4.2 A MERIKANSK PRAKSIS I I RAK VS DOKTRINENS BESKRIVELSER AV OPPRØRSTILNÆRMING
4.2.3 Establish or Restore Essential services
A profecia de Alencar não se realizou. Ao fim de um século, continuamos a falar português, e temos razões para supor que, de futuro, as fôrças unificadoras da língua venham a prevalecer cada vez mais sobre as desagregadoras (Cunha, 1968, b: 42).
Até meados do século XIX, documenta-se a vigência do modelo português na
modalidade escrita do português do Brasil, bem como a luta pela pureza do idioma
190.
A partir de então, evidencia-se a diferenciação progressiva da variante brasileira em
relação à variante portuguesa da língua, tentativa ocasional de cunhar padrões próprios.
Apenas no século XX, a ortografia portuguesa é estudada em conformidade com os aspectos científicos, estabelecendo-se, desse modo, mais coerência do que se vira nos séculos anteriores. Por consequência, é somente nesse século que se fixa de fato a ortografia, dando-lhe caráter de lei, tanto em Portugal quanto no Brasil (Aguiar, 2005: 92).
Foram os românticos, a princípio cidadãos portugueses, depois os nascidos no
Brasil, filhos e netos desses portugueses, formados frequentemente em Portugal, ou nas
poucas Faculdades brasileiras, que levantaram como ideal literário o registro da
infiltração da língua falada na literatura – ainda que longe de oferecer informações
suficientes e seguras que se esboçassem a língua falada por essa época
191.
189 Guimarães, 1996: 131. 190 Cunha, 1968, a. 191 Pimentel, 1986: 20.
A corporificação das tendências da variante brasileira foi se acentuando com
maior pujança quando a literatura se valeu dos fatos políticos e sociais da
independência, da abolição da escravatura e alguns problemas brasileiros foram postos
ao vivo, dentre os quais o da língua, o que favoreceu a crença de que povo independente
deveria ter língua própria.
Assim se organizaram dicionários e glossários de brasileirismos, geralmente
regionalismos, traços estilísticos próprios da variante brasileira, um esforço de
documentação mediante escolha de palavras. Emergiu na literatura uma norma
brasileira, isto é, a literatura prezou a espontaneidade de expressão documentando em
seus escritos certos aspectos da variante brasileira, reivindicou certo grau de liberdade
em face das prescrições gramaticais e dos modelos literários portugueses. E a despeito
de se ter começado a pensar a questão da nacionalidade da língua, os autores das
primeiras gramáticas publicadas no Brasil seguiram a tradição gramatical de Portugal,
preservando a escrita dos grandes escritores clássicos, da observação dos quais
decorreram as regras.
Na altura das duas décadas finais do século XIX, e nos vinte anos iniciais do
século XX, o curso de penetração da oralidade, inclusive na língua literária, foi
interrompido por uma visão racional na apreciação dos fatos.
Mas o que devemos ressaltar é que tanto Machado de Assis, como Rui Barbosa, corporificavam uma dafe de profunda identificação do idioma com a tradição clássica. Suprimiram fronteiras, esqueceram marcos lindeiros e, reagindo contra as tendências ainda mal definidas de um José de Alencar, esposaram a causa da unidade do idioma, como o respeito devido às raízes profundas, mergulhadas na literatura portuguesa. Nessa época, que correspondia, em Portugal, à influência de Eça de Queirós, não seria exagero dizer que os altares erguidos à pureza do idioma português, em terras brasileiras, superaram os de Portugal no fulgor das imagens, na multiplicação das luzes votivas, no capricho da talha dos retábulos (Lima Sobrinho, 1977: 94).
O que interessava aos brasileiros não era mais a atitude antilusitana, mas a
restauração idiomática, ou a resistência aos fatores de deformação de nossa linguagem
falada e escrita
192.
Já não é sòmente o vocábulo de boa casta que é renegado pelo barbarismo, é a própria plástica, a mesma sintaxe, de construção robusta, que
192
se vai deformando com o arrôcho do justilho, efeminando-se com embelecos e postiços.
E assim abastardam e envilecem o nobre idioma, o altissonante português, que rompeu sonoro através do troar das buzinas romanas; que retumbou vencendo o clangor das tubas sarracenas; que ecoou em África sufocando o estrugido das parapandas negras; que dominou o ribombo dos trovões e o uivo dos ventos nos mares, quando ordenava nas galés atrevidas; que se lançou por Ásia dentro e veio cantar nas tabas americanas, regressando ao ninho paterno cheio de notícias de heroísmo. (...)
