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agora no que consiste a justiça. O próprio argumento assim o requer. Como primeiramente discuti a continência, a moderação e em seguida a fortitude, agora é conveniente tratar da justiça. Não é necessário prolongar-me muito sobre a prudência que é, de certa forma, guia e precursora das demais.

(2) Na questão sobre a justiça, devemos primeiro resolver uma grande e forte

objeção que resiste a quase um exército inteiro de veteranos e à segunda divisão da infantaria238. Se todas as coisas devem ser mensuradas de acordo com a vantagem que oferecem, ou seja, pela utilidade da riqueza, do poder, da glória e outros, quero dizer, pelo prazer ele mesmo; então, dizem nossos adversários, toda clemência, bondade, severidade, gratidão e santidade serão exterminadas, como se fossem derrubados e estilhaçados os portões da justiça e, da porta escancarada, irrompessem os crimes. Daí nascerão os saques, as fraudes, as traições, as injustiças, as ofensas e tragédias através das quais a humanidade será levada ao seu total extermínio.

(3) Isto está muito longe da nossa convicção. Ninguém é tão feroz e privado de

humanidade a ponto de não haver nele nenhum resquício de certa probidade, ou que nele não resida ao menos uma semente de virtude capaz de conduzi-lo a fazer algo não para si mesmo, mas para o bem da honestidade, sem alusão a nenhum outro tipo de vantagem. Haníbal, um homem feroz e pérfido, concedeu um enterro honorável a Flamínio e Marcelo, grandes inimigos que ele matara em guerra. Ele também procurou cuidadosamente por Paulo entre os cadáveres para que pudesse enterrá-lo; enviou os ossos de Graco à sua terra

235 Marcus Aemilius Scaurus, (163ac. - 89ac.), um político romano considerado desonesto, fora acusado de receber suborno de Yugarta. Seu filho, Marcus Escauro, o jovem, governador da Sardinia, fora acusado de ambição (ambitio), extravagâncias e de praticar extorções. Por tais crimes, fora condenado ao exílio.

236 Publius Claudius Pulcher (_- 249/246ac.), general durante as Primeiras Guerras Púnicas, sofrera uma grave derrota contra Cartago supostamente causada pela sua negligência diante das sagradas profecias. Por desrespeitar um sinal de mal presságio, fora acusado de alta traição e impiedade.

237 Quintiliano, Institutio Oratoria, III, 8, 44. 238 Sobre voz princeps, ver nota 157.

157 natal após despojar-se de suas cinzas honrosamente e deixou intocadas muitas cidades e fortificações que havia conquistado em guerra. Do mesmo modo, o tirano Dionísio, um extraordinário exemplo de perversidade, não impôs aos siracusanos todos os encargos que poderia e deu provas de sua humanidade no confronto entre aqueles dois famosos pitagorianos239. (4) Além disso, se todas as coisas devem ser medidas pelo fim de sua utilidade, então as pessoas maldosas devem ser elogiadas e as boas censuradas, e tão mais censuradas quanto mais providas e ornadas de todas as virtudes – como aqueles que não hesitam em cometer uma grande injúria contra si mesmos, contanto que tenham agido honestamente. Exemplos como este encontramos em Junio Brutus240, quem condenara seus próprios filhos a morte por terem conspirado traiçoeiramente contra ele; em Torquato241, quem ordenara que seu nobre filho fosse decapitado devido a uma pequena desobediência; em Fabrício242 e Cúrio243, que recusaram uma grande quantidade de ouro ofertada por Pirro e pelos samnitas; e finalmente, em toda a população romana (omitindo outros exemplos), a qual travou as mais penosas guerras não apenas para ajudar seus aliados e amigos, o que é um sinal de ânimo leal, mas também por todos aqueles oprimidos e injustiçados, o que indica clemência. Nesse caso, pode-se dizer que o povo romano agira honestamente ou, não havendo precedentes para afirmá-lo, desonestamente? (5) Pois, de fato, não se encontra ninguém que não os admire, exalte ou elogie, e, o que é mais significante, que não tenha mencionado a sua memória com amor e afeição, mesmo sem nunca os ter visto. Por outro lado, todos vituperam e desprezam aqueles dois vendedores de casas infectadas por pragas, mesmo se estas pessoas não tenham sido enganadas como compradoras: Pítio de Siracusa e Tibério Cláudio Centúmalo, a respeito de quem Cícero falava com reprovação244. As pessoas amam o esplendor da honestidade e detestam a feiúra da desonestidade; consideram merecedora de punição a utilidade carente de justiça e dignificam com o mais alto louvor o

239 Dionísio I, tirano de Siracusa (405ac. - 367ac.), ao ver que esses dois se mostravam dispostos a sacrificar- se um pelo outro, ele resolve tornar-se um terceiro parceiro nesta relação. Cícero, Disputas Tusculanas, 5, 22, 63.

