Os dados apresentados até o momento mostram o quanto inserido em rede estão dos 12 piscicultores instalados na UHE de Canoas, bem como o seu grau de competitividade diante do conjunto de indicadores previamente selecionados. Entretanto, é possível afirmar que a maior inserção em rede por parte dos piscicultores garantiria a eles um maior grau de competitividade?
Com o objetivo de buscar uma possível relação entre as duas variáveis foi elaborada uma Matriz, com quatro quadrantes, onde é possível visualizar, concomitantemente, o nível de inserção em rede e o nível de competitividade dos 12 piscicultores.
está dividida em quatro níveis, segundo classificação obtida a partir de: 1) medidas de centralidade de grau de cada piscicultor observadas da rede piscicultor- piscicultor, em níveis de 0 a 100%; 2) níveis de competitividade de cada piscicultor, com variação de -2 a +2, conforme pode ser observado na Figura 10.
Nível 1 – piscicultor com baixa inserção em rede (medida de centralidade de grau próximo a zero (0%)) e baixo nível de competitividade (níveis próximos a -2), o que poderia ser caracterizado como um piscicultor sem relacionamento com os demais piscicultores instalados, e com a utilização de baixos níveis de tecnologia e pequena escala de produção.
Nivel 2 - piscicultor com baixa inserção em rede, e alto nível de competitividade (níveis próximos a 2), o que poderia ser caracterizado como um piscicultor sem relacionamento com os demais piscicultores já instalados, porém com a utilização de altos níveis de tecnologia e média/grande escala de produção.
Nivel 3 - piscicultor com alta inserção em rede (medida de centralidade de grau próximo a cem (100%)), e baixo nível de competitividade, que caracterizaria um piscicultor que possui relacionamento com os demais piscicultores instalados no reservatório, porém com a utilização de baixos níveis de tecnologia e pequena escala de produção.
Nivel 4 - piscicultor com alta inserção em rede, e alto nível de competitividade, caracterizando um piscicultor que possui relacionamento com os demais piscicultores instalados no reservatório, e com a utilização de altos níveis de tecnologia e média/grande escala de produção.
Figura 10 – Matriz teórica: Relação entre inserção na rede social e competitividade
Fonte: Elaborado pela autora.
Para representar a relação entre inserção na rede social e competitividade para o caso analisado, foi elaborada a Figura 11, partindo das informações de que os três (3) indivíduos com maiores níveis de competitividade são também os de maior destaque na centralidade da rede formada pelos piscicultores inseridos no reservatório da UHE Canoas I.
Nível 1 Nível 2
Fonte: Elaborado pela autora.
Apesar do grupo analisado ser pequeno, contando com apenas 12 piscicultores instalados na represa da UHE de Canoas I, é possível observar que a relação entre inserção na rede social e nível de competitividade não é homogênea.
Pode-se perceber que o piscicultor P1 tem o menor nível de inserção em rede, justamente por ser o que está há menos tempo na atividade (menos de um (1) ano). Entretanto, isso não se repete para o nível de competitividade do mesmo, que foi superior aos níveis competitivos de P3 e P12. Percebe-se que essa maior competitividade do piscicultor P1, em comparação aos outros dois piscicultores, ocorre em praticamente todos os indicadores de competitividade analisados, com exceção do indicador estrutura de mercado.
Piscicultores como P5 e P8 apresentaram níveis relativamente altos de inserção em rede, contudo, os níveis de competitividade não estão entre os maiores. Essa informação, juntamente com a informação acima sobre P1, indica que, o nível de inserção na rede social não é o que dita o nível de competitividade dos agentes. Apesar disso, não pode-se descartar a evidência de que piscicultores
acesso à informação do que aqueles menos inseridos.
De qualquer modo, para P6, P9 e P10 a relação entre maior inserção na rede social e maior nível de competitividade, tem como principal explicação o tempo na atividade da piscicultura em tanques-rede.
A busca mundial por uma alimentação segura e saudável é um incentivo para a piscicultura, atividade com aptidão para aumentar a produção de peixes sem a degradação dos estoques pesqueiros.
