Key concepts and definitions
5. Results A – Why students chose English 1 Introduction
5.7 Other factors
Além dos fatores naturais, havia o problema estrutural na prestação de serviços à população que potencializavam a má qualidade do ar e das águas do Recife. O principal deles era a ausência de um serviço de saneamento básico para coleta das águas residuais e dos excretas. Como a população fazia para se livrar deles? Ou como questionou Mário Sette (1948, p.279) “De que modo se começou a fazer no Recife, a remoção dos dejetos humanos e das águas servidas?”. Este ponto é de importância no sistema de Medicina Social, pois envolve a participação dos pobres na realização de tarefas que, segundo Foucault (2007, p.94) faziam “parte da instrumentalização da vida urbana”.
Nesse caso, valeu a máxima popular: o que não tem remédio, remediado fica. E foi, exatamente, o que o povo fez. Para se livrar dos resíduos passou a jogá-los na rua, através das portas, das janelas ou das varandas das casas e sobrados que, às vezes, chegavam a ter seis andares. Não era raro, o transeunte tomar, involuntariamente, banho com as águas usadas nos afazeres domésticos ou que podiam se originar dos banhos que desenrolava no interior dos sobrados.
paisagem, organizado por Mário Souto Maior e Leonardo Dantas da Silva, publicado em 1992, no Recife, pela
Em 1848 o Recife possuía por volta de 66 mil habitantes (FREITAS, 1935) e evidentemente o impacto negativo desse costume de jogar água na rua provocava situações de insalubridade ambiental consideráveis.
Para atenuar este costume, impossível ser abolido, ele foi regulamentado pela Câmara, em 1831, através da seguinte Postura
Ninguém poderá lançar águas limpas da varanda de dia e só poderá fazer das 9 horas da noite em diante procedendo primeiro três anúncios inteligíveis de – água vai – sob pena de 1$ de multa e de pagar o prejuízo que causar ao passageiro. (DP, 1831, apud FREYRE, 1951, p. 420).
Freyre (1951) conta que havia alguns moradores dos sobrados que faziam questão de manter a água azulada de espuma de sabonete fino, muitas vezes de origem francesa, escorrendo pela rua, em puro sinal de ostentação e diferenciação social. Era o perfume da burguesia. Quando esta água não escorria pelo rés do chão naquelas casas térreas, era solenemente jogada das janelas das camarinhas ou quartos que, segundo a arquitetura própria desse tempo e modelo de residência, ocupava os andares mais altos da moradia. Assim como a cozinha que, também, ficava nos andares altos e que obrigava ao uso da mesma estratégia para se livrar da água originária da lida diária.
A manutenção do costume fez com que, em 1852, um dos prejudicados publicasse uma nota em um impresso local, fazendo a seguinte advertência “Adverte-se ao morador novo da rua do Crespo que nessa rua não é costume lançar-se águas das janelas em baixo” Mário Sette (1948, p.281).
A janelas dos sobrados representavam o meio da gestão da água de uso. E as excreções corpóreas, para onde iam?
1.2.2.1 Abra o olho! Abra o olho! O pregão da gestão dos excrementos
Sem uma rede de abastecimento de água, não é difícil imaginar a ausência de uma rede de esgotos para coletar as excreções.
Do mesmo modo que se jogava águas usadas pelas janelas, as pessoas tinham o costume de jogar a urina. Quando as casas tinham quintal, as necessidades fisiológicas eram atendidas neste espaço. Porém, as pessoas mantinham o costume de usar o urinol que, quando grande, era
denominado de “capitão”. Esta peça, de uso cotidiano podia ser um sinal de ostentação de sua dona quando, então, “eles eram de louça, muito bonitos, cor de rosa com enfeites dourados”. Às vezes, elas usavam a peça, ao mesmo tempo em que entabulavam conversa com a mucama ou até mesmo com visitantes. Neste caso, se recolhiam para outro aposento e depois, solenemente, o conteúdo era jogado pela janela (FREYRE, 1951, p.416).
Qual o procedimento em relação às excreções sólidas?
