Key concepts and definitions
6. Results B – Why students did not choose English
6.3 The survey answers
Se na capital da terceira província mais importante do Brasil esta era a situação, imagine- se o que se passava com o resto da população, distribuída pelo Agreste e Sertão da província.
Dispersa em grandes quantidades de terra, um povoado ou vila localizados um aqui outro acolá, que se instalaram seguindo o caminho do gado e dos currais que foram erguidos de modo gradativo. Constituíram umas toponímias errantes, originárias de outra forma de ocupação humana. A pecuária originou diferentes freguesias. E isto influenciou na distribuição geográfica das escolas, que acabaram ficando uma aqui, outra acolá. “Ô légua tirana”!
Um bom exemplo de povoados surgidos da atividade pecuária é Caruaru, localizada no agreste da província. Como mostrou o romancista José Condé (1960, p. 9) “no começo: simples rancho para pernoite das boiadas vindas do sertão bruto – principalmente do Piauí e do Alto Moxotó- em demanda do litoral”.
Em 1822, a província de Pernambuco contava um número de sete freguesias oriundas da atividade pecuária, com uma população estimada de 25.917 habitantes. Em 1852 o Agreste estava pontilhado por inúmeras povoações de diferentes tamanhos (ANDRADE, 1991). Para ele, o que ocorreu foi a
[...] formação de um habitat extremamente disperso, onde uns poucos habitantes se concentravam nas modestas sedes de fazendas... A modéstia das instalações e do mobiliário contrastava com a fidalguia ostentada pelas casas grandes da região açucareira. (ANDRADE, 1991, p.57, negrito do original)
Nestes sertões, a civilização que se desenvolveu foi tão característica, a ponto de ser nomeada de “civilização do couro”. Assim, sem as modernidades e os confortos da capital da província, a população sertaneja se viu forçada a dividir os mesmo recursos naturais com os bois.
Levaram uma vida de gado. Beberam da mesma água dos barreiros13 cavados para dessedentar os bichos. Mas, nem sempre, isto se fazia como a solução para o problema da falta de água. Como mostrou Graciliano Ramos em Vidas Secas, “Fabiano procurou em vão perceber um toque de chocalho. Avizinhou-se da casa, bateu... rodeou a tapera, alcançou o terreiro do fundo, viu um barreiro vazio (RAMOS, 2004, p.13).
Quando os currais estavam situados próximos aos rios as pessoas cavavam as cacimbas. Porém, isto só era possível nos rios com sistema de água perene. Em se cavando naqueles rios temporários, na terra rachada, encarquilhada e quebradiça pela secura do ar, não surgia a tão sonhada água.
Por sua vez, havia períodos de chuvas abundantes, mas incertas. Quando chegava o tempo da invernada elas transformavam o sertão em uma festa, os rios enchiam e, de tão fortes em seu leito, faziam “barulho como um trovão” (RAMOS, 2004, p. 64). Rios que enchiam e secavam com a mesma rapidez, afinal como esperar que a água não evaporasse em terras tão áridas e ar tão seco?!. Ainda não havia a tecnologia das barragens. Essas só chegariam muito tempo depois, domando a natureza, causando um outro tipo de destruição, de desgraça.
Ou, ainda pior, havia a água, mas esta não se prestava para consumo “eram focos de febres14” (AMADO, 1966, p. 30). Era como morrer de sede em frente ao mar.
Também havia os anos de seca, de fome, de muita miséria, de retirada e retirantes, dos grandes êxodos como os de 1845 e 1877. Anos em que os presidentes da província se mobilizaram para ajudar, com doações de gêneros alimentícios, os atingidos pelo flagelo.
Nos sertões, durante as secas prolongadas, morria-se de sede e de fome quase todo ser vivente. Não apodreciam, de tão seco que era o tempo e a terra. Transformavam-se naquilo que Euclides da Cunha chamou, em Os Sertões, de “estranhos higrômetros15”.
Quando não era isto eram as doenças que acometiam aqueles e aquelas já com baixa resistência pela fome, sede e pela retirada em buscas de melhores condições de vida. Tornaram o “matuto” triste, apático. A tristeza do Jeca, para os médicos, da raça inferior dos eugenistas. Os
13
Barreiro - Fosso cavado em terreno argiloso para reter água e conservar por longo tempo a água das chuvas. Dicionário Mirador Internacional (1977, p.258)
14 Novamente a memória retoma fatos. No ano de 2004, ao atravessar um certo trecho do Rio Vaza Barris, que
cortava o sertão baiano, fiquei admirada com a limpidez da água. Era um trecho muito raso do rio, com água corrente, convidativa a molhar os pés. Ao expressar esse meu desejo, o condutor do carro me explicou solenemente: “Não pode professora, aqui é tudo contaminado com o caramujo que dá a barriga d‟água”.
15 Ou como me disse o historiador Ricardo Oriá, em uma das muitas prosas que tivemos em uma livraria de São
médicos falaram de longe. Os médicos não queriam ir para essas freguesias. Quem não tem médico, se cura com planta, com a medicina dos chamados charlatães, que, também foram alvo das perseguições.
Os êxodos rurais que favoreciam a urbanização de muitas enfermidades que, por vezes, eram restritas à zona rural. Outras vezes só agravam o quadro da letalidade daquelas moléstias endêmicas na província. Foi assim, por exemplo, com o surto de varíola que ocorreu entre 1878- 1879 e dizimou 2.525 pessoas, após a migração determinada pela seca de 1877 (FREITAS, 1919).
Com tantos problemas em relação ao fornecimento e disponibilidade de água potável e de saneamento são compreensíveis os efeitos do surto de Cólera que se abateu sobre a província em 1856. Que s doença tenha provocado tão alta letalidade. Além, disto, é possível que a má qualidade higiênica da água tenha sido um dos fatores que determinou os sucessivos surtos de doenças diarréicas.
Diante desta realidade questiono: Houve uma proposta da instrução pública para incluir os hábitos higiênicos no conteúdo curricular? O que foi ensinado? Existem memórias dessas práticas? Houve algum ensinamento sobre a qualidade de água? Como foi elaborado o pensamento higienista no Brasil e particularmente em Pernambuco? Quais os espaços desta proposição?
1.4 A CONSTITUIÇÃO DO PENSAMENTO HIGIENISTA NO BRASIL