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Support development of better Governance

4.2 A MERIKANSK PRAKSIS I I RAK VS DOKTRINENS BESKRIVELSER AV OPPRØRSTILNÆRMING

4.2.4 Support development of better Governance

segundo os momentos historicos. (...) E, em cada um dos momentos desse dia immenso, as gerações mostram uma feição propria. Ha povos que estão no momento da treva inicial, ha os que estão na treva de que se não volta. Ha

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tambem outros que dão a sensação de crepusculo, de um lento crepusculo de verão prolongado; outros crepusculo de inverno, rapidos, cahindo como uma barra de ferro cinza. Se eu estivesse aqui aportado em qualquer anno do Segundo Imperio, teria visto o mesmo, exatamente o mesmo povo de hoje? Não! Absolutamente não! (João do Rio, O povo e o momento, In: Vida Vertiginosa, 1911: 15-16).

Em cada sociedade existe uma imagem específica do mundo e, em particular,

um quadro próprio da história, e a história não é a ciência do passado, também não pode

ser definida como a ciência do homem, mas talvez seja ciência dos homens no tempo

194

. Porque a história é criada por homens pertencentes à sua sociedade, esta sociedade

lhes fornece os critérios de julgamento e, partindo do presente, os homens formam sua

ideia da história

195

.

Há muito tempo, com efeito, nossos grandes precursores, Michelet, Fustel de Coulanges, nos ensinaram a reconhecer: o objeto da história é, por natureza, o homem. Digamos melhor: os homens. Mais que o singular, favorável à abstração, o plural, que é o modo gramatical da relatividade, convém a uma ciência da diversidade. Por trás dos grandes vestígios sensíveis da paisagem [os artefatos ou as máquinas] por trás dos escritos aparentemente insípidos e as instituições aparentemente mais desligadas daqueles que as criaram, são os homens que a história quer capturar. Quem não conseguir isso será apenas, no máximo, um serviçal da erudição (Bloch, 2001: 54).

Se a História é o homem

196

, e o homem está em sua obra, analisar os escritos de

João Paulo Alberto Coelho Barreto, mais conhecido por João do Rio, é saber da história

do seu tempo, é identificar as coordenadas de uma era: o crepúsculo do século XIX e a

aurora do século XX, tempo de supostas virtudes de bem estar de uma sociedade mais

ou menos nervosa

197

que não conseguia fugir da sucessão de acontecimentos

vertiginosos.

194

Assim pensava Marc Bloch (2001: 54-55), que também escreveu: Do caráter da história como conhecimento dos homens decorre sua posição específica em relação ao problema da expressão. “Será uma ciência”? ou uma “arte”? Sobre isso nossos bisavós, por volta de 1800, gostavam de dissertar gravemente. Mais tarde, por volta dos anos 1890, banhados em uma atmosfera de positivismo um pouco rudimentar, pôde-se ver especialistas do método indagarem-se com que, nos trabalhos históricos, o público desse importância, para eles excessiva, ao que eles chamam “forma”. [Arte contra ciência, forma contra fundo:] tantas polêmicas boas para desenvolver ao saco de processos da escolástica. Não há menos beleza numa equação exata do que numa frase correta. Mas cada ciência tem sua estética de linguagem, que lhe é própria. Os fatos humanos são, por essência, fenômenos muito delicados, entre os quais muitos escapam à medida matemática.

195

Conceito de L. Fevbre, In: Guriêvitch, 2003: 29. 196

Febvre, 1978: 17. 197

- “Philosophar é reviver o immediato.” Esta modernissima definição tem o valor de não impedir ninguem de philosophar. Não ha quem não tenha o seu dia de reflexão, ao ruminar o acontecimento que mais interessou a sua pessoa ou a colletividade. Os menos ageis de cerebro podem mesmo prolongar a meditação numa semana, duas, tres. Como todos os assumptos são dignos de philosophia, só ha um contra-tempo: ficar fóra da moda, porque as actualidades se sucedem vertiginosamente (João do Rio, O sorriso do Sr. Antonio Carlos, In: No tempo de Wencesláo..., 1917: 27).

