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1 INTRODUCTION

1.2 Adverse events

1.2.1 Definitions

Em História e memória, Jacques Le Goff adota o conceito de memória na perspectiva de “um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas” (LE GOFF, 2003, p. 419). O autor defende que a memória é uma categoria que está intrinsecamente relacionada à noção de história. Isso porque memória e história estão assentadas em uma base temporal, ou seja, tanto uma como outra dizem respeito às relações que se estabelecem entre os homens e seu “passado/presente (e/ou presente/passado)” (LE GOFF, 2003, p. 9). Considerando esse pressuposto, é possível

186“cusparadas incandescentes”; “girando num torvelinho gigantesco”; “descascando uma cebola, pela

102 dizer que o diálogo entre memória e história submete o ser humano a uma escala temporal da qual ele não se pode afastar. Por mais que as pessoas desconheçam sua própria história, elas estão inseridas em um tempo comum de rememoração que costuma resultar em percepções normalmente semelhantes (embora bastante distintas em alguns casos) sobre a realidade que os circunda.

Segundo o historiador francês, o fato de a história incorporar “dados da filosofia, da ciência, da experiência individual e coletiva” faz com que sejam introduzidos, “junto destes quadros mensuráveis do tempo histórico, a noção de duração, de tempo vivido, de tempos múltiplos e relativos, de tempos subjetivos ou simbólicos”. Isso significa que “o tempo histórico encontra, num nível muito sofisticado, o velho tempo da memória, que atravessa a história e a alimenta.” (LE GOFF, 2003, p. 13).

A íntima relação entre memória e história é bastante pertinente ao estudo aqui proposto. Em menor ou maior medida, as obras analisadas trazem uma bagagem histórica de contextualização e de desdobramento. Bagagem essa que salienta tanto o papel da memória sobre esse olhar que se volta para o passado, como o desses “tempos subjetivos ou simbólicos” que são representados por uma mescla da história convencional com toques míticos ou de carregado simbolismo.

De fato esse parece ser um dos principais movimentos feitos por García Márquez ao compor sua obra. Ao mesmo tempo em que fatos históricos espreitam pelas frestas da imaginação, a memória é capaz de se alimentar dessa história tomada como simples registro factual (ainda que esse factual deva a todo momento ser questionado). Com isso temos uma espécie de imbricação de modos de narrar que resulta na produção de um material rico e heterogêneo em relação às duas categorias. Desse modo a mistura entre uma memória viva e uma história factual parece se estabelecer como o ponto de equilíbrio procurado pelo autor colombiano.

Ao analisar algumas diferenças e oposições entre memória e história, Pierre Nora afirma que a primeira se apresenta como a vida que é sempre carregada por grupos vivos e que, por estar em permanente evolução, fica aberta “à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, suscetível de longas latências e de repentinas revitalizações” (NORA, 1993, p. 9). Logo, a memória “é um fenômeno sempre atual” que instala a lembrança no sagrado Ŕ esse eterno presente vivido.

103 Pierre Nora considera (assim como Halbwachs) que a memória emerge de um grupo que ela une. Isso significa que “há tantas memórias quantos grupos existem, e também quer dizer que ela é, por natureza, múltipla e desacelerada, coletiva, plural e individualizada.” (NORA, 1993, p. 9). Além disso, a memória está enraizada “no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto”. (Ibidem, p. 9).

A história, por sua vez, é de acordo com Pierre Nora “a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais” e configura-se como “uma representação do passado”. Ele acredita que a história não pertence a ninguém, o que lhe daria uma “vocação para o universal”. Por trata-se de uma “operação intelectual e laicizante, a história demanda análise e discurso crítico”. Afora isso, ela “só se liga às continuidades temporais, às evoluções e às relações das coisas.” (Ibidem, p. 9).

As colocações de Le Goff e de Nora oferecem material para refletirmos sobre o romance. Enquanto temos uma memória viva (ainda que imperfeita) a ser detectada na obra, não nos surpreende que a história apareça como que “editada” em seu conteúdo.

