3. Literature Research
3.1 PI-based MMMs
Diversos fatores levam as mulheres à maior vulnerabilidade durante o processo de envelhecimento. Primeiramente, elas apresentam maiores taxas de dependência e declínio da capacidade funcional, o que as leva à maior fragilidade e perda da autonomia e acaba impedindo-as de realizarem suas atividades cotidianas (PAZ et al., 2006). Além disso, as mulheres predominam em instituições de longa permanência, passam por maior debilidade física antes da morte e são mais dependentes de cuidado, embora exerçam o papel de cuidadoras (CAMARANO, 2006).
Barros (2006) afirma que, em comparação com a velhice dos homens, a velhice das mulheres parece ser considerada insignificante socialmente. Primeiro, pois ao homem é concedida maior atenção, na medida em que se percebe a aposentadoria como uma mudança radical de vida – uma passagem de um mundo público para um mundo doméstico. Na mulher, a velhice não traz essa carga de mudança abrupta. A mulher na velhice está no último estágio de um continuum ligado à esfera doméstica, porque é a este mundo interno do lar, da família e da casa que a mulher está ideologicamente vinculada. Nesse quadro, no qual ela é um elemento da hierarquia familiar, não há status enquanto indivíduo (BARROS, 2006).
Salgado (2002) ainda aponta que, nesta etapa da vida da mulher, as amizades mudam ou desaparecem, seja por morte ou mudança. Outra alteração que a autora aponta é a dependência ou morte dos pais. Segundo ela, exatamente quando acabaram de criar os filhos, surge a necessidade de cuidarem dos pais – que se tornam dependentes por condições físicas ou mentais, com elevada possibilidade de necessitarem de cuidados por grande espaço de tempo, comprometendo o que restou do tempo que poderia ser dedicado a outras tarefas (SALGADO, 2002).
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Outro fator que torna a mulher mais vulnerável durante o envelhecimento é a maior probabilidade de ocorrência de problemas relacionados à adaptação às mudanças fisiológicas decorrentes da idade, o que pode se transformar em conflitos com a identidade (LIMA; BUENO, 2009). Segundo Mori e Coelho (2004), as condições físico-psíquicas da menopausa tornam-nas mais fragilizadas pelo envelhecimento do corpo, fazendo com que a questão da finitude se apresente com mais constância entre as mulheres. Além da menopausa, é necessário considerar fatores socioculturais, tais como: a descrição de alguns sintomas e como estes afetam a força de trabalho; a questão das atividades e das emoções; a questão da vivência de diferentes papéis como mãe, esposa, mulher e trabalhadora (MORI; COELHO, 2004).
Lima e Bueno (2009) enfatizam que, em relação à sexualidade, por exemplo, é preciso levar em conta que existe diminuição natural da libido, que, muitas vezes, é agravada não apenas pelo envelhecimento, mas também em função do mau relacionamento com o parceiro, com a dificuldade que ambos têm em aceitar as mudanças ocorridas nesta fase. A fase da vida que as mulheres têm para descansar, viver intensamente e com qualidade é transformada em medo, angústia, isolamento social e sofrimento para uma boa parcela das mulheres (LIMA; BUENO, 2009).
Mori e Coelho (2004) também trazem suas contribuições com relação ao tópico da sexualidade das mulheres que envelhecem. Segundo as autoras, as mulheres se tornam mais vulneráveis durante o processo de envelhecimento, devido à valorização da juventude na sociedade atual. Elas acabam por conceituarem sua própria imagem diante do espelho como algo negativo, se depreciam mesmo antes da velhice se instalar. Esta visão as denuncia sob o ponto de vista estético, correlacionando a funcionalidade do corpo e o significado social que cada cultura tem sobre essa fase da vida (MORI; COELHO, 2004).
Segundo Goldenberg (2012), em uma cultura como a brasileira, na qual o corpo é um importante capital, o envelhecimento pode ser vivenciado como um momento de grandes perdas de capital. A autora aponta que o modelo de corpo-capital é um corpo jovem, magro, em boa forma, sexy, que distingue como superior aquele que possui, um corpo conquistado por meio de muito investimento financeiro, trabalho e sacrifício. Sendo assim, para estas mulheres, o corpo é percebido como um veículo fundamental para a ascensão social e, também, como uma forma importante de capital no mercado de trabalho (GOLDENBERG, 2012). O corpo e o uso de artifícios para arrumá-lo fazem parte de uma forma de expressão durante o
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envelhecimento ou, ainda, um encobrimento do possível estigma que o acompanha (BARROS, 2006).
Assim como o corpo, o marido também pode ser considerado um capital, denominado capital marital. Em um contexto em que homens disponíveis são raros e escassos, principalmente na faixa etária estudada, a perda deste capital também é enfrentado pelas mulheres (GOLDENBERG, 2011).
A outra razão pela qual as mulheres mais velhas se mostram mais vulneráveis durante o envelhecimento está no fato de sofrerem discriminação e estarem mais sujeitas ao abuso (FUNDO DE POPULAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2012). Esta discriminação é composta pelo sexismo e pela dupla mensagem que considera velha a mulher mesmo que com idade inferior à do homem, sendo que os homens em idade avançada são considerados durões, rudes e viris, além de serem atraentes, mesmo com calvíce ou com cabelos brancos – o que, nas mulheres, é um sinal de decadência (SALGADO, 2002). Neste sentido, é possível admirar os homens mais velhos, pois eles não representam presas; não se exige deles nem viço, nem doçura, nem graça, apenas força e inteligência (BEAUVOIR, 1970b).