Nenhuma obra pode ser considerada como algo incondicionado, que existe em si

e por si, agindo sobre nós graças a uma força própria que dispensa explicações. Pela

análise de uma obra percebe-se, na medida do possível, que o escritor, numa

determinada sociedade, é não apenas o indivíduo capaz de exprimir sua originalidade,

mas alguém desempenhando um papel social, ocupando uma posição relativa ao seu

grupo profissional e correspondendo a certas expectativas dos leitores

198

. É um

panorama dinâmico, complicando-se pela ação que a obra realizada exerce tanto sobre o

público, no momento da criação e na posteridade, quanto sobre o autor, a cuja realidade

se incorpora em acréscimo, e cuja fisionomia espiritual se define por meio dela.

Não há barreira estanque entre a ação e o pensamento. O que será abordado,

aqui, deixará de vos aparecer como uma necrópole adormecida, onde perpassam

apenas sombras despojadas de substância para,

ardentes de luta, ainda cobertos de poeira do combate, do sangue coagulado do monstro vencido, penetreis no velho palácio silencioso onde ela dormita, e que, abrindo as janelas de par em par, reacendendo as luzes e reanimando o barulho, acordeis com a vossa própria vida, com a vida quente e jovem, a vida enregelada da princesa adormecida... (Febvre, 1978: 7).

Então, a vida pulsa nos textos de João do Rio, porque sentiu verdadeiramente,

insuflou na expressão os ideais do seu tempo e, por isso, ainda hoje, sua obra consegue

recriar nos que a leem o estado emocional primitivo que originou a eclosão artística,

execução da identidade individual que a língua concretiza.

Não ha de certo exploração mais dolorosa que a das crianças. Os homens, as mulheres ainda pantominam a miseria para lucro proprio. As crianças são lançadas no oficio torpe pelos pais, por creaturas indignas, e crescem com o vicio adaptando a curvelinea e acovardada alma da mendicidade malandra. Nada mais pavoroso do que este meio em que ha adolescentes de dezoito annos e pirralhos de tres, garotos amarellos de um lustro de idade e moçoilas puberes sujeitas a todas as passividades. Essa criançada parece não pensar e nunca ter tido vergonha, amoldadas para o

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crime de amanhã, para a prostituição em grande escala. Ha no Rio um numero consideravel de pobrezinhos sacrificados, pretizes que andam a guiar senhoras falsamente cegas, punguistas sem proteção, paraliticos, amputados, escrofulosos, gatunos de sacola, apanhadores de pontas de cigarros, crias de familias necessitadas, simples vagabundos á espera de complacencias escabrosas, um mundo vario, o olhar do crime, o broto das arvores que irão obumbrar as galerias da Detenção, todo um exercito de desbriados e de bandidos, de prostitutas futuras, galopando pela cidade á cata do pão para os exploradores. Interrogados, mentem a principio, negando; depois exageram as falcatruas e acabam a chorar, contando que são o sustento de uma sucia de criminosos que a policia não persegue.

A metade desse bando conhece as leis do prefeito, os (sic) delegados de policia e acompanha o movimento da politica indigena oposicionista e vendo em cada homem importante uma roubalheira. São em geral os mendigos claramente defeituosos a que falta uma perna, um braço.

A perda que os tornou invalidos é uma especie de felicidade, a indolencia e o sustento garantidos.

Á beira das calçadas o dia inteiro têm tempo de se tornarem homens e de lêr os jornaes. Fazem tudo isso com vagar. Quando um ponto se torna insustentavel vão para outros, e ha entre elles relações, morphéas que se ligam ás ulceras, olhos em pús que olham com ternura companheiros sem braços, e todo guardando a data do desastre que os mutilou, que os fez entrar para a nova com a saudade da vida passada.

Fui encontrar na ponte das barcas Ferry alguns de volta de Nitheroy. Vinham alegres, batendo com as muletas, a sacolejar os fartos sacos, na tarde algida. Só nessa tarde interroguei seis (João do Rio, Os que começam..., In: A Ama Encantadora das Ruas, 1910: 229-231).

3.4.1 O escritor de uma sociedade

Brasil do fim do século XIX anunciava a modernidade, era um país em grandes

transformações em consonância com as mudanças que ocorriam no mundo industrial

como um todo e se espalhavam para os países periféricos do capitalismo. Modernidade,

essa aceleração das técnicas novíssimas, como a eletricidade ou o automóvel.

