Para a análise de competitividade, optou-se pela adaptação do conjunto de direcionadores de competitividade desenvolvidos por Van Duren, Martin e Westgren (1991) quando da análise da competitividade do setor agroalimentar canadense. A pesquisa também se utiliza da adaptação desenvolvida por Silva e Batalha (2000), dessa mesma metodologia, para o estudo da competitividade e eficiência da cadeia pecuária brasileira. Os pesquisadores estabeleceram indicadores fundamentais de desempenho que permitissem uma compreensão universalizada e pudessem ser mensurados objetivamente por meio de “direcionadores”, à medida que informações quantitativas e qualitativas estivessem disponíveis. Os principais indicadores apontados por Van Duren, Martin e Westgren (1991) e Silva e Batalha (2000), são tecnologia e inovação, insumos e infraestrutura, estrutura de mercado, gestão interna, ambiente institucional, relações de mercado. A seguir, cada um desses direcionadores será melhor detalhado.
- Tecnologia e Inovação: tem influência direta no custo de produção, na produtividade e na qualidade da produção. Se tratando de produção agropecuária, geralmente a organização rural depende de outros agentes para o desenvolvimento de novas tecnologias. Assim, este direcionador avaliará dois subfatores: tecnologias de produção e aquisição de novas tecnologias.
- Insumos e infraestrutura: a constância de fornecimento, qualidade, quantidade e preço dos insumos interferem na possibilidade de a empresa manter ou aumentar sua participação de mercado e, consequentemente, na sua competitividade. Quanto ao direcionador “insumos e infraestrutura” será analisado o subfator disponibilidade e qualidade de insumos, distância dos fornecedores, condições de rodovias e condições de infraestrutura geral (energia, água, telefone, etc).
- Estrutura de mercado: este direcionador se faz importante uma vez que a competitividade das empresas muito tem a ver com sua participação no mercado. Para estudar o direcionador “estrutura de mercado” foram delimitados os
subfatores capacidade de produção, capacidade de negociação com fornecedores de insumos e compradores e capacidade ociosa de produção.
- Gestão interna: a gestão interna da organização está relacionada ao uso de ferramentas que permitam ao gestor identificar e entender a situação do mercado em que atua e direcionar seus recursos da melhor maneira possível. Os subfatores analisados serão ferramentas de gestão (informática, controle de custos e controle de receitas); e planejamento estratégico (estabelecimento de metas de médio e longo prazo).
- Ambiente institucional: as ações do governo têm forte influência sobre a competitividade das empresas, enquadrando-se nos fatores sistêmicos (não controláveis pela firma). Avaliação de normas e leis federais e estaduais que regularizam a atividade, disponibilidade e acesso ao crédito, programas de políticas setoriais, e avaliação da legislação ambiental serão os subfatores analisados neste direcionador.
- Relações de mercado: este direcionador trata da forma como os agentes se relacionam com o mercado. Os subfatores a serem analisados são a relação dos piscicultores com os compradores, forma como é estabelecido o preço e como é feito o pagamento, formação e cumprimento de contratos e a existência de incentivos de parcerias e ações conjuntas com outros produtores ou compradores.
Como o foco de análise da pesquisa são agentes vinculados à piscicultura, e esta possui como características o uso intensivo de água e a instalação dos tanques-rede em rios ou áreas alagadas, foi inserido um novo direcionador de competitividade aos seis propostos no modelo supracitado: Questões ambientais. Este sétimo direcionador tem a função de analisar o nível de competitividade dos agentes diante de questões ambientais através dos seguintes subfatores: atendimento às leis ambientais, avaliação sobre a influência dos impactos ambientais na atividade, bem como a avaliação dos impactos causados pela atividade no ambiente.
Esse indicador ambiental ganha importância uma vez que, para atender a demanda nacional e internacional, as nações ao redor do mundo têm continuamente desenvolvido e aprimorado tecnologias e gestão, visando aumentar os volumes de produção e ganhos de eficiência para uma série de organismos aquáticos em um ambiente de limitados recursos naturais (RANA e HASAN, 2013). Assim, paralelo ao desenvolvimento e à intensificação da aquicultura, cresce a
necessidade de monitoramento dos recursos hídricos, visando a melhora nos processos de gestão e acompanhamento dos procedimentos efetivados, o que se traduziria ainda em contribuição ao processo de licenciamento e adequação ambiental (SAMPAIO et al., 2013).
Barbosa e Candido (2013) apontam que fatores como regulamentações ambientais, reputação da empresa e conscientização do consumidor contribuem para o grau de aproximação de uma empresa à incorporação da variável ambiental em seu processo de gestão, colaborando para que as empresas incrementem a sua vantagem competitiva frente à concorrência.
