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Support Vector Regression

Que influências o suporte pode exercer sobre os jovens leitores? A partir desse questionamento passamos a refletir sobre as capacidades de leitura e determinadas situações de leitura que são historicamente variáveis, por isso devemos nos atentar para não homogeneizarmos o posicionamento leitor, mas também não podemos universalizar a representação de “leitor” situado num determinado tempo, mesmo que esse posicionamento seja produzido pelo imaginário do próprio leitor. As condições sociais variam e se modificam, assim como o contexto sócio histórico, as intenções e necessidades de se realizar leituras. Um leitor pode se definir a partir de suas práticas num determinado momento e não se definir da mesma forma em outro. Tudo depende da instância a que ele se reporta, do lugar e momento social e histórico.

O suporte pelo qual o texto se faz materializado aos leitores sofreu e ainda sofre constantes mutações. Incide sobre esse suporte e suas variações as possibilidades da realização das práticas de leitura e o posicionamento leitor assumido em relação a ele. Outro ponto que versa sobre a questão do suporte é a aceitabilidade e popularização que exerce num determinado grupo social. Dependendo da abrangência que atinge e do público a que se reporta terá sua popularização, respeitabilidade e circulação efetivamente concretizada.

O momento atual nos apresenta, constantemente, novas tecnologias que visam conquistar os leitores devido aos recursos atrativos que comportam tais como animações, sons, projeções, hiperlinks, formato do texto na tela. Essa oferta de meios e suportes eletrônicos para se realizar a leitura força e estimula o leitor a uma adaptação constante para que realize essa prática, conforme podemos atestar com Curcino:

A circulação virtual dos textos produz uma passagem do leitor tradicional para um leitor inesperado, multiplicado, quase sem rosto. Trata-se de um leitor indefinível graças a uma circulação exponencialmente ampliada, submetido a coerções muito distintas de possibilidades, interesses, sistema de valores, grau de formação escolar etc) (2012, p. 203)

Logo, os suportes incidem sobre as práticas de leitura, podendo eventualmente determinar e direcionar novas maneiras de ler, assim como os meios como se apresentam esses suportes, seja impresso, virtual, iconográfico, dentre outros. (CHARTIER, 1999; CURCINO, 2012, 2016)

Para os jovens, ávidos por descobertas e receptivos a tudo que envolva algum método tecnológico, lidar com esses formatos de texto não é algo temeroso, ainda que alguns deles não apresentem total familiaridade, tentam se adaptar e estabelecer algum contato com esse suporte. Para Curcino (2016, p.1), “os usos dos objetos culturais e as formas de interpretação dos textos, não

necessarimente coincidem, entre outras razões, em função das suas expectativas e de seus interesses diversos, de técnicas intelectuais distintas”. Nem todos possuem a mesma destreza e familiaridade para lidar com os

recursos eletrônicos nem a mesma possibilidade de acesso. Os jovens preferem ler a partir de algum meio tecnológico ao meio impresso. Isso se deve, como já vimos anteriormente em nosso trabalho, à facilidade de se encontrar o que deseja, ao baixo custo que se empenha na utilização do meio virtual e a possibilidade da interação rápida, fácil e quase em tempo real com outros usuários de redes virtuais, assim, “O novo suporte do texto permite usos,

manuseios e intervenções do leitor infinitamente numerosos e mais livres do que qualquer uma das formas antigas dos livros” (CHARTIER, R., 1999, p. 88). A

maioria dos entrevistados nos apontou que o meio pelo qual tinham acesso aos textos era pela forma virtual, sendo pela internet ou por outros meios eletrônicos. Vendo o interesse, atração dos jovens leitores pelas novas tecnologias, buscamos refletir sobre a questão do suporte, pois refletir sobre o suporte é também refletir sobre a circulação que os textos realmente abrangem numa sociedade de jovens leitores. Precisamos compreender como essas novas tecnologias atraem e abarcam cada vez mais o interesse e a filiação desse público.

A questão do suporte interfere e muda a maneira de se relacionar com o texto, já que é em virtude de sua materialidade constitutiva que o leitor realiza uma leitura mais próxima ou mais distante.

