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3. Literature Research

3.6 Summary

A grounded theory, traduzida por teoria fundamentada nos dados, é tratada tanto como um método de pesquisa, como uma metodologia em si mesma, um estilo ou abordagem ou, ainda, como uma estratégia de pesquisa (BANDEIRA-DE-MELLO; CUNHA, 2006). Atualmente, essa estratégia de pesquisa é uma abordagem fundamental à análise qualitativa de dados utilizada dentro da ciência social e de outras disciplinas (HENWOOD; PIDGEON, 2010). Apesar da grounded theory ter sido utilizada inicialmente por sociólogos, ela tem se espalhado para outras disciplinas, como Educação, Enfermagem e, atualmente, estudos em Administração têm aplicado a grounded theory de forma vasta (GOULDING, 2009).

A metodologia da pesquisa e da análise que veio a ser designada como grounded

theory codifica, explicitamente, os modos pelos quais explicações teóricas podem ser geradas

mediante uma detalhada inspeção e análise dos dados qualitativos, de forma a assumir uma clara relevância para os problemas e os fenômenos do mundo real (HENWOOD; PIDGEON, 2010). Portanto, diz-se que a ênfase por trás desta metodologia é a geração de uma “nova” teoria fundamentada nos dados, sistematicamente coletados e analisados, em que a teoria evolui durante o processo de pesquisa e se torna produto da relação entre análise e coleta de dados (GOULDING, 2009).

Os métodos da grounded theory surgiram durante os estudos sobre o processo de morte em hospitais, realizados pelos sociólogos Barney G. Glaser e Anselm L. Strauss (CHARMAZ, 2009). À medida que Glaser e Strauss construíam as suas análises do processo de morte, eles desenvolveram estratégias metodológicas sistemáticas que poderiam ser adotadas por cientistas sociais para o estudo de outros temas (STRAUSS; CORBIN, 2008). Segundo Locke (2001), o título da obra de Glaser e Strauss, (“The Discovery of Grounded

Theory”) com ênfase na “descoberta”, tem relação com a ideia de alcançar um determinado

tipo de produto conceitual – e a teoria fundamentada reflete isso. Então, a grounded theory se

configurou como uma teoria que emerge dos dados com base em quão bem os dados se encaixam em categorias conceituais identificadas por um observador, por quão bem as categorias explicam ou preveem interpretações e pela forma como as categorias são relevantes para a observação de questões centrais (SUDDABY, 2006).

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A teoria fundamentada teria sido desenvolvida por esses estudiosos como uma reação contra o extremo positivismo que havia permeado a maioria das pesquisas sociais, ao rejeitarem as noções positivistas de falsificação e testes de hipóteses (SUDDABY, 2006), e buscava incentivar os pesquisadores a utilizarem a imaginação e a criatividade para

desenvolverem teorias relativas às suas áreas de investigação (LOCKE, 2001). Seu objetivo era

gerar explicações, com a mínima intervenção do pesquisador, a respeito da ação dos indivíduos em um determinado contexto, a partir da realidade deles: por que e como determinado grupo age ou interage com outros grupos em contextos delimitados (BANDEIRA-DE-MELLO; CUNHA, 2006). A utilização da grounded theory em diversas disciplinas provocou adaptações ao método de maneira que nem sempre os princípios originais são seguidos. Não obstante, independentemente da disciplina, continuam a existir um conjunto de processos fundamentais que devem ser seguidos se o estudo quiser ser reconhecido como produto desta metodologia (GOULDING, 2009).

Segundo Suddaby (2006), o método descrito por Glaser e Strauss é construído sob dois conceitos-chave: a comparação constante e a amostragem teórica. A comparação constante significa que os dados são coletados e analisados simultaneamente e a amostragem teórica significa que a decisão sobre os próximos dados a serem coletados é determinada pela teoria que está sendo construída (SUDDABY, 2006). Ambos os conceitos violam as premissas positivistas sobre a forma como o processo de pesquisa deve funcionar, uma vez que a comparação constante contradiz o mito da separação clara entre a coleta de dados e a análise, enquanto que a amostragem teórica viola o ideal de testes de hipóteses em que a direção da nova coleção de dados é determinada, não por hipóteses estabelecidas a priori, mas pela interpretação em curso dos dados e das categorias conceituais emergentes (SUDDABY, 2006).

