5. DISCUSSION
5.1 Summary of strength and weaknesses
Cien años de soledad apresenta uma série de acontecimentos que envolvem a trajetória de sete gerações da família Buendía atadas à impossibilidade de se livrar dos efeitos da solidão. Numa concêntrica estrutura de histórias, o leitor encontrará retratados os percalços e as mazelas que corroem o ser humano e o tornam tão incompreendido perante os semelhantes. Temos o orgulho, a inveja, a ira, a volúpia, a cobiça como alguns dos ingredientes que convergem para situações de loucura, violência e morte.
Muito longe de silenciar sobre esta última, o romance penetra em diversificadas formas de sua representação. Um primeiro tipo é o que trabalha a morte- trágica: de Prudencio Aguilar no duelo de honra com José Arcadio Buendía e que é a morte que vai desencadear uma série de fatos, incluindo a criação de Macondo; de Pietro Crespi, que se suicidou por amor; de Remedios Moscote durante o aborto de gêmeos; dos 17 Aurelianos caçados como animais; dos mortos no Carnaval, baleados durante a queima de fogos de artifício; dos trabalhadores grevistas abatidos por metralhadoras; de Amaranta Úrsula, adoentada após dar à luz o último dos Buendías; dos pássaros, devido às cercas elétricas, ao calor e a fenômenos misteriosos; e diversos outros exemplos.
Outros tipos de representação da morte estão relacionados à morte-e- ressurreição (de Melquíades nas dunas de Cingapura e em suas aparições aos Buendías);
310“Filha das mortes precedentes, a morte da morte acertaria um golpe decisivo na imaginação. Ocultar as
agonias no hospital, as cinzas nos nichos funerários, escamotear o horroroso sob a luz artificial e a decoração da funeral home, é tanto debilitar nosso sexto sentido do invisível, e de passagem os outros cinco, pois perder de vista o insustentável é diminuir a confusa atração da sombra, e seu reverso, o valor de um raio de luz.”
159 à morte-santa (de Remedios, a bela, que misteriosamente ascende aos céus); à morte- tardia (de Úrsula, com mais de 125 anos, e de Francisco, o Homem, com quase 200); à morte-anunciada (de Amaranta que prepara o falecimento com anos de antecedência); à morte-loucura (do patriarca José Arcadio Buendía, enclausurado em quartos labirínticos e infinitos); à morte-enganada (do coronel Aureliano Buendía, que escapa a vários atentados e ao fuzilamento); à morte-solidão (de Rebeca, “enterrada” em vida em casa, e do Coronel Gerineldo Márquez na velhice); à morte-dupla (dos gêmeos José Arcadio Segundo e Aureliano Segundo); e à morte-devoradora (do filho de Amaranta Úrsula comido por formigas). Por essas multíplices vias, a morte é transformada em imagem que narra, que impacta, que denuncia.
Vê-se que os personagens de Cien años de soledad se prestam à performance de uma miríade de representações da morte. O resultado é um manancial imagético que torna vívida a obra maior do escritor colombiano. Ao dar vazão à criatividade, o caminho escolhido por García Márquez é o de distender o sentido da morte para além das fronteiras de uma obra exclusivamente realista. Valorizando uma perspectiva extraordinária/sobrenatural dos acontecimentos, o autor dialoga com essa necessidade de abordar o tema em sua inequívoca relação com a vida. Nesse sentido a morte se configura como um fenômeno determinante, entrelaçado com outros acontecimentos que compõem a estrutura geral da obra, tais como nascimentos, relacionamentos amorosos, brigas familiares, manifestações misteriosas, disputas de poder, guerras etc. Multifacetada, a morte também pode conter apenas o melancólico gosto da saudade. “En realidad no le importaba la muerte sino la vida, y por eso la sensación que experimentó cuando pronunciaron la sentencia no fue una sensación de miedo sino de nostalgia.” (CAS, [s/d], p. 51).311
No entanto, quando é fruto da violência (no caso dos assassinatos dos 17 Aurelianos, da tortura de inocentes, do fuzilamento de prisioneiros de guerra ou da matança dos grevistas), a morte suscita a indignação, a raiva, a censura e o mal-estar, como mostra o seguinte trecho:
Fueron días negros para el coronel Aureliano Buendía. El presidente de la república le dirigió un telegrama de pésame, en el que prometía una investigación exhaustiva, y rendía homenaje a los muertos. Por orden suya, el alcalde se presentó al entierro con cuatro coronas
311“Realmente não se importava com a morte, e sim com a vida, por isso a sensação que experimentou
quando pronunciaram a sentença não foi uma sensação de medo, mas de nostalgia.” (CAS, 1996, p.