A leitura virtualizada aponta diferenças em relação à prática da leitura no suporte impresso, porque há formas de interação do leitor no texto, forma de interação entre leitores virtuais, forma de interagir com outros leitores através de comentários e registros sobre um determinado ponto; contudo, essa forma de interação não é a mesma realizada num texto impresso, onde se apresentam espaços em branco que são preenchidos por anotações e interferências do leitor que não se apagam dali. É um registro que pode ser permanente e inúmeras vezes consultado e acrescentado e tem um tempo de existência superior em relação aos comentários e textos postados numa rede virtual. Para os jovens leitores envolvidos na pesquisa a forma impressa era o segundo meio mais comum pelo qual tinham acesso aos textos.

Esses objetos culturais de leitura são fundados e autorizados socialmente, outros podem ser instituídos pelo valor que se atribui a eles, uma produção de crença no valor do produto; nas palavras de Bourdieu, o que caracteriza o bem cultural é “que ele é um produto como os outros, mas com

uma crença, que ela própria deve ser produzida” (CHARTIER; BOURDIEU, 2009, p. 240). Assim, podemos compreender como o objeto cultural, na forma virtualizada pode ter assumido o patamar e a aceitação popular de suporte de leitura. O suporte textual ancorado, ou seja, sustentado numa forma tecnológica, atrai, motiva e aguça o interesse pela leitura de muitos jovens pelo fato de ser uma forma diferenciada daquela a que tinham acesso comumente. A mobilidade e a praticidade que o suporte eletrônico proporciona também pode ter sido um fator que diferenciou esse suporte dos demais. Além disso, as novas tecnologias atraem pelos inúmeros recursos tecnológicos que oferecem.

Sobre tais atrativos e possibilidade devemos sempre atentar para o fato de que nem todos os alunos têm possibilidades e iguais formas de acesso e de posse de um suporte eletrônico. De acordo com os dados levantados através do questionário, observamos que vários alunos não tinham condições de acesso a algum tipo de suporte de leitura e de incentivo para a prática da leitura que não fosse na escola. Outros apontaram a existência de alguns suportes textuais como jornais, revistas e alguns livros em suas residências, contudo estes materiais de leitura não iam ao encontro de seus interesses, não eram as leituras que escolheram para realizarem. Podemos apontar tais levantamentos partindo de enunciados como:

ALUNO 3: Eu, por exemplo, meu pai compra jornal aí eu leio. Meu pai

compra muito livro, mas assim o livro dele não me chama atenção. Agora lia mais aqui na escola, que é livro mais das minhas amigas, que é mais de adolescente. Aí foi assim que eu comecei a gostar, assim, mas internet e o que eu mais leio. História de amor (risos).

(Entrevista, Escola C, p. 234) Por esses e outros fatores alguns nos relataram que os textos virtuais eram uma forma disponível e acessível a eles para sanar a ausência de outros suportes. Como afirmou esse aluno:

ALUNO 04: Ah, tipo eu gosto de ler mais texto de internet, que eu acho que

chama mais a atenção; que tem hora que eu vou lá assim procurar algum texto tem lá uns que chama bem mais atenção do que um livro. Porque um

livro se eu pegar ele ler aqui na escola, porque só aqui que eu pego, eu não vou poder levar pra casa pra ler103, já um texto, o texto eu posso pegar ele lê mais, às vezes tem até uma história maior na internet que eu pego pra ler.

(Entrevista, Escola B, p. 225) Como observamos, a portabilidade do texto através do uso virtualizado oferece aos jovens leitores possibilidades que, às vezes não estão disponíveis para eles. Buscaram, pelos meios que dispõem, maneiras de realizar alguma leitura. Esse ponto nos chamou atenção para as inúmeras possibilidades que existem de acessar textos de inúmeros gêneros e tipos de acordo com suas preferências, intenções e necessidades, sem uma forma de controle exercida pela escola ou pela família do que leem e de como leem. Para Possenti (2002), há dois tipos de leitores, um representado por aqueles que falam de modo excessivamente eufórico da leitura no ambiente virtual e do hipertexto, que se caracterizaria por ser: um leitor sem limites ou barreiras, sem história ou profissão e sem ideologia, aquele leitor que tem tempo e pode dispersar suas consultas, o outro leitor é aquele concebido por estudiosos do discurso, um leitor com história que assume seu posicionamento frente aos textos virtuais, e delimita seu espaço e conexões de leitura uma vez que é “interpelado pela

ideologia e submetido pela sua formação discursiva, e, seja ou não patrulhado, lerá o que pode ler com algumas exceções e pequenas escapadas, independente dos meios que tiver à sua disposição” (POSSENTI, 2002, p.13).104

O professor e o bibliotecário, diante da pluralidade de possibilidades e o risco de dispersão na leitura de textos no universo virtual, assumem tamanha importância no processo de incentivo e desenvolvimento da prática leitora mediada, orientada. Introduzir nas aulas sugestões de textos de variados gêneros, que possam interessar aos leitores partindo de adequações quanto à idade ou interesses pessoais e coletivos, é uma ação que amplia a

103 Grifo nosso.

104As pequenas “escapadas” a que alude o autor se referem ao hipertexto. Assunto não tomado

oferta de possibilidades de leitura que pode, inclusive, ser adaptada em sala para complementação de estudo.