Segundo Charmaz (2009), além da comparação constante e da amostragem teórica, outros componentes determinam a prática da teoria fundamentada:

x A construção de códigos e categorias analíticas a partir dos dados.

x O avanço no desenvolvimento da teoria em cada passo da coleta e da análise dos dados.

x A redação de memorandos para elaborar categorias, determinar suas propriedades, relações entre as categorias e identificar lacunas.

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x A realização da revisão bibliográfica após o desenvolvimento da análise. Embora os procedimentos ajudem a garantir padronização e rigor para o processo, eles não foram criados para serem seguidos de forma dogmática, mas sim, para serem usados de maneira criativa e flexível, conforme os pesquisadores julgarem apropriado (STRAUSS; CORBIN, 2008).

Apesar destes componentes, existem diferentes perspectivas teóricas da teoria fundamentada que, embora não influenciem na prática do método, levam a entendimentos diferentes de sua concepção. Locke (2001) apresenta uma perspectiva histórica sobre a prática de métodos qualitativos e os paradigmas de pesquisa qualitativa em estudos de Administração: modernista, interpretativista e pós-moderno. Segundo a autora, as linhas de paradigma nem sempre são claramente delineadas e, quando isso ocorre, os paradigmas são determinados pelo compromisso dos pesquisadores e não necessariamente pelas práticas operacionais de uma abordagem de pesquisa.

De acordo com Locke (2001), a pesquisa na tradição modernista compartilha com investigadores quantitativos uma preocupação a respeito da natureza da relação entre os fatos descobertos e o mundo observável. Por esta razão, os pesquisadores fazem uso de observações detalhadas no trabalho de campo, criam categorias conceituais com base na frequência das observações de campo e, por fim, realizam teste quantitativo de proposições (LOCKE, 2001).

Sobre os investigadores interpretativistas, Locke (2001) aponta que eles visam compreender o mundo da experiência vivida do ponto de vista de quem a vive, por meio de um processo prolongado de interação que envolve história, linguagem e ação. Neste sentido, a realidade social não é um dado adquirido, mas uma realidade construída ao longo do tempo a partir de experiências compartilhadas; os pesquisadores devem se envolver e participar para interpretarem os eventos vividos pelos atores (LOCKE, 2001). De acordo com Locke (2001), a tradição pós-modernista sugere que o que é dado como “realidade” é construído pelos sistemas discursivos e o que é “real” é aquilo que é representado como tal.

Locke (2001) também estabelece a associação da teoria fundamentada com o pensamento da escola interacionista simbólica, que significa que o pesquisador deve observar e entender o comportamento dos participantes a partir do ponto de vista deles, além de aprender

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sobre o universo dos participantes e sobre a sua interpretação de si no contexto de determinadas interações e aprender sobre as propriedades dinâmicas da interação. Charmaz (2009) é uma das estudiosas que baseia as discussões em relação ao método da teoria fundamentada sob uma perspectiva teórica interacionista simbólica, constituindo a teoria fundamentada construtivista. De acordo com a autora, esta abordagem leva à compreensão de que nem os dados nem as teorias são descobertos. Eles são construídos por meio do envolvimento do pesquisador e de interações com as pessoas, sendo os pesquisadores parte do mundo que estudam e dos dados que coletam e, por esta razão, a teoria substantiva gerada será sempre “uma” teoria, dentre várias possíveis, gerada por “um” determinado pesquisador (CHARMAZ, 2009).

Para Charmaz (2009), nenhum pesquisador é neutro, ele não é inerte, seu papel é central, ele interage com a realidade dos sujeitos, pois a linguagem durante a codificação atribui forma e significado às realidades observadas. De acordo com a autora, os códigos refletem a visão do pesquisador e são construídos por ele a partir das palavras que ele escolhe. Assim, o pesquisador define aquilo que é significativo nos dados, segundo o que ele observa, e descreve o que ele pensa que está ocorrendo. Charmaz (2009) ainda enfatiza que qualquer versão teórica produzida oferece um retrato interpretativo do fenômeno estudado e não um quadro fiel dele. Os construtivistas estudam como e, às vezes, por que, os participantes constroem significados e ações em situações específicas. Portanto, as teorias fundamentadas concluídas dos pesquisadores são construções da realidade e qualquer análise está contextualmente situada no tempo, no espaço, na cultura e na situação (CHARMAZ, 2009).