E, subitamente, é a era do Automovel. O monstro transformador irrompeu, bufando, por entre os descombros da cidade velha, e como nas magicas e na natureza, asperrima educadora, tudo transformou com apparencias novas e novas aspirações. Quando os meus olhos se abriram para as agruras e tambem para os prazeres da vida, a cidade, toda estreita e toda de mau pizo, eriçava o pedregulho contra o animal de lenda, que acabava de ser inventado em França. Só pelas ruas esguias dois pequenos e lamentáveis corredores tinham tido a ousadia d’apparecer. Um, o primeiro, de Patrocinio, quando chegou, foi motivo de escandalosa attenção. Gente de guarda chuva de baixo do braço, parava estarrecida como se tivesse visto um bicho de Marte ou um aparelho de morte immediata. Oito dias depois, o jornalista e alguns amigos, acreditando voar com trez kilometros por hora, rebentavam a machina de encontro ás arvores da rua da Passagem. O outro, tão lento e parado que mais parecia uma tartaruga bulhenta, deitava tanta fumaça que, ao vel-o passar, varias damas sufocavam. A imprensa, arauto do progresso, e a elegancia, modelo do snobismo, eram os percursores da era automobilica.

Mas ninguem advinhava essa era. Quem poderia pensar na futura influencia do Automovel deante da machina quebrada de Patrocinio? (João do Rio, A era do automóvel, In: Vida Vertiginosa, 1911: 3-4).

Fim da escravidão. Migrações e imigração. A aurora do regime republicano

dava-se em meio a transformações demográficas e sociais, que libertavam populações e

franqueavam novos destinos geográficos às esperanças de sobrevivência de muito dos

velhos e novos brasileiros. As grandes cidades começavam a se modificar, casas e ruas

fundiam-se numa dinâmica plasmada e difusa, grandes edifícios públicos eram

construídos ao longo da Avenida Central, no Rio de Janeiro, com destaque para o Teatro

Municipal (1909), o Palácio Monroe (1906), a Biblioteca Nacional (1910) e a Escola

Nacional de Belas-Artes (1908).

Um cavalheiro com que encontro anuncia-me cheio de entusiasmo: - Afinal, meu amigo, a Biblioteca vae ter um extraordinário palacio que já está por cinco mil contos! A nossa nobre preciosidade está numa tal barafunda, com o pessoal brigado, a confusão dos catalogos, a confusão das estantes, a confusão dos leitores, que só a mudança a salvará.

A biblioteca! Quanta recordação!

Como estivesse um dia bonito, eu indaguei: - A Biblioteca continua no mesmo logar? - Por dois annos mais, pelo menos. - Pois vou vêl-a.

E fui matar saudades daquelle logar onde eu passara ha annos um tempo de voraz e obscura leitura.

A Biblioteca é um dos aspectos mais curiosos do Rio (João do Rio, Horas da biblioteca, In: Cinematographo, 1909: 249).

No afã do esforço modernizador, Rodrigues Alves, quando assumiu o governo

(1902-1906), enveredou por um programa intensivo de obras públicas financiadas por

recursos externos. Já em 1902 empenhou-se em reduzir a complexa realidade social

brasileira singularizada pelas mazelas herdadas do colonialismo e da escravidão, ao

ajustamento em conformidade com padrões que considerava civilizados, enquanto os

despejados dos bota-abaixo se acumulavam nas favelas, novos espaços criados pela

situação de tripla ditadura na cidade do Rio: modernização do porto pelo engenheiro

Lauro Müler, saneamento pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz e urbanização pelo

engenheiro e nomeado prefeito Pereira Passos que havia acompanhado a reforma urbana

de Paris. A derrubada de 640 prédios rasgara, através da parte mais habitada da

cidade, um corredor que ia da Prainha ao Passeio Público. Era como abrir o ventre da

velha cidade

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.

Para o bem do Brasil, após um infatigavel labor de mais de quarenta annos, Rodrigues Alves é o mais moço dos antigos estadistas e o mais velho estadista da phalange joven que ouve e espera o seu conselho. A saude acompanha-o. Parece feito de aço novo. Para cada um tem uma phrase amavel. A todos toca com a recordação. E nada mais delicado, mais espontaneo, mais vibrante do que o modo por que a capital da Republica recebe e acolhe o varão preclaro – que limpou o Rio do mal horrivel, confiando na juventude de Oswaldo Cruz, que creou a physionomia externa da Patria, fazendo o Brasil viver como nação no convivio dos povos, que foi o creador de uma nova éra da nossa civilização... (João do Rio, Uma chegada, In: Pall-Mall Rio de José Antonio José, 1917: 401).

