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Statistics – the national domain market

João Carlos Correia (1998, p. 156) defende que o jornalismo regional pode ser um elemento estruturador de um “espaço público regional entendido como esfera crítica de debate e de interacção dos cidadãos em torno dos problemas que lhe são próximos”. Para tal, esta imprensa de proximidade deve deixar de lado a procura de estratégias que a aproximam da imprensa de massa e que apenas reproduziriam defeitos como a “virtualização dos públicos”, massificação [e] cedência crescente à informação espectáculo”. O autor acrescenta, ainda, que os media regionais poderiam, assim, trabalhar em dois sentidos: o reforço identitário das comunidades onde se inserem e a transformação em espaços abertos ao mundo (Correia, 1998, p. 157).

O “apelo a um novo jornalismo regional” é a proposta de João Carlos Correia (1998, p. 166) que aponta a inserção na imprensa regional de novos profissionais que balancem a qualidade informativa com a sensibilidade relativamente às especificidades deste tipo de imprensa. O autor estabelece neste ponto um paralelismo com os novos media assentes na realidade que é a internet: “nos media regionais, pelo menos na dimensão e configuração que adquirem em grande parte no universo português, parece prevalecer o reforço da identidade comunitária, a prevalência da vizinhança e a sobrevivência de

alguma anacronismo pré-industrial. Nos media interactivos parece estar presente a ideia de abertura ao mundo, da multiplicação da diferença, da globalização e do universalismo.” (Correia, 1998, p. 168). Considerando ambos os meios (imprensa e internet) como “formas de comunicação susceptíveis de serem pensadas como suporte de espaços públicos regionais”, João Carlos Correia (1998, p. 168) aponta a complementaridade entre ambas como solução.

1.8.1.1

Espaço deformado?

Pedro Coelho (2005, pp. 151-152) atenta na esfera pública moderna e afirma que deveriam ser os media de âmbito regional “os instrumentos por excelência da ampliação do debate e da discussão racionais, assumindo, por isso, o papel de guardiães do espaço público, no sentido em que fiscalizam o poder e os seus representantes, criticando-os, se tal for necessário, ou iluminando o caminho de todos os que participam nesse exercício”. O autor encara assim estes meios de comunicação locais como os intermediários da comunicação racional, que trabalham no sentido da consolidação e desenvolvimento de um “espaço público alternativo” na comunidade.

Neste âmbito encontramos nestas mesmas comunidades, enquanto lugares de identidade comum, um pacto comunicacional estabelecido entre a região e os meios de comunicação social, que assenta no compromisso de “defender a região e as suas gentes, em nome do desenvolvimento” (Coelho, 2005, p. 153). Aqui a questão é mesmo a proximidade, aplicada aos media que estão implantados nessa mesma região.

O autor entende, assim, que estes meios de comunicação social de proximidade podem ser olhados como “lugares alternativos de comunicação”, explicando que é neles que encontram refúgio os que “acreditam no pensamento e na razão e que elegem a discussão e o debate como instrumentos essenciais para se chegar ao consenso” (Coelho, 2005, p. 154). Basicamente o progresso e desenvolvimento da comunidade é um objectivo partilhado por todos os seus elementos e os media regionais são encarados como “o instrumento de mediação que, num acto de cumplicidade com os destinatários, amplificam a discussão” (Coelho, 2005, p. 154). Trata-se da função social dos meios de comunicação social, aos quais compete não só relatar os problemas da comunidade, como também promover o debate e discussão à volta deles.

Face aos problemas que subsistem ainda no panorama da imprensa regional, e que aqui já foram por nós abordados, Pedro Coelho (2005, p. 159) fala na existência de um “espaço público deformado”, fruto de uma proximidade demasiado próxima que por vezes origina comprometimento do meio de comunicação social com as elites, poderes, instituições e empresas da região. Questões como a falta de formação ou a precariedade do trabalho dos jornalistas da imprensa regional, a par com a dependência verificada em relação a fontes e instituições, a serem superadas, poderiam simbolizar a possibilidade de estes media “assumirem o papel de reestruturadores do espaço público, de formadores de uma opinião pública forte e participativa”.

Face a estes problemas, o autor aponta desafios, que concretiza em propostas de resolução de tais questões (Coelho, 2005, pp. 161-162). Desde logo a aposta na formação académica dos jornalistas, bem como a necessidade de que as empresas jornalísticas sejam transparentes e tenham o seu papel claramente definido, sem se submeterem unicamente a lógicas comerciais ou aos interesses políticos e económicos. Ainda a possibilidade de redefinirem os seus conteúdos, apostando no tal pacto de proximidade com os destinatários, e promovendo o desenvolvimento do espaço público com questões e discussões pertinentes que digam respeito à comunidade. Por último, Coelho (2005, p. 162) salienta a “redefinição do papel do Estado”, ao qual caberia “introduzir critérios rigorosos e transparentes na aplicação dos subsídios, e, simultaneamente, redefinir as prioridades”.

Pedro Coelho (2005, p. 167) considera mesmo que a ser irreversível a actual realidade da imprensa regional estamos perante um espaço público deformado. É por isso que acredita que o grande desafio do jornalismo de proximidade, tendo sempre no seu campo de visão o pacto de proximidade, passa por “sobreviver às tentações que essa proximidade suscita”. O rigor do jornalista pode coexistir com essa contiguidade que ele mantém com a região, devendo o profissional apenas distanciar-se de forma mais rigorosa e racional do que um qualquer jornalista de imprensa nacional.

Ao jornalista deve ser garantido um grau de independência que lhe permita questionar as elites que representam o poder quando estas têm de ser questionadas, abrindo espaço à tensão e ao conflito, ouvindo os detentores de opiniões que contrariam esse “consenso” imposto pelo topo de forma totalitária. (Coelho, 2005, p. 168)

De um certo modo falamos aqui das noções básicas do jornalismo, que apela à audição dos dois lados de determinado conflito e à necessidade de dar voz a todos os interessados, não caindo em tentações de subserviências provenientes da proximidade. Parece-nos, assim, que Pedro Coelho procura aqui chamar a atenção para a questão da independência do jornalista, a qual deve ser praticada tanto na imprensa nacional, como na imprensa regional, ainda que nesta última a proximidade com a comunidade, fontes e elites seja maior. O jornalista não é o elemento apaziguador do conflito, mas antes o “megafone” das vozes que têm parte nesse mesmo conflito.