Já os trabalhos clássicos da teoria fundamentada desenvolvidos Glaser e Strauss tratam a descoberta da teoria como algo que surge dos dados, isolado do observador científico (STRAUSS; CORBIN, 2008). A teoria fundamentada objetivista se situa na tradição positivista e, portanto, considera os dados como verdadeiros em si mesmos, sem considerar os processos de produção desses dados (CHARMAZ, 2009). Sendo assim, um pesquisador adepto à teoria fundamentada objetivista pressupõe que os dados representam fatos objetivos sobre um mundo conhecível. Sob esta ótica, os dados já existem no mundo: o pesquisador somente os encontra e “descobre” a teoria a partir deles (CHARMAZ, 2009).

Charmaz (2009) aponta que a teoria fundamentada objetivista exige rigor maior na adesão às etapas da teoria fundamentada que os construtivistas, pois seus proponentes visam a revelar as complexidades das esferas de vida, das visões e das ações específicas. A despeito das

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fronteiras sólidas entre a investigação positivista e a interpretativa, na prática, estas fronteiras podem não ser tão claras. Pressupor que um estudo específico seja construtivista ou objetivista depende da extensão em que as suas características-chave estão de acordo com uma ou outra tradição (CHARMAZ, 2009).

Com relação a esta pesquisa, adotou-se a perspectiva teórica interacionista simbólica, sugerida por Charmaz (2009), pela crença de que a teoria é uma construção da realidade e que ela é resultante da interpretação do pesquisador. Neste sentido, o resultado deste trabalho é uma teoria fundamentada construtivista.

Independentemente da perspectiva adotada, de acordo com Suddaby (2006), a teoria fundamentada é um método mais apropriado para algumas questões do que para outras. Ela se mostra mais adequada para os esforços que visam compreender o processo pelo qual os atores constroem significado a partir de experiência intersubjetiva. Entre os tipos de projetos e de questões abordados pelos pesquisadores da teoria fundamentada estão os seguintes (HENWOOD; PIDGEON, 2010):

x Os padrões e os processos significativos de ação, de interação e de identidade no interior dos vários ambientes, organizações e outros tipos de “mundos sociais” que são diferentes no tempo, no espaço e culturalmente delimitados. x A análise interpretativa dos significados subjetivos das pessoas, incluindo

concepções, perspectivas ou pontos de vista dos participantes.

x A complexidade, a fluidez e a multiplicidade de significados e de relatos, na medida em que estão relacionados a contextos e ambientes sociais, visando examinar o caráter microssocial, simbólico, textual ou discursivamente organizado dos papéis, das identidades, das culturas e das relações de poder.

A coleta de dados

Na grounded theory, a teoria deve emergir dos dados (STRAUSS; CORBIN, 2008), que podem ser coletados a partir de diversas fontes, como entrevistas, observação e documentos (BANDEIRA-DE-MELLO; CUNHA, 2006). Os dados devem ser reunidos em alguma forma de registro permanente, que permita o acesso imediato durante a análise, como, por exemplo, com estudos de entrevistas, as gravações podem ser consideradas registros e podem ser

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transcritas literalmente (HENWOOD; PIDGEON, 2010). De acordo com Charmaz (2009), a qualidade e a credibilidade do estudo começam pelos dados e sua profundidade e alcance fazem a diferença. Além da sua utilidade para o desenvolvimento de categorias centrais, dois outros critérios para os dados são a sua adequação e a sua suficiência para a representação dos eventos empíricos (CHARMAZ, 2009).

Nessa metodologia, coleta e análise de dados ocorrem em sequências alternadas. Segundo Strauss e Corbin (2008), a análise começa com a primeira entrevista ou observação, que conduz à próxima entrevista ou observação, seguida por mais análise, mais entrevistas ou trabalho de campo – e assim por diante. Portanto, é a análise que conduz a coleta de dados. O pesquisador modela e remodela a coleta de dados e, portanto, refina os dados coletados (CHARMAZ, 2009). Alternar coleta e análise de dados permite a validação de conceitos à medida que são desenvolvidos, além de possibilitar que significados que geralmente são ilusórios se tornem mais claros (STRAUSS; CORBIN, 2008). Assim, o pesquisador interpreta os dados, interage com a realidade dos sujeitos e propõe uma explicação a respeito de um comportamento coletivo (BANDEIRA-DE-MELLO; CUNHA, 2006).

Segundo Charmaz (2009), quando se trata de métodos de coleta de dados para a teoria fundamentada, um que se mostra bastante vantajoso para a investigação interpretativa é a entrevista, pois permite um exame detalhado de determinado tópico ou experiência. Ela apresenta, inicialmente, perguntas amplas e abertas e, posteriormente, é possível enfocar as questões da entrevista para provocar a discussão detalhada do tópico. Charmaz (2009) aponta que a entrevista é uma técnica previsível, emergente, em que as ideias e os tópicos surgem durante a entrevista e os entrevistadores podem imediatamente seguir essas orientações. As questões devem ser suficientemente gerais para alcançar uma variedade de experiências e restritas o suficiente para extrair e elaborar a experiência específica do participante (CHARMAZ, 2009).

