A finalidade da Análise de Redes Sociais (ARS) é estudar a influência que a estrutura relacional em que os indivíduos ou organizações estão inseridas pode ter sobre seu comportamento (MARTELETO, 2001). Para tanto, prossegue a autora, a unidade de análise da ARS não pode ser os atributos individuais de cada ator inserido na rede, como classe, gênero ou idade, mas sim, as relações que estabelecem uns com os outros. Wasserman e Faust (2009) também salientam que a unidade de análise em redes sociais não é um indivíduo, mas uma entidade constituída por um conjunto de indivíduos e as relações entre eles.
Para entender o funcionamento do método de ARS, convém antes especificar alguns conceitos. Primeiramente, para que possa existir rede e para que esta possa ser analisada, dois elementos são fundamentais: atores (nós) e relações (laços). Knoke e Yang (2008), apontam que os atores de uma rede podem ser pessoas individuais ou organizações (formais ou informais). Os autores ainda mencionam que, geralmente, uma relação é definida como um tipo específico de contato, conexão ou laço entre os atores. Cabe ainda salientar que a relação não é um atributo do ator, é uma propriedade conjunta que existe apenas quando atores mantém suas interações (KNOKE e YANG, 2008).
O conceito de rede enfatiza o fato de que cada ator tem laços com outros atores, que por sua vez podem estar ligados a outros poucos ou muitos atores e assim por diante (WASSERMAN e FAUST, 2009). É neste meio que aparecem os chamados “buracos estruturais”, ou seja, lacunas que se formam entre
dois atores, situados em distintos grupos sociais, não conectados entre si, mas que pode deter recursos complementares (VALE, WILKINSON e AMÂNCIO, 2008).
Wasserman e Faust (2009) citam os laços (ou tipos de relacionamentos) que são comumente empregados na análise de redes sociais. Alguns deles são:
Avaliação de uma pessoa por outra (quando se expressa amizade, ligação); Transferência de recursos materiais (transações comerciais, empréstimo de
objetos);
Associação de filiação (participação conjunta em eventos sociais, pertencer ao mesmo clube social);
Interação comportamental (conversas, envio de mensagens);
Ligação física (uma estrada, um rio ou uma ponte que ligue dois pontos); Relação biológica (parentesco).
É importante ressaltar que “A análise de redes não constitui um fim em si mesma. ” (MARTELETO, 2001, p. 72). Desta expressão entende-se que a ARS é um meio que visa mostrar como a existência e o funcionamento de determinada rede explica determinado fenômeno.
O analista de rede deve procurar “modelar” as relações existentes entre os atores para descrever a estrutura relacional do grupo analisado para, em seguida, ter a possibilidade de estudar, por exemplo, o impacto desta estrutura sobre o funcionamento do grupo e/ou a influência da mesma em indivíduos dentro do grupo (WASSERMAN e FAUST, 2009). Os autores ainda citam que a análise de rede também pode ser usada para estudar o processo de alteração dentro de um grupo ao longo do tempo.
Os níveis de análise da ARS podem abranger desde uma rede egocêntrica, que consiste em um ator (ego) e os outros atores com os quais ele tem relações diretas, até a rede completa, onde são utilizadas informações sobre cada relação entre todos os atores que compõem a rede (KNOKE e YANG, 2008). Também são considerados níveis de análise as díades e tríades, que correspondem à interação entre dois e três atores, respectivamente.
A ARS produz métricas tanto para a análise de atores quanto para a análise da estrutura da rede. Uma das métricas a nível de atores (ou nós) é a centralidade, que, de acordo com Borgatti, Everett e Freeman (2002) e Rossoni e
Hocayen-da-Silva (2008), pode ser classificada em centralidade de grau (degree); centralidade de proximidade (closeness); centralidade de intermediação (betweenness). O Quadro 2 apresenta como estas medidas são definidas.
Quadro 2 – Definição de medidas de centralidade
Mediação de
centralidade Descrição/definição Exemplo
Centralidade de grau (degree
centrality)
É baseada no número de laços que conectam um ator da rede diretamente a outros atores. Essa análise pode ser feita por meio da mensuração do número de ligações que um ator possui dentro do grupo.
“F” se conecta a todos os outros atores da rede, por isso tem alta centralidade de grau (100%) Centralidade de proximidade (closeness centrality) Baseia-se na proximidade ou “distância” de um ator em relação aos outros atores em uma rede. Calculada a partir do número mínimo de ligações que determinado ator necessita percorrer para acessar qualquer outro ponto da rede.
“F” é um ator central na rede, de modo que a sua distância total de todos os outros os pontos da rede é menor do que a de outros atores. “F” tem alta centralidade de proximidade.
Centralidade de intermediação (betweenness
centrality)5
É baseada na capacidade que determinado ator tem de se ligar a vários atores que não se conectam diretamente e agir como intermediador de interações destes atores não- adjacentes.
“F” faz a intermediação entre “B” e “E”, atores que estariam
desconectados na ausência de “F”.