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fúnebres que pretendió colocar sobre los ataúdes, pero el coronel lo puso en la calle. (CAS, [s/d], p. 99).312
Além disso vale salientar em Cien años de soledad o fato de por um lado a morte estar relacionada a eventos memoráveis (a chegada dos ciganos, o advento do trem, o Carnaval, as repetidas ações de alguns personagens etc.), e, por outro, estar ligada a eventos esquecíveis, como aqueles que são apagados pela história oficial (o massacre dos trabalhadores grevistas). O memorável pode ser verificado tanto nas longínquas reminiscências do coronel Aureliano Buendía: “había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo” (CAS, [s/d], p. 3),313 quanto nas de Arcadio perante o pelotão de fuzilamento:
En ese instante lo apuntaron las bocas ahumadas de los fusiles y oyó letra por letra las encíclicas cantadas de Melquíades y sintió los pasos perdidos de Santa Sofía de la Piedad, virgen, en el salón de clases, y experimentó en la nariz la misma dureza de hielo que le había llamado la atención en las fosas nasales del cadáver de Remedios. (CAS, [s/d], p. 51).314
Existe, vale ressalvar, uma tentativa de ocultar fatos, de apagar o rastro de violência que ameaça a “ordem pública”, ou seja, de tornar olvidáveis determinados acontecimentos:
La mujer lo midió con una mirada de lástima. “Aquí no ha habido muertos Ŕdijo Ŕ. Desde los tiempos de tu tío, el coronel, no ha pasado nada en Macondo.” En tres cocinas donde se detuvo José Arcadio Segundo antes de llegar a la casa le dijeron lo mismo: “No hubo muertos.” Pasó por la plazoleta de la estación, y vio las mesas de fritangas amontonadas una encima de otra, y tampoco allí encontró rastro alguno de la masacre. (CAS, [s/d], p. 127).315
312“Foram dias negros para o Coronel Aureliano Buendía. O Presidente da República endereçou-lhe um
telegrama de pêsames no qual prometia uma investigação exaustiva e rendia homenagem aos mortos. Por ordem sua, o alcaide se apresentou no enterro com quatro coroas fúnebres que pretendeu colocar
sobre os ataúdes, mas o coronel o pôs na rua.” (CAS, 1996, p. 231-232).
313 “[...] Havia de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou para conhecer o gelo” (CAS, 1996,
p. 7).
314 “Nesse instante apontaram para ele as bocas fumegantes dos fuzis, e ele ouviu letra por letra as
encíclicas cantadas de Melquíades, e sentiu os passos perdidos de Santa Sofía de la Piedad, virgem, na sala de aula, e experimentou no nariz a mesma dureza de gelo que lhe havia chamado a atenção nas fossas nasais do cadáver de Remedios.” (CAS, 1996, p. 118).
315“A mulher mediu-o com um olhar de pena. „Aqui não houve mortos‟, disse. „Desde a época do seu tio,
o coronel, que não acontece nada em Macondo.‟ Em três cozinhas onde se deteve José Arcadio Segundo antes de chegar em casa lhe disseram a mesma coisa: „Não houve mortos.‟ Passou pela praça
da estação e viu as mesas de frituras amontoadas uma em cima da outra e tampouco ali encontrou
161 Sintomaticamente a morte dos grevistas não é a única que ocorre na praça de Macondo. Anos antes, durante o que ficou conhecido como “carnaval sangriento” (CAS, [s/d], p. 81),316 Ŕ que começou com uma festa para eleger a rainha da beleza Ŕ, aconteceu uma matança em decorrência da desmedida atuação do poder político. “Las descargas de fusilería ahogaron el esplendor de los fuegos artificiales, y los gritos de terror anularon la música, y el júbilo fue aniquilado por el pánico” (CAS, [s/d], p. 83).317 Assim como no caso dos trabalhadores mortos, aqui a responsabilidade pelas mortes não é assumida pelas autoridades.
Muchos años después seguiría afirmándose que la guardia real de la soberana intrusa era un escuadrón del ejército regular que debajo de sus ricas chilabas escondían fusiles de reglamento. El gobierno rechazó el cargo en un bando extraordinario y prometió una investigación terminante del episodio sangriento. Pero la verdad no se esclareció nunca, y prevaleció para siempre la versión de que la guardia real, sin provocación de ninguna índole, tomó posiciones de combate a una seña de su comandante y disparó sin piedad contra la muchedumbre. (CAS, [s/d], p. 83).318
Dessa vez, entre os mortos e feridos constavam “nueve payasos, cuatro colombinas, diecisiete reyes de baraja, un diablo, tres músicos, dos Pares de Francia y tres emperatrices japonesas.” (CAS, [s/d], p. 83-84).319
É uma cena em que o autor chama a atenção para um tipo de festa em que normalmente é aceita a quebra de uma
316“carnaval sangrento” (CAS, 1996, p. 190). Segundo Josefina Ludmer, a temática do carnaval é bastante
sugestiva, indicando a dualidade que a festa pagã carrega. “No carnaval o homem se realiza como máscara e como outro; fundem-se o ser e o parecer; o carnaval é sexo e morte, alegria e lágrimas; nele as díadas estruturais alto e baixo, nascimento e morte encontram sua expressão mais alta [...]. O carnaval é o fictício por excelência; nele se questionam as leis e a linguagem; destrói-se a unidade do homem, assinalando-lhe a dualidade constitutiva; o carnaval é uma mistura de contrários [...]. O motivo do carnaval em Cem anos, vinculado aos gêmeos, com suas duas rainhas (que foram postas a salvo cada uma por um dos gêmeos), feito de contrastes, de passagens, de comédia e tragédia, de sexo e política, tematiza assim os esforços estruturais e retóricos, vinculando ambos os universos: a mente
(a política, o trabalho, a palavra) e o corpo (o sexo, o delírio e a morte”). (LUDMER, 1989, p. 112-
113).