Se a todo momento somos convocados a vislumbrar o fantástico187 presente na literatura do autor colombiano, não é menos verdadeiro que, nos interstícios ou dobras dessa ficção, espreitem fatos que podem ser resgatados diretamente da história colombiana Ŕ e, por extensão, de algumas localidades latino-americanas. Como, por exemplo, o assassinato de trabalhadores grevistas da empresa transnacional United Fruit numa praça de Aracataca. Transpondo isso para a ficção, temos Macondo como o palco para a tragédia, como atestam as seguintes passagens: “El capitán dio la orden de fuego y catorce nidos de ametralladoras le respondieron en el acto.” (CAS, [s/d], p. 126);188 “De pronto, a un lado de la estación, un grito de muerte desgarró el encantamiento: „Aaaay, mi madre.‟ Una fuerza sísmica, un aliento volcánico, un rugido de cataclismo, estallaron en el centro de la muchedumbre […]” (CAS, [s/d], p. 126).189

Em seu principal romance, García Márquez estabelece uma interface entre aspectos de sua memória familiar e os da história da Colômbia (como foi minuciado no

187 Aqui tomado no sentido dado por Vargas Llosa e que foi explicitado na parte introdutória deste estudo.

Reitero que não é minha intenção discutir tais categorias (o fantástico, o maravilhoso e o irreal), mas destacar que são recursos que normalmente são atribuídos à literatura de Gabriel García Márquez.

188

“O capitão deu a ordem de fogo e quatorze ninhos de metralhadoras responderam imediatamente.” (CAS, 1996, p. 290).

189“De repente, de um lado da estação, um grito de morte quebrou o encantamento: „Aaaai, minha mãe.‟

Uma força sísmica, uma respiração vulcânica, um rugido de cataclismo arrebentaram no centro da

104 primeiro capítulo), associando outras vertentes, como o mito, as lendas, os símbolos e as crenças folclóricas, num complexo190 movimento de criação literária.

Nesse painel que reúne memória e história, é difícil não pensarmos sobre o modo como ambas as instâncias se entrecruzam muitas vezes sem distinção. Afinal é possível se alcançar uma história “universal”, como destacado por Nora? Ou seria mais conveniente sugerirmos que a história se constrói de outra forma, com fragmentos de uma memória imperfeita, difusa e Ŕ por que não? Ŕ tendenciosa?

À luz das considerações feitas anteriormente, pode-se asseverar que o romance de Gabriel García Márquez traz essa rearticulação de fatos históricos (sejam inspirados nas reminiscências de familiares ou de grupos sociais), que na ficção terminam por estimular a compreensão dos próprios acontecimentos que se acomodaram na espessa poeira do esquecimento. Com certeza tais fatos são restos de um passado que não pode ser totalmente recuperado Ŕ e que jamais será completamente resgatado pela literatura Ŕ, mas esses mesmos fatos retornam de modo latente e instigante nesse que é o maior romance de García Márquez.

Mais uma vez tomo as considerações de Le Goff para comentar a relação umbilical que se institui entre as duas instâncias aqui cotejadas.

A memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens. (LE GOFF, 2003, p. 471).

Encontro ressonância das palavras de Le Goff na narrativa de García Márquez. Por mais que a história sobre a matança dos trabalhadores grevistas possa ser escamoteada (como será mais bem detalhado em outros momentos deste texto), ela seguirá sendo alimentada pela memória popular. Assim a memória cumpre sua função de manter vivas as relações que, perigosamente, correm o risco de se cristalizar sob o selo oficial da história.

190 Conforme assinala Pedro Luis Barcia, García Márquez promove “una mitificación de la realidad

cotidiana sacralizada” em que podem ser identificados “la pareja fundacional, el pecado original, el

eterno retorno, el árbol como axis mundi, el paraíso perdido, la madre arquetípica, etc.” (BARCIA,

2007, p. 487). Traduzindo: “uma mitificação da realidade cotidiana sacralizada”; “o casal fundacional,

o pecado original, o eterno retorno, a árvore como axis mundi, o paraíso perdido, a mãe arquetípica

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