240 Ver nota 162. 241 Ver nota 162.

242 Gaius Fabricius Luscinus, com a derrota de Roma para Pirro de Épiro, fora enviado como embaixador para negociar o resgate dos prisioneiros. Após todas as suas tentativas de subornar Pirro, Fabricius ficou impressionado por sua decisão de devolvê-los sem nenhum resgate.

243 Manius Curius Dentatus, herói plebeu da república romana, famoso por derrotar os samnitas e Pirro de Épiro em 275 a.c.

158 dano aplicado justamente, como por exemplo, ajudar aos necessitados. Todas estas coisas são uma fonte de objeção contra o nosso caso.

XV. (1) Eu não negarei com veemência que existam virtudes e vícios e que aquelas

qualidades que eles mencionaram – lealdade, bondade e outras do gênero – sejam barreiras contra as perversidades. No entanto, não me parece uma interpretação correta atribuí-las à finalidade da honestidade. Portanto, ousarei dizer que aqueles que foram mencionados certamente não agiram nem honestamente, nem desonestamente, uma vez que o honesto e o desonesto não são nada! Como eu falara a propósito da fortaleza: o que é agir justamente como, por exemplo, ser magnânimo, bondoso e generoso? É o mesmo que ser honesto. Mas o que significa ser honesto? O mesmo que agir virtuosamente. E o que é a virtude? Um bem, tu dirias, desejável por si e por nenhuma outra finalidade, digno de louvor por natureza. Mas o que é um bem? Substância, ato ou qualidade? Ato, tu dirás. Mas qual ato? A ação da virtude e da honestidade, dirás. Mas, se eu não sei o que é a honestidade e a virtude, (2) voltamos, assim, ao ponto de partida. Como afirmava Horácio com justeza:

De nada serve um exemplo que resolve uma dificuldade com outra dificuldade245.

Daí se mostra evidente que a palavra honestidade [honestas] é um vocábulo vazio, fútil, que não resulta em nada, não prova nada e pelo qual não há nada a fazer. E logo, aqueles, anteriormente mencionados, não fizeram nada pelo bem da honestidade. O que os motivou, então, a agir? Muitas são as possíveis razões, e não me pergunto ou investigo quais foram as verdadeiras. Basta que o motivo tenha sido a honestidade, ou seja, nada.

(3) Embora isto seja suficiente para minha defesa, é preciso, contudo, produzir uma

resposta mais ampla e abrangente e demonstrar que aqueles anteriormente mencionados não agiram por consideração à honestidade, mas de acordo com a utilidade, a quem todas as ações são atribuídas. Para dar uma resposta genérica: a utilidade é definida como aquela responsável por eliminar ou compensar o próprio prejuízo. É útil ao peixe alimentar-se vários dias da isca jogada na água para que possa ser mais facilmente capturado? Ou, é útil

245 Horácio, Sátiras, II, 3, 103.

159 ao cordeiro comer da grama mais saborosa sabendo que, o quanto antes ele engordar, mais rápido terá a sua garganta cortada?

(4) Símile a estes se poderia dizer da pessoa que prefere bens pequenos aos grandes;

ou melhor, não podemos nem ao menos considerar como bem aquilo que traz malefícios a nós mesmos. Vós estóicos, no entanto, seguis uma teoria parecida quando nos ensinam sobre a honestidade. Podes tu realmente salvar um homem em perigo te apresentando em juízo no seu lugar? Se procederes assim, terás agido erroneamente. Mas, tu dirás: “Manter a palavra em promessas é honesto”. Ao invés disso, tu terias tornado tal ação desonesta. Não fugir de uma batalha ou abandonar um posto é um exemplo de fortitude, mas, permanecer quando todos estão fugindo é loucura. A magnanimidade é louvável, mas, não guardar nada para si é desastroso. Sofrer um ou dois insultos é sinal de paciência, mas, não replicar ou refrear a petulância de quem abusa de ti continuamente é cair no vício da apatia.