O Quadro 7 apresenta os direcionadores de competitividade e seus subfatores já descritos anteriormente de forma mais detalhada, de acordo com as questões inclusas no formulário aplicado junto aos piscicultores.
Quadro 7 - Direcionadores de competitividade e subfatores utilizados na pesquisa
Direcionadores Subfatores
Tecnologia Grau de atualização dos tanques-rede Grau de atualização demais equipamentos Uso de rações específicas
Insumos e
infraestrutura Qualidade e localização dos fornecedores de ração Qualidade e localização dos fornecedores de alevinos Condições das rodovias da região
Condições de infraestrutura (energia, água, telefone, etc) Estrutura de mercado Localização da propriedade em relação aos clientes
Número de piscicultores/produtores na represa Capacidade de negociação com o comprador
Capacidade de negociação com os fornecedores de insumos
Capacidade de produção em relação ao tamanho de mercado
Gestão interna Qualificação de mão de obra operacional
Posicionamento dos tanques-rede e demais equipamentos de produção e manejo de peixes dentro da propriedade
Ambiente
institucional Normas/leis federais que regularizam a atividade Normas/leis estaduais que regularizam a atividade Programas governamentais de incentivo para a atividade Acesso ao crédito especial para produtor rural ou
piscicultor
Impacto da legislação ambiental na atividade
Relações de mercado Relação com organização para qual vende a produção Forma como é estabelecido o preço da tilápia e a forma
de pagamento
Formação e cumprimento de contratos
Incentivos para parcerias e ações conjuntas com outros produtores ou compradores
Questões Ambientais Atendimento à legislação ambiental Impacto ambiental na atividade
Impacto ambiental que a atividade causa Fonte: Elaborado pela autora.
A metodologia de análise da competitividade aplicada neste trabalho foi utilizada em diagnósticos e modelos conceituais de cadeias produtivas relacionadas com o agronegócio (Silva e Batalha, 2000, por exemplo). No entanto, a pesquisa atual é limitada ao elo da cadeia representada pelos produtores/piscicultores (identificados em uma cadeia agroindustrial como o elo “dentro da porteira”) e seus sistemas de produção. Com isto, pretende-se uma análise mais detalhada de um segmento da cadeia produtiva pela carência de um método eficaz de diagnóstico interno da competitividade dos sistemas de produção utilizados pelos piscicultores.
Esta etapa do formulário, referente à competitividade dos agentes, contou com perguntas estruturadas e parametrizadas9 por meio de uma escala de valor ordinal (do grau mais importante ao menos importante) por meio de escala Likert10, que varia de “muito favorável” (quando existe significativa contribuição positiva do fator), a “muito desfavorável” (existência de entraves ou mesmo impedimentos) para cada fator determinante da competitividade e da identificação com a rede. Como valores intermediários, foram estabelecidas as categorias “favorável”, “neutro” e “desfavorável”, conforme mostra o Quadro 8.
9 A opção por utilizar o formulário com perguntas já estruturadas e parametrizadas para a análise da
competitividade, deve-se ao fato da sua eficiência e aplicabilidade já estar devidamente comprovada, conforme pode ser visto em Pigatto (2001), César e Batalha (2011), Aro e Batalha (2013), Oaigen et al (2013).
10 Escala Likert é uma forma de mensuração composta por um conjunto de itens, expostos na forma
de frases, na qual se pede para que o sujeito entrevistado manifeste graus de concordância para cada uma das frases, de modo que se possa associar números aos fenômenos (CUNHA, 2007).
Quadro 8 - Exemplo de questão da avaliação dos subfatores de competitividade
Fonte: Elaborado pela autora.
Foi solicitado aos entrevistados que estabelecessem uma nota para cada um dos sub-fatores, de acordo com a importância que esse tinha para a sua competitividade na piscicultura, conforme exemplo de uma das perguntas do indicador “estrutura de mercado” apresentado no Quadro 8.
Para que os resultados da avaliação pudessem ser visualizados em representação gráfica, as respostas foram transformadas em valores que variam progressivamente, em intervalos unitários, de -2, para uma avaliação “muito desfavorável”, a +2, para “muito favorável”, para cada um dos subfatores analisados. A partir das ponderações apontadas pelos 12 piscicultores foi possível estabelecer uma média para cada um dos subfatores analisados e que formam os sete (7) direcionadores de competitividade
Essa somatória das médias das notas de cada conjunto de subfatores gerou inicialmente uma nota para cada um dos direcionadores. Como o número de subfatores que compõe cada direcionador é distinto (conforme mostrado no quadro 7), por exemplo, o direcionador gestão interna é formado por dois (2) subfatores enquanto o direcionador estrutura de mercado é formado por cinco (5) subfatores, a simples somatória das médias das notas dos subfatores não poderia ser utilizada como critério de classificação dos direcionadores.