No Brasil, o cultivo de peixes em água doce ainda tem mais um incentivo: o uso de áreas represadas (reservatórios) de usinas hidrelétricas para a implantação de tanques-rede.
Diante disso, o presente trabalho teve como espaço de análise o reservatório da UHE Canoas I, localizado no rio Paranapanema, e que abrange dois municípios (Cândido Mota – SP e Itambaracá – PR) e abriga doze produtores de tilápia em tanques-rede. Dentre os objetivos propostos para o trabalho, estava o objetivo geral que englobava a análise da competitividade, bem como a verificação da inserção em redes sociais, destes piscicultores. Para os objetivos específicos havia sido proposto: (i) verificar se existe rede e, na hipótese positiva, determinar como os piscicultores se beneficiam deste arranjo; (ii) identificar os principais indicadores de competitividade dos piscicultores, verificando a similaridade ou diferença existente entre diferentes grupos de agentes produtores; (iii) verificar se existe relação entre a inserção em redes sociais e o grau de competitividade desses piscicultores
Para atingir todos os objetivos, a pesquisa teve duas fases principais. A primeira etapa consistiu na interação da pesquisadora com os temas abordados através de pesquisas bibliográficas sobre as vertentes teóricas de Redes Sociais e Competitividade. A segunda etapa envolveu a pesquisa de campo e análise dos dados coletados.
Na pesquisa de campo, os piscicultores foram identificados, contatados e entrevistados individualmente e responderam questões sobre caracterização própria e da atividade, questões sobre relacionamentos com outros piscicultores e demais agentes da cadeia da produção de tilápia, e, por fim, questões sobre competitividade.
A partir das respostas às questões de caracterização, foi desenvolvida uma análise simples para diferenciar o perfil da atividade piscícola em cada uma das duas margens do reservatório da UHE Canoas I. Com isso, concluiu-se que, de modo geral, os piscicultores situados no estado de São Paulo são jovens (a maioria
cinco anos) e possuem no mínimo ensino médio completo. Enquanto isso, os piscicultores do Paraná, em sua maioria, encontram-se há mais tempo na atividade, são mais velhos e alguns deles possuem baixo nível de instrução.
A importância da atividade da piscicultura em tanques-rede na região foi evidenciada quando dez dos doze piscicultores entrevistados informaram que esta é sua principal atividade quanto à geração de renda e, alguns destes, ainda ressaltaram que seu faturamento é constituído exclusivamente pela piscicultura.
O objetivo específico (i) foi atingido ao se comprovar a existência da rede a partir dos relacionamentos mencionados pelos piscicultores. A determinação de como os piscicultores se beneficiam do arranjo social se deu, de modo parcial, ao mostrar que piscicultores mais inseridos na rede são aqueles que os demais piscicultores consideram transmitir informação de maior valor. Nesse respeito, surge a primeira recomendação de estudo futuro, que seria analisar de modo mais profundo os benefícios que a inserção em redes traz para os piscicultores: O maior nível de inserção na rede, possibilita ganhos econômicos por conta de maior poder de negociação com fornecedores de insumos e compradores?
Para a análise das redes sociais, as respostas às perguntas de ordem relacional foram tratadas e submetidas à análise do software UCINET®. Foram consideradas três medidas de centralidade na rede: centralidade de grau (baseada no número de ligações diretas que um ator tem com outros atores da rede); proximidade (tanto de nodos que determinado ator precisa percorrer para chegar a outros pontos da rede); e intermediação (papel de um ator de fazer a intermediação entre outros atores não adjacentes).
Nesta análise verificou-se que os três piscicultores mais centrais na rede (citados de modo recorrente pelos outros piscicultores) estão inseridos no município de Itambaracá – PR. Os mesmos se apresentaram experientes na atividade, trabalhando com piscicultura em tanques-rede há bastante tempo. Este parece ser o fator de maior influência para o destaque desses piscicultores na rede social analisada, já que a escolaridade e a faixa etária diferem entre os três.
