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A primeira divulgação midiática de Poemas surge no mesmo ano de sua publicação, em 1965, no Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo, em coluna assinada pelo escritor e ganhador do Prêmio Jabuti de 1959, categoria Imprensa, Rolmes Barbosa. Essa coluna, veiculada aos sábados e intitulada A semana e os livros, era uma coluna dedicada, como o nome indica, a divulgação e resenha de livros lançados na semana da publicação dos livros. Cada parágrafo da coluna aborda um lançamento, de modo que os primeiro parágrafos são resenhas e os últimos possuem apenas caráter informativo, embora apresentem, algumas

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vezes, termos avaliativos. Com relação à diagramação, trata-se de um espaço de página inteira de altura, com duas colunas de largura, localizado no centro da página.

Na ocasião da divulgação de Poemas dos Becos, na coluna assinada por Rolmes Barbosa, o livro de Cora Coralina dividia espaço com A cidade e as ruas, coletânea de dez narrativas, de autores distintos, da editora Lidador (RJ); A morte da porta-estandarte e outras histórias, uma coletânea de contos de Aníbal M. Machado, publicado pela Livraria José Olympio Editora; Os Degraus do Paraíso, de Josué Montello, publicado pela editora Livraria Martins;

José Américo - retratos e perfis, de Juarez da Gama Batista, com patrocínio do governo da Paraíba; e uma nova edição de “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antonio de Almeida, pela Editora Conquista. A divulgação de Poemas dos Becos consta no terceiro parágrafo, em que o crítico dedica várias linhas de resenha à obra.

Embora, intitulado “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”, este livro de Cora Coralina, é, em última análise, constituído por uma série de narrativas em versos livres. Aliás, a própria autora adverte, na apresentação, que não se trata de versos, mas sim de “um modo diferente de contar velhas estórias”. Num ritmo embalador de “casos” contados, à noite, no silêncio de um sobradão, a autora emprega a memória recriadora para trazer de volta, prostianamente, usanças de outros tempos e antigas imagens de sua cidade - Goiás, a Velha. É uma cidade de ruas estreitas, becos e largos tristes, de Igrejas solitárias, de morros endurecidos pelas queimadas. E qual feiticeira Scheerezade, Cora Coralina nos transporta para o casarão de sua infância, de corredores escuros e armários misteriosos, onde as crianças mal podiam erguer a voz e onde tudo era reservado para os adultos ou para as visitas. E com que interesse seguimos a história do famoso aparelho de jantar de louça de Macau, encomendado, por volta de 1860, para o casamento da filha da bisavó fazendeira com o afilhado e sobrinho do senhor cônego da cidade! . Ano e meio levou o carro de bois para vir buscar na estação de Caçapava e transportar para o sertão o precioso aparelho, cuja chegada determinou a data das bodas, dando margem a festanças de estrondo... Assim, em saborosa linguagem de arcaísmos a autora evoca um mundo para sempre perdido, numa narrativa tecida de segredos de família, lendas, assombrações etc. De certa maneira, porém, parece-nos que o ponto alto da coletânea é o “Poema do Milho” – do generoso milho das nossas roças e da cozinha das nossas avós-poema surpreendente pela amplitude com que o tema foi colocado e desenvolvido.

Guiado por um contexto social conservador em relação à literatura, Rolmes Barbosa constrói seu contexto cognitivo: “E qual feiticeira Scheerezade, Cora Coralina nos transporta para o casarão da sua infância (...)”. Tal comparação dialoga com o texto de apresentação que a autora faz na obra, a qual Rolmes Barbosa reproduz nos seguintes termos: “Aliás, a própria autora adverte, na apresentação, que não se trata de versos, mas sim ‘de um modo diferente de

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contar estórias’”. A representação que o crítico propõe é de uma Cora Coralina contadora de histórias, tal qual “Scheerezade”: as histórias de “Scheerezade” entretém o rei por mil e uma noites devido à curiosidade, o interesse em saber mais, em saber como elas terminam. Da mesma forma, o conteúdo da obra de Cora Coralina é representado por Rolmes Barbosa como interessantes “casos”, “contados à noite” no “silêncio de um sobradão”. Essa comparação de Cora Coralina à “Scheerezade” retoma a abertura da resenha, em que o crítico caracteriza a obra não como poética, mas como um conjunto de histórias de um tempo antigo:

