). No consenso, não há necessidade de explicitação, mas regularidade de conduta advinda do novo conhecimento, e isso é uma clara sinalização do resultado de envolvimento do individual e social.
O consenso que resulta na legitimação dos grupos, por sua vez, determina suas características, suas diferenças. E essas diferenças fazem com que os grupos sejam passíveis de conflito. Mas também podem coexistir em cooperação, tudo depende das circunstâncias sociais em que entram em interação. Tomemos como exemplo os grupos patrões e empregados. Se consideramos o acordo socioeconômico desses grupos, em que um grupo determina a existência do outro, a circunstância da associação supõe cooperação. Entretanto, em razão da divergência de interesses, pode haver conflitos. Nesse último caso, fenômeno parecido ocorre na dimensão dos papéis sociais, ou seja, há circunstâncias em que podem existir conflitos. É o que acontece em casos em que a mesma pessoa assume papéis que supõem exigências incompatíveis (por exemplo, em certos casos o papel de mãe e esposa pode ser difícil de conciliar com o papel exigido pela profissão). A expressão conflito de papéis é, por vezes, também utilizada para referir os casos em que o sujeito encara o seu papel de maneira diferente da definida pelos papéis sociais com os quais se encontra em interação.