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Summary of high level policy documents examined

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4   ToR  a  Sense  and  sensibility:  Bringing  consistency  to  the  use  of

4.5   Summary of high level policy documents examined

A entrada do estudante pobre no ensino superior produz uma serie de necessidades e novas demandas econômicas que se apresentam as famílias, muitas vezes, de forma inesperada. Para Célia, Ana e Zack ingressar no curso superior não fazia parte de seus projetos, tendo acontecido após o incentivo e impulso de outras pessoas. As demandas podem ser

enumeradas como transporte escolar, moradia, alimentação, vestimentas, material escolar etc. Além daquelas que não estão ligadas estritamente a necessidades financeiras, mas também a emocionais, como sofrimento, solidão, baixa autoestima.

A partir dos relatos biográficos, podemos perceber que embora a condição econômica não seja determinante de práticas no interior do espaço universitário, não é possível ignorar que ela é um componente real, atuante e mobilizador de grande esforço dos estudantes. Fato não observado em trajetórias escolares de filhos de classe média e elites. Brandão (2003) em estudos sobre a escolarização de filhos de pais de classe média e alta constatou que umas das maiores preocupações era ter sucesso nas inúmeras atividades extra- escolares como esportes, cursos de línguas, artes etc., nas quais eram inseridos. Tais atividades, sem dúvida, expressam um poderoso instrumento de conhecimento, reconhecimento e distinção.

Quando as necessidades econômicas se tornam insustentáveis, os estudantes se veem obrigadas a lançar mão de todas as possibilidades possíveis para dar respostas à situação. Recorrer a procura de trabalho é a mais comum, no entanto esse empreendimento na maioria das vezes não é satisfatório, tendo em vista as pouquíssimas ofertas de vagas de emprego e principalmente a dificuldade que eles encontram em conciliar com o turno de estudo. Podemos citar também as precárias condições na quais essas vagas de trabalho são ofertadas, sem vínculos empregatícios, com remunerações que chegam a no máximo a meio salário mínimo para uma jornada de oitos horas de trabalho. Os estudantes Jorge e Vitória174 trabalhavam como auxiliares de cozinha num restaurante famoso da cidade no período de 19 horas às 2 horas da manhã e ganhavam o valor de R$ 450,00 por mês sem nenhuma garantia trabalhista. Célia fazia doces para vender na universidade. Júnior trabalhava na agricultura como forma de garantir a produção de alimentos para a subsistência da família. Dora procurava incansavelmente um emprego, mas como não encontrou passou a vender alguns artigos para casa, como panos de pratos e utensílios de cozinha. Natalícia trabalhava na casa onde residia como forma de garantir um lugar para morar. Ana desenvolvia trabalhos junto ao MST. O que se percebe é que todos os trabalhos são marcados pela precarização nas relações trabalhistas e não guardam, com exceção do desenvolvido por Ana, nenhuma relação com o curso o qual os estudantes estão matriculados.

174 Realizamos uma entrevista com esses estudantes, mas não fizemos o retrato sociológico porque não os encontramos para uma segunda entrevista.

Outra resposta importante dos estudantes para as questões econômicas tem sido a busca por bolsas, auxílios, projetos de pesquisa, monitoria, estágios ou qualquer outro programa acadêmico remunerado. No entanto, a inserção nesses programas está ligada a uma série de condições, a começar pelo pequeno número na oferta de vagas para a grande procura dos estudantes. Outro fator limitador muito comum para vagas em projetos de pesquisa, monitoria e bolsas de iniciação acadêmica é o rendimento escolar. Em virtude das limitações vivenciadas no percurso escolar, seja de compreensão e incorporação das normas institucionais, seja de ausência de capitais (cultural, social, econômico) ou por outros fatores, muitos estudantes pobres não constroem esse percurso sem reprovações. Assim, com frequência a oferta de vagas para esses programas dentro das condicionalidades existentes funcionam como um reforçador da condenação do fracasso escolar. Os casos citados nos retratos de Célia e Dora são emblemáticos dessa situação.