317“As descargas de fuzilaria abafaram o esplendor dos fogos de artifício e os gritos de terror anularam a
música e o júbilo foi aniquilado pelo pânico.” (CAS, 1996, p. 195).
318“Muitos anos depois continuar-se-ia afirmando que a guarda real da soberana intrusa era um esquadrão
do exército regular que debaixo das suas ricas chilabas escondia fuzis de verdade. O governo negou a culpa num decreto extraordinário e prometeu uma investigação rigorosa do episódio sangrento. Mas a verdade não se esclareceu nunca e prevaleceu para sempre a versão de que a guarda real, sem provocação de nenhuma espécie, tomou posições de combate a um sinal do seu comandante e
disparou sem piedade contra a multidão.” (CAS, 1996, p. 195).
319“nove palhaços, quatro colombinas, dezessete reis de baralho, um diabo, três músicos, dois Pares de
França e três imperatrizes japonesas.” (CAS, 1996, p. 195). A expressão “par de frança” advém de par („cada um dos vassalos mais importantes de um reino‟, segundo o Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa) e faz referência aos cavaleiros de elite da guarda pessoal do rei Carlos Magno. A
história desse monarca, seus pares e as guerras tem bastante influência no imaginário e em movimentos sociais do Brasil, por exemplo. Cf. ARIAS (2012).
162 ordem predeterminada, protagonizada aqui por personagens pitorescos, mas que naquele momento serviu de pretexto para que mais uma vez a rigidez ideológica e a injustiça se apresentassem como únicas opções.
A tensão que se estabeleceu entre os adeptos dos partidos conservador e liberal é um dos pontos centrais da obra e motivo para que Aureliano Buendía promovesse mais de trinta guerras civis e se tornasse o lendário coronel Aureliano Buendía. As diferenças ideológicas dos dois partidos não impediram que excessos e barbaridades fossem cometidos de lado a lado, a ponto de, ao fim de uma vida de lutas.
(THOMAS, 1983, p. 7, grifos do autor) em defesa do partido liberal, o coronel Aureliano Buendía reconhecer amargamente a inutilidade das ações bélicas.320
Este es un régimen de pobres diablos, comentaba el coronel Aureliano Buendía cuando veía pasar a los policías descalzos armados de bolillos de palo. Hicimos tantas guerras, y todo para que no nos pintaran la casa de azul. (CAS, [s/d], p. 98).321
Tudo isso revela, mais uma vez, o posicionamento crítico por parte de García Márquez, que não se escusou de pensar a realidade de seu tempo e em voz alta delatar as contradições da modernidade. E ele procedeu com criatividade e, sobretudo, com refinado senso de humor (com toques de sarcasmo e ironia), ao evidenciar a tentativa dos poderosos tanto de se sobrepor à liberdade de expressão do povo, quanto de reduzir as vontades coletivas ao pó da história falsificada. Numa mescla curiosa, o autor alcançou um resultado bastante satisfatório, pois essas imagens têm a capacidade de chocar e ao mesmo tempo (ou por isso mesmo) permanecer nos recônditos mais misteriosos e intrincados da memória.
320 Thomas acredita que as guerras estejam relacionadas a uma “institucionalización de la muerte [que] va
siempre acompañada de un sistema de valores particularmente compulsivos (honor, gloria, sacrificio, amor a la patria, grandeza humana, culto a los muertos en el campo de batalla), capaces de remover a las masas, de galvanizarlas y conducirlas al suicidio-sacrificio en un clima de la mayor euforia.”
(THOMAS, 1983, p. 129). Traduzindo: “institucionalização da morte [que] vai sempre acompanhada
de um sistema de valores particularmente compulsivos (honra, glória, sacrifício, amor à pátria, grandeza humana, culto aos mortos no campo de batalha), capazes de agitar as massas, de inflamá-las e conduzi-las ao suicídio-sacrifício em um clima de maior euforia.”
321Traduzindo: “Este é um regime de pobres-diabos”, comentava o Coronel Aureliano Buendía quando
via passar os guardas descalços, armados de cassetetes de madeira. “Fizemos tantas guerras, e tudo para que não nos pintassem a casa de azul.” (CAS, 1996, p. 229).
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