O Rio começava a perder o caráter semiprovinciano de velha urbe com a vida

centralizada numa pequena área, onde todos se encontravam e todos se conheciam. A

abertura da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, eixo do novo projeto

urbanístico da cidade, contemplada com um concurso de fachadas que a cercou de um

décor arquitetônico art nouveau, em mármore e cristal, combinado com os elegantes

lampiões da moderna iluminação elétrica e as luzes das vitrines das lojas de artigos

finos importados, contrastava com o déficit habitacional que a reforma criou. Era o

corolário da atmosfera cosmopolita, enquanto as pessoas que não pudessem se trajar

decentemente, o que implicava para os homens, calçados, meias, calças, camisa,

colarinho, casaco e chapéu, teriam seu acesso proibido ao centro da cidade.

Tudo deveria se estampar como um cartão-postal carioca, as fachadas e as

construções em estilo eclético deveriam ser grandiosas e nada tinham de aleatório:

dispostas ao lado dos edifícios destinados a empresas nacionais e estrangeiras ligadas ao

comércio, à infraestrutura, à recreação e ao consumo de produtos europeus de luxo.

O Rio, cidade nova – a unica talvez no mundo – cheia de tradições, foi-se dellas despojando com indiferença. De subito, da noite para o dia, comprehendeu que era preciso ser tal qual Buenos Aires que é o esforço despedaçante de ser Paris, e ruiram casas e estalaram igrejas, e desapareceram ruas e até ao mar poz barreiras. Desse descombro surgiu a urbs conforme a civilisação, como ao carioca bem carioca, surgia da cabeça aos pés o reflexo cinematografico do homem das outras cidades. Foi como nas magicas, quando ha mutação para a apoteose. Vamos tomar café? Oh! Filho, não é civilisado! Vamos antes ao chá! E tal qual o homem, a cidade desdobrou avenidas, adaptou nomes estrangeiros, comeu á franceza, viveu á franceza (João do Rio, O velho mercado, In: Cinematographo, 1909: 214- 215).

199

Na verdade, a área urbana do Rio de Janeiro restringia-se ao trecho entre o Largo

do Machado e a Praça XI. Quase zona rural eram os outros bairros, como Laranjeiras,

Tijuca e São Cristóvão. A Floresta da Tijuca foi plantada em 1861 onde antes foram os

cafezais e, a partir dessa data, com a construção da Estrada de Ferro Central do Brasil e,

dez anos depois, com a instalação das linhas dos bondes, os bairros e subúrbios foram

povoados. Não existiam o cais do Porto e a Praça Mauá, o desembarque dos navios se

fazia no cais Pharoux (Praça XV) que tinha à sua direita a praia Dom Manuel e à

esquerda a praia do Peixe, posteriormente aterradas.

Acabou-se de mudar-se hontem a praça do Mercado. Naquelle abafado e sombrio dia de hontem era um correr de carregadores, carroças e carrinhos de mão pelos squares rentes ao Pharoux levando as mercadorias da velha Praça abandonada para a nova installação catita do largo do Moura, e, ao passo que ahi uma vida ainda desnorteada estridulava e enchia de ruído o silencio do sinistro largo, na alegre e bonacheirona Praça ía uma desolação de abandono, com as casas fechadas e o arrastar de utensilhos para o meio das ruas sujas. A mudança! Nada mais inquietante do que a mudança – porque leva a gente amarrada essa esperança, essa tortura vaga que é a saudade. Aquella mudança era, entretanto, maior do que todas, era uma operação da cicurgia urbana, era para modificar inteiramente o Rio de outrora, a mobilisação do proprio estomago da cidade para outro local. Que nos resta mais do velho Rio antigo, tão curioso e tão caracteristico? Uma cidade moderna é como todas as cidades modernas (João do Rio, O velho mercado, In: Cinematographo, 1909: 213-214).

Uma nova elite de jovens intelectuais, artistas, políticos e militares vindos das

correntes cientificistas, do darwinismo social do inglês Spencer, do monismo alemão e

do positivismo francês de Comte entrou em cena a defender uma plataforma de

modernização e atualização de estruturas ossificadas do Império.