Foi possível verificar também que os demais agentes da produção de tilápia, com quem os piscicultores têm relacionamentos, possuem características distintas. Enquanto fornecedores de alevinos e rações são concentrados, dada a alta escala de produção, tecnologia e conhecimento a ser investido, o mercado
atravessadores, frigoríficos, pesque-pague e lanchonete como compradores de tilápia.
Para a análise de competitividade, foram utilizados sete direcionadores: tecnologia e inovação, insumos e infraestrutura, estrutura de mercado, gestão interna, ambiente institucional, relações de mercado e questões ambientais.
Os resultados encontrados mostram que, de modo geral, tecnologia e inovação, insumos e infraestrutura, estrutura de mercado, gestão interna, e questões ambientais afetam positivamente a competitividade da produção de tilápia em tanques-rede na região analisada. Enquanto isso, ambiente institucional afeta de modo negativo, sendo a burocracia dos órgãos que regulamentam a atividade, a inexistência de programas governamentais de incentivo e a dificuldade de acesso ao crédito, as maiores explicações para isso.
Quando analisados separadamente, notou-se grande diferença na visão dos piscicultores de cada estado em relação à influência das questões ambientais na competitividade. A percepção de maior fiscalização (no Paraná) e de menor fiscalização (em São Paulo) do atendimento à legislação ambiental foram preponderantes para definir a capacidade competitiva dos piscicultores segundo este direcionador.
Os cálculos de competitividade individual para cada piscicultor mostraram que os quatro piscicultores com maiores níveis de competitividade estão à margem paranaense do reservatório da UHE Canoas I e são experientes na produção de tilápias em tanques-rede. Os menos competitivos, por outro lado, são piscicultores do estado de São Paulo e adentraram na atividade há pouco tempo (menos de cinco anos). Com isso, foi possível responder ao objetivo específico (ii).
O objetivo (iii), que previa verificar a existência de relação entre a inserção em redes sociais e o grau de competitividade dos piscicultores entrevistados, também foi atingido. A relação entre nível de inserção em redes sociais e nível de competitividade foi verificada, porém, não pode ser completamente comprovada. Isso porque, apesar de os três piscicultores mais inseridos na rede serem também os que apresentaram maiores níveis de competitividade, para outros piscicultores a relação não foi observada. Assim, para esses três piscicultores de maior destaque, o alto nível de inserção na rede e alto
experiência adquirida ao longo dos anos na produção de tilápia em tanques-rede, que lhes confere o reconhecimento por parte dos outros piscicultores como pessoas de amplo conhecimento na área.
Mesmo assim, quanto mais inseridos na rede, mais acesso à informação os piscicultores terão, o que pode sim, acarretar em ganhos competitivos.
O presente trabalho traz duas contribuições principais. A primeira é a análise setorial de uma atividade em ampla expansão no Brasil: a piscicultura em tanques-rede. A segunda diz respeito à uma contribuição metodológica, já que foram unidas na mesma pesquisa duas vertentes teóricas e metodológicas: análise de redes sociais e análise de competitividade, o que é pouco observado na literatura científica e pode servir de base para análises de outros setores, inerentes ou não ao agronegócio.
Em relação às limitações da pesquisa estão as de ordem logística que, neste momento, impossibilitaram o acesso e a aplicação das entrevistas aos agentes a montante e jusante da produção de tilápias, o que possibilitaria um estudo mais completo e complexo sobre a rede social formada.
Como recomendações para estudos futuros, sugere-se uma nova análise de inserção em rede e da competitividade desse mesmo espaço de análise, em um espaço de tempo futuro, 5 (cinco) anos por exemplo, para verificar, de forma comparativa, se houve alteração na inserção dos piscicultores na rede e no nível de competitividade dos mesmos.
Recomenda-se também um estudo que conte com entrevistas com fornecedores de insumos, compradores e assessores, além dos piscicultores, para verificar qual a configuração da rede ampliada completa. Por fim, levando-se em conta a atual situação econômica do Brasil, para discussões futuras sobre o tema sugere-se realizar um estudo longitudinal que tenha como problema de pesquisa: piscicultores com maiores níveis de inserção em redes sociais podem assimilar melhor do que outros as condições de crise?
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