4.2 Rock Physics
4.2.2 Contact Models
De acordo com os estudos de Kurt Spang (1998: 57), poder-se-á estabelecer uma tríade conceptual, no que concerne ao conceito em análise. O crítico refere as concepções teleológica, a cíclica e a contemporânea. Esta concepção contemporânea opõe-se às concepções anteriormente evocadas. A concepção teleológica concebe o tempo como um todo definitivo e imutável. Nesta categoria pode, também, ser integrada uma vertente escatológica, i.e., o significado da História pode ser enigmático durante o seu curso, mas revelar-se-á coerente, a partir do seu final. Sejam quais forem os seus matizes ideológicos e idiossincráticos, é-lhe intrínseca a ideia de progresso e, por conseguinte, uma atitude optimista perante o curso da História. A outra, a concepção cíclica, não é inteiramente distinta do conceito veiculado pela concepção teleológica. Esta idiossincrasia histórica concebe o tempo como um todo, não linear, mas reiterativo e redundante, que regressa sempre às origens, em ciclos mais ou menos regulares. Esta concepção reflecte a crença da Reencarnação e no Eterno Retorno, como a defenderam Heraclito, Tucídides ou Nietzsche. A concepção cristã da História participa da teleológica e da cíclica. O mundo, criado por Deus, o seu demiurgo, torna a Deus, no final dos tempos, cumprindo o seu único ciclo.
A concepção contemporânea sustém que a História é contingente, porque os acontecimentos são desconexos e arbitrários; e, se revelam alguma coerência e sentido é porque lhes são atribuídos pelo historiador. A História deixou de ser uma totalidade recognoscível e autónoma, para se converter em matéria bruta, à disposição da capacidade narradora e ficcionalizadora do historiador.
Vários são os historiadores que têm dedicado a sua investigação à análise da concepção contemporânea e as surpresas têm sido uma constante, não só para os críticos e investigadores, como para todos aqueles que se revelam leigos, no assunto. A título de
exemplo, invocamos o testemunho de um historiógrafo do que hodiernamente se designa como A Nova História:
«Há uma espécie de dialéctica do presente e do passado, que se nota tanto no leitor como no historiador mais sofisticado. Uma das características da História Nova é a de estar, ao mesmo tempo, e igualmente preocupada com o passado, mesmo o mais longínquo, e com o presente mais imediato.» (Ariés, in Le Goff et alii, 1986: 26-27)
Segundo Michel de Certeau, todos os dados chegados à actualidade constituem «restos de argumentos» (in Le Goff et alii, 1986: 35-36), porque toda a informação foi seleccionada e produzida segundo ópticas particulares. Linda Hutcheon (1995: 75) afirma que todos os eventos são potencialmente factos históricos, mas apenas se tornam factos os escolhidos pelos historiadores; temos acesso ao passado «Through its discourses, through its texts – that is, trough the traces of its historical events: the archival materials, the documents, the narratives of witnesses... and historians.» (ibidem: 36) 1.
Michel de Certeau alude, ainda, às «zonas silenciosas da história» e Le Goff referencia que qualquer documento transmite juízos de valor, pelo que nenhum documento é inocente. Mesmo um documento «falso» é um documento histórico, porque se converte no testemunho precioso da época em que foi forjado. Por exemplo, «foi brilhantemente demonstrado que a carta de Epicuro a Heródoto, conservada na Vida dos Filósofos Ilustres, de Diógenes Laércio, foi alterada por uma tradição secular, que a encheu de notas e correcções que, «voluntária ou involuntariamente, acabaram por a sufocar, deformando-a» (Le Goff, 2000a: 103-104). A História, na contemporaneidade, é encarada sob diversas perspectivas:
a) A pesquisa de acções realizadas pelo Homem, segundo Heródoto;
1 Ao longo do trabalho que efectuou, Croce percebeu a distância que existe entre a História e a Historiografia,
ou seja, entre os factos e a forma como nos são transmitidos – a «historia» e a «historia rerum gestarum». Já Spengler reformulara a concepção cíclica da história e, na esteira do que encontrámos na Antiguidade Clássica, ou na imagem cristã do tempo cíclico, defende a existência de duas fases na vida das sociedades: 1) a ascensão e a queda de uma Cultura; 2) a decadência e o desaparecimento da Civilização.
