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corpo, ou nenhum dos dois, encontram-se e não os façamos viver, ouvir ou falar, pois isto poderia ser inconveniente a nós, desejosos de que a glória, pelo seu valor, não seja conferida a Cúrcio; ou seja, não deixaremos nada para aqueles que morrerem pela sua pátria. Assim, não apenas ele será privado do título de virtuoso, como também da fama, a qual tu afirmavas ser a companheira de todas as ações corretas. Não é justo trabalhar duro para obter fama após a morte. Pois, qual é a importância para um morto sobre algo que ele não pode sentir? Sobre a minha tumba, tu podes cantar meus feitos ao som da lira ou da cítara, a minha diligência e o meu fim, que os meus ouvidos não te escutarão. Eu posso estar nas bocas de todos e, ainda assim, meus membros se dissolverão. Essas coisas não me atingem mais do que os lírios, as rosas e as outras flores espalhadas pelos túmulos. Elas não consolam, não deleitam ou rejuvenescem o corpo jazido. Os elogios não atingem a alma destacada do corpo. Elas só provocam prazer entre os vivos, nunca entre os mortos.

(2) Serão os estóicos que avaliarão com que seriedade toda a celebração dos mortos será

executada. De certo modo, todos os bens pertencem aos mortais: mesmo quando parecem ser oferecidos aos mortos, somos nós vivos que deles gozamos, como a magnificência dos sepulcros e das estátuas dos ancestrais, as quais são um ornamento não para os mortos, mas sim para seus descendentes, pelo tempo que viverem. E agora que mencionei as estátuas, lembrei-me de dizer algo em particular sobre Górgias. Em sua honra, os atenienses erigiram por decreto público uma estátua de ouro maciço no ginásio – algo que eles não haviam feito por nenhum outro homem193. Agora, supondo que Górgias houvesse ignorado essa honra pública: neste caso, poderíamos então acreditar que daquela ele poderia ter obtido algum prazer ou vantagem? Nada, absolutamente nada! Pois é a alma e o corpo que detém a consciência dos bens. (3) E, finalmente, pergunto: aquilo que não possui qualquer utilidade

146 nem aos vivos poderá ser útil aos mortos? Suponde que nenhuma inscrição ou símbolo de reconhecimento houvessem sido inscritos numa estátua, como naquela de Fídias, no escudo de Minerva. Quase o mesmo ocorrera àquelas pessoas de quem Ésquines falava em sua oração contra Ctesifonte194, em cuja honra algumas estátuas de pedra sem nenhuma inscrição foram erguidas no porto de Erme quando elas retornaram vitoriosas da batalha contra os Medos. Qual vantagem podemos pensar que fora conferida àqueles homens, se os habitantes não sabiam nem ao menos quem eles eram? E, falando em mortos, que vantagem obtiveram – estando mortos – Harmódio e Aristogíton195, os libertadores de Atenas, do fato de suas efígies de bronze terem sido transportadas por Xerxes para o seu reino, após ter conquistado a cidade? – só depois de muito tempo Seleuco as trouxera de volta ao seu posto de origem e, finalmente, quando elas desembarcaram em Rodes, os ródios ofereceram-lhes hospitalidade pública e as colocaram sobre os altares sagrados196. (4) Está certo que suas estátuas não foram honradas, mas eles foram privados de alguma honra? Logo, é melhor ser uma estátua honrada que um cadáver mais desprezado do que uma estátua. Que sublime é o bem da fama após a morte, comparado às pedras que parecem felizes! A menos que, por acaso, acreditemos em Virgílio quando este dizia que Palinuro estava feliz no inferno porque o promontório onde fora enterrado, sob uma pilha de pedras, havia sido chamado pelo seu nome, e outras coisas do gênero197. Com efeito, essa idéia não tem nenhuma credibilidade, pois, nem Enéas nunca descera até o inferno com Sibila, nem Palinuro nunca comandara uma frota troiana e, certamente, nunca dera seu nome à montanha, nem poderia Virgílio saber o que acontece no inferno e, enfim, nem seria possível provar a existência de um inferno. (5) Por outro lado, também não compreendo como o mesmo autor, em outro livro, cria que nenhuma das honras funerárias e de sepulto atingiriam o morto, na passagem onde falava sobre o defunto Palas:

194 Ésquines, Contro Ctesifonte, 183 (orador ateniense, 389ac - 314ac).

195 Também conhecidos como os “tiranicidas”, esses dois atenienses tornaram-se heróis por serem responsáveis pelo assassinato de Hiparco, filho do tirano Psístrato (Tucídides, A Guerra dos Peloponésios e

Atenienses, I, 20, 2)

196 Valério Máximo, Factorum et dictorum memorabilium, II, 10, ext. 1, 4. 197 Virgílio, Eneida, VI, 383.

147 Nós, lamentosos, acompanhamos as vãs honrarias do

jovem sem vida, que não deve mais nada a nenhum dos deuses do céu198.