Que transferida de um para outro clima a língua se modifica, não há negar. O idioma falado no Brasil é o mesmo que soa em Portugal, mas – e mantendo a analogia – com o nosso sol a árvore tornou-se mais verde, mais viçosa, vieram-lhe as flores mais coradas e os frutos mais doces e de mais aroma e, como se deu bem na terra, desenvolveu-se prodigiosamente, abrindo frondosa copa e enchendo-se de cantos.
Mas a seiva que lhe corre no âmago é a mesma que circula nas veias da árvore veneranda, em cujas raízes estão sentados os quatro evangelistas: Camões, Vieira, Bernardes e Camilo (Coelho Neto, A língua portuguesa. Os seus evangelistas. In: Campos, 1945: 249-253).
Aos ideais românticos se opuseram os escritores realistas, naturalistas,
parnasianos, escritores mais propensos à retórica e que dificilmente deixaram margem
para a infiltração da oralidade. Ostentaram, isto sim, no vocabulário e na sintaxe, um
discurso extremamente elaborado. Também revelaram a assimilação dos clássicos
portugueses quando buscaram não só a palavra, mas também a construção rara,
valeram-se de latinismos, arcaísmos, cultismos, e das palavras ligadas à área das
ciências, e rejeitaram os regionalismos, os brasileirismos e os neologismos.
João do Rio tinha seguinte opinião:
Em primeiro logar, fundamentalmente, o Brasil não sabe escrever a sua lingua e pouco se rala que a lingua o não ajude. Do período inicial á ultima oração, não sabe empregar os determinativos, atrapalha-se nos tempos dos verbos, alça, emfim, o paiz a um idoma novo: o brasilismo. Nessa atitude desabrocham sem temor a ausência de idéas, as informaçõezinhas copiosas e os alvitres phenomenaes. Ha longos periodos alcocheados por “ques” alucinantes, ha frases afirmativas lembrando brindes de sobremesa, aquelles brindes gerundiaes á procura do ponto final. Mas, não importa. Quem quer aprender portuguez, lê Camões e não Wencesláo (João do Rio, O Boi não morreu, In: No tempo de Wencesláo..., 1917: 36).
Na literatura, para alguns autores, a solução foi a separação entre o plano do
autor e o da personagem, a fim de admitir marcas da oralidade – lembrando que o ideal
de fala era a língua escrita. Mais tarde, quando se estreitou o compromisso com a
oralidade regional, já presente no discurso direto, o autor foi a voz não mais preocupada
em assinalar as alterações fonéticas típicas mediante um discreto tratamento formal.
Sabe-se que o movimento modernista não apareceu no Brasil como uma quebra
súbita, os simbolistas já eram a própria discordância e a revolta como se fossem do
próprio movimento romântico por agitarem alguns temas, combaterem a rigidez do
sistema de metrificação, por exemplo. Também o parnasianismo já estava esgotado pela
repetição de seus motivos e enfraquecido pela intervenção da poesia simbolista. O
cunho da originalidade esgota-se no uso, ou na imitação, até se perder na fase de
saturação de seus propósitos.
Se a língua da literatura tem de ser a do homem que tece enredos nas obras literárias, não há dúvida que a língua de nossos romances tem que ser a do brasileiro (Fortes, 1957: 98).
Então, o brasileirismo-língua
193dos poetas e dos romancistas perdeu o aspecto
de luta que antes deixava transparecer na fase do brasileirismo-nome do passado e um
sentido moral, de responsabilidade social, com uma função rigorosamente estética no
sentido total do termo, de colaboração vanguardista na construção do Brasil atingiu a
maturidade e foi distinguindo em nossas letras pelo esquecimento das minúcias técnicas
– a regra e o modêlo literário – para se plenificar de significação, e identificar-se com
os nossos problemas sociais e políticos.
Se existe um espírito nacional, um temperamento, um caráter, uma sensibilidade, um modo-de-ser nacional, também, por isso mesmo, existirá uma expressão lingüística que reflita êsse modo-de-ser, essa, por assim dizer, alma coletiva. (...) Mas na mesma língua, através da mesma língua pode manifestar-se mais de um estilo nacional. (...) E precisamente êsse conceito de “estilo nacional” tem justíssima aplicação no caso da língua do Brasil. Nada impede que nós tenhamos língua portuguêsa e estilo brasileiro. Isto é, um sistema gramatical português, o mesmo que se encontra em Camões, Vieira, Bernardes, Herculano, Garrett etc. e um modo de expressão, uma escolha do material lingüístico e algumas criações, que melhor se ajustem e que correspondam ao espírito, à alma, ao temperamento, à sensibilidade brasileira (Chaves de Melo, 1971: 133-134).