Key concepts and definitions
5. Results A – Why students chose English 1 Introduction
5.5 Why students chose English
Desde sua fundação, pela Carta Foral de 12 de março de 1537, da autoria de Duarte Coelho Pereira, que o Recife apresentava toda uma situação geográfica que privilegiava o encontro das águas e do homem que, teimosamente, viveu em cima de uma estreita faixa de terra, uma cinta de pedra a separar o continente do mar aberto que depois serviu um gigantesco porto natural para abrigar as naus que chegavam com os exploradores e partiam abarrotadas de riquezas naturais brasileiras.
Das águas, o Povo dos Arrecifes, como eram chamados os habitantes locais, tirava o sustento e para as águas destinava seus dejetos. O mesmo ele fazia com a lama dos mangues, como foi magnificamente registrado por Josué de Castro
[...] E com a sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a carne do corpo de seus filhos. São cem mil indivíduos, cem mil cidadãos feitos de carne de caranguejo. O
que organismo rejeita, volta como detrito, para a lama do mangue, para virar caranguejo outra vez (CASTRO, 1992, p.261).
O Recife foi se expandindo, ocupando as ilhas, lingüetas de terra que serviram para erguer as casas de morada e os edifícios públicos.
Havia o Bairro de Santo Antônio, formado pela ilha de Antônio Vaz, o Bairro do Recife e o Bairro da Boa Vista. Depois surgiram outros que, na própria nomenclatura tentavam registrar a agonia de seus moradores, como o Bairro dos Afogados.
Figura 1: Ilha Antônio Vaz e freguesia do Recife, 1645. Fonte: www.sofilosofia.com.br .
Na cidade do Recife, o que não era terra foi transformado em terra, com os mangues sendo destruídos, soterrados, as margens dos rios sendo invadidas para que os menos favorecidos erguessem as casas, as palafitas, os mucambos, suspensos em suas finas pernas a balançarem em cada maré alta ou a serem arrastados em cada cheia do Rio Capibaribe.
Aos mais ricos ficou reservado o Bairro da Boa Vista. Depois foram surgindo os arrabaldes, como a Madalena, Apipucos, este, antes ocupado pelos índios Caetés que lhe chamavam de ape-puca ou os “caminhos que se bifurcam”. Para onde?
Alguns, localizados às margens do rio Capibaribe. Não eram lugares de classe pobre morar. Lá, foram erguidos os grandes e belos sobrados, que olhavam para o rio, e que serviram de casas de veraneio para as quais se deslocavam as abastadas famílias, onde nos dias quentes se refestelavam, nas águas correntes, mornas e límpidas do grande “cão emplumado” nos dizeres posteriores do poeta João Cabral de Melo Neto. Para George Gardner (1975, p.54) as pessoas ricas da cidade procuravam as águas fluviais para os banhos, em detrimento da água do mar que causava grande irritação no corpo “pela cristalização do sal sobre a pele, quando não lavada depois com água doce”. O banho de mar só virou recomendação dos higienistas muito tempo depois, até porque as praias marítimas se prestavam para receber outras coisas e não pessoas que procuravam a tepidez de suas águas.6
O Recife e seus mangues, os pântanos dos higienistas. Os pântanos e os efeitos de suas emanações consideradas mortíferas. Entretanto a área pantanosa mais preocupante era a de Olinda, que por estar propensa às inundações periódicas e aos regimes das chuvas promoviam o transbordo das águas para as regiões circunvizinhas do Recife, favorecendo a ocorrência de enfermidades. Este ponto de risco foi especificamente abordado no estudo Topographia da Cidade do Recife, escrito pelo cirurgião pernambucano Joaquim Jerônimo Serpa7, publicado em 1842, nos Annaes de Medicina de Pernambuco. Este levantamento, talvez, constitua o primeiro tratado de topografia médica do século XIX sobre a cidade8. Neste mesmo trabalho, ele escreveu sobre a condição pestilencial do Recife.
A cidade era considerada, nesse período, uma das mais insalubres do Brasil. Explica-se a repulsa e a impressão negativa de Charles Darwin quando, ele esteve de passagem pelo burgo, na década de 1830, registrando em seu diário9
6 Para se ter uma idéia do uso das praias do Recife, recomendo a leitura do delicioso livro As praias e os dias.
História social das praias do Recife e Olinda, da autoria de Rita de Cássia Barbosa de Araújo, publicado pela
Secretaria de Cultura do Recife, em 2007.
7 Joaquim Jerônimo Serpa, médico formado em Portugal, voltou a Pernambuco em 1808. Lutou na Revolução
Republicana de 1817 e, por isto condenado à prisão por quatro anos, tendo cumprido a pena na Bahia. Retornando ao Recife, ocupou o lugar de lente da cadeira de Botânica e Agricultura (onde). Também foi diretor do Jardim Botânico de Olinda, o que lhe permitiu a realização do estudo de inúmeras plantas indígenas usadas na terapêutica. Foi autor do primeiro livro didático sobre educação Física impresso no Brasil, em 1828, intitulado
8 Mostrando a interação havida entre os poderes locais, Serpa, membro correspondente da Sociedade de Medicina de
Pernambuco, contou que fizera duas representações à Câmara Municipal solicitando intervenção imediata para resolver o problema. Suas petições foram aprovadas pelo Conselho de Salubridade, pelo Presidente da Província e deu-se a ordem para que a Câmara executasse a proposta de Serpa.
9 A primeira edição desse diário é de 1859, lançada em Londres. Outra edição data de 1871. Essa citação foi retirada
A cidade é por toda parte detestável, as ruas estreitas, mal calçadas e imundas; as casas, altas e lúgubres. A estação das chuvas acaba apenas de findar-se de maneira que a região adjacente, como quase não se acha acima do nível do mar, apresentava-se completamente alagada... (DARWIN, 1992, p.164).
Impressão oposta ele teve de Olinda, considerada “mais agradável e mais asseada que o Recife” (idem, p.165). Ora, essa cidade tinha uma geografia totalmente diferente da vizinha Recife. Com relevo bastante elevado, Olinda se apresentava bem ao gosto dos portugueses para edificar uma cidade. Como disse Emanuel Araújo, em seu Teatro dos Vícios ( 2008, p.30 e 31) os portugueses teimavam em “escolher-se a dedo não uma planície para erigir o sítio matriz, mas lugares alto e de acesso difícil”, com as casas sendo erigidas morro acima, indo “das fraldas ao seu cume... Era a tradição da acrópole fortificada dominando a paisagem”.