(5) Aqueles que seguem o princípio estóico, contudo, não agem de acordo com ele – nem em suas próprias escolas, nem nas nossas, visto que eles são devotados à utilidade. Eles preferem perdas mínimas às grandes e bens maiores aos menores. Em todos estes meus exemplos, notamos que aquilo que tu descrevias como sendo o bem mais honesto corresponde ao mais útil. Por que é melhor fugir a ficar firme, quando todos os outros estão fugindo? Por que é melhor não relegar nossas posses aos outros, ou – como se diz – desperdiçá-las, mas conservarmos algo para nós mesmos? Por que é melhor nem sempre escutar pacientemente os insultos, mas retrucar ao agressor? Certamente porque é mais útil, seja para a tua vida, seja para o teu patrimônio, seja para a tua fama. Assim, os bens maiores, que são os mais úteis, são preferidos àqueles menores e as perdas menores às grandes.

(6) É difícil determinar quais são os bens maiores e os menores, principalmente

porque eles mudam de acordo com o tempo, o lugar, a pessoa e outras circunstâncias. Não obstante, direi algo para esclarecer o assunto. Em primeiro lugar, o bem consiste em evitar o mal, os perigos, as preocupações e esforços. Em segundo lugar, em ser amado, a fonte de todos os prazeres. Que isto seja verdade é já conhecido de todos, visto que foram escritos muitos livros sobre a amizade. Tal também pode ser provado por seu contrário: viver em meio ao ódio é como a morte. Logo, seguindo esses critérios, julgamos e distinguimos os bons dos maus pelo fato de saberem escolher entre essas coisas.

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XVI. (1) Mas falemos primeiramente dos maus. Dionísio, o Tirano246, sem dúvida fora mau não porque se apropriara do poder real – coisa desejável e que todos o fariam –, mas porque, além de roubar, matava e não respeitava nada sagrado. E, finalmente, uma vez temido por todos, foi ele quem passou a temer aos outros, como é expresso naquele famoso verso:

Aquele a quem muitos temem, necessariamente teme a muitos247.

O quanto seja penosa essa preocupação, sem mencionar os seus perigos e esforços, foi confirmado por muitos, entre eles, Hierão, tirano da mesma ilha, como lemos em Xenofonte248. Por que deveria procurar outros exemplos? O próprio Dionísio, desejando ensinar a um amigo o que era viver como um tirano, demonstrou não através de palavras, como fizera Hierão, mas através de um exemplo, sempre mais eficaz249. (2) Portanto, classifiquei tal homem como mau porque ele preferia banquetes luxuosos, pompas magníficas e licenciosidades no reinar ao amor cívico; isto é, segurança e felicidade na vida. Teria sido melhor se ele, como Virgílio dizia de Gallo, tivesse sido

ou um pastor de ovelhas, ou um fazedor de vinhos250,

a pensar ter sempre suspensa acima da própria cabeça aquela espada, erguida pela crina de um cavalo. Para o filho de Dionísio, Platão escreveu: “Espero que te lembres ainda dos muitos poetas que apresentaram um tirano moribundo à cena, atribuindo-lhe um discurso assim: „que infeliz eu sou, sem nenhum amigo!‟”251. A mesma coisa é dita de homens cruéis que merecem o mal porque trabalham para o próprio mal. Em relação a isso, contento-me com apenas um exemplo: se alguém esconde dos filhos uma herança reservada por seu pai e passa a ser suspeito aos olhos destes e de outros, certamente é tolo e injusto

246 Ver nota 246.

247 Sêneca, De ira, II, 11, 3. 248 Xenofonte, Hieron, I, 9.

249 Cícero, Disputas Tusculanas, V, 21, 61-62. 250 Virgílio, Éclogas, X, 36.

161 porque não cuidou nem de sua própria vida, nem de seu nome. E mesmo se nenhuma suspeita surgisse, ele ainda assim estaria errando por preferir dinheiro a estima e afeição dos homens.

