muitas nações preferiam servi-los a comandarem outras. Como tinham por objetivo receber o mais alto louvor e estender ao máximo os seus domínios sobre os povos – ambos objetivos alcançados por essa nação –, eles não injustiçavam ninguém e socorriam a muitos. Nenhum povo em todo o mundo pode ser comparado aos romanos pela glória de suas virtudes e vastidão de seus domínios.
XXI. (1) Quanto aos homens que mereceram o bem de outros, sabei que, como eu
mostrei, se ninguém é impelido a grandes e difíceis empresas a não ser por uma recompensa, então vós estóicos deveríeis envergonhar-vos por terdes abandonado a honestidade entre coisas tão pobres e abjetas. Levar socorro a uma nação em perigo a custo de grandes prejuízos e esforços, como o senado e povo romano fizeram, não é honesto, mas, ser caridoso com os necessitados e apontar a direção correta a alguém perdido é? Teríeis feito melhor e conquistado honra maior para vossa causa se não tivésseis usado tal defesa. (2) Suponde que eu vos conceda isso. Nesse caso, então será este o vosso bem, esta honestidade comum a deuses e homens, esta justiça mais admirável que Lúcifer e Vésper261? Em minha opinião, esse bem perante outros é tão ignóbil quanto é desprezível entre pássaros os morcegos, mais amigos de Vésper que de Lúcifer. Assim, estou quase inclinado a vos conceder por completo que o honesto seja de fato aquilo que vós pretendeis. Que perigo existe nessa concessão? Não maior que não refutar a idéia de que o morcego seja um quadrúpede. Apesar disso, não vos concederei tal defesa para não parecer que eu seja incapaz de arrancá-la de vossas mãos.
(3) Acreditais, talvez, que seja honesto tudo o que é feito por misericórdia? Suponde
que alguns pilhadores, depois de terem tomado e saqueado uma casa, cortado a garganta do senhor e largado incólume sua esposa após tê-la violentado, agiram honestamente ao poupar-lhe a vida? Se eles desejassem agir honestamente e retamente eles teriam poupado a
165 vida do esposo, nem teriam tocado na mulher e teriam deixado a casa intacta. Foi a compaixão inspirada pela beleza da mulher e o prazer do coito a causa que os motivou a pouparem-lhe a vida. Um caso parecido ocorrera também a Horácio quando este, sob o risco de ser condenado à morte, foi salvo por votação do povo romano. Mas não porque tal fosse o justo, visto que ele merecia a morte, e sim porque ele era miserável e o seu enforcamento teria apresentado um espetáculo doloroso262.
(4) Por essa razão, quantas vezes, em julgamentos sérios e capitais, não deixamos o
direito de lado e tentamos mover os juizes à piedade e os dissuadimos de fazer valer a justiça? Muitas das maiores autoridades consideram a misericórdia não como uma virtude, mas como uma paixão263. Creio que a verdade disso é claramente comprovada pelo fato da Natureza ter-nos cedido a misericórdia em comum com os outros animais; como também a ira, a esperança, o ódio, a dor e a alegria. Por outro lado, ela não lhes concedeu virtudes, uma vez que não dissemos de nenhum animal ter continência, justiça ou fortaleza. Apesar de não possuírem virtudes, em muitos momentos os animais demonstram traços claros de compaixão, sobretudo quando eles cuidam de seus filhotes, por cuja proteção lutam até a morte. (5) E não vemos isso acontecer apenas entre uma mesma espécie, mas, muitas vezes, vemos filhotes de uma dada espécie serem amamentados pela mãe de outra, espontaneamente. A cegonha alimenta os seus velhos pais como se fossem seus filhos. Os porcos ajudam-se mutuamente e os elefantes ainda mais. Mas por que eu falo das relações dos animais entre si, quando uma cadela – se acreditarmos na história264– amamentou o rei Ciro e, o que é mais admirável, uma loba amamentou os fundadores de uma das mais importantes cidades conhecidas, depois que eles foram abandonados265? Alguns exemplos do tipo também podem ser relatados sobre animais mais mansos. Os cães certamente
262 Horácio, lendário herói romano, casado com Sabina, uma albana de nascimento, do mesmo modo que sua irmã, Camila, se apaixona por Curiácio, irmão de Sabina. Quando as duas cidades entram em guerra, Horácio e seus irmãos são designados a combater os albanos, entre eles, Curiácio. Ao retornar vitorioso às custas da morte do amado de sua irmã, esta, transtornada, incita violentamente Horácio a matá-la acusando-o de crime por antepor os interesses do Estado aos afetos. No tribunal Horácio é condenado à morte, mas, após a apelação à Assembléia Popular, é absolvido (Tito Lívio, História de Roma, I, 24-25).
263 Ver affectus in L&SLD: A state of body, and esp. of mind produced in one by some influence (cf. affectio, I.), a state or disposition of mind, affection, mood: in Seneca and Pliny, low, ignoble passion or desire: Sen. Ep. 75: “adfectus sunt motus animi improbabiles subiti et concitati”; Plin. Pan. 79, 3.
264 Heródoto, Historia, I, 122.
265 Segundo a mitologia romana, Rômulo e Remo foram irmãos gêmeos fundadores da cidade de Roma. Filhos do deus Marte com uma mortal, correndo grande perigo, os dois gêmeos são abandonados numa cesta no rio Tibre e encontrados por uma loba, que os salva e alimenta.
166 protegem os seus donos de injúrias latindo e mordendo. Mas quem, por favor, seria tão gentil a ponto de querer louvá-los por sua virtude e honestidade? Desejando humanizar os animais, ele próprio pareceria ter deixado a humanidade e tornado-se uma fera! De fato, certamente a misericórdia dos animais sobre os homens não difere de modo algum daquela dos homens sobre os animais. (6) “εas comoς”, tu perguntarás, “se a misericórdia não se refere à honestidade, mas sim ao prazer?”. Ela se refere ao prazer no sentido em que proporciona uma recompensa imediata, visto que todos, ao socorrerem, recebem prazer. Assim, para passar dos animais aos homens: todos aqueles que se mostraram bondosos com quem lhes era querido foram impelidos pela própria natureza, temendo a dor que se recebe pela perda dos entes queridos. Todos nós choramos ao término de uma tragédia e rimos e aplaudimos ao final de uma comédia. Quintiliano mostra porque também exercitamos nossa clemência com os estranhos, quando nos diz: “A nossa alma tem por natureza qualquer coisa de sublime, elevado e intolerante com a superioridade alheia”266. Por isso, voluntariamente nós animamos os humildes e submissos, pois, agindo assim, nós parecemos superiores. (7) Finalmente, notai o quanto se distanciou da justiça, da indulgência e da misericórdia a famosa Sílvia de Virgílio! Escutai como ela reagiu quando avistara o dócil cervo atravessado por uma flecha:
Primeiro, Sílvia, batendo os braços com as suas mãos, suplica aos seus irmãos por socorro e clama aos rudes campesinos267.
Mas, basta sobre a misericórdia.