Embora intitulado “Poemas do Becos de Goiás e Estórias Mais”, este livro de Cora Coralina é, em última análise, constituído por uma série de narrativas em versos livres. (grifos nossos)

Para Rolmes Barbosa, não apenas as histórias abordam fatos antigos, como também a própria linguagem empregada na obra é antiga:

Assim, em saborosa linguagem de arcaísmos, a autora evoca um mundo para sempre perdido, numa narrativa tecida de segredos de família, lendas, assombrações etc. (grifo nosso)

O único valor poético atribuído ao livro aponta para o Poema do Milho, sugerindo certa ênfase ao aspecto regionalista da obra:

De certa maneira, porém, parece-nos que o ponto alto da coletânea é o ‘Poema do Milho’ [...] poema surpreendente pela amplitude com que o tema foi colocado e desenvolvido

Contudo, embora o crítico não reconheça como poesia a obra de Cora Coralina, ele atribui valor literário a ela, ao comparar as narrativas da autora com Em busca do tempo perdido, de Proust, quando afirma que a rememoração se desenvolve “proustianamente” no livro. Essa forma de empregar a memória, diz ele, é “recriadora”, traz de volta outros tempos, antigas imagens de sua cidade, “Goiás, a Velha”. Nota-se que a referência à cidade traduz o conhecimento compartilhado da contemporaneidade do crítico com referência à cidade de Goiás. Na década de 1960 a cidade ainda ressentia a perda do status de capital do Estado, desde 19363 havia ocorrido a transferência da capital para Goiânia. A cidade ressentia o

3 Em 1936 houve a transferência provisória da capital do Estado de Goiás para Goiânia e em 23 de março de 1937 ocorreu

transferência definitiva. Na década de 50 a inserção de Goiás no campo do patrimônio público já estava sendo tratada pela Diretoria do patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN), mas o padrão de constituição do patrimônio privilegiou apenas a arquitetura religiosa e aquela que configurava o aparato político administrativo.

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abandono que, somado a decadência que vinha sofrendo desde o término da exploração do ouro naquela região, tornava-a pouco atrativa. Nas palavras de Rolmes, há indícios nessa direção; para ele “Goiás, a Velha” “É uma cidade de ruas estreitas, becos e largos tristes, de igrejas solitárias, de morros endurecidos pelas queimadas”. Também não há referência a Casa Velha da Ponte nos moldes que hoje a colocam, Rolmes faz referência a ela apenas como “um sobradão”.

A representação de Cora Coralina por Rolmes Barbosa não pode ser identificado como um intertexto que concorre para a construção mítica sobre autora. Ele se refere a ela apenas como uma contadora de histórias de ficção situadas num entorno geográfico, histórico e social de Goiás: ela é uma romanceadora da sua autobiografia, recorrendo à descrição das ruas, becos e casas, bem como a vida nos casarões de uma cidade antiga. A maneira pela qual o texto de Rolmes é construído, embora intertextualizado com o texto autobiográfico de Cora, não participa da construção do mito de Cora Coralina como sendo uma mulher “exemplar”, guardiã de uma memória social que de tal forma se realçou para se tornar motivo da construção midiática que concorreu decisivamente para a promoção do turismo na região e para a ressignificação do papel do idoso na sociedade brasileira.

6.3.2.1 Crença literária de Rolmes Barbosa

A crença literária de Rolmes Barbosa pode ser verificada em seu texto por meio da negação do caráter poético da obra, expressa pelo uso da palavra embora: “Embora intitulado ‘Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais’, este livro de Cora Coralina é, em última análise, constituído por uma série de narrativas em versos livres”. A palavra embora que inicia o texto é um operador que funciona como elemento semântico de orientação argumentativa (DUCROT, 1985) que trata do conceito de verdade/falsidade aplicado às proposições: “intitulado Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais” e “este livro de Cora Coralina é uma série de narrativas em versos livres.” Articuladas por esse operador, ainda que a primeira proposição se apresente como verdade (o livro se intitula Poemas dos Becos de Goiás e

Estórias Mais, logo, deve ter poemas), ela é falseada pela segunda (ao se analisar o livro, verifica-se que ele trata de narrativas em versos livres, logo, não existem poemas na obra). Assim, por meio do uso da palavra embora é possível apreender o contexto cognitivo que aponta para a avaliação de que a obra não é poesia, pois, ainda que Rolmes Barbosa não explicite no texto o que é poesia, ele deixa claro o que não é. E, pelo fato do texto do crítico

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ter sido aprovado pelo Controle desse discurso institucional jornalístico, seu posicionamento ideológico reflete o posicionamento de O Estado de São Paulo em relação à Literatura.