Strauss e Corbin (2008) afirmam que o método exige criatividade, objetividade e sensibilidade do pesquisador. A criatividade se manifesta em sua capacidade de nomear categorias, fazer perguntas estimulantes, fazer comparações e extrair um esquema inovador, integrado e realista. A objetividade é importante para se chegar a uma interpretação imparcial e aprimorada dos fatos e propicia ouvir e “dar voz” aos informantes. A sensibilidade é fundamental para perceber os significados dos dados e para reconhecer as conexões entre

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conceitos. Isso significa conseguir ver além do óbvio para encontrar o novo (STRAUSS; CORBIN, 2008). Os autores sugerem algumas técnicas que ajudam a controlar os desvios de análise e colaboram para a objetividade do pesquisador:

x Pensar nos dados comparativamente.

x Obter pontos de vista múltiplos sobre um fato, ou seja, determinar como os vários atores em uma situação a veem.

x Reunir dados sobre o mesmo fenômeno de diferente maneiras, como entrevistas, observações e relatórios escritos.

x Entrevistar e/ou observar representantes variados de pessoas, locais, fatos e épocas.

x Verificar, junto aos informantes, as suposições e hipóteses em relação aos dados recebidos.

x Manter atitude de ceticismo, uma vez que todas as explicações teóricas, as categorias, as hipóteses e as questões sobre os dados devem ser consideradas como provisórias e devem ser comparadas com os dados subsequentes.

No entanto, conforme Charmaz (2009) apresenta, o foco da entrevista e as questões específicas realizadas podem se diferenciar à medida que o pesquisador se posiciona a respeito da abordagem utilizada, seja ela mais construtivista ou mais objetivista. Segundo a autora, uma abordagem construtivista enfatiza a obtenção das definições dos participantes quanto aos termos, às situações e aos eventos, a fim de explorar suas suposições e os seus significados implícitos. Uma abordagem objetivista tende, por outro lado, a obter informações sobre a cronologia, os eventos, os ambientes e os comportamentos (CHARMAZ, 2009).

Análise dos dados

De acordo com Charmaz (2009), a análise de dados na teoria fundamentada inicia- se a partir de sua codificação; ela é o elo fundamental entre a coleta de dados e o desenvolvimento de uma teoria emergente para explicar esses dados. Por meio da codificação, o pesquisador define o que ocorre nos dados e começa a debater-se com o que isso significa (CHARMAZ, 2009).

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A indissociabilidade entre as fases de coleta e de análise dos dados também ocorre nas atividades de codificação, que se configura como o resultado de fazer questionamentos e dar respostas provisórias sobre categorias e suas relações, que são verificadas e aperfeiçoadas ao longo das fases do processo de codificação (BANDEIRA-DE-MELLO; CUNHA, 2006). Segundo Henwood e Pidgeon (2010), os processos centrais de geração da teoria fundamentada apresentam qualidades tanto lineares quanto iterativas. Linear quando o analista trabalha a partir de um objeto de estudo ou de questões de pesquisa iniciais visando a uma elaboração de categorias e conceitos analíticos mais sistemáticos. Iterativa quando o fluxo de trabalho também é flexível, refletindo o constante “vai e vem” entre os dados e a conceitualização (HENWOOD; PIDGEON, 2010). Neste sentido, a análise não deve ser um processo estruturado, estático ou rígido (STRAUSS; CORBIN, 2008). Ao contrário, é um processo no qual os pesquisadores se movimentam entre os tipos de codificação, utilizando técnicas e procedimentos analíticos livremente (STRAUSS; CORBIN, 2008). Geralmente, a análise dos dados leva a uma nova etapa de coleta de dados, a fim de avaliar as ideias emergentes ou estender a riqueza e o escopo da amostra e da teoria (HENWOOD; PIDGEON, 2010) Além disso, para os propósitos da análise, é importante reconhecer que o objetivo não é registrar todos os casos de um conceito particular, mas registrar casos diferentes que lançam luz sobre variações significativas desse conceito, na busca de similaridades e diversidades por meio de comparações constantes (HENWOOD; PIDGEON, 2010).