Em função disso optou-se por transformar a somatória obtida para cada um dos sete (7) direcionadores em base 100 e, a partir dessa base, estabelecer pesos para os subfatores, de tal forma que a somatória dos pesos dos subfatores de cada direcionador fosse sempre igual a um (1).
Na sequência, multiplicou-se o peso de cada um dos subfatores pela média obtida pelo subfator, obtendo assim uma nova ponderação para cada subfator a partir dos pesos pré-estabelecidos.
A partir dessa nova ponderação foi possível somar as notas de cada conjunto de subfator com o objetivo de gerar a nota de cada um dos sete (7)
A localização da sua propriedade em relação aos seus clientes é:
indicadores de competitividade, e que mostra a competitividade dos piscicultores instalados na UHE de Canoas I.
Para estabelecer os indicadores de competitividade por estado, utilizou-se a mesma metodologia apresentada anteriormente, fazendo apenas a restrição quanto ao uso dos dados dos piscicultores localizados em cada um dos dois estados.
Para que fosse possível determinar a existência de uma relação entre o nível de competitividade do piscicultor e a sua inserção na rede, foi necessário estabelecer qual o nível de competitividade de cada um dos piscicultores instalados na represa da UHE de Canoas I.
A metodologia utilizada para determinar a competitividade do conjunto de piscicultores, prevê sua análise a partir da análise conjunta dos sete (7) direcionadores já apresentados. O setor ou conjunto de produtores possui um maior nível de competitividade em um conjunto determinado de direcionadores e um menor nível de competividade em outro conjunto de direcionadores.
Para identificar a competitividade individual de cada um dos piscicultores, optou-se por unificar os sete (7) direcionadores em um único indicador de competitividade. O primeiro passo foi recalcular todas as ponderações feitas pelos entrevistados, utilizando-se da mesma metodologia aplicada no caso da análise conjunta e por estado.
Nesse caso, a ponderação inicialmente atribuída pelo piscicultor para cada um dos subfatores foi multiplicada pelo peso do subfator calculado para toda a amostra. A segunda etapa foi calcular, para cada piscicultor, o grau de competitividade para cada um dos sete (7) direcionadores. O uso da média simples dos sete direcionadores como resultado do seu nível de competitividade esconderia distorções provocadas pelo maior peso que determinados direcionadores possuem em relação aos demais (de mesma forma que diferentes subfatores possuem pesos dispares dentro de um mesmo direcionador).
Assim, a quarta etapa foi estabelecer pesos para cada um dos sete direcionadores. Essa ação foi realizada através da consulta a quatro (4) especialistas11 que (individualmente) atribuíram pesos para cada um dos
11 Os quatro (4) especialistas consultados foram: dois dos piscicultores entrevistados, sendo um de
Cândido Mota-SP e outro de Itambaracá-PR; um Professor Doutor que também explora atividade piscícola; e uma Zootecnista (no caso, a própria pesquisadora/autora do trabalho).
direcionadores de competitividade, de tal maneira que a somatória dos direcionadores resultasse em 1, conforme Quadro 9.
Quadro 9 - Pesos dos direcionadores segundo especialistas Pesos Direcionador Especialista
1 Especialista 2 Especialista 3 Especialista 4 Pesos
Tecnologia e Inovação 25 9 10 14 0,1 Insumos e infraestrutura 20 20 20 16 0,2 Estrutura de mercado 15 9 15 12 0,1 Gestão interna 10 25 20 20 0,2 Ambiente institucional 10 14 10 10 0,1 Relações de mercado 10 13 15 20 0,1 Questões ambientais 10 10 10 8 0,1 Total 100 100 100 100 1
Fonte: Elaborado pela autora.
Com a atribuição dos pesos para cada um dos direcionadores, a quinta etapa foi multiplicar a nota atribuída a cada um dos direcionadores pelo seu respectivo peso e, finalmente, como sexta etapa, foram somadas as sete notas (uma de cada direcionador) e estabelecido o grau de competitividade individual de cada piscicultor, podendo variar de -2 (baixa competitividade) a +2 (alta competitividade).
A Figura 5 apresenta um esquema geral da metodologia empregada no trabalho.
Figura 5 – Esquema da metodologia
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para uma melhor compreensão dos resultados, os mesmos serão apresentados em quatro seções, sendo a primeira de caracterização da atividade e dos piscicultores; na segunda e terceira seções as análises de redes sociais e competitividade serão feitas separadamente e; na quarta seção, será feita a análise conjunta sobre a inserção em redes sociais e o nível de competitividade dos piscicultores localizados na UHE de Canoas I.