Fonte: Elaborado pela autora a partir de Borgatti, Everett e Freeman (2002); Rossoni e Hocayen-da- Silva (2008); Giuliani e Pietrobelli (2011).
Como já mencionado, a ARS também produz métricas relativas à estrutura da rede, como a densidade e a centralização da rede (KIM et al., 2011). Segundo os autores, a densidade da rede refere-se ao número total de laços em uma rede em relação ao número de possibilidades totais de laços que poderiam ser formados. Já a centralização da rede, está relacionada com a distribuição de poder ou controle na rede. Kim et al. (2011), destacam que a rede com maior centralização possível é aquela que apresenta sua estrutura em forma de estrela, ou seja, um único nó no centro está ligado a todos os outros nós e estes outros nós não são ligados uns aos outros. Da mesma forma, o grau mais baixo de centralização ocorre quando todos os nós tiverem o mesmo número de conexões uns com os outros. A centralização e a densidade da rede são medidas interligadas, de modo que quanto menor a centralização da rede, maior sua densidade (KIM et al., 2011).
Outra propriedade possível de ser identificada em uma rede é a coesão relacional dos pares de atores. A compreensão da coesão se dá através da intensidade do relacionamento, como por exemplo, se é forte ou fraco ou se as relações são de curto ou longo prazo (SACOMANO NETO, 2004). O autor reflete que, embora a coesão tenha relação com a densidade, deve-se tomar cuidado para não confundir os termos: enquanto a densidade é uma variável relativa à estrutura geral da rede, a coesão refere-se às relações entre os pares de atores na rede.
Hannemann e Hiddle (2005) explicam que as pesquisas de rede são conduzidas a partir de uma população identificada e não de uma amostra, pois segundo eles, ao selecionar um ator, o mesmo poderá escolher outros atores de seu relacionamento que podem não estar na amostra. Os autores apresentam métodos de pesquisa de redes, sendo eles: (a) Rede ego: método indicado para quando objetiva-se coletar informações de um ator e seus pares, sem estabelecer ligações entre esses pares; (b) Rede ego com conexões: prevê a seleção de atores focais e em seguida a identificação de outros atores que pertencem à rede dos primeiramente selecionados. Posteriormente, determinam-se quais atores estão conectados entre si; (c) Método da bola de neve: cada ator de uma lista inicial indica um conjunto de outros atores com os quais possui ligações, o que forma uma segunda lista. Os incluídos nela, por sua vez, identificam outros atores, e assim sucessivamente, até que não sejam encontrados outros atores ou até uma parada proposital do pesquisador, em virtude de tempo, recursos financeiros ou porque os novos atores indicados são muito marginais ao grupo que se pretende estudar; (d) Método da rede completa: exige a coleta de informações sobre os laços de cada ator com todos os outros atores, o que permite descrições e análises muito poderosas das estruturas sociais, entretanto, este método apresenta limitações, pois implica em ter acesso a todos os atores da rede, o que pode ser difícil e caro, além da necessidade de certeza de que todos os entrevistados forneceriam informações confiáveis sobre suas conexões (GIULIANI e PIETROBELLI, 2011).
Este último é também definido por Thaden e Rotolo (2009), como “Roster” (ou “lista completa”). Neste caso, o pesquisador apresenta ao entrevistado uma lista contendo os nomes de todos os atores que compõem a rede a ser analisada e pede para que este identifique com quem possui relacionamentos.
Este método, além de ser de fácil utilização, minimiza o risco da perda de dados devido ao possível esquecimento dos entrevistados, já que cada um deles tem uma lista completa de outros atores da rede para consultar antes de responder às perguntas sobre relacionamentos (GIULIANI e PIETROBELLI, 2011).
É importante destacar, porém, que o método Roster só pode ser utilizado quando o conjunto de atores que compõem a rede é conhecido de antemão pelo pesquisador (BUTTS, 2008). Deve-se atentar também para o fato de que em redes compostas por muitos atores, o trabalho da criação e da leitura da lista completa pode ser exaustivo, de modo que a mesma é mais indicada para
pesquisas de redes que possuam um número limitado de atores (BUTTS, 2008; THADEN e ROTOLO, 2009).
Independentemente do método a ser utilizado, as pesquisas em análises de redes sociais requerem algumas considerações éticas. Isso porque o anonimato na fase de coleta de dados não se faz possível, uma vez que os entrevistados têm de comunicar nomes de outros atores com os quais mantenham relações (GIULIANI e PIETROBELLI, 2011). Entretanto, os autores mostram que é possível (e necessário) garantir aos inquiridos a confidencialidade, explicando-lhes que suas informações relacionais não serão divulgadas a outros atores e que seus nomes não aparecerão nos gráficos ou mapas da rede, a menos que isso seja anteriormente acordado com os mesmos. Giuliani e Pietrobelli (2011) ainda destacam que as questões relacionais devem ser formuladas de um modo em que se evite, tanto quanto possível, que os entrevistados precisem fornecer informações de cunho estratégico, já que muitos deles podem não estar dispostos a isto.