b) O objecto da pesquisa, ou seja, aquilo que os seres humanos realizaram – Paul Veyne declara que «a história tanto é uma sucessão de acontecimentos como o relato dessa sucessão.» 1
c) Narração: uma história é uma narração, verdadeira ou falsa, com base na realidade «histórica» ou imaginária, podendo ser uma narrativa histórica ou uma fábula. A língua Inglesa escapa a esta confusão, ao distinguir entre «history» e «story»; a língua portuguesa tenta fazer a mesma distinção, recorrendo, por vezes, aos vocábulos história e estória. Outras línguas europeias esforçam-se por evitar estas ambiguidades, como a italiana, em que as produções da história são, tendencialmente, denominadas «storiografia»; a língua alemã tenta estabelecer uma diferença entre a actividade «científica» – Geschichtschreibung (historiografia) e a ciência histórica propriamente dita – Geschichtswissenschaft (cf. Le Goff,
ibidem: 101).
Como muito bem notou Maria de Fátima Marinho, na sua obra O Romance Histórico
em Portugal, Pierre Barbéris procede a uma distinção entre os vários conceitos que o termo
«História» encerra:
«– HISTOIRE: la realité (?) historique;
– Histoire: le discours des historiens et, de manière générale, tout discours qui entend donner une image et une interprétation scientifique et signifiante, à la fois, de l’HISTOIRE;
– histoire: le récit, la fable, le mythe, tout ce qui, parlant du réel, constitue une autre manière d’écrire l’Histoire et une autre manière d’appréhender (?) l’HISTOIRE. On verra que, le plus souvent, l’Histoire ignore les histoires et le travail sur les histoires.» (1991: 9)
O investigador conclui, como verificamos, documentando que qualquer um dos vocábulos citados reafirma a incerteza, a invenção e a própria lei do real, que pode ser triste: «HISTOIRE, Histoire, histoire(s): manière de dire et d’inventer (comme invente un sourcier) l’une des lois, peut-être la loi du réel, qui, après tout, comme la vérité, est peut-être triste.» (ibidem, 1991: 13). Para outros historiadores, a História pertence ao domínio do inexacto, prenunciando, destarte, incertitudes:
1 Paul Veyne (1968). "Histoire", in Encyclopaedia Universalis. Vol. VIII. Encyclopaedia Universalis France: Paris.
«(…) a história é essencialmente equívoca, no sentido de que é virtualmente narrativa e virtualmente estrutural. A história é, verdadeiramente, o reino do inexacto. Esta descoberta não é inútil; justifica o historiador; justifica-o de todas as suas incertezas. O método não pode deixar de ser um método inexacto… A história quer ser objectiva e não pode sê-lo; quer fazer reviver e apenas pode reconstruir (…).» (Ricœur, 1961; apud Le Goff, 2000a: 23)1
Paul Ricœur (1985a: 255; nota de rodapé 8) assume uma posição mais moderada, ao afiançar que a História permanece sendo História, na medida em que todos os seus objectos reenviam para entidades de primeira ordem – povos, nações, civilizações – que levam a marca indelével da pertença participativa de agentes concretos nas esferas prática e narrativa. Estas entidades de primeira ordem servem de objecto de transição entre todos os artefactos produzidos pela historiografia e as personagens de um relato possível. O antropólogo Marc Augé considera que a preocupação dos etnólogos os aproxima e afasta, simultaneamente, dos historiadores da micro-história. Na sua óptica, os historiadores da micro-história deparam-se com uma preocupação de etnólogo, quando se vêem obrigados a interrogar-se, também eles, sobre a representatividade dos casos que analisam:
«(…) a vida de um moleiro do Frioul, no século XV, por exemplo –, mas enquanto estes, para garantir essa representatividade, têm que recorrer às noções de «vestígios», de «índicios» ou de excepcionalidade exemplar, o etnólogo de campo, se for conscencioso, dispõe sempre dos meios de ir ver um pouco mais longe se o que observou à partida se mantém válido. É a vantagem de trabalhar sobre o presente – modesta compensação face à vantagem essencial que os historiadores detêm sempre: conhecem o seguimento.» (Augé, 1998: 21-22)