O livro caracterizado como suporte impresso ganha gradativamente outros companheiros com o quais deve dividir a tarefa de carregar o texto. Muitos textos que estão virtualmente apresentados para serem lidos são textos escritos para serem veiculados sobre a forma de impresso como aponta Possenti (2002), “Os melhores textos disponíveis na rede,

eletronicamente, ainda são os textos que foram escritos para circularem em forma de livro”. Chartier (1999, p. 13) afirma que a revolução eletrônica que se deu no livro não foi uma mudança no texto em si, mas “nas estruturas do suporte

material do escrito”. Sendo assim, observando as afirmações dos referidos

autores, as mudanças que esse novo suporte acarretou foram mudanças na possibilidade de se realizar a leitura através desse meio e não uma mudança na forma como a leitura se realiza em si. Não existe outra forma de ler, o que existe são maneiras possíveis, adaptáveis conforme o interesse e possibilidade do leitor de se realizar a leitura.

Um outro dado levantado durante as análises que se destacou dos demais foram os enunciados nos quais assumiram o posicionamento de não- leitores e revelaram ter maior preferência por assistir a filmes do que realizar leituras de obras. O livro impresso não lhes chamava atenção, não os atraía, não trazia os recursos visuais, sonoros e de verossimilhança que tanto os encantavam. Diferentemente dos filmes, que se apresentavam de forma viva e atraente, dispõe de ação, movimento, oferece ao expectador a imagem construída das personagens e dos espaços da narrativa. A indústria constrói pelo leitor o que esse próprio poderia realizar, exercitar, projetar, a imaginar por si mesmo.

Observamos assim a emergência de um novo público que assume o posicionamento leitor da cultura visual do resumo, da atratividade, a ‘leitura do livro’ através do filme. Podemos observar, através do gráfico abaixo, como se posicionaram os leitores frente ao questionamento feito sobre suas preferências em ler um livro ou assistir a um filme que contava a história da obra impressa.

Gráfico 11

Fonte: Corsi, (2016).

Durante as entrevistas, alguns jovens relataram a preferência por filmes à realização da leitura. Assim, evidenciam que não realizavam leituras de textos impressos e preferiam o meio virtual, onde encontravam leituras rápidas. Observemos os enunciados,

ALUNO 1: Eu não muito. Assim pra pegá livro assim pra lê não. O livro tem

que me chamar muita atenção pra mim lê inteiro. Mas, eu gosto de ler na

internet, igual, às vezes eu vejo mais filme legendado. Ai é mais a leitura.

Eu gosto. Agora pegá livro assim, tem que me chamar muito atenção mesmo.

ALUNO 5: Ah, eu não tenho muito o hábito de ler eu procuro que nem ele vê filme também. Eu não gosto muito.

ALUNO 4: [...]. Eu prefiro ver filmes que é tudo mais dinâmico se pode ver, você pode… lê você imagina, mas você vendo o filme é mais pra mim interessante. (Entrevista, Escola C, p. 233-234) 61 6 9 23

Preferências entre ler o livro ou assistir ao filme

Preferem ver o filme

preferem ler a obra

Preferem ver o filme e depois lerem a obra

Preferem ler a obra e depois verem o filme

Nossa reflexão a partir dos dados apresentados incide sobre a grande influência e como esses meios tecnológicos podem, de alguma forma, ampliar ou limitar o leitor, e como podem afetar seu posicionamento frente às leituras de textos impressos ou virtuais. Posicionamentos esses que variam em virtude da materialidade assumida pelo suporte textual. O filme não é um suporte textual similar ou outra forma representativa do impresso. As obras impressas sofrem adaptações pela indústria cinematográfica que têm como intuito primordial a venda de um produto, podendo ser ele criado a partir da obra impressa que alcance projeção e destaque devido a aceitabilidade e sucesso de circulação.