Apesar dos fatores que tornam a mulher mais velha vulnerável, este período pode ser tão ou mais agradável do que qualquer outro. Segundo Salgado (2002), apesar da solidão, a mulher mantém a habilidade em estabelecer amizades, configurando uma maneira de dar sentido de identidade positivo e de desenvolver novos papéis. Se antes o envelhecimento levava a mulher a desempenhar fortemente o papel de avó, hoje o envelhecimento tem sido, para algumas, tempo de realização de sonhos e desejos postergados (MORI; COELHO, 2004). Muitas mulheres decidem utilizar seu tempo e suas habilidades de novas formas, quando não se sentem mais na obrigação de criarem os filhos (SALGADO, 2002).
As mudanças sociais estão influenciando os modos de envelhecer da mulher, uma vez que este processo é determinado não só por cronologia e fatores físicos, mas também pela condição social e pela singularidade de cada uma (MORI; COELHO, 2004). Segundo Salgado (2002), o aumento da longevidade permite que a mulher mude de trabalho ou de profissão e realize um novo casamento. A autora também afirma que, quando os filhos saem de casa, as mulheres são mais hábeis em combinar as tarefas familiares com o trabalho, a recreação e a participação em atividades comunitárias. Ainda assim, é fundamental encontrar e promover
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novas formas de valorização do processo de envelhecimento e fazer com que este momento não seja uma reprodução dos valores da juventude (LIMA; BUENO, 2009).
Em síntese, este capítulo abordou os aspectos relacionados à definição do envelhecimento, mostrando a complexidade em determiná-lo, haja vista as diferentes perspectivas de compreensão do fenômeno; a sua relevância para a população brasileira, uma vez que o processo de envelhecimento está cada vez mais rápido e é pouca a atenção dada a esta problemática; e, por fim, apresentamos a concepção de feminização do envelhecimento, ao demonstrar a vulnerabilidade da mulher que enfrenta este processo em nosso país. Uma vez que este trabalho tem como foco o envelhecimento da mulher executiva e considerando que já contemplamos a perspectiva do envelhecimento, iremos abordar, no próximo capítulo, a mulher na organização e sua relação com o trabalho.
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3 A MULHER NA ORGANIZAÇÃO
De acordo com Calás e Smircich (2004), o tema de gênero nas organizações e, mais especificamente, a produção científica a respeito da mulher no universo profissional, tem recebido atenção de pesquisadores. Segundo as autoras, desde os anos 1960, grande parte da literatura vem registrando desigualdades nos locais de trabalho, em termos de ocupações segregadas, desigualdades remuneratórias e carreiras com pequena amplitude.
Recentemente, Cappelle et al. (2006) se dedicaram à análise da produção científica de uma década dos estudos de gênero na Administração e identificaram que os principais tópicos discutidos foram: a inserção da mulher no mercado de trabalho, o estilo de gestão feminino, a problemática da conciliação trabalho-família, a influência do sexo no comportamento de homens e mulheres e as representações femininas em veículos de divulgação organizacional. Na área de Administração, os temas se desenvolveram para o estudo da diversidade de gênero, poder e suas respectivas implicações no desenvolvimento do trabalho feminino, além dos desafios enfrentados pela mulher e as aplicações de abordagens feministas (SOUZA et al., 2013).
Na medida em que este trabalho apresenta como foco a mulher executiva, faz-se necessário compreender como ela tem sido abordada nos estudos acadêmicos internacionais e nacionais ao longo dos últimos anos.
O que se tem, no entanto, é uma escassez de estudos que apresentam como foco a mulher em cargos de gestão. De acordo com Powell e Butterfield (1994), a literatura internacional começou em meados de 1970 e desde então o eixo de estudos permanece na inserção de mulheres em cargos não-executivos e, conforme Andrade (2008), no Brasil, subsiste o desenvolvimento de estudos que visam mulheres com contratos de trabalho precários ou que permanecem no mercado informal. Neste sentido, são poucos os estudos acadêmicos que abordam as questões relacionadas às mulheres executivas (CARVALHO NETO et al., 2010). Os estudos existentes abordam, em sua maioria, temas similares aos tratados na literatura internacional: dificuldades e particularidades da mulher no cargo gerencial, estrutura
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organizacional e relações de gênero, conflitos trabalho-família e questões de identidade relacionadas ao gênero (MORGADO, 2012).
Pode-se perceber, portanto, que a produção científica a respeito da mulher na organização encontra-se em pleno desenvolvimento. É neste contexto que este estudo visa dar continuidade à temática da mulher na posição executiva, enfatizando, ainda, a convivência com o processo de envelhecimento. A próxima seção irá abordar como ocorreu a entrada da mulher no mercado de trabalho e suas principais características no momento atual. Depois, o foco será na participação da mulher em cargos executivos; em seguida, como se estabelece a relação da mulher executiva com o trabalho e, por fim, as principais temáticas a respeito do envelhecimento da mulher executiva.