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1 INTRODUCTION

1.3 The Global Trigger Tool (GTT)

1.3.2 Implementation

Ao mesmo tempo em que surgem como o espaço de inscrição da memória das gerações dos Buendías, os pergaminhos de Melquíades representam o aniquilamento dessa própria memória, que deve ser decifrada para que então se apague definitivamente. Movimento paradoxal se considerarmos que até a materialidade dos pergaminhos, sua resistência ao tempo, se desfaz com o implacável transcorrer das décadas. É uma memória que, ainda enquanto está sendo decifrada, já está deixando de existir, uma vez que a narrativa é interrompida. Pode-se dizer que a circularidade temporal presente no romance evidencia a corrosão da própria memória, que na história familiar dos Buendías é reinscrita a cada ciclo de vida e de morte, inserida em um ciclo maior que se completa nos cem anos de sua existência.

277 “A vida não é a que a gente viveu, mas a que a gente recorda, e como recorda para contá-la.”

139 Em História e memória, Jacques Le Goff ressalta a importância dos monumentos para a manutenção da memória. “O monumento tem como características o ligar-se ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, das sociedades históricas (é um legado à memória coletiva) e o reenviar a testemunhos que só numa parcela mínima são testemunhos escritos.” (LE GOFF, 2003, p. 526). Na raiz da palavra está o sentido de “fazer recordar”. Isso significa que o “monumentum é um sinal do passado”, um ato de evocar e perpetuar a recordação. (Ibidem, p. 526). Logo, não se pode deixar de observar que a história do autor colombiano erige uma série de monumentos para a manutenção da memória, ou que sua ficção consiste num monumento que guarda as memórias vivas (da solidão) de uma família inteira Ŕ e consequentemente tudo o que pode representar, isto é, uma localidade interiorana, um país, um continente.

Em vez de erigir lajes tumulares ou escrever epígrafes tradicionais, os personagens guardam em seus corpos as marcas do tempo, como se eles próprios fossem os monumentos dessa memória que se transfere de um a outro, ao longo das descendências. Da escrita de Gabriel García Márquez surgem corpos que se mostram eles mesmos como espaços de memória, como por exemplo um totalmente tatuado, que é o de José Arcadio (monumento vivo de uma memória transgressora e deambulante), e o intocável (de Remedios, a bela), e os estigmatizados, como os dezessete Aurelianos e sua cruz de cinza na fronte, em Cien años de soledad; assim como o corpo de Bernarda Cabrera (degradado pelo vício e pela perversão), e o que carrega a multiplicidade sagrada e cultural, que é o da menina branca de alma negra (Sierva María), em Del amor y otros demonios.

Nessa esfera também podem ser mencionados os corpos sofridos, mutilados, ulcerados, exorcizados e marcados, que assumem a condição de monumentos de memória. A pele queimada das mãos de Amaranta remete ao “eterno” sofrimento da personagem por causa das desditas de amor (memória viva na carne machucada). Assim como a tez chagada e decrépita de Melquíades monumentaliza sua condição de homem que desafia as doenças e o próprio tempo (numa encenação que traduz certa imortalidade do cigano). O fantasma de Prudencio Aguilar é outro cujo corpo se torna um monumento da morte que se transforma dentro da morte, pois que o personagem continua a envelhecer mesmo depois do falecimento.

O corpo açoitado do padre Cayetano ergue-se como monumento de um homem que tenta ferir as tentadoras lembranças sobre a “menina-demônio.” E é de uma parte específica de Sierva María que vemos brotar outro monumento Ŕ aquele que nos

140 faz recordar que a força vital da menina não poderia ser “exorcizada” pela Igreja. Isso sem falar na fronte marcada dos 17 Aurelianos, monumentos que têm na cruz de cinza a certeza da perseguição e da crua sentença de morte. E o que parece mais óbvio: os pergaminhos ciganos (feitos de pele animal, portanto corpórea) que possuem a mais instigante memória sobre todos os Buendías.

O tempo é outro elemento que surge como uma das instâncias fundadoras nas duas obras. No romance temos o tempo da criação, da iniciação e da destruição completa. Já na novela o autor parte de um tempo e de um espaço em evidente ruína, escombros que se instalam nas frestas de uma casa senhorial e que se expandem em direção ao convento das clarissas, à casa do bispo e também ao próprio povoado (que somente em um período do ano, com a chegada de navios negreiros, parece manifestar algum tipo de vida). Os destroços do passado persistem de forma insidiosa na vida do marquês de Casalduero. A começar pelo estado deplorável da residência que um dia tinha sido uma das mais luxuosas de todo o lugar, como bem ilustra o seguinte trecho:

La casa había sido el orgullo de la ciudad hasta principios del siglo. Ahora estaba arruinada y lóbrega, y parecía en estado de mudanza por los grandes espacios vacíos y las muchas cosas fuera de lugar. En los salones se conservaban todavía los pisos de mármoles ajedrezados y algunas lámparas de lágrimas con colgajos de telaraña. Los aposentos que se mantenían vivos eran frescos en cualquier tiempo por el espesor de los muros de calicanto y los muchos años de encierro, y más aún por las brisas de diciembre que se filtraban silbando por las rendijas. Todo estaba saturado por el relente opresivo de la desidia y las tinieblas. Lo único que quedaba de las ínfulas señoriales del primer marqués eran los cinco mastines de presa que guardaban las noches. (DAOD, 1994, p. 11).278

Esse passado arruinado também toma de assalto personagens como a (suposta) louca que quase se casou com o marquês de Casalduero:

Vencida por los desaires del pretendido, Dulce Olivia se consoló con la añoranza de lo que no fue. Se escapaba de la Divina Pastora por los portillos del huerto cada vez que podía. Amansó e hizo suyos los mastines de presa con cebos de buen amor, y dedicaba sus horas de

278“A casa tinha sido o orgulho da cidade até o começo do século. Agora estava arruinada e lôbrega,

parecendo em estado de mudança, com grandes espaços vazios e muitas coisas fora do lugar. Nos salões ainda restavam os pisos de mármores axadrezados e alguns lampiões de lágrimas com teias de aranha penduradas. Os aposentos que se mantinham vivos eram frescos em qualquer tempo, graças à espessura das paredes de alvenaria e aos muitos anos fechados, e mais ainda graças aos ventos de dezembro que se infiltravam assobiando pelas frestas. Tudo estava saturado pela umidade opressiva do abandono e pela escuridão. A única coisa que sobrava das veleidades senhoriais do primeiro marquês eram os cinco mastins de presa que vigiavam as noites.” (DAOD, 1994, p. 18-19).

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sueño a cuidar de la casa que nunca tuvo, a barrerla con escobas de albahaca para la buena suerte y a colgar ristras de ajo en los dormitorios para espantar a los mosquitos.” (DAOD, 1994, p. 28).279

Trata-se de loucura por excesso de memória. Dulce Olivia é uma presença fantasmagórica na antiga mansão. “El marqués no supo nunca, ni lo supo nadie, en qué momento Dulce Olivia había dejado de ser ella, y sólo seguía siendo una aparición en las noches de la casa.” (DAOD, 1994, p. 86).280

Personagem amargurada pela passagem do tempo e por seus amores malfadados, a mulher segue uma trajetória que deixa em dúvida sua loucura (seus insights de lucidez desabonam qualquer laudo conclusivo), como no seu derradeiro diálogo com o marquês:

“Te pareces en tu sano juicio”, le dijo. “Siempre lo he estado”, dijo ella. “Fuiste tú el que no me vio nunca como era”. “Yo te distinguí entre la montonera cuando todas eran jóvenes y bellas y era difícil distinguir a la mejor”, dijo él. “Me distinguí yo misma para ti”, dijo ella. “Tú no. Siempre fuiste como ahora: un pobre diablo” (DAOD, 1994, p. 85).281

Esse é mais um exemplo de como a literatura de García Márquez se mostra como um espaço para o desencontro e a decadência. Um declínio que se prenuncia já nas primeiras páginas da novela (antes mesmo da narrativa propriamente dita), quando despojos e esqueletos há muito descarnados ficam expostos em montículos, aguardando que alguém os reclame, uma vez que todo o restante será destinado à vala comum. Tudo isso faz parte de um tempo que apaga as hierarquias e crenças religiosas, e que deixa somente a singela perenidade das estórias, como a da marquesinha de 12 anos que carregava uma exuberante cabeleira acobreada, a qual continua a impressionar mesmo após mais de 200 anos.

279“Vencida pelo pouco-caso do seu pretendido, Dulce Olivia se consolou com a nostalgia do que não

acontecera. Sempre que podia, escapava da Divina Pastora pelas brechas da cerca do pomar. Amansou e fez amizade como os mastins de presa, cevando-os com comedorias, e dedicava suas horas de sono a cuidar da casa que nunca teve, a varrê-la com vassouras de alfavaca para dar sorte e a pendurar réstias

de alhos nos quartos para espantar os mosquitos” (DAOD, 1994, p. 61).

280 “O marquês nunca soube, nem ninguém soube, em que momento Dulce Olivia deixara de ser ela

própria e só continuava sendo uma aparição nas noites da casa.” (DAOD, 1994, p. 208).

281“Ŕ Estás parecendo em teu juízo normal Ŕ disse. Ŕ Sempre estive Ŕ disse ela. Ŕ Tu é que nunca me viste

como sou. Ŕ Eu te distingui no baile quando todas eram moças e bonitas e era difícil distinguir a melhor Ŕ disse ele. Ŕ Eu me distingui a mim mesma para ti Ŕ disse ela. Ŕ Tu, não. Sempre foste como agora: um pobre-diabo.” (DAOD, 1994, p. 207).

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