Segundo Octavio de Freitas (1979, p.33) as fezes, depois de passarem muitas horas ou mesmo dias armazenadas, eram transportadas em tonéis chamados de “tigres”. E, posteriormente jogadas no rio ou mesmo no mar, por escravos.
Figura 3: Descarte de excrementos.
A corruptela “tigre” depois se estendeu aos próprios condutores desses vasilhames, numa alusão à sua bravura em transportar tal carga. Mas, existe uma outra explicação para a extensão do nome, é que, não raro, havia a ruptura dessas barricas e o conteúdo se derramava sobre o escravo que ficava listrado feito um tigre. Por vezes “os barris que servem de depósito a materiaes excrementícios, em seu transporte, largam os fundos e o que elle contem depois de emporcalhar aquelles que o conduzem torna nojenta as ruas” (SETTE, 1948). Daí esses escravos também receberem a corruptela
Mário Sette (idem) também descreveu os tipos de vasilhames: havia aqueles com tampa, então chamados de “tigre com chapéu” e o desprovidos de tampa que eram conhecidos como “tigres sem chapéu”. Ele contou (p.280) que “os portadores desses barris alertavam de longe os moradores com esta frase... Abra o olho! Abra o olho!”. Era o pregão da imundície anunciada, pois os “tigres” já envelhecidos poderiam se romper a qualquer momento e presentear alguém com um indesejado banho. Não nos esqueçamos que a cidade foi aumentando de população e, com isto, houve o aumento do trânsito de escravos a transportar esses tigres. Era uma progressão geométrica.
A Câmara Municipal editou mais uma de suas posturas. Essas porcarias não poderiam ser jogadas em qualquer ponto do centro da cidade. Foram determinados locais específicos para isto, mas que não eram fora do perímetro urbano. Muitos desses locais ficavam próximos ao terminal dos bondes urbanos. Por sua vez, os animais que puxavam esses bondes também contribuíam com a sujeira urbana.
Para aumentar o fedor e a sujeira do Recife, também havia aquelas pessoas que faziam suas necessidades fisiológicas nas ruas. Conta Gilberto Freyre (1951, p.416) que “o grosso do pessoal das cidades defecava nos matos, nas praias, no fundo dos quintais, ao pé dos muros e até nas praças... lugares que estavam sempre melados de excrementos frescos”.
Não fica difícil explicar o porque da cidade não ser convidativa aos visitantes. 1.2.2.1.1 Dos “tigres” aos cambronnes
Com a epidemia de Cólera ocorrida em 1856, houve um grande movimento de todas as autoridades de saúde e do Estado para solucionar o grave problema de escoamento das águas servidas e dos dejetos. Foi autorizado ao francês Luis Cambronne a exploração do novo serviço de saneamento. As águas servidas seriam transportadas para o rio, através de canos de ferro. Quanto ás fezes, elas continuaram sendo transportadas, desta feita em vasilhames de madeira, mas forrados de metal, tipo uma latrina móvel, que ficava em cada domicílio, sendo recolhida a cada 15 dias, em transporte específico. O contrato não foi cumprido na íntegra e, em 1867, ainda podiam ser vistos os “tigres e os cambronne” a transportarem as fezes pelas ruas do Recife (SETTE, 1948).
O sistema de esgoto e destinação dos dejetos só foi objeto de intervenção municipal a partir de 1873, com a implantação da Recife Draynage Company, uma empresa de capital misto, pois usava recursos privados londrinos e os recursos da província de Pernambuco, que nessa época era presidida por Henrique Pereira de Lucena (SANTOS, 2004). Anos mais tarde, esta companhia foi responsabilizada pela alta mortalidade, por diarréia ocorrida no Recife. O surto diarréico foi associado à água que sofrera contaminação cruzada dos canos de escoamento dos dejetos que, sem manutenção, acabaram estourando e misturando seus conteúdos ou mesmo contaminando as fontes de água potável que se encontravam no subsolo. Também houve o caso de contaminação da água pelo cobre de que eram feitos os canos, provocando uma intoxicação chamada de saturnismo.
O problema de saneamento público só foi solucionado nos idos de 1915, com a atuação dinâmica do engenheiro Saturnino de Brito, que empreendeu um obra de grande envergadura para solucionar o problema de saneamento do Recife.