(3) Também é impossível – exceto para homens opressores ou habituados ao crime – não sentir prazer pelo bem de outrem ou por ser a causa da alegria de alguém, como por exemplo: resgatar alguém da pobreza, de um incêndio, naufrágio ou seqüestro. Logo, devemos nos acostumar, pela experiência diária, a sentirmos prazer pelo bem dos outros e nos esforçarmos a ser estimados por eles; e nisto teremos sucesso apenas se a eles nos apegarmos e tentarmos bem merecê-los. Se negligenciarmos isto, nunca viveremos uma vida feliz.

(4) Voltando a Dionísio e aos homens que trabalham contra si mesmos, estes são

quase cegos, mas, às vezes, abrem os olhos e recuperam o juízo, como vós mesmos confessastes, não por devoção à honestidade, mas pela utilidade. O próprio Dionísio – ao libertar os amigos pitagóricos – e Haníbal – ao enterrar seus inimigos – pretendiam livrar-se da fama de cruéis; ou seja, conciliar-se com os ânimos dos homens. O primeiro, evitando impor tributos arruinadores, e o último, poupando as cidades; ambas as medidas eram proveitosas ao poder deles.

XVII. (1) E agora, tratarei daqueles que vós chamais de bons: Brutus, Torquato e os

demais. Consideremos como eles agiram. Quem pode ignorar o fato de que Brutus matara seus próprios filhos em nome do princípio da honestidade? Como ele poderia ser considerado bom, se costumeiramente chamamos mau a um pai que não faz o possível para o bem de seus filhos, mesmo quando estes são culpados? Menos ainda o faríamos se tivesse sido o próprio pai quem os conduzira ao suplício punitivo da lei – como fizera aquele!

(2) Porém, revelarei aqui o que o levara a isso. Tão profundo e enraizado em seu

coração era o ódio contra o rei Tarquínio, para quem por tanto tempo teve que se fingir de louco, que quando os seus filhos planejaram resgatar este rei pelo preço do exílio, ou até mesmo da morte, de seu próprio pai Brutus, ele então os condenou, considerando-os não mais como seus descentes, mas como se fossem de Tarquínio, o tirano inimigo. Isto também serviu para desencorajar outros a tentarem o mesmo e foi o único meio que Brutus encontrou para preservar seu poder. A este adicionai a glória que antes havíamos separado

162 da honestidade e, assim, torna-se evidente que Brutus foi motivado pela ânsia de glória. Nem mesmo Virgílio poderia silenciar-se diante de tais fatos, dizendo:

(...) como seus filhos reacenderão a guerra, ele os sacrificará pela liberdade. Ó infelizes, (chamareis por vosso castigo com este ato): por este ato os séculos futuros exaltarão...252

E acrescenta:

(...) assim triunfará o amor pela pátria e ainda uma imensa paixão pela glória253.

(3) Por seu amor pela pátria não se deve entender o amor pela honestidade e pela

liberdade de Roma, mas sim o amor pela própria segurança e honra em uma pátria livre. Como pode ter lugar254 um princípio de honestidade onde se assassina os próprios filhos em razão de um exorbitante desejo de glória – feito que vós mesmos admitistes como muito desonesto? O próprio Virgílio atestou isto implicitamente quando chamara a Brutus de infeliz.

XVIII. (1) O mesmo se pode dizer de Torquato, quem, por inveja da verdadeira e

exultante glória de seu filho e por desejo de uma fama falsa e abominável, matou o seu próprio filho para demonstrar ao povo romano que ele respeitava a disciplina militar acima de tudo. Ó pai merecedor de ser trucidado pelos próprios filhos! Justamente nenhum jovem romano veio ao seu encontro quando retornara à cidade. Sobre ele, Virgílio disse:

252 Virgílio, Eneida, VI, 820-21 253 Virgílio, Eneida, VI, 822-23.

254 Ver locus in L&SLD: room, opportunity, cause, occasion, place, time, etc., for any thing: Cic. Quint. 16, 53: “avaritia paululum aliquid loci rationi et consilio dedisset”; locum habere, to find a place: Cic. Off. 3, 33, 117: “qui dolorem summum malum dicit, apud eum, quem locum habet fortitudo?”; id. de Or. 2, 54, 219: “in

163 Vede Torquato e seu machado ensanguentado255.

Sei que muitos outros interpretaram o comportamento de Torquato de modo diferente, mas eu o vejo dessa maneira.