Disso resulta que, a propósito da confiança na autoridade de Virgílio, como ocorre tão frequentemente com outros poetas, ele exaltara com os mais altos elogios homens que nunca existiram, como: Niso e Euríalo199, Pândaro e Bícias200, Palante e Lauso201, e Camilla202. Quem, em sua perfeita razão, diria que essas pessoas estão felizes graças a esta difusa fama na qual parecem viver, sempre que lemos os poetas? O mesmo é válido para os mortos, para quem não existir é o mesmo que nunca ter existido.

(6) De fato, quando eu vejo que alguém é honrado, ou não tem um nome, ou seja,

um nome falso, ou desconhecido, ou enfim, que seja após a sua morte, acredito que não é o homem que está sendo honrado, mas sim a virtude que existia naquele homem. Mas, até quando devo dissimular e não ter a coragem de vos falar abertamente? A honra associada às estátuas, sepulcros, exéquias e demais coisas do gênero, não foram invenções mais sábias que aquela de honrar igualmente os animais. Mas, passando por cima do Bucéfalo de Alexandre203, do cachorro de Xantipo204, do mosquito de Virgílio205, do papagaio de Ovídio206 e de tantos outros sobre os quais lemos, eu, pessoalmente, em uma vila no interior da Gália de outrora, li inscrito em mármore branco estes dois pequenos versos:

198 Virgílio, Eneida, XI, 51-53.

199 Niso e Euríalo, dois soldados troianos retratados na Eneida de Virgílio (IX, 176-450), constituíram um grande exemplo de amizade e amor homo-erótico. Em uma investida contra os homens de Eneias, Euríalo, o belo jovem e inexperiente, furta um elmo. Denunciado pelo troféu, os inimigos conseguem cercá-lo e, apesar da tentativa de Niso para salvá-lo, os dois soldados acabam sendo mortos.

200 Pândaro e Bícias são dois irmãos troianos que lutam juntos contra as forças de Turno. Os dois morrem heroicamente em batalha, conforme retratados na Eneida de Virgílio (IX, 672-755).

201 Palante e Lauso são dois jovens de admirável beleza que morrem bravamente em batalha para honrar a figura de seus pais, como retratados na Eneida de Virgílio (X, 808-820).

202 Camilla desempenha papel importante na Eneida de Virgílio (XI, 539-835) ao lutar heroicamente em seu cavalo com outras guerreiras virgens, ao lado de Turno contra Eneias.

203 Bucéfalo, o cavalo preferido de Alexandre Magno, rei da Macedônia, morto em sua campanha na Índia. Para honrá-lo, Alexandre fundou uma cidade com o seu nome no local de sua morte.

204 Xantipo, grande general espartano que lutou ao lado das tropas cartaginesas contra os romanos nas Primeiras Guerras Púnicas.

205 O Mosquito (Culex), um dos poemas que compõem a coleção Appendix vergiliana, por muito tempo atribuída erroneamente a Virgílio, narra a história de como um camponês, depois de matar um mosquito, recebe o seu espírito que vem repreendê-lo e contar-lhe coisas sobre o submundo.

148 Pequeno Labor, pequena é a tua casa. Se tens um pequeno

nome, breve será a tua inscrição, e um pequeno poema terás207.

(7) Vamos, então! Invejemos agora as inscrições feitas para cães! Também não

precisamos escutar aqueles que, não loucos, mas sedentos por este mísero prêmio, dizem: “Embora depois de nossa morte não mais nos interessará o que for dito de nós, ainda assim agora nos interessa prever o que será dito de nós na posteridade. Desse modo, quando estivermos mortos, não ficaremos frios, nem apodreceremos e nem nos dissolveremos”. Se devemos cuidar de tais coisas, então admito que caberá a nós também cuidarmos da glória futura. Mas, tais coisas certamente não têm sentido, pois os enterrados, da mesma forma que não sofrem nenhuma moléstia, também não gozam de nenhum prazer. E nem digo que diversas vezes a fama que esperávamos após a morte não vem e daí fica claro que tanto aquela alegria, quanto aquela fadiga eram tolices. (8) Se não temos consciência da glória durante o sono, a coisa mais parecida com a morte, a teremos depois de mortos, que é como um sono eterno? Aqueles que pensam assim devem estar obviamente dormindo, ou mortos. Qualquer um sobre este ponto poderia exclamar: “Ó, homem infeliz! O que fazes? Por que desperdiças o teu tempo com fadigas inúteis? Por que cegamente rejeitas tantos prazeres na vida pela memória futura do teu nome? Hoje morremos e amanhã o silêncio recairá sobre nós. Os homens se lembram apenas das coisas presentes e se esquecem dos fatos passados, enquanto se agarram à espera pelos fatos futuros. Quem se recorda de Camillo208, Cincinato209 e Papírio210, os melhores

