Vivemos numa sociedade marcada pela era digital, pelo surgimento de novos suportes e tecnologias de última geração que vieram diversificar e espalhar a informação, tornando-a acessível a todos através da Internet e seus derivados. Xosé López García (2004, p. 86) chama a atenção para os desafios que vive a imprensa local, os quais precisam de ser enfrentados através da experimentação de produtos de última geração e linguagens adequadas aos suportes da era digital. É, de facto, o acompanhamento da evolução tecnológica a chave do sucesso para que os meios de comunicação de proximidade consigam acompanhar as mudanças em curso na sociedade actual.
A Sociedade da Informação e do Conhecimento, como a concebe López García (2004, p. 86) veio trazer mudanças a todos os níveis. Os media regionais não são excepção e têm agora de adequar os seus conteúdos às exigências do público e às novas ferramentas de trabalho. Por isso mesmo o autor fala em “reformismo tecnológico”, ou seja, aproveitar as inovações tecnológicas para aumentar a competitividade nos espaços locais, garantindo assim o progresso, sobretudo no que toca ao tecido empresarial (López García, 2004, p. 87).
Falando especificamente dos meios de comunicação locais, o autor entende que existe espaços para que eles experimentem novas tecnologias aplicadas a novos produtos, procurando elementos de inovação que sejam a chave da diferenciação e da especialização face ao homogéneo, ao genérico e ao global (López García, 2004, p. 88). É por isso que estes media precisam de aumentar a sua pluralidade informativa e
procurar dinâmicas participativas que reforcem a identidade cultural e local dos espaços que os acolhem.
No obstante, para afrontar los desafíos, los medios locales intervienen como actores que refuerzan la identidad local y que solo tendrán auténtico êxito si su aportación encuentra demanda y buena aceptación. Las oportunidades dependen, pues, de su capacidad para implicarse en la vida local, innovar y anteciparse a las necesidades de los habitantes de los ámbitos de proximidad. De su éxito dependerá en buena medida la capacidad de innovar y avanzar del periodismo de proximidad. (López García, 2004, pp. 88-89)
O “truque” pode, assim, estar na afirmação da diferença, a mesma que aos mais cépticos pode parecer a grande desvantagem de uma imprensa que “joga” contra o global e o homogéneo. Somos quem somos porque o devemos às nossas raízes e provavelmente o papel da imprensa regional neste novo cenário tecnologicamente evoluído é trazer o especifico e o identitário, não como alternativa ao geral, mas como complementar e motor de avanço no jornalismo de proximidade rumo a este futuro que já é presente. Numa sociedade marcada pelas tecnologias da informação e da comunicação o futuro da comunicação local pode ser posto em causa, mas apenas corre riscos se não acompanhar o desenvolvimento do cenário global. Xosé López García (2004, p. 102) atenta, por isso, na questão da sobrevivência do local, em convivência com o global, garantindo que ela estará segura se houver capacidade de organizar dinâmicas activas de comunicação que saibam aproveitar as oportunidades, partindo das potencialidades dos recursos endógenos. Quer isto dizer que a imprensa regional conta com recursos inerentes ao território e cultura onde se insere, que podem ser estratégicos para que não seja esmagada pela globalização e para que encontre o seu lugar no mundo e neste cenário de mundialização. O autor aponta, por isso, a importância da criação de sistemas de comunicação nos espaços de proximidade, ou seja, conteúdos criados pelos meios de comunicação que contenham referentes de proximidade, que por sua vez sejam atractivos para os receptores da informação. Em última análise é uma questão de fidelização do leitor que procura a identidade local, do público que se interessa por aquilo que acontece na sua comunidade (López García, 2004, p. 102).
1.8.4.1
Reconverter o local
López García (2004, p. 111) sublinha e aponta inúmeras vezes esta necessidade de reconversão da imprensa regional na “luta” por um lugar que lhe é devido na Sociedade
da Informação e do Conhecimento. Defende que estes media de proximidade devem avançar e basear-se nos pontos fortes do modelo segundo o qual viviam até agora, criando alternativas e utilizando velhas e novas ferramentas. “O seu desafio consiste em intervir para estarem presentes na Sociedade da Informação e do Conhecimento” diz López García (2004, p. 111), clarificando que este novo modelo de meios de comunicação locais deve funcionar como alternativa aos meios globais, baseando-se no facto de atender às necessidades do público de proximidade e de permitir que se façam ouvir uma grande variedade de vozes.
Para López García (2004, p. 112) o futuro passará por um sistema de comunicação local onde os media locais e globais, estes últimos com estratégias locais, terão lugar. Os primeiros serão pensados localmente e actuarão localmente, sem perder de vista a projecção global permitida pelos sistemas em rede. A nosso ver, trata-se da adequação à digitalização, numa perspectiva de convivência entre os meios de comunicação locais e globais, estes últimos pensados de forma global mas com actuação local. Provavelmente esta “visão” de futuro não estará à porta, e mesmo que esteja a sua implicação variará de país para país, consoante o grau de desenvolvimento da imprensa regional e a proximidade face ao mundo global.