O espaço destinado à crítica de Poemas dos Becos, algo em torno de trezentos toques (hoje, caracteres), pode ser considerado espaço suficiente para abordar outros aspectos da obra: o universalismo de alguns poemas, a presença de tipos humanos menos privilegiados em outros tantos. Mas o texto focaliza apenas o aspecto memorialista, numa perspectiva que o escritor rotula de proustiana, a busca e o reencontro consigo no tempo rememorado. Assim, a escolha dos fragmentos abordados na obra aponta para o que o crítico considera relevante representar naquele momento histórico da enunciação. A relação intertextual do texto de Rolmes com os poemas Estórias do aparelho azul-pombinho, Becos de Goiás, Do Beco da Vila Rica, Minha

Cidade, O Beco da Escola, O Palácio dos Arcos, Velho Sobrado e Oração do Milho, salienta os aspectos memorialista e regionalista da obra, mas silencia outros aspectos, ao ocultar poemas como Mulher da Vida, Menor Abandonada, Oração do Presidiário e Oração do

Pequeno Delinquente.

O silenciamento dos temas desses poemas também significa: denunciam para além do preconceito literário, possivelmente o silenciamento das desigualdades sociais que, naquele momento, já se apresentavam como problema para a imagem progressista que o país, sob o comando do regime militar, desejava transmitir. O papel do jornal como meio de comunicação, depois de instaurada a ideologia militar, era manter um estado de coisas que exaltava o progresso do país, por meio da integração entre identidades e objetivos nacionais em torno da ideologia voltada para segurança nacional e para aparência de desenvolvimento econômico (WEBER, 2000).

Assim, no período em foco, os objetivos e interesses do grupo dominante eram refletidos no discurso institucional da mídia jornalística em todas as suas dimensões e práticas, inclusive na divulgação de bens culturais, como a literatura. O discurso quando analisado como ação deve ser compreendido como resultado de uma prática social que se define por situações sociais e condições que determinam a sua produção. Nesse sentido, a reconstrução do contexto e a relação entre seus participantes, bem como a identificação das forças que movimentam essa relação, devem ser evidenciados para que se tenha uma visão clara de como os discursos influenciam as mentes e movimentam atitudes no cenário social. O discurso jornalístico enquanto prática social manifesta prioritariamente o poder de formar a opinião pública na

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medida em que exerce sobre indivíduos, grupos e sociedade o controle sobre a percepção dos fatos e acontecimentos.

No texto de Rolmes Barbosa, diferente do que será feito, sobretudo, a partir da crônica de Drummond, não há destaque sobre a autobiografia de Cora Coralina, tampouco a sua relação com os tipos sociais com os quais se identifica e com a valorização da cidade enquanto espaço histórico não prestigiado pelo progresso. Desse modo, a maneira como o crítico representa a autora se limita a considerá-la como contadora de histórias, conforme se observa em “[...] a autora emprega a memória recriadora [...]” e “E qual feiticeira Scheerezade, Cora Coralina nos transporta para o casarão de sua infância [...]”. O cenário é indicado como “de outros tempos e antigas imagens de sua cidade - Goiás, a Velha.” E o ponto indicado como de maior relevância aponta para o “Poema do Milho [...] poema surpreendente pela amplitude com que o tema foi colocado e desenvolvido”. No conjunto, portanto, a imagem da autora entrelaçada a sua obra e à cidade de Goiás não foi nesse texto destacado tal como passou a ser projetado nos anos de 1970, na região de Goiás, e a partir de 1980 em nível nacional.

É importante ressaltar que o poder da mídia jornalística, em especial o jornal impresso, não deve ser entendido como um poder de uma pessoa, mas antes como o poder de uma posição social, de uma instituição que se organiza como parte constituinte de uma estrutura social. O Controle institucional do jornal não se limita ao conteúdo e à forma, aplica-se, também, ao contexto: os donos de um jornal dizem aos editores o que (não) publicar ou, quando não o dizem, esses mesmos decidem, dependendo da ideologia já criada e dominante na sociedade.