Nós ainda temos – e muitas! – coisas que não passam de máos habitos, de costumes de colonia ronceira. Ao observador não escapa o desencontro chocante da civilisação de uns pontos, ao lado da persistencia de defeitos antigos de outros.

Mas cada anno que se passa, a transmutação de valores se opera, e ha cidades, ha adaptações, ha uma inumeravel serie de pequenos melhoramentos pessoaes que redundam no melhoramento urbano. É a universalisação do brasileiro exigindo que elle faça da sua capital, não apenas o museu do Corcovado, do Pão de Assucar e de outras pedras mais ou menos feias, mas o grande centro da America do Sul (João do Rio, O bem das viagens, In: Vida Vertiginosa, 1911: 166).

Homens novos, vindos à tona com a nova situação, que davam o tom geral à

ordem que se criava, marcando um novo sistema de governo. Mas era somente a pressão

dessa camada inquieta das áreas urbanas que fazia surgir as grandes campanhas de

reforma, enquanto o latifúndio continuava limitado à mentalidade escravista.

Era apenas o esforço ideológico empolgando com o conceito da raça superior,

da civilização, dos climas superiores dos países adiantados, enquanto as partes do

globo cortadas pelo equador ou pelo trópico de Câncer eram classificadas como

incompatíveis ao homem branco e à civilização

200

. E quase todos esses preconceitos,

alinhados e difundidos com roupagem científica foram aceitos, aqui, inclusive pelos

escritores e pensadores que começavam a exercer uma tarefa crítica de importância,

renovando as letras brasileiras.

A minha admiração ficava apenas na obra terminada e concluida, naquillo que os meus olhos viam e meus nervos sentiam, e, vendo e sentindo, de toda a minha alma subia a admiração pela geração que realizara tal obra. Quem a fez? Um punhado de moços, - os moços que afirmam o Brasil de modo extraordinário, no momento em elle começa a ser falado. Ha um fato evidente: do governo de Rodrigues Alves é que começou a conhecer o Brasil, e desse governo data a ingerencia dos moços de modo dominador nas administrações e nos negocios publicos (João do Rio, O milagre da mocidade, In: Cinematographo, 1909: 287).

Tudo isso assinalava nitidamente o amplo processo de desestabilização e

reajustamento social, o advento da ordem republicana foi marcado por uma série

contínua de crises sociais e políticas que atingiram em primeiro lugar as elites

tradicionais do Império e seu vasto círculo de clientes. Depois, sabe-se, com a

República nasceu uma elite de especuladores e aventureiros com acesso a recursos

estatais que desfrutavam da proteção política e do trânsito livre a cargos decisórios da

administração, seja por meio de nomeações, seja pela troca de favores. E essa minoria

de bem-sucedidos deu o tom do novo regime, impondo-lhe as características

modernizadoras do estilo dos dirigentes. Enquanto os humildes...

Ninguem imagina a estatistica tragica dos pobres rapazes, de adolescentes, estropiados, feridos, mortos, esmigalhados pelo trabalho feroz, e ninguem pensa em ter pena de um sexagenario que arrebenta sob o peso de um saco em plena calçada. Elles, coitados, não sabem. São os humildes, são os ignorantes. Todas as emoções se lhe embotaram. Os paes trabalhavam de sol a sol. Aos dez anos ja trabalham. É preciso trabalhar para ganhar, com medo do patrão poderoso, do feitor, do espia, de toda a gente, para não perder aquella certeza assustada e mortal do pão. Humildes! Quanta cousa se vê e se ouve (que é impossivel contar) de miseria, de sentimento, de irreparavel, de infinita candura nessas pobres almas sem luz, nesses sêres em que o proprio

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instinto se incurta ao movimento do animal de carga! (João do Rio, Os humildes, In: Cinematographo, 1909: 195-196).

Às portas do século XX, a vida literária acompanhava as transformações gerais

introduzidas pelo governo republicano e, na luta contra os velhos hábitos coloniais, os

jornalistas expediam suas energias contra os últimos focos que resistiam ao furacão do

prefeito Passos, o ditador da Regeneração. Ao contrário do período da Independência,

em que as elites buscavam uma identificação com os grupos nativos - tema do

Indianismo - e manifestavam um desejo de ser brasileiros, no período de virada do

século à primeira década do próximo essa relação se tornou de oposição, o que é

manifestado é um desejo de ser estrangeiro.

A vida nervosa e febril traz a transformação subita dos habitos