A chegada da Internet representa o ponto fulcral da questão, pois foi ela o motor do desenvolvimento digital que se tem vindo a sentir ao longo dos anos. López García (2004, p. 112) atenta no facto de este poderoso recurso ser uma nova ferramenta e um novo canal para a elaboração e difusão dos produtos informativos. O seu aproveitamento não deve restringir-se a âmbitos mais alargados, mas também ao local e à região, a par com um aumento da profissionalização desta imprensa, sempre numa perspectiva de aumento da qualidade.
Xosé López García (2004, p. 114) sublinha, pois, o papel dos jornalistas neste olhar sobre o futuro da imprensa regional. Aponta a importância da formação dos profissionais da informação, adequada às novas necessidades e exigências do mercado dos espaços locais de comunicação, e a “alfabetização digital”, que mais não é do que levar os media até às escolas, para que os cidadãos contactem, durante a sua formação, com esta realidade.
São a mediação responsável e a garantia de credibilidade as condições para este jornalismo local futurista. São desafios que os profissionais da imprensa devem assumir,
numa óptica de qualidade, para que o jornalismo não acabe por se converter numa técnica social descartável e desnecessária e para que os jornalistas não deixem de actuar como mediadores sociais (López García, 2004, p. 115). De facto, os profissionais desta imprensa de futuro (“jornalista digital”) deverão acompanhar as potencialidades do uso da Internet como recurso e devem ter em linha de conta as necessidades de comunicação e informação que caracterizam a nova sociedade (López García, 2004, p. 115).
As máquinas e as tecnologias existem, mas é preciso quem as saiba utilizar e potenciar. É por isso que López García (2004, p. 118) realça que estes profissionais do amanhã devem oferecer soluções para comunicar melhor, para transportar melhor os conteúdos, para permitir uma maior participação e para acabar com os excessos de unidireccionalidade das mensagens. Pede-se, assim, aos jornalistas, que enfrentem os novos desafios nos espaços de comunicação local e que produzam bom jornalismo, com informação verdadeira, e um tratamento da informação distanciado dos circuitos de interesses e das fontes (López García, 2004, p. 118).
Nos referimos, sí, a viejos valores para los nuevos tiempos de la comunicación local y global, de valores de capacidad probada para construir una sociedad mejor e que mantenga la identidad propria, la de los espacios locales, en una sociedad mundializada (López García, 2004, p. 118).
O autor não pretende, com estas palavras, vincar qualquer espécie de teoria irrefutável das mudanças que se irão verificar no jornalismo. A nosso ver, o seu objectivo é tão simplesmente o de mostrar que a sociedade mudou e daí advêm mudanças a vários níveis, entre os quais a actividade comunicativa e informativa. Ainda que não falemos de uma mudança radical, pois o jornalismo tem uma história e está ancorado a técnicas e valores significantes, é importante percebermos que o futuro não poderá passar por comportamentos estáticos e castradores. Não podemos nem devemos fechar os olhos a todos os recursos que chegaram nos últimos anos à sociedade e que transformaram o mundo através das tecnologias digitais. O jornalismo não é excepção, e seja ele regional ou nacional, virtual ou físico, deve aproveitar os novos recursos e saber-se adequar a públicos que se convertem às novas realidades e que esperam da imprensa essa mesma evolução.
A par com estas mudanças necessárias está a questão da sobrevivência da imprensa regional ante a globalização. A coexistência é de facto possível, como foi e continua a ser entre o telefone e a correspondência escrita, a rádio e a televisão, o suporte papel e o
suporte tecnológico da imprensa. E além desta coexistência entre as duas realidades, não deixa de ser notável o refúgio no local, face à homogeneização da sociedade. É uma espécie de tendência de procura do que é nosso, do que é específico e do que é próximo, num mundo em que os conteúdos parecem adaptados às massas e a uma consciência uniforme e comum. Aqui, a imprensa regional pode ganhar pontos numa perspectiva de futuro. Parafraseando López García (2004, p. 124), o futuro na comunicação escreve-se com L de local.
2
Conceitos Aplicados à Imprensa Regional e Local
As raízes do jornalismo, que datam do século XIX, nasceram com o surgimento da imprensa escrita, o primeiro meio de comunicação social, o pioneiro no entendimento da transmissão da informação ao público. A ele vieram associados um conjunto de valores, dos quais nasceram teorias, bases que hoje em dia ajudam a explicar a complexidade de uma profissão e de uma realidade sobre a qual as opiniões e discussões nem sempre são pacíficas. A noção de acontecimento, a definição das notícias, a objectividade como meta no jornalismo e os meios de comunicação de massa são alguns dos itens que ajudam a compreender melhor esta complexa realidade.