Em relação aos auxílios voltados para estudantes em situação de vulnerabilidade econômica, a rigorosa seleção motivada pela grande procura e pelos parcos recursos, tem deixado muitos estudantes sem condições de acessá-lo. As listas de espera têm sido cada vez maiores. No caso do IFCE, uma das saídas encontradas foi reduzir os valores dos auxílios para atender o maior número de estudantes175, no entanto essa estratégia se afasta cada vez mais do papel atribuído a assistência estudantil para garantir o direito a educação desses estudantes. O que se tem observado são casos como o de Dora que mesmo recebendo dois tipos de auxilio (transporte e alimentação) não é suficiente para que desenvolva um percurso escolar tranquilo economicamente. Walan que na época da entrevista esperava ansioso pelo resultado do PBIA, voltado para estudantes em situação de vulnerabilidade e com recursos do PNAES, conseguiu o beneficio, sendo o valor bem superior ao ofertado pelo IFCE, R$ 480,00, o qual custeará os gastos com o aluguel da nova moradia e alimentação.

Para Portes (1993) a condição econômica produz, ainda, o que ele nomeia de “questões paralelas à universidade”. São os problemas familiares, as condições de moradia, transporte, a necessidades de roupas, calçados e lazer.

As questões paralelas englobam tudo aquilo que não se refere estritamente ao acadêmico, mas que o influenciam e limitam as possibilidades de uma produção desejada que, em certos casos, está longe do ideal. As questões paralelas funcionam ainda como um termômetro eficiente para se detectar a qualidade das manifestações subjetivas produzidas pelos jovens pesquisados no decorrer dos semestres

175 Essa decisão foi tomada durante uma assembleia com os estudantes do Campus Crateús sobre o orçamento participativo realizada em agosto de 2017.

investigados. É que na maioria dos casos elas são produtoras de uma angústia incontrolável pelos jovens (PORTES, 1993, p. 173).

O que se faz importante é reconhecer que as necessidades econômicas retiram desses estudantes as possibilidades e condições necessárias para dar respostas satisfatórias aos estudos. E muitas vezes precisam de um olhar diferenciado dos professores na compreensão de tais necessidades e no prejuízo que elas acarretam. Nesse sentido, a máxima de que devemos tratar todos iguais implementada por alguns docentes no cotidiano da sala de aula reproduz inúmeras desigualdades educacionais na medida em que não compreende que os sujeitos são diversos e chegam à escola com histórias e trajetórias escolares diferenciadas, mas também desiguais.

Todavia, ainda persiste a compreensão de que as desigualdades educacionais tem sua origem exclusiva nas desigualdades sociais e de oportunidades. Os docentes e a universidade como um todo ainda estão distantes de entender a parte que lhes cabe na produção e reprodução dessas desigualdades. Eles persistem em não percebê-las no interior de suas práticas, nos modos como selecionam um e não outro estudante, nos resultados (não) dialogados de suas avaliações finais, ou nas aulas voltadas para aqueles que já possuem uma bagagem teórica sobre o assunto.

Além disso, as necessidades econômicas acarretam também nesses estudantes uma obrigação de desenvolver um sistema de contenção, a não pensar na existência de coisas simples, mas que dão prazer como sair com os colegas, comprar um livro, ir às festas. Durante a pesquisa ouvi um boato de que um dos interlocutores da pesquisa estava merendando, almoçando e jantando, cuscuz176 como forma de economizar recursos e comprar computador. Fui procurá-lo para saber se era verdade e ele disse: “fiz isso quase um mês e consegui comprar um computador de um amigo, já era usado, mas quinze dias depois deu problema, acho que já veio com defeito, agora não sei se aguento voltar para o cuscuz, estou pensando aqui no que fazer”.

Essa condição econômica adversa transforma a experiência de está cursando um curso superior, que deveria ser motivo de alegria, em vivências marcadas por privações, sofrimentos e incertezas. O cansaço em lançar mão de diversas estratégias para conseguir permanecer na universidade e não perceber mudanças nessa condição ao longo dos semestres foi notável em todos os entrevistados.

176 É um alimento a base de trigo. Após colocar na agua seu rendimento aumenta e consequentemente um pacote pode chegar a servir mais de dez refeições, custando cerca de R$ 2,00.

Por fim, foi marcante nas narrativas a impossibilidade de dar encaminhamento satisfatório às questões que demandam recursos econômicos, acenando comumente a esses jovens a perspectiva de não concluírem o curso superior escolhido. Cada semestre que conseguem concluir com êxito parece funcionar como uma salvação, fruto do sacrifício empreendido, ou por uma grande surpresa.

É importante ressaltar que para esses estudantes o interesse em investir no jogo escolar se deu pelo desejo de mobilidade social via escolarização e de reconhecimento e prestígio social. Com exceção de Natalícia que parece não acreditar que um curso superior pode lhe proporcionar uma ascensão social, os demais aguardam esperançosos.

4.8.2 A contribuição das famílias nas trajetórias escolares de estudantes de camadas

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