207 Na primeira redação da obra, Valla havia citado quatro versos do Panormita. Aqui ele se utiliza de um dístico de Maffeo Vegio. Cf. L. Raffaele, op. cit., pp. 134, 144, 148, onde foram publicados dísticos quase idênticos, a p. 232 se encontra uma composição a Piceninum cujo incipit de fato é: “Parve labor...”. No entanto, sua leitura não possibilitou verificar a correspondência completa com o dístico de Vegio (NE, G. Radetti, op. cit., p. 103). Segundo De Panizza, “parve labor” (“Little Swink”) esconde, talvez, um jogo de palavras entre “labor” [trabalho] e “swink”, como nome de um animal, de certo, um macaco.

208 Marcus Furius Camillus (446ac - 365ac.), militar e político de ascendência patrícia, viveu nos inícios da República Romana. Segundo Tito Lívio e Plutarco, Camilo celebrou quatro triunfos, foi eleito ditador em cinco ocasiões e foi honrado em sua morte com o título de Segundo Fundador de Roma.

209 Lucius Quinctius Cincinnatus (519ac. - 439ac.) foi general, cônsul e por um certo período, ditador romano, por determinação do Senado. Após cumprir com suas obrigações, ele voltou à vida pastoril.

210 Lucius Papirius Cursor, político e general romano que ocupou cinco vezes o consulado e duas vezes a ditadura. Foi designado ditador para tomar o comando na Segunda Guerra Samnita.

149 generais? Quantos, pela falta de quem escrevesse sobre eles, não transmitiram seus nomes à posteridadeς”.

(9) E tu, que suportaste tantas coisas, passaste tantas noites em claro, que fizeste

tanto, não fugindo nem mesmo da morte, tens a esperança de que um dia os homens falem de ti, quando tu percebes que até mesmo os reis e os maiores príncipes foram banidos para a eterna obscuridade do silêncio? Diz-me, por favor, quem foi o terceiro, o quarto ou o quinto rei dos romanos? Pergunte a alguém do povo. Este não saberá te dizer nem mesmo quem fora o segundo. E se alguém, entre dez mil, saber tal informação, ele deve dela se lembrar como se fosse um sonho, algo sobre o qual ele nunca pensa. E nem é plausível que tais príncipes tenham falhado em fazer algo digno de lembrança, tanto de bom quanto de mal. Mas, tudo o que fizeram foi enterrado com eles. (10) Uma idade sucede à outra e cada qual se preocupa consigo mesma. Uma geração não apenas não sabe o que a anterior realizou, como também não se importa em saber, ou, se sabe, julgá-la mal ou pouco a admira. Similarmente, acontece muitas vezes que um homem, por seu esplendor, roube a cena de outros, de modo que é preferível ser completamente rejeitado a ser colocado entre os últimos. Assim, em qualquer ordem de senadores, oradores, juristas ou médicos, a posição mais baixa exibe antes o quanto a estes falta, que a torpeza de sua dignidade.

(11) Para concluir e dizer o que eu realmente penso, convoco-vos como testemunha,

ó deuses do céu, da terra e do mar! Se eu tivesse o direito de escolher, eu não daria mais crédito à glória póstuma de Rômulo e Numa Pompílio do que à obscuridade de qualquer camponês sobre quem nada é lembrado; ou, em termos mais apropriados, eu não valorizaria a fama deles mais que a de Tarquínio Soberbo; ou, falando mais audaciosamente, que a infâmia de Térsites e Sinón; ou, se existe alguém ainda mais desprezível que Térsites e Sinón, que a fama daquele a quem Teopompo acusara de ter incendiado o templo de Diana em Éfeso, pois, não sendo capaz de obter fama através de um feito honroso, executara tal ato com o intuito de tornar-se famoso por algo detestável, como de fato ocorreu211. Mas, se este e os outros, louvados por suas mortes, foram indubitavelmente tolos, mais tolos ainda foram aqueles a quem fora concedido viver de maneira mais feliz que aquele estranho homem de Éfeso e a quem uma argumentação inconsistente, ou melhor, insana, encorajou- os a morrer.

211 Cf. Valério Máximo, VIII, 14, ext. 5.

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(12) De um homem que foi morto resta apenas o nome, que não é parte do homem.

Por que persistes em adornar o teu nome, se tal não te ajudarás em nada a conservar o teu corpo? Se te concentrares em nada mais além da fama, a qual consiste em certo som emanado da boca de outrem, não sentirás o teu corpo, sem o qual..., quero dizer, sem orelhas, a fama não poderá ser ouvida. Melhor fazem aqueles que, como naquele verso grego, “afirmam estar contentes mesmo se após a sua morte o mundo inteiro pegasse fogo”212. Estas coisas foram ditas em detrimento daqueles desejosos de glória póstuma.