Para Charmaz (2009), a codificação na teoria fundamentada compõe-se de, pelo menos, duas fases: a codificação inicial e a codificação focalizada. Durante a codificação inicial, são estudados, rigorosamente, os fragmentos dos dados, devido à sua importância analítica. Os pesquisadores que utilizam a teoria fundamentada geralmente referem-se aos códigos dos termos específicos usados pelos participantes como códigos in vivo. Eles ajudam os pesquisadores a conservar os significados dos participantes, relativos às suas opiniões e atitudes, na própria codificação (CHARMAZ, 2009). Durante a codificação focalizada, é selecionado o material que aparente representar os códigos iniciais mais vantajosos e eles são testados em contraste com os dados mais amplos. Esses códigos são mais direcionados, seletivos e conceituais. Esta codificação exige a tomada de decisão sobre quais os códigos iniciais permitem uma compreensão analítica melhor para categorizar os dados de forma incisiva e completa (CHARMAZ, 2009).

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Strauss e Corbin (2008) se referem à codificação inicial como uma microanálise, que inclui codificação aberta e axial. Para esses autores, ela envolve muito exame e interpretação de dados, cuidadosos e geralmente precisos. A microanálise inclui os seguintes elementos: os dados, as interpretações dos observadores e atores desses fatos e a interação que acontece entre os dados e o pesquisador ao coletar e ao analisar os dados. Interação significa que um analista está reagindo ativamente aos dados e trabalhando com eles (STRAUSS; CORBIN, 2008).

Segundo Strauss e Corbin (2008), durante a codificação aberta, os dados são separados em partes distintas, examinados e comparados de forma rigorosa em busca de similaridades e diferenças. Eventos, acontecimentos, objetos e ações/interações considerados conceitualmente parecidos em natureza ou relacionados em significado são agrupados sob conceitos mais abstratos, denominados “categorias” (STRAUSS; CORBIN, 2008). O objetivo desta etapa de codificação é gerar e validar propriedades e categorias por meio das comparações constantes (BANDEIRA-DE-MELLO; CUNHA, 2006).

Na definição de Strauss e Corbin (2008), por categorias entendem-se os conceitos, derivados dos dados, que representam os fenômenos. Após a categoria ser identificada, o pesquisador pode começar a desenvolvê-la em termos de propriedades e dimensões específicas, as quais permitem aos pesquisadores diferenciar itens entre e dentro das classes, mostrando, assim, uma variação em um determinado âmbito (STRAUSS; CORBIN, 2008). Propriedades são características ou atributos, gerais ou específicos, de uma categoria e dimensões representam a localização de uma propriedade ao longo de uma linha (STRAUSS; CORBIN, 2008).

Além das categorias, existem as subcategorias, as quais especificam melhor uma categoria ao denotar informações do tipo quando, onde, por que e como um fenômeno tende a ocorrer. Responder essas questões possibilita contextualizar um fenômeno, ou seja, posicioná- lo dentro de uma estrutura condicional e identificar “como” ou os meios pelos quais uma categoria se manifesta (STRAUSS; CORBIN, 2008). Além disso, essas especificações tornam possível relacionar estrutura com processo. A estrutura cria as circunstâncias nas quais fatos pertencentes a um fenômeno são situados ou surgem. Processo, por outro lado, demonstra a ação/interação de pessoas e organizações em resposta a certos problemas e questões (STRAUSS; CORBIN, 2008). A estrutura descobre por que, mas não como certos fatos

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ocorrem. O processo entende como pessoas agem/interagem, mas não o porquê. Portanto, é necessário estudar estrutura e processo para capturar a dinâmica e a natureza evolutiva dos fatos (STRAUSS; CORBIN, 2008).

Segundo Strauss e Corbin (2008), ao longo da codificação axial é realizado o reagrupamento dos dados que foram divididos durante a codificação aberta. Nesta etapa, as categorias são relacionadas às suas subcategorias, ao longo das linhas de suas propriedades e dimensões, para gerar explicações mais precisas sobre os fenômenos (STRAUSS; CORBIN, 2008). As categorias podem ser condições causais, condições intervenientes, estratégias de ação/interação ou consequências (BANDEIRA-DE-MELLO; CUNHA, 2006). Charmaz (2009) entende que a codificação axial é um terceiro tipo de codificação, que resolve questões como

quando, onde, por que, quem, como e com que consequências.

A codificação axial exige que o pesquisador tenha algumas categorias, mas sempre começa a surgir durante a codificação aberta um sentido de como as categorias se relacionam