Jay Rosen (1993, p. 139) formula a sua visão da objectividade, apontando cinco formas de a compreender e tecendo considerações acerca dos problemas que ele julga atravessarem a prática objectiva nos meios de comunicação social. O autor centra o seu ponto de vista nos media americanos e considera que o momento para se discutir a objectividade é fulcral, na medida em que é um conceito que “está a falhar sobre vários pontos de vista”, gerando alguma confusão na sua definição, nomeadamente entre os próprios jornalistas.
Rosen (1993, p. 139-140) começa por definir a objectividade como uma espécie de contrato estabelecido entre os jornalistas e as entidades que os empregam. Esse contrato consistiria numa troca em que, os patrões permitiam a independência aos jornalistas e estes se comprometiam a não lhes causar problemas derivados da inserção de subjectividade nos textos noticiosos. No entanto, o autor considera que o contrato está progressivamente a ser rompido, sobretudo por parte das entidades patronais, que se preocupam cada vez mais com a redução de custos. Entende por isso que talvez os jornalistas devessem ter direito a reintroduzir a sua voz nas notícias.
Uma segunda forma de ver a objectividade é, segundo Rosen (1993, p. 140-141), encará-la como uma forma de alcançar a verdade. O autor chama-lhe mesmo “epistemologia dos jornalistas americanos”. De acordo com esta visão, a objectividade é alcançada se o jornalista estabelecer a diferença entre os factos e os valores, a informação e a opinião, as notícias e os pontos de vista. Os jornalistas assumem que, na incapacidade de serem realmente objectivos, tentam agir de forma justa e equitativa. Esta asserção é, segundo o autor, uma forma de conformação face à “desintegração intelectual da objectividade” enquanto ciência do conhecimento.
Rosen (1993, p. 141-143) explora uma outra visão da objectividade que consiste em entendê-la “como um conjunto de coisas que os jornalistas fazem quando saem para relatar as notícias”. O autor exemplifica apontando a confiança que os jornalistas depositam nas fontes oficiais, encarando-as com maior credibilidade. Fala também da apresentação dos dois lados de um conflito, como tentativa de criar um equilíbrio que, muitas vezes, se revela numa “fuga à verdade”, na medida em que consubstancia uma forma de o jornalista negar qualquer espécie de responsabilidade no assunto em questão. Rosen afirma que “a objectividade entendida como equilíbrio ajuda os jornalistas a
reivindicarem” um “terreno intermédio e autoritário entre extremos”. Ainda na mesma perspectiva considera a objectividade como um modo de “desvalorizar e desviar” as críticas que advêm do exterior, visto que, estando no centro dos conflitos, os jornalistas nunca poderão ser acusados de pender para um lado ou para o outro. Segundo o autor este é o “efeito mais nefasto e insidioso da objectividade” pois possibilita aos jornalistas manterem-se à margem das críticas em vez de melhorarem com elas.
A objectividade como “técnica de persuasão” e “estratégia retórica” é outra das formas que Rosen (1993, p. 143-144) expõe para entender o conceito. O autor refere como métodos dessa persuasão, na apresentação das notícias, o entusiasmo e convicção naquilo que se pretende transmitir, a inserção de valores que o público partilha e reconhece como seus, a demagogia de “montar uma teoria da realidade tão poderosa e esclarecedora que todos a aceitarão” e a afirmação de que se está a proferir a palavra de Deus. Rosen considera ainda, no âmbito da objectividade enquanto teoria de persuasão, que o jornalista consegue alcançar “o direito a ser ouvido” através da objectividade. Como última forma de encarar a objectividade, o autor (1993, p. 144-145) refere a concepção de uma verdade desinteressada, ou seja, o jornalista dá a conhecer a uma comunidade vários pontos de vista sobre uma mesma questão, fomentando uma discordância produtiva. Rosen considera que esta é a razão pela qual “não podemos deitar fora a objectividade”. Esta é importante na medida em que proporciona ao público a concordância em determinados pontos, de forma a que discordem de forma racional em outros.
O autor dedica-se ainda à análise dos problemas aliados à objectividade. Rosen (1993, p. 145-146) refere a decadência do contrato entre patrões e jornalistas, questionando o futuro em termos de uma objectividade que está a ser abandonada e dos valores que poderão vir a substituí-la. Analisa ainda o esgotamento da objectividade enquanto forma de alcançar a verdade, na medida em que esta aliena o jornalista “do debate intelectual e da conversa intelectual”, visto que, na cultura americana existe uma forte separação entre a vida intelectual e a cultura jornalística. Um outro problema, segundo Rosen, é o conflito entre a objectividade e determinados valores integrantes do jornalismo. Estes valores passam pelo conceito do jornalista como “cão de guarda”, defensor acérrimo dos interesses públicos, e pela visão deste enquanto “contador de estórias”. Nenhum destes valores é coerente com a objectividade, pois, tanto o jornalista “cão de guarda”,
como o jornalista “contador de estórias”, não podem pautar a sua actividade profissional pelo exercício da objectividade.
A objectividade no jornalismo é, segundo Rosen (1993, p. 148-149), uma mais-valia, enquanto veículo de descrição correcta dos factos, acerca de determinado assunto, para as pessoas que visam uma “actividade intencional” face a esse mesmo tema. No entanto, se as pessoas desligarem a sua atenção da vida pública, a objectividade “perde a sua razão de ser”. Isto leva-nos ao argumento que o autor defende, de que “o jornalismo deveria estar empenhado em reaproximar as pessoas da vida pública”, concepção segundo a qual a objectividade não é de todo o método indicado. Rosen considera que este é o grande desafio dos jornalistas na actualidade e aponta a “nova teoria da credibilidade” em contraposição com a imparcialidade característica da objectividade. Segundo esta nova teoria o interesse e a preocupação dos jornalistas pelos assuntos do domínio público são os alicerces da credibilidade do profissional da comunicação. O autor termina levantando a questão de saber o que deve substituir a objectividade no discurso jornalístico. Aponta a importância dos valores inerentes à objectividade como a “noção de verdade desinteressada”, a intenção de “separar a prática do jornalismo da prática da política” e a tentativa de conter preconceitos olhando as coisas “da perspectiva das outras pessoas”. Rosen entende que estes valores não permitem que se elimine a objectividade, sob a bandeira de que esta “é um mito”. Como tal, o autor lança a ideia de que a solução para o “puzzle da objectividade” está no conceito de democracia, como algo que “temos que criar e re-inventar”, no caminho para uma nova abordagem. Rosen conclui afirmando que, “o jornalismo é uma das mais importantes artes da democracia e [...] o seu objectivo final [...] é fazer a democracia funcionar” (Rosen, 1993, p. 149-150).